A conversa mental durou o dia inteiro, mas os detalhes principais eu vou deixar anotado aqui pra poder consultar se eu precisar.

Resumindo: a “batalha” ou como eu preferi chamar “a grande competição”, porque de batalha entre demônios mesmo havia pouco, é uma disputa entre os demônios em uma dimensão atemporal e paralela que permite que qualquer criatura de qualquer época participe. Ou seja, criaturas mitológicas, que aparentemente existiram de fato em outra dimensão, criaturas pré-históricas e qualquer outra criatura desse universo podem ser chamadas como vassalos do mestre.

Além disso, uma dungeon não é um desafio se não houver um desafiante. Os desafiantes escolhidos são sempre os humanos, por serem em grande número, fracos e ligeiramente inteligentes.

Quando eu perguntei se existia vida em outros planetas Asura respondeu que sim e que muitas das criaturas que nós vemos como fantasias são na verdade criaturas de outros planetas que eles trazem para essa competição. Como a dungeon é atemporal e aparece em momentos diferentes da história da humanidade, esses mitos se espalharam como, bem... Mitos.

Isso me deixou meio atordoado, mas acho que só o fato de eu estar no corpo de um demônio já era algo extraordinário.

“Nós medimos a capacidade da dungeon da seguinte forma: a média da capacidade total dos humanos que invadiram a dungeon em um determinado período de tempo vezes a quantidade de humanos mortos. Se a dungeon é conquistada os pontos perdidos são 10% dos pontos totais do demônio”

Ela me explicou de uma forma clara e fácil de entender. Basicamente, quem matasse mais humanos conseguia mais “pontos” que ela chamou para facilitar pra mim. Na realidade o que alimenta os demônios e as dungeons são vidas humanas. Pessoas com maior potêncial dão mais força vital para os demônios e mais recursos para o demônio melhorar seu labirinto.

“Entendo, então tudo o que temos que fazer é matar os humanos que entrarem... Mas se matarmos todos então mais ninguém vai querer entrar, então precisamos oferecer um mínimo de recompensa para os humanos que invadirem a dungeon, tesouros e desafios que os façam ter um ‘potencial’ maior para conseguirmos mais força vital”

Ela abriu a boca para concordar, mas parou no meio do caminho e olhou para o fundo dos meus olhos.

“Você não sente nenhum tipo de remorso por matar pessoas da mesma espécie que você?”

“No momento eu já estou morto, essas pessoas são de uma época diferente da minha, o que significa que isso provavelmente já aconteceu no meu tempo ou está acontecendo em uma realidade paralela... E não, eu não sinto remorso. Quem entrar nesse labirinto vai entrar por vontade própria, então não tem porque sentir remorso. São como ratos de laboratório que entram em um labirinto por causa do cheiro de queijo”

A minha resposta deixou Asura ainda mais confusa, mas esse tipo de reação era de se esperar, eu trato as coisas de uma forma muito lógica, quase como se eu tivesse uma doença mental. Não, eu não tenho, não que eu saiba, mas eu não tenho empatia nesse momento. É uma questão de lógica, só isso.

Concluindo, eu, ou melhor, Asura, pode “investir” sua força vital para convocar os monstros, fazer a dungeon maior e etc. As possibilidades eram ainda maiores que em um jogo de D&D, simplesmente pois não existiam dados. Quem iria determinar o resultado era quem fosse melhor nesse “jogo”.

Já estava entrando no clima quando finalmente eu perguntei algo que eu estava curioso a algum tempo.

“Ok, essa dungeon está em um outro lugar, certo? Esse quarto não parece parte de uma dungeon...”

“Exatamente, no momento estamos no mundo dos demônios. Não precisamos ir para o mundo onde a dungeon está para realizar as tarefas, tudo o que você precisa fazer é ir até o terminal de informações e controlar tudo desse lado mesmo, apesar de podermos ir lá”

‘Termial de informações...’

Procurei por algum tempo na bagunça que eram as memórias de Asura e deixo aqui anotado que eu preciso arrumar essa bagunça. O terminal ficava no escritório do pequeno castelo de Asura. Cada castelo fica em uma ilha separada por um abismo escuro, para evitar conflitos diretos.

Quando cheguei no terminal eu tomei um susto, era uma tecnologia mais avançada que a minha e apesar disso o lugar inteiro parecia ser antigo...

“Então, como uma tecnologia tão incrível foi parar em um mundo de magia?”

“Magia? Você realmente acha que nós fazemos magia?” Uma risada de deboche ecoou na minha cabeça “Magia é o que os humanos de antigamente achavam que tudo isso era. Nós somos a sociedade mais avançada do universo, por isso evitamos guerras desnecessárias. Não somos bárbaros, fazemos essa guerra para evitar sofrimento. Você realmente achou que a minha velocidade e força são fantasia?”

Ela fazia sentido, até certo ponto. Para um ateísta como eu era ainda melhor, fazia mais sentido em acreditar em uma raça avançada tecnologicamente do que criaturas com poderes divinos...

“Ok, mas porque o lugar todo tem um aspecto tão antigo?”

“Ah, é que eu amo esse estilo. É escuro e assustador, não parece que a qualquer momento você vai se deparar com um monstro?”

E foi assim que eu descobri que Asura tinha um gosto estranho para um demônio futurista. Ela gostava de histórias de terror.

Pulando detalhes desnecessários porque esse dia foi realmente longo e cheio de acontecimentos.

Controlar o labirinto é mais fácil que jogar um jogo em um celular, a resposta é imediata e as possibilidades disponíveis são incríveis. O que realmente me assustou foi o que eu percebi em seguida.

“Ok, eu tentei chamar uma criatura das mais baratas, mas não estou conseguindo, o que está acontecendo?”

Depressão. Foi o que eu senti na minha cabeça.

“Eu não tenho pontos, acabei de me tornar uma mestra de verdade e o nosso primeiro desafio é conseguir pontos. É extremamente humilhante, mas é por isso que eu ia usar o seu corpo, eu queria um corpo do sexo masculino para impor uma figura dominante quando eu matar o meu primeiro humano...”

“Tecnicamente você já matou o seu primeiro humano: eu” Falei sem nenhum remorso.

O choque da realidade fez ela ficar mais triste.

“Mas não se preocupa, eu acho que sei como fazer você ter mais pontos que qualquer outro desses 71 demônios”

E só assim eu consegui fazer o clima na minha cabeça mudar um pouco.

Fiquei conversando com Asura até a hora de dormi, explorei o castelo enquanto conversava com ela em minha cabeça, criando anotações mentais para me localizar mais facilmente porque até esse “pequeno” castelo era um labirinto.

Quando senti fome chamei um dos subordinados de Asura e exigi comida, como um demônio faria. Tentei agir da forma mais ‘normal’ possível e finalmente comecei a sentir como se isso pudesse ser algo bom. ‘Minhas habilidades podem finalmente achar o lugar para serem úteis’ pensei.

“Você tem sorte e azar heim?” Falei para Asura.

“Porque?”

“Bom, simplesmente, se fosse qualquer outro humano você teria roubado o corpo dele. Isso foi um azar, ou sorte, muito grande. Além disso, acredito que mais ninguém realmente conseguiria acompanhar esse tipo de disputa em questão de estratégia. Eu provavelmente sou a pessoa que deveria estar aqui” menti pra mim mesmo. Na realidade existem pessoas melhores que eu, eu só tive o destino de acabar aqui.

Um sorriso de canto surgiu na minha boca e na boca de Asura.

“Se você fizer merda eu vou encher você até você não aguentar mais viver”

“Não se preocupe, se eu fizer merda eu acabo com a minha própria alma”

E foi assim que eu selei o meu contrato com Asura, se eu não fosse digno de respeito dela então eu iria morrer de vez. O nosso desafio? Ser o Rei dos demônios.