DmC 5: Stairway To My Heaven
6 3º Dia: Surra.
Notas iniciais
Você conseguiu...(...) Sei que você me entendeu, e sei também que não vai se importar, se meu mundo caiu, eu tenho apenas que me levantar..."
(Maysa; "Meu Mundo Caiu")
Dante fez questão de me acompanhar até em casa – desta vez não tive como recusar, sabem como é. Assim que chegamos na esquina da minha rua, dei-lhe um beijo de despedida e saí correndo, ansiosa pro dia passar rápido e que eu pudesse vê-lo novamente. Obviamente ele ficou me olhando pra saber onde eu morava; afinal não perderia a chance de sacanear aparecendo pelas redondezas... Era bem típico dele.
Mas senti a espinha gelar, o corpo ficar leve, o coração parou de bater:
Minha irmã viu tudo.
O olhar dela, a princípio era de espanto, mas logo se substituiu por um sorriso maligno, cruel, como se tivesse achado o poder absoluto. O que não era mentira... Agora ela sabia de meu segredo, e não iria medir esforços pra me chantagear. Já havia me ocorrido tal possibilidade e então respirei fundo e mantive minha naturalidade, apenas andei em direção dela e apenas perguntei o que ela queria em troca do silêncio. Sem me olhar, e com um sorriso insano na cara, ela apenas respondeu que eu só conseguirei pagar quando ela tivesse o que mais desejava. Senti o medo gritar no meu interior; indaguei-a a respeito... Mas ela apenas deu um risinho ensandecido.
Me vi acuada. Ela tinha tudo pra acabar comigo, e iria me torturar direto, era certeza. Não estava tão preocupada, mas queria me sentir precavida. Não iria ser derrotada; não após tudo isso que fiz, fui longe demais pra me ver submetida a caprichos infantis de uma garota que já devia ter casado há muito tempo.
Cheguei em casa com os joelhos em frangalhos, tremiam demais mesmo enquanto eu andava. Minha mãe e meu pai me saudaram, com um sorriso de orgulho no rosto, apenas respondi vagamente a respeito do tal resgate que fiz e subi as escadas rapidamente, e tomei uma ducha relaxante (eu não tinha tomado banho no trailer do Dante, vim o mais rápido que podia.). Durante o banho, fui pensando que providência eu tomaria quanto à minha irmã, fui supondo todas as possibilidades com as loucuras que ela iria sugerir pra tirar vantagem. Desci as escadas com a expressão mais limpa possível, aparentando tranquilidade. Mas o que encontrei na sala de estar foi um cenário obscuro.
Meu pai me olhava de um jeito insano, com uma expressão ilegível – mas que não era positiva em momento algum. Minha mãe me olhava de um modo desprezível, não conseguiria mensurar sem sentir um misto de pânico com ansiedade. Olhei pra minha irmã, e ela sorriu de forma vitoriosa e debochada. Provavelmente me denunciei, expressando algum desespero no olhar. Me vi condenada...
Ela tinha contado.
Meu coração acelerou tanto que começou a doer o peito. Minhas mãos suavam incessantemente; e eu esganava a toalha a ponto de sentir minhas unhas ultrapassando-a. Me deu ânsias de vômito, a cabeça ficou turva. Eu nem sabia mais se conseguia raciocinar ou se eu estava apenas alucinando. Tentei falar, fingir não saber do que se tratava aquela hostilidade, mas foi difícil. Meu pai começou a falar, senti o chão sumir:
-... Você nos deve explicações. E das mais verossímeis.
- Não sei o que Dália disse, mas duvido que seja verdade... – tentei sustentar bravamente algum argumento que valesse a pena.
- Dália não mentiria por meramente diversão às suas custas, Magdalena. – minha mãe foi categórica nas palavras. Mas as escolhia com cuidado, como sempre. – Seria muita leviandade, e não toleramos tal comportamento infeliz. Principalmente com relação ao que ela acabou de nos contar.
Meu sangue pareceu ter parado de correr nas veias, de tão gelado que ficou. Meus olhos arregalaram, não tinha mais como eu esconder a verdade, não tinha mais estruturas para confrontar meus pais sem fingir. Minhas pernas haviam fraquejado, minha voz embargou tomada por uma iminente crise de choro entalado na garganta. Tentei me justificar, mas meu pai se pôs diante do meu argumento. Petrifiquei.
- Se você pretende dizer qualquer coisa que confronte com o que Dália nos contou, você pode parando por aqui, Maria Magdalena. Sua irmã é a mais velha, creio que a palavra dela valha mais que a sua.
- Me perdoe meu pai, mas o senhor está enganado... –minha voz estava tremida, mas eu queria manter a firmeza nas minhas opiniões. – Ela é imatura, acéfala, invejosa, alienada, nem mesmo casou... Que tipo de crédito posso dar a alguém cuja vida não vale o prato que come nem a roupa que veste?
E de repente, o estalo.
Frio, ardido, cruel. Só deu tempo de dar um grito de susto pelo tombo que me fez bater a cara na cantoneira da mesinha de canto. Senti o maxilar doer, os ossos latejavam. Minha mãe havia fechado os olhos, ela era covarde demais pra testemunhar violência qualquer que fosse. Minha irmã olhava a tudo com os olhos arregalados, impressionada. E meu pai me olhava de um jeito intenso e raivoso, ainda com a mão ao ar.
Ele havia me dado um tapa. Na cara.
Senti gosto de sangue brotar na minha língua, e uma dor alfinetante no lábio. Toquei levemente com um dedo e senti o corte que se formou; os dentes rasgaram a pele durante o tapa. Olhei para meu pai, e não escondi que estava assustada. Fiquei sem forças pra me levantar, as lágrimas caíam sem a menor interrupção. De sangue frio e temor, passei sentir a raiva efervescer meu corpo e nublar meu pensamento. Eu não vou esconder; senti vontade de voar pra cima de meu pai naquela hora.
- Eu fiz... Todas as suas vontades... Eu fui a filha exemplar que o senhor tanto espalha pros seus amigos igualmente ignóbeis sentirem inveja, já que sua filha mais velha é um xaxim de tão inútil... Sacrifiquei debilmente minha infância e adolescência pra obedecer aos seus desmandos e sandices... E só por que decidi sentir o que é ESTAR VIVA uma única vez, você prefere me espancar, e dar razão à inveja e fofoca da sua filha mais imbecil? Nunca imaginei dizer isso, mas o senhor é o pior homem que poderia haver como meu pai!!! – comecei a berrar sem ao menos perceber. –Tenho vergonha de ser filha de um homem tão complexado, antigo, cretino e mal agradecido como o senhor!!! NÃO SOU TROFÉU PARA O SENHOR EXIBIR PROS SEUS AMIGOS BARRIGUDOS, FALIDOS E DETURPADOS!!! Se sua honra depende da minha prosperidade forjada, que o senhor vá pro Inferno!!! Engula sua vaidade pelo buraco que mais lhe merece!!!
Desabafei loucamente, e minha mãe nunca ficou tão horrorizada e impressionada com as minhas palavras. Minha irmã tremia, queria brigar mas não tinha argumentos; lhe restando apenas a boca aberta sem ter voz. Meu pai ficou louco, e rangia os dentes que dava para ouvir com clareza. Ele tirou o cinto como um ser insano, e foi avançando passo a passo na minha direção.
- Sua criatura maldita, ingrata... Trabalhei sem descanso pra prover a vidinha de princesa que você tem agora...! – A cada palavra, ele soltava sua força numa cintada. Eu só protegia meu rosto, pois ele não estava evitando nada. – Eu só queria uma vida decente, algo do qual eu pudesse me orgulhar e dizer sim aos meus amigos que tenho uma família próspera e feliz!!! Me tornei o que sou hoje para que as três mulheres que dependem de mim não passassem necessidades nem fome!!! Eu exijo e demando por que quero sentir que todo dinheiro que invisto em vocês valha a pena!!! E sua atitude insolente e imbecil só me fez crer que todo meu esforço tenha sido em vão!!!
Ele não parava de bater. Eu já sentia o corpo ficar entorpecido, meus braços, pernas e mãos se não estavam feridos estavam cheios de hematomas. Eu já nem conseguia mais chorar, eu já estava torpe, e os gritos de minha mãe implorando para ele parar e os berros de pânico de minha irmã eram as únicas coisas que eu era capaz de ouvir.
De repente, eu não sentia mais nada. Eu sentia um sono estranho pesar minhas pálpebras. Minha mente nublou, e desta vez não escutava mais nada. Eu havia desmaiado.
Notas finais
Desta vez escrevi pra valer, como havia dito eu zerei DmC e fiquei inspirada. Sei que a coisa tá desandando, mas calma que melhora!
Obrigada pelos feedbacks, de coração! ♥
Até o próximo capítulo! ♥
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