Dia 3

Acordar dessa vez foi relativamente mais natural sendo que Rubeus estava na masmorra então um demônio menor, que mais parecia um macaco com asas e chifres, trouxe a comida.

Asura ainda estava sonhando dentro da minha cabeça. Parando pra pensar, é como ter uma consciência dentro da outra, muito estranho.

Aproveitei pra revirar mais informações da biblioteca de Asura e consultar seus registros. Acabei organizando uma estante inteira antes de Asura acordar, ou será que ela já tinha acordado faz tempo e estava me olhando de longe enquanto mexia em suas memórias?

“Hmmm” ela coçou a garganta pra fazer a sua presença ser notada “você realmente tem algum tipo de compulsão por organização, não é?”

Pronto, mais uma pessoa que fala que eu tenho TOC.

“Não exatamente, eu só estava procurando uma informação e acabei tendo que arrumar tudo pra conseguir chegar perto do que eu estava procurando”

“E o que isso seria?” ela perguntou enquanto sentava no ar com as pernas cruzadas.

“Primeiro eu queria saber como acessar o mundo humano onde a dungeon está para conseguirmos os nossos primeiros pontos.”

Direto ao ponto, sem inventar motivos alternativos. Ser claro sempre é o mais importante para conseguir a confiança dos outros.

“Hmmm, está bem aqui...” Ela pegou uma informação na estante em baixo dela e completou “Eu separei todas as informações básicas pra você enquanto você estava dormindo nessa estante aqui, tudo o que você precisa pra começar”

Esforçada... É de se esperar, se ela está realmente preocupada com o destino de seu corpo ela realmente tem que se esforçar para não perder a posição que deu tão duro para conquistar.

“Obrigado...” Quando virei para pegar o livro indicado reparei, finalmente, que Asura não era um demônio qualquer. Ela era realmente bonita, como um anjo, mas ao mesmo tempo delicadamente gótica, como uma Lolli, e vestia roupas provocativas como uma stripper. Seu corpo era realmente incrível, com curvas nos lugares certos, tamanho adequado, nada exageradamente grande ou terrivelmente pequeno. Aproximadamente 1,60 m de altura, eu acho, e cabelos pretos.

“Por acaso você é uma Succubus?”

A pergunta a pegou desprevenida, aparentemente, porque ela caiu da estante.

“Você está insinuando alguma coisa? Eu me visto de uma forma vulgar demais ou algo do gênero??”

Eu fiquei em silêncio, eu devo realmente ter dito alguma coisa errada porque Asura começou a tacar livros em mim e gritar coisas como ‘pervertido’ ou ‘sem vergonha’ enquanto fazia isso.

“Não é isso, é só que...” Me desviei de um livro que bateu na estante atrás de mim e caiu aberto em uma página aleatória “você realmente é muito bonita... Se fosse ruiva...” Eu parei de prestar atenção nos livros que nem me machucavam por serem apenas memórias e reparei na imagem que estava no livro no chão.

“Se eu fosse ruiva? O que, eu não sou boa o suficiente pra você, é isso?” Não entendo mulheres...

“Quem é essa pessoa?” eu me abaixei para olhar mais perto.

Era um demônio sentado em um trono enorme com cabelos brancos e grandes chifres como do demolidor. Por algum motivo ele emanava uma aura intimidadora, mesmo na memória de Asura.

Depois que a sua raiva momentânea passou Asura se aproximou tentando ver se eu estava falando sério ou simplesmente tentando desviar a atenção dela.

“Esse...” a expressão de Asura mudou “é o antigo demônio rei, o último antes dessa grande guerra. Dante era o nome dele”

“Era?” eu olhei sério para Asura “ele morreu?”.

“Demônios não são imortais, infelizmente. Vivemos milênios, mas morremos como quaisquer outros seres vivos”.

Eu consegui ver em seu rosto que Asura não parecia nada confortável com essa ideia, com a imagem e com alguma outra coisa, mas não quis me intrometer. ‘Ele deve ter feito algo pra fazer ela se sentir assim’ eu pensei.

“Entendo. Bom, eu vou conferir as informações que você separou para mim, obrigado por isso”.

“Hm, vou deixar o comentário anterior passar dessa vez. Não sou uma Succubus, elas são demônios pervertidos e sem escrúpulos nenhum, se alimentam de qualquer porcaria e ficam exibindo corpos que roubaram como se fossem troféus”.

Foi ai que eu finalmente perguntei “existem níveis entre os demônios, certo?”.

“Certo...”

“Só 72 demônios podem participar dessa guerra, mas quantos demônios existem?”

“Mais do que todos os indivíduos das espécies inteligentes da sua galáxia”

Eu tentei imaginar, mas acabei precisando perguntar.

“Um número?”

“Pra você ter uma ideia, a minha tribo tem cerca de um trilhão de demônios...”.

Um trilhão... Que número astronómico comparado com os 7 bilhões de humanos que existem no meu tempo...

“E como vocês se alimentam? Todos vocês precisam se alimentar de potencial, não é?”

“Realidades paralelas...” ela disse com a maior naturalidade “como existem infinitas dessa, são uma fonte infinita de alimento... O problema é o consumo de energia para acessar essas realidades e para criar as dungeons, mas já superamos isso”

“Como?”

“Isso, eu não sei, e mesmo se eu soubesse eu não poderia te responder. Você é um humano, se nem mesmo eu, que sou um demônio dos 72 lutando na grande guerra, posso saber essa informação, você realmente acha que você pode ficar sabendo?”

Eu concordei em silêncio enquanto pegava o primeiro livro da estante que Asura estava sentada em cima.

Enquanto folheava as primeiras informações eu soltei “Isso é só um palpite, mas vocês estão lutando pra saber a hierarquia dos demônios e quem consegue mais energia?”

Ficou óbvio quando Asura disse ‘minha tribo’, tudo ficou claro. O motivo de todos quererem ser reis, aquele que estava no topo possuía acesso a mais recursos.

“Tão óbvio assim?” Ela respondeu como se tivesse lido a minha mente (ironicamente algo que ela podia fazer).

“É o que motiva todas as guerras...” eu respondi com um ar de naturalidade.

“Você é perspicaz, vamos ver se consegue usar esses seus insights como uma arma” Ela falou virando as costas. “Vou descansar, a final de contas passei a noite arrumando isso pra você. A ordem é essa... “

Ela apontou para os livros e passou o dedo por cima deles seguindo uma linha reta ”Se você ler essas informações você deve ser capaz de fazer o mínimo e se comportar da forma adequada sem me perturbar com perguntas o tempo todo” ela falou e se dirigiu para o mais longe que a minha cabeça permitia.

“Bom descanso” foi a única coisa que consegui dizer antes dela desaparecer em uma névoa de subconsciência.

Quando ela disse que era realmente tudo o que eu precisava saber pra alcançar o nível ‘mínimo’ de um demônio, ela não estava mentindo. As explicações não eram tão complexas quando lidas da forma que ela deixou para eu ler, tudo o que eu precisava era usar um livro para entender o outro.

Como todas as informações escritas eram também recordações de Asura de alguma forma ou de outra eu acabei conhecendo um pouco melhor dela com cada leitura que eu fazia.

Ela já tinha trocado de corpo antes ao menos 16 vezes, essa seria a décima sétima vez, todas as outras vezes foram corpos delicados de mulheres, o motivo estava apagado. Ela tinha algum tipo de fetiche e estava escondendo o motivo?

Bom, essa informação estava junto das informações de como acessar o mundo humano, escolher a época e lugar, dimensão, etc. Todas as 16 vezes que ela realizou esse procedimento estavam detalhadas, o que fez tudo ficar mais fácil.

— Mestra?

‘Droga, alguém lá fora’

— Sim?

Era uma serva de Asura, uma garota com chifres menores que tinha uma aparência similar, mas com um corpo bronzeado e tatuagens brancas que iam dos chifres aos ombros apenas. O seu nome é Mitra, de acordo com as memórias de Asura.

— A senhorita não saiu da cama o dia inteiro, precisa de algo, está se sentindo mal?

— Não, só estou planejando o meu próximo passo.

— Entendo, se a senhorita precisar de algo...

— Mitra, que horas são?

Ela ficou vermelha repentinamente por algum motivo. Vergonha de ser chamada pelo nome?

‘Droga, eu preciso tomar mais cuidado com como eu trato todos eles... ’

— Já se passaram mais de 6 horas desde que você acordou.

— Entendo, vou começar os preparativos, vou para o mundo humano. Preciso começar o quanto antes, sou a última colocada na guerra e não posso ficar parada.

— Mas já? A senhora acabou de voltar dessa última viagem e ainda não se recuperou totalmente...

— Não se preocupe, isso é uma ordem. Eu tenho os meus motivos.

‘Acho que a ordem deve ter dado uma quebrada no clima... Ela precisa me respeitar’

— Sim senhora. Vou preparar tudo agora mesmo.

Mitra ficou vermelha novamente, aparentemente dar uma ordem teve o mesmo efeito que a chamar pelo nome.

Ela saiu e eu comecei a buscar nutrição. Comida existe, os demônios também comem. A comida é muito similar, mas são relativamente diferentes. Basicamente eles usam a força vital das pessoas como tempero. Não me atrevo a imaginar como eles fazem isso, até eu tenho que respeitar a vida de alguém depois que ela morre, isso é quase canibalismo, então preferi pensar que eles usam temperos exóticos.

Enquanto comia eu coletava todas as informações necessárias para a viagem que eu ia fazer agora. ‘Preciso de uma arma? Acho que não, meu corpo é uma arma por si só... Eu preciso matar quantas pessoas para conseguir energia suficiente? Aparentemente cada alma funciona como uma moeda, uma alma da mais simples, desde que o ser humano tenha idade adulta, é capaz de garantir o controle, ou sumonar, uma criatura do nível mais baixo... ’

O imp que eu vi mais cedo me veio na cabeça ‘Ele é um demônio, certo? Então porque eu vou sumonar ele para lutar a minha guerra? Demônios usam escravos?’

Dei uma olhada melhor nos livros, os demônios que viram escravos são ou seres sem vontade própria, como robôs, ou demônios em busca de aventuras, heroísmo, como heróis de guerra que participam pela fama ou glória. Por isso eles eram ou os mais baratos de se controlar (imps) ou os mais caros.

‘Ok, então eu preciso primeiro testar a força de uma alma, uma só’ foi o que eu pensei. Levei comigo um dos 15 imps que Asura mantinha em sua residência para testar a sua força. Levei também Mitra, por precaução.

Ah, sim, sobre o processo da viagem em sí. Aparentemente o círculo do ritual é, na realidade, a forma com que se escolhe a época e o lugar onde você vai ser transportado. De acordo com o movimento da energia no círculo o espaço se desloca de uma forma diferente, por isso é sempre importante desenhar o círculo de forma adequada.

A sensação da viagem é como olhar para o chuveiro enquanto a água cai, mas muito mais rápido, sem a sensação de molhado e sem temperatura. Não consigo nem descrever, é bizarro.

O tempo que eu podia passar nessa dimensão dependia apenas de mim, mas como precisava de sustento, eu me apressei para por o meu plano em ação.

Primeiro eu tomei nota de todo o meu redor. Aparentemente estávamos em uma terra próxima da idade média em algum lugar com uma floresta de pinheiros. Essa era toda a informação que eu tinha com a paisagem de onde chegamos. Não precisava de mais informações, mesmo se eu tivesse chegado no mundo de hoje em dia eu poderia desviar de balas facilmente.

Ou não?

Aparentemente eu sou o super-homem ao contrário. No sol eu fico muito mais fraco, só de sentir a luz do sol eu já me sinto até tonto.

“O que você está fazendo com o meu corpo parado ai na luz do sol? Você não leu as informações que eu te dei?”

Sentindo o perigo Asura se manifestou mesmo extremamente cansada. “Eu preciso falar tudo pra você?”

‘Aparentemente sim’ eu pensei correndo para a caverna mais próxima, que eu descobri ser a minha dungeon.

— Mitra, porque você nos transportou pra fora da caverna e durante o dia?

— Mil perdões mestra, deve ter sido um pequeno erro na hora de fazer o círculo...

— Preciso fazer tudo aqui? Tsc, das próximas vezes vou conferir todos os círculos que você fizer.

Mitra se ajoelhou e colocou a testa na terra em sinal de humilhação.

— Não precisa ir tão longe para pedir perdão, Mitra, só tenha mais cuidado...

Eu realmente não consigo lidar com mulheres em posições constrangedoras de submissão como se prostrar para alguém dessa forma ou outras... Eu fiquei constrangido por ela.

Ela ficou vermelha novamente e se retirou para ficar fora do meu campo de visão e se prostrou novamente quando achou que eu não estava prestando atenção.

‘Idiota... ’ Ela só queria pedir desculpas, mas precisava ir tão longe?

— Bom, vamos começar a caçada quando a noite cair, até lá... Se preparem, vou testar vocês dois para poder definir os meus planos no futuro, então quero que vocês deem o seu melhor sem comprometerem os seus corpos.

—Entendido! – Os dois responderam de forma unânime.

“E você, tenho certeza de que você vai querer saber o que eu estou planejando, mas até a hora da caça, por favor, não pergunte nada, surpresas são sempre divertidas...”

Eu falei para Asura com um ar de ‘anti-herói’ de HQ, em uma pose bem confiante e sem olhar para ela.

Ela estava roncando, ela realmente não tinha descansado nada durante a noite...

‘Bom, ela vai ver como as coisas vão progredir na hora. Se ela tentar interromper eu só preciso a ignorar ’ eu pensei e me sentei na caverna e na minha mente para esperar o sol se por enquanto lia algumas memórias de Asura.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.