DmC 5: Stairway To My Heaven

7 3ª Noite: Realidade Pesa Toneladas.


Notas iniciais
"A morte deixa de ser tão medonha depois que o sofrimento começa a se tornar um veneno recorrente na alma... E eu não tenho mais forças pra continuar a sentir seu sabor amargo."

Lusco-Fusco.

Recobrei a consciência lentamente, mas não conseguia abrir os olhos direito; meus cílios grudaram uns nos outros com o resto de lágrimas e sangue que ficaram no meu rosto– eu ainda sentia o cheiro acre facilmente. Quando tentei erguer o braço pra esfregar meus olhos, a dor lancinante e a rigidez do inchaço muscular me fizeram desistir, e como se fosse um complô metabólico, todo o resto do meu corpo resolveu doer ao mesmo tempo. Que tortura... Até pra chorar de dor estava insuportável.

Senti que estava numa cama meio dura, levemente reclinada. Deduzi que estava num hospital, pois logo ouvi barulho de portas deslizantes e vozes das mais diferenciadas (não sabia discernir se eram vozes familiares ou desconhecidas.). Senti o esôfago atrofiar ao ponto de dar ânsia; eu estava faminta. Mas impossibilitada de me mover, era mais uma provação física pra minha lista.

Por que eu tinha de passar por tudo aquilo?

Eu nada mais fui do que uma adolescente sem oportunidades de ser feliz do jeito certo; raramente dei trabalho, fui a melhor do meu colégio por várias vezes em várias séries... Nunca dei despesa excessiva, e sempre obedeci... Por que eu tinha de acabar daquela forma?

Pior do que isso; por que minha família deixou chegar a isso?

Quanto mais eu questionava, mais me dava vontade chorar até morrer. Me senti sozinha, abandonada pelo mundo desde que nasci. Nada parecia estar ao meu favor, tudo era uma mentira, nada era decente esse tempo todo. Não fiz nada do qual fosse digno de orgulho, e mesmo depois de ter cometido todas aquelas loucuras por um homem, ainda acabei destruída tanto por dentro como por fora.

Dante... Ele nem deve fazer idéia de que eu estou hospitalizada; talvez nem deva se importar ao ponto de se preocupar com que eu esteja fazendo ou o porque estou ausente. Eu tinha me esquecido de que estávamos apenas ficando, não era nada de grande importância pra vida dele...

Dormi afogada em dor por todo corpo e com dor no coração. Eu estava em frangalhos; minha autoestima estava só o pó voando ao vento. Tudo que me restou foi chorar; deixar toda minha desgraça se expor e transbordar sem o menor pudor. A vida já me derrotou demais pra que eu me preocupasse com uma postura decente...

Ouvi a porta deslizante se abrir, e sons de rodinhas tomaram minha atenção. Me esforcei pra ignorar a dor do meu corpo e tentei olhar para o lado; era a enfermeira. Ela foi muito carinhosa e atenciosa, disso não podia reclamar. Mesmo eu estando toda mal acabada, ela tentou puxar assunto:

- Olá, mocinha! Vejo que teremos muita coisa pra relapidar em você!

-... Como se isso fosse possível... – sibilei fracamente, ainda imersa em dor.

- Bom, sei que as feridas que podemos ver ainda podemos cuidar... – respondeu a enfermeira, demonstrando carinho e cuidado ao retirar a punção da minha veia do braço. – Portanto não desabe tá?

Não pude deixar de amolecer depois de ouvir a resposta dela, e sem ao menos notar, passamos a conversar sobre brevidades da vida. Eu tomei um analgésico e acabei sonolenta, e me desarmando ainda mais, a carinhosa enfermeira me deu um leve beijo na testa e me desejou boa noite. Cerrei os olhos inchados de tanto chorar já derramando mais lágrimas, desta vez de esperança e de sensação de conforto no coração.

Tive um sono leve e sem sonhos. Talvez por que meus sonhos já tinham sido todos devastados com a surra que levei. Lembrar-me do peso da mão grosseira de meu pai sobre mim era excruciante, doía demais. Era uma realidade cruel, pesava toneladas sobre minhas costas; algo tão insuportável que nem sei como eu ainda tinha lucidez pra ruminar tudo aquilo. Repentinamente ouvi a porta deslizante se abrir, mas fechou-se nos mesmos instantes. Provavelmente era o médico vindo saber do meu estado...

Nem me esforcei em abrir os olhos, preferi me deixar levar pelo efeito entorpecente do analgésico. Senti que a presença se sentou no sofá de acompanhante do quarto, e senti um arrepio na espinha já dolorida quando a presença resolveu começar a falar: aquela voz grossa, com um ar insolente... Era Dante!

-... E aí. – ele se ajeitou de forma barulhenta na poltrona. – Você parece mal pacas...

-... ... ... – Eu não conseguia me mover muito, estava bastante dopada.

- Sinceridade, to me sentindo babaca em estar falando meio que sozinho aqui... – deduzi pelos sons que ele coçou a nuca; mania que ele tinha sempre que tava tentando se esclarecer. – Mas acho que você consegue me ouvir legal, então bora lá. Só direi uma vez e espero não ter de assumir depois!

E surpreendida, ouvi cada palavra que Dante quis me dizer naquela noite.

“Sabe, bonitinha... Eu nunca fui um cara chegado a envolvimento, por que sempre achei que nunca vale a pena se prender a alguém se você sabe que um dia tudo acaba. Nem vou te explicar o por quê disso, por que nem eu mesmo sei, mal lembro da minha infância direito... Mas foda-se, Não to aqui pra ficar miando sobre meu passado e minhas idéias. O assunto aqui é você, e acabou.

Quando a gente se esbarrou lá na boate, pra mim você era mais uma garota que eu iria comer de boa e esquecer assim que acordasse no outro dia. Mas isso não aconteceu; a gente trepou e eu acabei meio viciado em você, entende? Sempre que batia uma vontade de transar, era você que aparecia na minha cabeça. E sabendo que você tinha uma vida diferente da minha, me dava uma angústia do caralho; eu trepava com várias vadias imaginando que elas eram você... Mas não era a mesma coisa! Elas não gemiam como você, não agiam como você, não correspondiam como você... Tava foda aturar de boa sua ausência. E quando você apareceu toda louca da vida por causa da mensagem que te mandei, não posso deixar de admitir que fiquei contente. E ver você aqui agora, toda fodida, machucada e sofrendo só por que saiu comigo me deixa irritado, manja? Não consigo aturar uma coisa dessas. Por isso, fique boa logo... Garota minha não desaba fácil, falou?”

Senti vontade de chorar quando senti a mão dele acariciando meu rosto. Meu coração acelerou e se aqueceu quando senti que ele havia me dado um beijo carinhoso; não pude mais me segurar e lágrimas rolaram dos meus olhos cerrados. Provavelmente ele deve ter percebido, e pude escutar um risinho resignado vindo dele. Após isso, tudo que pude ouvir era a porta deslizante se abrir e se fechar.

Mesmo toda machucada e sofrendo, me senti renovada. No final, eu não estava sozinha, e Dante não me abandonou mesmo depois de tudo o que aconteceu. De uma forma inexplicável, surgiu uma força maior dentro de mim que me deu ânimo pra encarar o que quer que fosse, mesmo que fosse execrável e insuportável. Aquela Maria Magdalena “arrependida” havia morrido naquela surra, naquela cama de hospital.

Agora nascia uma Nova Maria Magdalena. Aquela que iria mostrar a todos que sempre foi alguma coisa, que teve o direito de amar e ser amada, que teve sorte por ter conhecido um cara legal de um jeito torto.

Eu iria mostrar estava VIVA.

Notas finais
Ok, o Dante não tá aparecendo como deveria, sinto muito... 'OTZ
Mas acho que se eu não dou um certo crédito à existencia de MM, não sei se a fic iria ter uma sequencia de eventos coerente e plausível...
Mas prometo trazê-lo à tona nos próximos capítulos! Aguardem!
Enquanto posto este capítulo, estou escrevendo parte do próximo, lolz xD
Agradeço de coração os feedbacks, e espero fazer sempre o melhor! ♥