Notas iniciais
"Sobrevivemos, porém perdemos.
Meu coração endureceu, ficou turvo; eu precisava me preservar."

Lusco-fusco.

Estava tonta, com o estômago embrulhado. Olhei para o teto, olhei pros lados. Logo me lembrei do meu bebê e do tombo que levei tentando fugir da loucura de Dália. Toquei minha barriga, sentindo-me vazia, como se tivesse perdido uma parte vital, um pedaço importante. Me lembrei de Dante lutando por nós. Lembrei da traição.

Eu sentia um peso no peito que me afogava, me matava lentamente; que doía quando eu respirava. A garganta ardia, os olhos marejavam; sintomas iminentes de um choro convulsivo. Mas não, eu não podia fraquejar; não agora... Estapeei meu rosto, na esperança de “acordar pra vida” e começar a me virar sozinha. Levantei da cama e caminhei lentamente até a janela, empurrando a cortina sem vontade. A lua estava medonha; redonda e com um tom avermelhado. O céu tinha poucas nuvens, e o vento estava frio, de arrepiar a espinha ao menor toque. Fui tateando, toda desatenta, à procura de um xale ou coberta que valesse. Consegui alcançar um xale de poltrona e cobri meus ombros magros e curvados; já sentindo-se castigados pelo excesso de problemas acumulados. Senti um par de mãos pousando sobre meus ombros, e tomei um breve susto; mas era Muriel. Eu esbocei um sorriso fraco.

- Como se sente? – sua voz sempre calma agora ecoava como um coral gregoriano.

- Vazia... E provavelmente destroçada.

- Sentimos muito... – ela expressava sofrimento com o olhar, que mesmo brilhante, transbordava tristeza. – Não tivemos ciência do que estava havendo até tudo se desfraldar para nós. Chegamos muito tarde, e estamos em plena dor pela sua perda.

-... Agradeço sua consternação, Muriel... Mas isso não vai trazer meu bebê de volta. – meus olhos já estavam afogados em lágrimas de ódio. Minha garganta já ardia com o pranto. – Tudo isso culminou por minha causa; é o preço que pago pelo meu egoísmo.

- Não diga uma coisa dessas em vão, Maria... Você não foi egoísta em momento algum. A princípio não foi de sua autoria todos esses obstáculos, e nós estamos aqui para lhe proteger.

- Me proteger...? – eu me virei para encarar Muriel; eu estava incrédula. – Sou indefesa desde o dia em que nasci! Minha única alegria tá sendo minha maior provação, e tudo tá desabando na minha frente! E vocês acham que vir agora vai me trazer algum conforto?!?

- Ser consumida pela dor e pelo desespero só lhe trará o dobro do que já sente... – ela foi paciente o suficiente pra tentar me acalmar. – Entendemos sua frustração, mas culpar-se ou revoltar-se só lhe fará mais mal.

- Pois pior do que já está não há de ficar... –ironizei, exibindo um olhar cansado e sarcástico. – E por falar em desgraça, onde está Dante?

Num piscar de olhos, fui transportada para o quarto de hóspedes, onde Dante dormia. Mesmo assustada com o fenômeno, observei o quarto destruído: cacos de vidro pelo chão, manchas de sangue- algumas ainda frescas e brilhantes, com aquele cheiro acre enjoativo. Na cama estava Dante, desacordado e todo enfaixado, com uma expressão de sofrimento e exaustão. Ele estava sendo vigiado por um anjo; a coisa mais linda que tinha visto na vida. Ele tinha uma beleza inexplicável; pele perfeita e sem uma única marca, nem mesmo a dos poros. Os olhos amendoados brilhantes eram emoldurados por cílios grandes e curvados, e colorizados por um fascinante tom de azul. O cabelo parecia seda, de tão brilhante e com fios finos e delicados. Uma aura meio fosca emanava de seu corpo, e o par de asas com penas brancas davam o toque final. Ele expressava preocupação, como se não quisesse que Dante estivesse naquele estado. Repentinamente minha raiva foi passando depois de ter vislumbrado tal ser... Era um clima surreal, mas aconchegante.

- Ele está debilitado; o que não é muito comum... – a voz ecoada e suave do anjo era encantador. – Devido à sua natureza; apenas um ser sobrenatural para feri-lo quase mortalmente.

- Quer dizer que ele não é humano...? –minha pergunta ficou tão retórica que soou como uma constatação. – Novidade seria se fosse, né?

- Evidentemente isso não te assusta...

- E por que deveria? Sempre enxerguei coisas estranhas; o problema é que nunca dei crédito ao que via. Achava desnecessário ver seres que pareciam alucinações da minha cabeça. Mas pensando agora, eles são mais reais que a vida que tive até hoje.

- Uma observação tão humana de sua parte, linda jovem... – o anjo sorriu timidamente. – Mas também é curiosamente triste.

- Triste é saber em que tipo de família em fui parar. –repliquei secamente.

Dante se mexeu um pouco; todos deixaram seus pensamentos de lado para vê-lo. Ele expressava estar sentindo dores, e estava se remexendo, incomodado. Me aproximei da cama e sentei-me na beirada, olhando pro seu semblante sofrido. Senti uma tristeza enorme, que fazia minha garganta arder numa explosão de choro. Toda aquela felicidade ao lado dele foi tolhida, num só arrancão. Sentia-me responsável em todos os ângulos possíveis, de todas as formas imagináveis. Queria sumir; queria morrer. Não existia remédio pra uma angústia daquele tamanho. Mas eu tinha decidido que não poderia mais fraquejar; seria o caso de começar naquela hora. Dei um grande suspiro e resolvi ordenar as coisas ao meu modo.

-... Gostaria de saber onde é que estou envolvida. A começar por vocês.

- Pergunte o que desejar; responderemos. – replicou Muriel, com sorriso delicado e carinhoso.

- O que anjos fazem no mundo terreno? E por que rodeiam a mim e ao Dante?

- Os anjos existem, uma vez que existem demônios.

- Demônios...?

- Sim, demônios. – Muriel olhou diretamente nos meus olhos. – Eles andam entre os humanos na intenção de arrebanhar o maior número de seguidores e presas possível. E quando sabemos que existem seres especiais que nasceram em meio ao caos, é de nossa obrigação proteger.

- Espere um pouco... – eu tremia. – Está me dizendo que eu e Dante...?

- Sim, vocês são especiais. E por serem especiais é que vivemos preocupados e em onisciente vigilância.

Eu não sabia o que começar a pensar a respeito. Sempre me achei diferente, mas de uma maneira negativa... Eu tremia completamente intrigada, mexida pela curiosidade e pelo temor de não saber lidar com o desconhecido; davam-me coceiras randômicas pela cabeça. Não resisti, e após um breve silêncio, eu os questionei:

- E vocês podem me dizer o quão especial nós somos?

E após olharem uns para os outros, fui tomada pelo horror de saber a verdade:

- Você é uma Querubim... E Dante é um Nephillim.

Notas finais
Mil perdões, leitores! ;_;
Fui tragada pelo trabalho; tava usando da hora do almoço e restos de madrugada pra escrever... Lamentável. -_-'
Mas ainda assim, continuarei a história custe o que custar!
Abraços! Muito obrigada pela paciência, carinho e feedbacks! :'D ♥