Diário de Um Nelliw

12 Combate Transcendental!


-Eu quero saber a verdade!

Eu gritava enquanto olhava furiosamente para o homem tatuado a minha frente. Ele era um completo mistério, mas eu tinha de saber. Por que matava homens de ambos os lados? Qual é o seu objetivo? E como ele matava as vítimas de modos tão estranhos? Não sei por que, mas eu comecei a imaginar que talvez ele não representasse nenhum perigo, mas ele era um assassino, e tinha que pagar. Ele se inclinou levemente para frente e se preparou, e aí eu vi seu outro braço, que era totalmente coberta pelas mesmas tatuagens de seu braço direito, mudando um pouco os detalhes. Ele saiu correndo na minha direção e de repente sumiu. Eu não o enxergava mais, nem sentia sua presença, e quando percebi, eu estava sem o escudo e suas amarras tinham sido destruídas. De alguma forma, ele usou a furtividade para surpreender. Eu acreditei certo tratá-lo como um algoz, mas era ilógico, pois ele conseguiu absorver o Trovão de Júpiter de Kat.

-Como fez isso? – Eu não tinha outra saída senão perguntar a ele. Não me respondeu, e novamente começou a correr contra mim e sumiu novamente. Mas aí eu esperei apenas três segundos e usei a Crux Magnum novamente. Desta vez, ele sofreu um pouco com a luz, mas passou muito rápido ao meu lado, ainda que eu tenha calculado sua velocidade como ele viera antes, de alguma forma ele aumentou sua velocidade. A capa dele havia sido destruída com a técnica, mas inexplicavelmente senti uma dor terrível em baixo do braço esquerdo, e quando vi, havia um corte profundo. Era doloroso, o sangue escorria por entre a axila e o músculo do braço, e eu não conseguia mover bem agora. Olhei para trás querendo xingar o cara, mas me arrepiei quando vi o que havia em baixo da capa.

Marcas, símbolos, runas. Não eram simples tatuagens, e sim alguma espécie de marcação gravada em todo o seu peito e nos braços. Só não tinha na cabeça, mas o fato de ter aquilo no corpo deixava a idéia de enfrentá-lo assustadoramente perigoso.

-Que marcas são essas? Quem é você? – Perguntei novamente. Ele ficou ereto e me olhava sério. Sua expressão facial não mudava, não importava o que eu ou ele fazia.

-Já que estamos nessa situação, irei lhe responder. Sou Shen Lee, um monge que recebeu a ordem de eliminar os que se opõem ao nosso deus, Odin. – Como um monge poderia usar a furtividade e absorver magia? Eu tinha medo de que ele respondesse tão breve, e meus medos só aumentaram. – Fui criado desde pequeno na tribo Wootan de Umbala, e com eles – Ele segurou firme o pulso direito com sua outra mão, e notei que sua voz ficou em um tom mais pesado. – eu descobri a verdade.

-Que verdade é essa? Eu quero saber por que mata tantos inocentes.

-É um fardo que Odin me concedeu. Por isso – ele estendeu seu punho em minha direção, e mostrou um sinal de que não se renderia. – cada vez que eu mato um homem, eu carrego comigo a sua alma. E essas marcas atestam a minha verdade, de que o homem se tornou perigoso para sua própria raça.

Eu corri em sua direção com a espada no ar, pronta para cortar ele, mas Shen era muito rápido, e me desnorteou usando os braços para aparar meu golpe, depois usando uma seqüência de combos duplos e triplos, e por fim de dando um forte golpe fulminante na cabeça. Eu estava tonto e não conseguia ver direito, só ouvi algumas palavras antes de poder reagir novamente.

-Você agora vai para junto de tantos outros que se opõe aos deuses, usando seus conhecimentos profanos. Descanse com sua própria magia impura. – E de seus pés, olhei apavorado para uma cruz que ia se formando, uma Crux Magnum. Eu estava desesperado, não sabia o que fazer, e tudo que pude tentar foi rolar para o lado, o que me fez sofrer um pouco com o calor da luz atingindo minhas costas. Levantei-me rapidamente, mas eu queria agora fugir, mas minhas pernas não obedeciam, e eu estava tenso demais para pensar em algo. Ouvi um barulho atrás de mim e vi que uma rajada de ar congelante estava vindo em minha direção, e se eu não tivesse usado o Impacto Explosivo na hora certa, eu poderia estar numa fria.

-O que quer dizer quando fala em conhecimentos profanos e magia impura? — Aproveitei o tempo em que ele retirava a mão esquerda do chão e ficava novamente em pé para perguntar, e tratei de tentar estancar minha ferida com a manga do braço esquerdo.

-Os humanos profanaram o conhecimento dos deuses. Somente eles deveriam ter esse conhecimento sobre a magia e a ciência, de tal modo que apenas nós, nascidos e criados em Umbala somos o povo descendente de Odin. – Ele falava calmamente, de um modo direto e com a voz grave e cansada. Seu olhar era devastador, fazendo-me encolher por dentro. Mas não era hora de correr, pois alguém esperava por mim e eu me lembrei do que tinha que fazer. Novamente disparei na direção de Shen e me preparava para enganá-lo, usando o cinto do esconderijo e depois usando a Magnum, e novamente foi ele quem me surpreendeu utilizando a revelação, uma chama branca que detecta o alvo ao acertá-lo quando escondido, e por fim ele me agarrou pelas bordas da minha armadura. – Não pense que é o único que não cai no mesmo truque duas vezes. Eu já decifrei a sua magia.

Foi tudo muito rápido. Ele me socou no estômago e senti aquele poderoso golpe ultrapassar a armadura, mas sem quebrá-la, como se atingisse meus órgãos internos diretamente. Fiquei tossindo sangue, e recebi um ataque direto de seu punho envolvido em pedras que ele encantou em seu braço, me atirando para longe. Levantei-me com o rosto ardendo de dor e com me estômago igualmente danificado, fazendo-me dobrar no chão encolhido e tossindo sangue. Mal tive tempo de respirar e fui alvejado com vários pilares de pedra que cresciam contra mim, me estocando e atirando para mais longe. Já estava perdendo as esperanças enquanto ouvia o passo lento de Shen vindo para me matar. Ele parou à alguns metros, e eu só podia ver seus sapatos negros na minha frente.

-Saiba que eu herdei o conhecimento do povo Wootan, e essas marcas representam a verdade de todas as guildas. Noventa e cinco por cento do meu corpo está tatuado com essas runas, e a única coisa que não recebi foram as marcas dos Guardiões de Midgard em minha cabeça.

-Você...é um lixo...que – eu não agüentava falar muito. Muito sangue havia sido secretado na garganta, e a respiração estava fraca. – que dá desculpas de agir por um deus, sendo que não passa de um lixo humano como eu....ou qualquer outro que tenha matado.

-Cale-se! – Ele mudou seu tom de voz repentinamente e me chutou. – Eu não sou igual a vocês. Vocês mudaram o mundo profanando o solo sagrado que os deuses fizeram para nós. – Vários orbes luminosos saíram do corpo de Shen e iam me fulminando sem parar. Os espíritos anciões estavam presentes na batalha, para testemunhar o grande feito. – Você não sabe da dor que sofri por causa de gente como vocês. – Ele saltou muito alto, e lá em cima ele ficou em uma postura de ataque, mirando seu punho tatuado na direção do chão. Desceu com uma velocidade absurda e ao tocar o solo, o choque gerou um tremor descomunal, impedindo-me de me levantar, e me deixou mais tonto. Em seguida, me ergueu pelos cabelos e me deixou suspenso. Ele era um pouco mais alto que eu, mas parecia ser muito jovem.

De súbito, olhei para onde ele havia atingido e percebi embaixo da grama e da camada de terra, não muito fundo tinha uma placa de aço que se desprendia do subterrâneo. Agora tudo ficou claro, e aquilo explicava o desaparecimento do laboratório, pois havia a possibilidade de que o local estivesse agora no subsolo. Mirava uma esfera de raios idêntica ao Trovão de Júpiter de Kat, mas eu agora tinha uma saída, e precisava ser rápido. Quando Shen atirou o Trovão de Júpiter, eu saltei para o lado e fui engatinhando para mais longe, até que eu ganhasse equilíbrio para levantar. Não me importava a dor que eu sentia, e sim a oportunidade que eu teria de aproveitar, e se desse certo, eu comprovaria a minha teoria.

Fiquei de pé e Shen se surpreendeu a me ver assim. Acho que ele não esperava que eu tentasse novamente lutar com ele, mas não se deixou abalar por isso e fechou seu punho.

-Você realmente é admirável em batalha. Mas receio que terei de agir com mais vigor para te matar. – Ele mudou sua posição de combate, e agora cinco esferas brancas o rodeavam, enquanto deixava seu punho esquerdo esticado à frente, e o direto recolhido, preparado para atacar.


-Vou lhe ensinar Shen, a arte das minhas habilidades. Você sabe a verdade dos deuses, mas não sabe a verdade dos humanos, a minha verdade! – Falei confiante, escancaradamente pedindo para morrer, mas era tudo ou nada. Ele rangeu os dentes e pude ver uma veia saltada em sua testa.

-Silêncio! – Ele socou o chão com tamanha força, que gerou um terremoto tremendamente poderoso. A minha sorte era que eu estava certo. O chão não era terra e grama apenas, e certamente havia metal por debaixo dela por uma longa extensão, e aquilo salvou a minha vida. Ele também notou, quando percebeu que erguera uma placa metálica rachada com seu soco, e agora tinha um buraco na camada de ferro.

Ele olhou para mim pasmado, e com esse pequeno intervalo de tempo, eu corri para onde ele estava. Joguei minha Vingadora Sagrada no chão e fui de mãos nuas contra ele. Soquei o seu rosto com um golpe fulminante, e depois soquei o chão com um impacto explosivo para desprender a placa de aço. Shen se irritou e sumiu novamente, então eu comecei a contar os segundos, prevendo o que ele faria, e para minha sorte, aquela placa de aço estava no lugar certo e na hora certa, pois eu a ergui com a mão esquerda e firmei em meu ombro, quando Shen finalmente surgiu na minha frente e saltava contra mim com um Punho Supremo de Asura poderoso, que para minha sorte, bloqueei usando aquele pedaço de aço.

O impacto entre o punho mais poderoso e aquele aço que bloqueou o ataque gerou um som ensurdecedor, mas funcionou afinal de contas, me dando a chance de agarrar o pescoço dele e o arrastar até onde estava a muralha em alta velocidade. Quando chegamos perto, forcei-o contra a parede de concreto, e ele sentiu a pancada, cuspindo um pouco de sangue em meu rosto.

-Agora, vou lhe mostrar a minha verdade. – E nisso, comecei a concentrar minha energia nos braços. Shen acertou ao pensar que eu iria soltar mais uma Crux Magnum, mas o que ele fez não adiantou de nada. Ele conseguiu criar uma proteção de terreno no chão, impedindo uma magia de área funcionar. Ainda bem que ele não me conhecia.

-Não adianta usar sua magia de cruz de novo. Agora eu ativei a proteção de...

-Seu crédulo. – O interrompi. – Você acha que a magia é simples evocação da energia divina. Vou lhe explicar bem lentamente como eu uso minha magia.

Eu carreguei a energia ao máximo e concentrei nos braços. Shen, sem ter noção do que viria, apenas olhava seriamente, mas logo vi seus olhos se arregalarem quando a cruz da Crux Magnum se formou não no chão, mas na parede onde ele estava. Ele tentou dizer algo, mas a magia teve início e ele gritou de dor.

-Primeiramente, eu controlo a eletricidade das ondas cerebrais para modificar os átomos do meu corpo, gerando uma alta carga que se acelera e gira em uma velocidade constante. – A Crux Magnum cessou por um instante, e enquanto ele ofegava, eu explicava. Novamente, fiz mais uma Crux Magnum na parede, fazendo-o urrar.- Essa energia gira em tamanha velocidade que cria uma luz, e essa luz queima a maioria das coisas que toca. Por isso ela é muito mais forte para monstros de energia densa e fria, ou os mortos-vivos. Você pode resistir à minha Crux Magnum por que acredito que se você pode usar todas as habilidades, significa que você tem o partido da Fé com você, a alta concentração de energia que flui constante em nossos corpos. Uma dádiva apenas dos templários. – A segunda Crux Magnum cessou.

-Mas...como você...

-Como eu a uso em outro lugar? Simples. – Mais uma vez eu deixei o ofegante Shen gritar de agonia enquanto a terceira Crux Magnum acendia mais uma vez. — Não fui treinado como aqueles fieis ingênuos, que utilizam essa magia nos pés como simbolismo. Eu nunca treinei como eles, e aprendi a usar seu real poder. – A luz cessou novamente, mas e comecei a concentrar mais e mais energia em meu corpo. – Uma vez que eu tenha obtido essa verdade, eu dominei completamente essa magia. E para demonstrar, vou usar todo o potencial dela diretamente em nós.

A técnica da Crux Magnum consistia em transformar a minha energia em luz e em seguida dispersá-la na forma de uma cruz simbolicamente criada aos pés do templário. Usar essa grande quantidade de energia consume muito da energia vital de quem a usa, forçando-o a apenas utilizar em último caso. Como eu treinei muito, eu não carecia dessa falta de resistência, e poderia usá-la várias vezes, para então começar a sentir os seus efeitos colaterais. Porém, eu estava arriscando a minha vida, concentrando toda energia gerada em um único ponto, que seria entre mim e Shen, e essa energia iria desencadear o poder da Crux Magnum diretamente em nossos corpos. E a técnica necessitava estar em contato com algo, seja o solo ou um corpo, que funcionavam como catalisador. Era o único meio.

-Você será o catalisador da magia, ao invés do chão, Shen! – E nossos corpos brilharam intensamente. A energia era tanta eu não estava suportando segurar o corpo de Shen e ficar de pé ao mesmo tempo. Doía mais que qualquer coisa que já tivesse me ferido antes, mas também via que o monge agora sucumbia diante as chamas brancas que queimavam seu corpo. A magia foi tão poderosa que acabou estourando no meio de nós, me empurrando para trás todo dolorido, e abriu um buraco onde o monge estava. Eu tossi e me revirei no chão, urrando de dor, mas com a certeza de que dessa vez eu o havia derrotado.

Lentamente, eu ia me levantando, e até me assustei ao ver os corpos dos guardas mortos por Shen algum tempo atrás, mas recobrei a consciência e comecei a enfaixar minha ferida embaixo do braço com um pedaço da manga de meu capote, que usava por baixo da armadura. Aquela pequena explosão levantou uma fina camada de poeira por causa do muro despedaçado, e enquanto aquilo ia se abaixando, meus temores começaram novamente, e senti as pernas tremerem e o coração acelerar.

Atrás da cortina de fumaça, se levantando no meio do concreto com feridas pelo corpo e sangrando muito, mas vivo, Shen voltava a ficar de pé, com muito esforço e ofegante. Uma aura azul brilhava ao redor dele, uma luz muito forte, que eu reconhecia e senti a morte tocar o meu ombro quando me lembrei do nome daquela habilidade espiritual. Eu não acreditava no que estava vendo, mas ele estava ficando de pé, com um esforço sobrenatural, se apoiando no muro, com um braço encharcado de sangue, e me olhando apenas com um olho aberto, já que o outro ficou cortado.

-Merda...ele sabe usar Kaizel!