DmC 5: Stairway To My Heaven

19 5º Dia: Garganta Cheia de Cacos de Vidro.


Notas iniciais
"Minha vida não depende mais só de mim."

O dia tava nublado, mas estava um clima agradável. Porém nada daquilo estava me animando; a mensagem que minha mãe me mandou estava me preocupando. O que será que aconteceu com meu pai?

Eu olhava pra mensagem no celular e tentava imaginar as possibilidades, mas nenhuma delas se encaixava. Minha ansiedade era tanta que estava começando a dar dor de cabeça e náuseas, e fui interceptada pela enfermeira:

– O que minha paciente está reclamando logo cedo?

– Oh, muito bom dia, enfermeira!

– Apenas me chame de Muriel! – ela esbanjava um sorriso calmante. – Você já está aqui acamada tempo suficiente pra me chamar pelo nome!

– Pois é... – resmunguei, com expressão resignada. – E falando nisso, quando me verei livre desse “mimo” todo? Acho que me sinto boa o suficiente pra receber alta!

– Hahaha! – ela abriu um sorriso tão gostoso que havia me contagiado! – Ora essa; virou médica de si mesma? Sei que está ansiosa e já irritada com o ambiente daqui, mas tenha um pouco de paciência. Se os médicos ainda não deram um parecer a respeito, é por que você ainda exige cuidados.

Nada me restou a não ser bufar, tomada por um repleto desânimo. Não via mais razão em continuar presa naquele hospital; eu queria voltar pra casa, voltar pro Dante, voltar a ter sossego...!

Não; espera.

Eu não tinha casa pra voltar.

No que eu estava pensando? Minha família inteira reprovava minhas novas atitudes; provavelmente iriam detestar saber do Dante... Minha irmã era uma invejosa traidora, minha mãe... Coitada, nem vale a pena mencioná-la; e meu pai era um louco varrido que sentou a mão na minha cara pra quase me matar... Que perspectiva eu posso ter em voltar pra um lugar que já não é mais familiar? Eu nem sei se o Dante aceitaria se caso eu pedisse pra morar com ele... E pior: será que eu aguentaria morar com ele?

Me afoguei em dilemas de novo. É bem minha cara fazer essas coisas. Sou um fracasso mesmo; a vida real havia me posto na lona mais uma vez.

Senti uma pontada esquisita no estômago. Provavelmente era fome; e das grandes. Pedi pra Muriel uma refeição (mesmo sabendo que era fora de hora e eles não costumavam permitir comida fora do horário), e ela aceitou meu pedido sem hesitar. Achei estranho... Será que meu pai pagava o convênio tão bem a esse ponto? Não achei que fosse, mas enfim, Por que não aproveitar?

Ela havia trazido um lanche matinal reforçado. Eu me fascinei com a bandeja forrada de comida e fui devorando tudo com gosto. Muriel me olhava com um sorriso largo, porém triste. Eu nem havia me dado conta; estava numa voracidade absurda em cima daquele lanche. Mas resolvi matar minha curiosidade e questioná-la:

– Aconteceu alguma coisa, Muriel? Você fica triste quando olha pra mim...

–... Você não notou nada de diferente?

– Como assim? Eu deveria?

– Acho que deveria. – ela cutucou um dos meus seios. Eles estavam enormes e sensíveis. Doloridos, com certeza.

– Ei! Isso incomoda!

– Ainda não compreendeu? – ela expressava ainda mais tristeza.

– Não sei aonde quer chegar, Muriel...

– De todos esses acontecimentos, você entrou no seu período de menstruação?

Parei pra pensar por um minuto. Realmente, não havia menstruado. E olha que era para ter descido no dia que vi Dante pela última vez antes da brig...

...Essa não.

Fiquei catatônica. Boquiaberta e de olhos arregalados, senti falta de ar na hora, e minhas mãos deslizaram pra minha barriga por puro instinto.

Eu estava GRÁVIDA.

Comecei a tremer, e me forçar a acreditar que era mentira. Era mentira, só podia ser!!! Eu tava sonhando, ou delirando sob efeito de remédios... Tudo menos aquilo!!! Eu queria gritar e berrar loucamente; mas nada saía da minha boca... Era como se minha garganta estivesse cheia de cacos de vidro, me rasgando de dentro pra fora se eu sequer tentasse falar. Era doloroso demais. Era insuportável. Eu não tinha estrutura psicológica pra uma responsabilidade daquela!!!

Eu olhava para Muriel e sentia minha visão nublar e perder nitidez. Minhas lágrimas brotavam incessantemente; meu rosto ficava cada vez mais gelado a cada segundo. Eu não conseguia parar de chorar. Era um choro convulsivo, um pranto surdo que deixava todo meu desespero exposto. Naquela hora eu era nada mais que uma parede de cristal, e que tinha acabado de levar uma bela pedrada. Eu queria morrer.

–... C-como assim, Muriel...?!? Não era pra eu estar assim...!!!

– Constatamos no seu exame de sangue a presença de gravidez, Maria... – ela segurou minha mão, mas eu estava tão tensa e rígida que não senti seu toque. – Não sei se devo lhe dar os parabéns... Mas enfim... Bem vinda ao mundo, jovem mamãe...

As palavras de Muriel me deram ainda mais desespero. Eu já estava num estado de pânico e fobia absoluta. Eu queria sumir, me jogar da janela do quarto, fazer tudo acabar. Agora Deus realmente fechou minha desgraça com uma chave de ouro. E simplesmente a jogou fora com um sorriso debochado na cara.

O que eu ia dizer pra minha mãe?!? Pior; o que o Dante ia pensar?!? Como eu ia sustentar aquela criança?!? Como?!? Por quê?!?

Não consegui mais raciocinar naquele dia. Só me lembrava de ter sido sedada depois que mais duas enfermeiras surgiram às pressas no meu quarto, e tentaram me manter quieta na cama.


–--8---8---8---


Quando finalmente abri os olhos, estava chovendo, de cair trovões e relâmpagos. A fome me abateu mais uma vez; eu não estava sonhando. Eu realmente estava grávida. Um pesadelo a mais na vida de uma garota que só queria ser normal.

Na verdade, o que realmente significava ser normal? Ser igual a todo mundo, viver do jeito que mais gostava, conviver com todo tipo de pessoa? Ser aceita e amada por todos? Eu já não sabia de mais nada. Que se danasse; minha vida já foi pro saco de estopa mesmo...

Eu olhava pro teto do meu quarto com o semblante vazio. Eu não tinha noção de como consertar ou sequer ajeitar aquela situação toda. No final das contas, a culpa era toda minha. Meu egoísmo e curiosidade me levaram pra onde estava agora, e sem reservas posso dizer que fui idiota. Tanto não quis me arrepender e lá estava eu, me arrependendo. Era o ápice da derrota.

A porta deslizante havia se aberto, logo imaginei que era Muriel me trazendo algo pra comer ou vindo me buscar pra algum exame a ser feito. Olhei pro lado sem vontade, e fui surpreendida: Era Dante.

Arregalei os olhos e engoli em seco. Ele estava ali, no meu quarto, em pessoa. Me surgiu uma angústia profunda, um desespero tão grande que pensei que fosse morrer. Meu coração tava apertado, ao mesmo tempo em que estava loucamente acelerado. Eu tremia, sentia o estômago ter embrulhos de medo. Eu não sabia como omitir a “novidade”. Talvez eu nem quisesse que ela continuasse a existir...

–... E aí, Mada... – ele tava acanhado, falando mais baixo.

– Oi, Dante... Como vai?

– Meio confuso, mas de boa. – ele foi se aproximando com cuidado, evitando olhar nos meus olhos. – Conheci sua mãe nesses dias atrás.

– Minha... Mãe? – gelei por dentro.

– Pois é. – ele sentou na poltrona do quarto, e brincava com os próprios dedos. – Ela é gente fina pacas, me tratou super bem...

– Nossa, que bom... – tentei fingir naturalidade, mas estava complicado. – E... Você sabe de mais alguma coisa?

–... É que rolou uns negócios tensos de uns tempos pra cá. – ele não olhava nos meus olhos de jeito nenhum! – E acho que é melhor você ouvir de mim do que da boca dos outros.

Fiquei apreensiva. Ele estava muito sério, extremamente compenetrado e procurando as melhores palavras. Eu não sabia se deveria falar da gravidez ou simplesmente ter um treco de tanta ansiedade.

– E o que houve?

–... Eu dei porrada no seu pai.

– Porrada... No meu pai? – eu tremia. – Então, era você o agressor?

– Então você ficou sabendo? – ele deu um sorriso triste. – Notícia ruim chega rápido...

– Não tinha razão em você ter feito isso, Dante! – eu me sentia mal, queria chorar. – meu pai foi um ogro, eu sei disso melhor do que ninguém, mas o que você fez foi completamente desnecessário!

– Desnecessário? Você acha que o ódio e o sofrimento que eu senti de não ter podido te defender na hora da surra realmente é descartável? Tá me zoando, menina?

– Eu não disse isso levianamente, entenda Dante... – eu percebi que ele tinha se ofendido, senti medo de sua reação. – Eu só achei que isso poderia agravar sua vida, te trazer problemas desnecessários... Não quero isso pras nossas vidas!

– E desde quando eu te considero um problema, Mada? – ele me olhou de um jeito triste, com um ar de abandono. – Você é a garota da minha vida, não quero mais ninguém, manja? Levou um bocado pra que eu assumisse pra mim mesmo esse sentimento, e agora você tá se desfazendo dele na maior lata...

– Não me entenda errado, pelo amor de Deus! Eu me preocupo com você por que eu te amo!

Eu não fazia idéia do que havia dito até olhar para Dante.

Ele estava paralisado, me olhando com os olhos arregalados. Levemente boquiaberto, ele expressava surpresa com um misto de alegria. Ele praticamente revelou-me uma faceta que acreditei que ninguém jamais tivesse visto: um Dante emotivo, inocente, com um ar indefeso e sempre procurando uma proteção. Senti meu coração derreter, e minhas lágrimas não se seguraram mais. Foi como se eu estivesse mais leve que uma pena. Ele me amava e eu o amava.

Era sério. Agora não existiam dúvidas, imprecisões, temores ou desconfianças. A gente se amava e ponto final. Não havia como ignorar esse fato; ele não iria mais atrás de outras garotas, não iria se meter em encrencas ou iria atrás de briga. Ele era meu e eu era dele... Mas ainda havia o primeiro teste de fogo: a notícia da gravidez. Realmente, eu não imaginava que tamanha alegria fosse sabotada logo nos primeiros momentos... Ai, como isso me incomodava...

– Dante... Tem algo que você precisa saber... – minha voz estava trêmula, assim como meu corpo todo.

– Diz aí, bonitinha. – ele parecia confiante, com um sorriso acanhado de felicidade.

– Não sei como a gente vai resolver isso... E estou com medo...

– É só falar que a gente vê o que vai fazer; não esquenta não!

–... É que estou grávida.

Dante novamente ficou paralisado, e também ficou mudo. Seus olhos azul-acinzentados pareciam congelados, foscos e perdidos no vazio. Ele demorou a esboçar qualquer reação, estava me dando uma ansiedade muito grande, quase uma irritação desnecessária. Ele começou a olhar pra lugares vagos; como se estivesse perdido, desorientado e sem um raciocínio plausível. Eu comecei a sentir medo; e se ele mudasse de idéia e me rejeitasse?!? Ou pior, se viesse com idéias macabras pra resolver as coisas?!?

–... Você tá grávida?

– Sim...

– E... Eu vou ser o pai?

– Pergunta besta... – eu deixei escapar um sorriso nervoso.

– Mals aí... – ele coçou a cabeça, procurando palavras novamente. – Eu ainda to tentando assimilar... Tá meio foda, sabe como é...

– Desculpa... Nem me lembrei de proteção quando a gente tava junto...

– Caralho! – ele deu um tapão tão estalado na própria testa que me assustou. – Dona Teodora tinha comentado se a gente tinha usado camisinha!!! Puta que pariu, nem me toquei!!!

– Como?!? – arregalei os olhos; senti meu rosto explodir de vergonha. – Você contou sobre o que a gente fez... Pra MINHA MÃE?!?

– Ora essa, a conversa que a gente teve rolou tão de boa que caímos nesse assunto!

– Santo Deus, Dante! Não vou ter sequer coragem de olhar minha mãe nos olhos!!!

– Ah vá! – ele deu uma risada cínica. – Como se você tivesse nascido do ovo numa chocadeira!

– Não é esta a questão! – eu gesticulava de forma exagerada. – O nível de privacidade que mantenho na minha família é muito maior do que você imagina!

– Não foi o que eu ouvi da sua mãe! – ele replicou, com um olhar vitorioso. – Ela sabe cada passo que você dá, e sabe até que dia você tá “naqueles dias”!

– Não acredito... – fiquei boquiaberta. – Então ela já deve suspeitar... Eu to perdida...

– Não tá não! – ele levantou e sentou na beirada da cama. – Por que você tá comigo!

Eu olhei nos olhos de Dante e vi meu reflexo neles. Seus olhos estavam absurdamente brilhantes, vívidos, com uma expressão determinada. Era como se ele quisesse me passar confiança e segurança, ele até parecia mais animado e agressivo nas suas atitudes. Não sabia se me animava com aquela disposição ou se ficava preocupada...

– Como pode ter tanta certeza...?

– Por que sou o pai desse neném que tá na sua barriga! – ele apontou pra minha barriga com tanto vigor que acabou dando um cutucão. – E sendo um pai, não posso deixar a mãe na mão, senão estarei deixando ambos na mão. Não sou disso, e não quero isso! Então bora lá encarar o que vier!

Não consegui acreditar prontamente nas palavras tão cheias de força de Dante. Eu estava tão apavorada que duvidei de tudo; o que me fez sentir uma monstra por dentro. Ele tava disposto a fazer de tudo por mim e eu jogando água fria... Patético.

Tomada pela emoção, acabei enchendo os olhos de lágrimas mais uma vez, e me joguei no pescoço de Dante num abraço apertado. A princípio ele não estava entendendo, mas depois aquietou e correspondeu ao meu abraço. Eu não conseguia mais pensar numa vida sem Dante por perto. Não havia mais como.

Acho que só a morte poderia nos separar. E mais nada.

Notas finais
Okay, Maria Magdalena voltou! (^∇^)
Esse capítulo tem uma oscilação tão violenta de clima e emoções que me deu até dor de cabeça pra escrever... *facedesk* -.-'
Tá sendo uma espécie de interlúdio, então aguardem que vem mais bomba!!!
Muito obrigada pelos feedbacks, e leio todos, sem exceção! O osso é q acabo lendo no serviço e não consigo responder...щ(ಥДಥщ)
Mas ainda assim, agradeço de coração mesmo! ♥
Abraços! Até o próximo capítulo! ♥