Diário de Um Nelliw
11 Rumo à Verdade
Foi um evento espetacular! Eram as palavras da maioria dos moradores de Prontera, depois da festa da coroação de Tristan em rei, e do casamento de Seyren com Margaretha. Começaram os preparativos em uma tarde propícia para festejar, quando o vento estava sereno e a luz do sol ainda irradiava energia por sobre a límpida água da fonte. Muitos viajantes passavam e ficavam admiradas com o monumento Mãos Amigas, perto do castelo, e paravam para ver a festa que acontecia na frente da Catedral de Prontera. Agora que não havia distinção entre os guerreiros e os oradores, a grande festividade seria realizada ali, para que houvesse a benção dos deuses. E tão logo o sol começou a se pôr, o Príncipe Tristan estava em um altar de madeira de frente para o público, olhando com sua serena face jovem para o povo que agora o elegia rei. Estava apoiado, com sua lança real que carrega seu nome nobre, a Gaebolg, e recebia a benção do Bispo. Em seguida, Seyren levou sua coroa até Tristan, o ergueu para que todos pudessem vê-lo, e pôs na cabeça do príncipe, nomeando-o oficialmente, o Rei Tristan III, governante de Rune-Midgard.
Logo depois, o casamento entre Seyren Windsor e Margaretha Sorin foi realizado. Havia músicos, menestréis e bardos que cantavam as vitórias do Lorde e reverenciavam a Suma-Sacerdotisa por sua gentileza, beleza e compromisso com os deuses. Seyren estava com sua armadura de batalha completa, com a capa vermelha esvoaçante, as grevas polidas até brilharem, a cota de malha prateada e, no lugar do seu elmo, usava uma pequena coroa dourada, adornada com um rubi preciosismo, que ele disse-me depois, ser um presente de sua esposa. Mas ninguém ofuscava mais a visão do que Margaretha. Ela vinha em um vestido de noiva branco, mas não eram daqueles espalhafatosos e grandes vestidos, e sim, um simples vestido branco, fino e decorado apenas com um bordado simples no decote. Tamanha era sua simplicidade, que usava apenas um colar de prata e uma pulseira com o símbolo de Seyren, e essa roupa simples era que roubava a atenção de todos, pois a tornava a mulher mais bela do reino, e ela estava feliz ao lado do Lorde. A cerimônia aconteceu no mesmo palanque onde o Rei Tristan fora coroado, e terminou com fogos, um banquete ao ar livre, e com direito a música animada, que perdurou pela madrugada. Vários chefes de tribos, clãs e até mesmo dois representantes da república presenciaram a cerimônia, agora que Seyren havia decretado a paz entre os reinos, e faria sua investida apenas contra os rebeldes de Lighthalzen.
Mas o que surpreendeu mais durante a festa foi com algo inesperado que me ocorreu, logo após Seyren ter beijado a noiva. Ele chamou Howard, que estava vestido com um terno engomado que o deixava ridiculamente estranho, e ele levava um carrinho para cima do palanque. Naquela hora, o Lorde havia feito um discurso chato sobre liberdade, honra, a dedicação do Rei e de sua nobre tarefa como lorde, e aí então, chamou pelo meu nome. Na hora eu fiquei ruborizado, mas ele chamou e quando me viu no meio dos festejadores, exigiu que eu subisse ao lado dele. Ele ergueu meu punho ao alto, me elogiou como o campeão do reino e disse que agora eu teria uma armadura digna de um homem de meu posto. Fiquei receoso da nomeação, mas para minha surpresa, subiram também alguns membros do Templo, que retiraram do carrinho de Howard as peças de uma armadura nova, polida e detalhada em prata e rubis. Era uma armadura de Paladino, e eu a receberia sem mesmo pertencer oficialmente ao Templo, mas os Templários pareciam felizes ao ver alguém como eu ter crescido diante aquela guerra. E por fim, aceitei o presente.
E dois dias depois da cerimônia, eu esperava no portão oeste com Yuki ao meu lado. Eu estava usando a famosa armadura de Paladino, com um detalhe em forma de cruz no peito, e usava meus equipamentos mais resistentes e de maior eficácia. Grevas bem polidas e resistentes, manoplas protetoras, meu Manteau espesso, um escudo bem firme e minha espada recém forjada, a Vingadora Sagrada. Yuki me deu um cinto de couro muito bem trabalhado, na qual estava encantada a carta do Fumacento. Não sabia que bicho era então não me importava o nome, só a habilidade de usar a técnica do Esconderijo. Minha amada loura estava grávida, faltando poucos dias para o nascimento do bebê, mas mesmo assim, ela quis ir comigo até o portão, e não me surpreendi quando o restante do grupo chegou com suas famílias. Eremes beijou Alissia e partiu chorando algo sobre sua filia já adolescente estar crescendo e tendo namorados, e não ter o seu pai para lhe aconselhar. Howard estava com sua esposa e dois filhos, e prometeu voltar bem para eles. Cecil veio com seu namorado, um jovem cavaleiro que não parava de perguntar se não queria que ele fosse junto. Eles se abraçaram e ela se despediu. Seyren e Margaretha estavam abraçados esperando o restante de nós terminarmos com a despedida e partirmos com ele. Apenas Kathryne estava sozinha, sem ninguém por perto. Senti-me mal, mas então as mãos de Yuki seguraram minha cabeça.
-Volta pra mim inteiro, me ouviu?
-Eu juro minha amada. – Nunca gostei de palavras adocicadas demais, mas era bom ter alguém que me amava, e eu retribuía com todo o carinho.
-Te amo!
E finalmente partimos. O grupo ficou muito quieto durante a nossa viajem. Duraram dois dias e meio, mas chegamos até um ponto onde dava pra ver a favela da cidade. Seyren e eu posicionamos o grupo para avançar rapidamente pela favela, porém, ainda tinha a entrada norte, que era onde havia aquele super laboratório que mantinha Kathryne presa. Naturalmente, seria o nosso alvo principal pela concentração de rebeldes, mas entrar pela favela seria tomar uma dianteira, e ter uma ótima posição de ataque surpresa. Nós estávamos à alguns quilômetros da entrada da favela, esperando o sinal de Seyren.
-Nós vamos ter que atacar por trás. Howard – O lorde apontou para o ferreiro, que estava entusiasmado com o ataque. – Você vai à frente, vai arrebentar tudo o que estiver pelo caminho, e tome cuidado com os guardiões. Não sabemos quantos deles os rebeldes tomaram posse.
-Deixa comigo. Dividir ao meio esses filhos da puta é meu maior prazer. – Ele falava com uma convicção assustadora.
-Eremes, você vai se infiltrar na favela e fará um alto reconhecimento. Também vai inutilizar os guardiões, se possível, e será o primeiro a entrar no laboratório. – Eremes recebeu com um muxoxo sua ordem, bocejou e assentiu.
-Será muito fácil, milorde.
-Eu e Margaretha tomaremos a retaguarda do grupo, e vamos destruir o restante dos inimigos. Kathryne, eu ouso ter que pedir isso, mas você e Uriu voltarão para sua cela.
Isso significaria que ambos voltaríamos até onde ela ficava presa. Ela se mostrou assustada, então eu retruquei.
-Mas Seyren, nós deveríamos fazer um ataque único por trás, pegar todos eles de uma só vez.
-Uriu, compreenda. Assim que vocês atacarem a frente, vocês servirão de isca, o que nos dá melhores chances. Além disso – ele tornou a olhar para Kat, complacente. – Vocês, infelizmente conhecem o local, portanto seria melhor se vocês fossem até lá. Por favor.
Seu pedido era duro. Levar a bruxa até seu antigo cárcere era arriscado, para não falar nos guardas que poderiam estar montando uma armadilha. E ainda assim, teríamos de encarar Guadiões pela frente. E não tínhamos conhecimento de seu poder. Mas mesmo assim, concordamos, ainda que Kat tenha feito isso relutantemente.
Distanciamos-nos do restante do grupo e pudemos ouvir o som do machado de Howard abrindo um rombo da muralha da cidade, mas como seu policiamento era precário na área pobre, ninguém os impediu. Eu e Kat corríamos o máximo que podíamos, contornando as elevações íngremes, passando pelos caminhos rochosos, até encontramos uma parte da antiga destruição que a magia da bruxa havia causado. E logo estávamos perto da entrada norte, porém, não havia nada fora dos muros da cidade.
Era estranho. Olhei para Kat, que estremeceu. Ali, havia poucos anos onde outrora nos libertamos a bruxa e batalhamos para destruir seu acesso ao nosso posto, possuía um laboratório gigantesco, que não estava mais lá, deixando espaço para uma pequena vegetação crescer ao redor de uma pequena fonte. Ficamos abismados.
-Não pode ser. Havia bem aqui! – Kat apontava incrédula para a muralha a frente. – Aqui mesmo, Uriu! E você deve lembrar-se disso!
-Mais do que ninguém, eu diria.
Era estranho, porém, nossa atenção foi chamada por uma cena assustadora. Estávamos distantes da entrada norte, mas a sua frente, uma chacina acontecia, e o pavoroso era que apenas um homem parecia ter feito tudo aquilo. E o fato foi confirmado, pois esse homem ainda estava matando os guardas com uma facilidade imensa. Corremos para a direção dele, e então eu o vi detalhadamente. Alto, pele morena, mas não como o povo da cidade de Morroc, e sim, uma pele que lembrava a casca de carvalho que crescia por perto Comodo. Tinha um cabelo raspado nas laterais, e em cima possuía um corte ao estilo militar no seu cabelo branco. O rosto era firme, ossudo e carrancudo, e sua musculatura era formidável. Estava vestido com calças de couro e um manto que cobria grande parte do corpo, escondendo algo. Ele segurava o guarda suspenso com apenas uma mão, enquanto esmagava a cabeça dele com uma força tremenda. Pude ver a massa cefálica do coitado sair por uma rachadura feita em sua nuca. No chão, pelo menos mais oito corpos estavam espalhados com as cabeças abertas ou feridas, como se tivessem explodido por dentro. Rapidamente saquei minha espada e parei em sua frente. Quando ele me olhou, vi que a cor das suas íris era vermelha, e tremi ao ver que seu braço direito era todo tatuado com estranhas linhas e desenhos negros. Kat não pensou duas vezes.
-Ele é o bastardo que andou matando muitos guerreiros em todos os lados. – Ela tinha uma esfera de raios na mão direita. Com certeza mataria em um único golpe, tamanha era sua força. – Ele não passa de um maldito assassino.
E arremessou o seu Trovão de Júpiter na direção do homem tatuado. No entanto, ele estendeu o braço marcado, espalmou sua mão e a esfera de raios foi absorvida por ele. Tudo aconteceu tão rápido, que não me lembro de tantos detalhes, mas ele absorveu, e fechou seu punho, olhando sério para a bruxa. Kathryne se assustou e começou a recuar, e eu imediatamente fiquei no caminho dos dois, segurando a espada e o escudo em posição de defesa. Ele nos fitou sem se abalar um instante sequer, enquanto Kathryne preparava mais uma magia, e foi quando ela ia soltar mais um Trovão de Júpiter que eu instintivamente a impedi com minha mão.
-Você ta maluco? Ele vai nos atacar!
Eu apontei na direção do tatuado, e atrás dele, caída no meio dos corpos, um ser agonizante rasteja lentamente para longe daquele estranho. Aparentava ser uma algoz, pelo cabelo comprido e negro, que se misturava na lama e no sangue dos outros guardas. O homem tatuado também notou a movimentação, e começou a se virar.
-Kat, solte o Trovão de Júpiter!
Rapidamente, ela disparou mais uma esfera de eletricidade e eu saí correndo atrás. O tatuado percebeu a aproximação do Trovão de Júpiter e novamente espalmou sua mão direita, absorvendo a magia. Mas agora eu estava preparado para isso.
-Idiota, um Paladino jamais cai na mesma técnica duas vezes! – Quando ele percebeu, eu estava na sua frente, e ativei o poder da Crux Magnum. Como eu pensei, ele não conseguia absorver duas magias consecutivamente, embora eu desconhecesse como ele o fazia. A luz da minha técnica o paralisou por um momento, queimando o seu corpo com a força da magia. Olhei para trás e vi Kathryne correndo na direção da jovem que se debatia, tentando escapar. O corpo do homem caiu no chão com um baque surdo, e eu corri para ajudar Kat. Nós ficamos observando a algoz, que tossia muito sangue, então a bruxa lhe deu uma garrafa com um líquido branco para ela beber, e pareceu ter funcionado, pois logo ela conseguiu ficar de pé, ainda que com dificuldade.
-Você está bem? – Kat perguntava um tanto atônita com a situação, enquanto eu ajudava a garota a se manter de pé.
-Não, vocês têm que sair daqui. A favela está em perigo. – Eu comecei a me preocupar com o grupo de Seyren,que tinha invadido por aquele lado. – Há Guardiões, muitos deles.
-Ei, espera aí. Quer dizer que os rebeldes estão todos para lá?O que houve com o laboratório que ficava aqui?- Kathryne parecia mais desesperada. Porém, algo chamou nossa atenção. Voltei a olhar para trás e vi algo surpreendente. Aquele homem com a tatuagem no braço direito, estava de pé novamente ainda com o olhar sério e persuasivo, e agora nos encarava constantemente. Nunca havia visto alguém que conseguisse sair vivo depois de levar uma Crux Magnum minha em cheio, quanto mais ficar de pé, mas ele estava, e agora a situação estava crítica. Olhei novamente para as meninas.
-Você, qual o seu nome?
-Lucille. Julianna Lucille. – Ela me respondeu sem fôlego.
-Quero que você leve Kathryne até a favela.
-Mas Uriu? E você? – Kat preocupou-se com o que poderia acontecer comigo, mas eu estava realmente curioso com relação àquele homem.
-Eu ficarei e lutarei. Vamos, vão. – Elas se entreolharam e continuaram imóveis. – Vão!
Elas começaram a correr na direção do portão norte, enquanto eu me ajeitava, segurando firme a Vingadora Sagrada na mão direita, e o meu escudo na mão direita. Aquele homem de tatuagem estranha parecia estranhamente calmo, com um olhar determinado e sem dúvidas. Conhecíamos ele apenas por homem da tatuagem, que era sua marca no braço direito, e sabíamos que ele já causou várias mortes de muitos dos nossos guerreiros, inclusive os da república, mas não sabíamos o por quê.
-Está na hora de saber a verdade. – Eu gritei em desafio para ele, porém, o homem simplesmente ficou em posição de luta. E respondendo com a voz grave, se preparou.
-Então eu vou mostrar a verdade para você!
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