Diário de Um Nelliw
1 Caminho da Espada
Bem, este aqui é meu primeiro relato que escrevo aqui. Posso não ser tão bom na escrita quanto os verdadeiros escritores, mas este é meu diário, minha caixinha de lembranças, e quero mais é que os outros se ferrem. Prazer meu diário, sou Uriu Nelliw, nasci em 1931 e tenho 23 anos agora, sou um Paladino, e estarei narrando aqui alguns dos meus acontecimentos marcantes. Talvez por que eu tenha sido treinado desde pequeno como um Espadachim de linhagem nobre, mas eu nunca gostei do caminho da espada. Lembro-me até hoje, do dia em que entre na cidade de Izlude.
Estava um dia muito ensolarado, e o vento era refrescante por entre as planícies que dava acesso à cidade satélite de Prontera. Eu era jovem, de apenas quatorze anos de idade, mas a paixão ardente pela aventura era mais forte que tudo no mundo, e parecia que onde quer que eu esteja, algo maior ainda me chamava para me confrontar. Eu estava com as roupas de Aprendiz já rasgadas, tanto pelos treinos pequenos quanto pelo tempo de uso, e já não tinha mais família ou casa para voltar, então, topei o tudo ou nada. Lembro-me que quando cruzei a ponte que ligava Izlude do continente, vários viajantes passavam por mim, ora esbarrando ou cruzando olhares feios para meu rosto. Eu não era feio, mas algo que chamava atenção era que eu nunca atraía bons agrados, por ser azarado mesmo. Minhas pernas doíam de tanto ter andado naquela manhã, mas eu estava determinado a garantir o meu futuro e por isso avancei por entre a praça de entrada da cidade, e cheguei a frente a uma garota de roupas rubras e com um tipo de lenço preso na cabeça. Realmente era bonita até me deu vontade de chavecá-la, mas só de tentar flertar com ela já era custoso, pois havia mais aventureiros pela cidade.
-Com licença, senhorita.
-Olá, bem vindo aos serviços Kafra. O que deseja fazer?
Eu nem sabia que existia isso. Fiquei pensando em que ela poderia me ser útil, afinal, eu era jovem e queria algumas aventuras... hum...pessoais. Mas quando eu ia pensar em algo mais sutil, ela me veio com aquele mundo de palavras.
-Nossos serviços incluem criar um ponto seguro de teleporte, abrir seu armazém particular, teleportar você para qualquer cidade ou alugar um carrinho mercante.
A gentil mulher fala outra língua pra mim. Cansei-me e dei as costas, deixando ela com uma cara de desentendida. Sem graça, não gostei daquela mulher, por que simplesmente repete as mesmas frases de sempre para atender alguém, como eu fui descobrir mais tarde. Bem, segui meu caminho até uma grande construção, na parte oeste da cidade, uma área de treinamentos era visível já em sua frente, porém, a movimentação era maior lá dentro. Vários, assim como eu, aprendizes reunidos para fazer o teste para se tornar um Espadachim. Já falei que não gostava do caminho da espada? Se já, digo de novo, pois eu gostava mais da vocação mágica, que na verdade, herdei de minha falecida mãe, mas, como eu estava com uma espada que me foi dada de presente na mão, e não um cajado, resolvi aceitar esse como um sinal do destino. Eu avancei até um homem magricela, calvo e com um espesso bigode, sentado em uma mesa. Eu me aproximei um pouco fadigado, mas eu estava tão interessado em entrar para a guilda, que nem me dei conta do que eu estaria fazendo. Simplesmente, fiz!
-Aí. Eu quero ser um Espadachim. – Bati com o punho firme na mesa daquele homem, e firmei minhas pernas. Senti no ar uma reprovação pelos meus atos, vindo dos outros aprendizes e Espadachins recém formados. Porém, o homem sequer se mexeu. Apenas pigarreou enquanto o restante voltava a sua rota, e me encarou profundamente, aí pude ver os olhos pequenos e negros dele, que perfuravam a alma e olhavam no meu mais íntimo pensamento.
-Pois bem. Estamos precisando de guerreiros destemidos. Aliás, se você falar com um Mestre Espadachim ali na sala ao lado, irá entrar com mais um aprendiz. – Aquele velho homem me dizia palavras incultas. Embora eu não estivesse mais interessado no sarcasmo dele quanto no teste que viria, eu não tinha dúvidas de que deveria fazer o que ele disse. Afinal, nunca duvide de um velho atrás de uma mesa de madeira. Nunca se sabe o que ele pode puxar para te matar.
Fiz o que ele disse, e andei direto para uma sala pequena e um pouco mais escura, pelo lado esquerdo da sala principal. Lá dentro, só tinha apenas um garoto um pouco mais velho que eu, e um jovem alto de cabelos longos e azuis, usando uma armadura que já estava gasta e cheia de falhas e rachaduras. Ele mantinha o aprendiz de frente pra ele, enquanto eu entrava pela porta e me dirigia para falar com aquele jovem mias velho, que demonstrava uma maestria apenas em seu olhar. Senti-me um pouco pequeno perto dele, mesmo que eu nunca tenha tido medo de outro ser qualquer, mas perto dele, eu era um novato e ele o mestre. Mais perto, percebi que ele tinha muitas cicatrizes no braço, e uma espada estava pendurada e embainhada em seu cinto, mas ela parecia gasta e tão enferrujada quando algumas partes das armaduras que ele estava usando.
Mas o que mais me intrigou foi o garoto que estava com o mestre. Era magro, porém, com uma musculatura muito bem definida. Tinha cabelos brancos e curtos, e só depois que cheguei do seu lado, percebi seus olhos rubros, imensamente belos. Era um enigma, mas uma coisa me deixava curioso sobre ele. Por fim, já com o mestre em nossa frente, eu finalmente estava começando a minha jornada. Meu coração pulsava rápido, e a cada batida, meus pensamentos mudavam, enquanto os pulmões faziam o processo de troca de ar, e eu ofegava muito.
-Vocês são destemidos não é?- Ousei responder o mestre, mas eu segurei a minha língua, e o garoto ao meu lado sequer se mexeu. Apenas encarava muito sério o mestre. Eu fiz o mesmo. – Se vocês vieram até aqui achando que seria fácil, estão muito enganados. Estão preparados para passar o resto da vida no caminho da espada? – Ambos concordamos, com apenas um aceno. O mestre sorriu, e admirado, virou seu corpo, permitindo a mim e ao outro garoto passarmos para um portal fraco e azulado que pairava mais ao fundo da sala. Eu relutei alguns segundos, mas o garoto passou a minha frente e entrou determinado naquele portal.
-“Mas que maluco convencido.” – Pensei comigo mesmo e entrei no portal também. Era frio e escuro onde eu havia parado. Meus olhos não enxergavam nada até eu me acostumar com a visão, e percebi que estava em um corredor muito extenso. Era cheio de pilares e tochas, mas não havia nenhuma saída aparente, mas eu avistava uma luz fraca e azulada muito longe na extensão do corredor. Quando eu iria subir um lance de escadas para entrar no corredor, avistei o meu concorrente de cabelos brancos. Ele estava parado, com os punhos cerrados e encarava o caminho a sua frente. Pensei “mas ele acha que é o que?”, e quando cheguei ao seu lado, ele finalmente abriu a boca.
-Ei. Está com medo? – Eu não acreditei em suas palavras e dei um soco com toda a força que pude no rosto dele. Eu senti os ossos do meu pulso estalar, e senti que o rosto dele também ficou um pouco estragado, mas ele nem ao menos se mexeu. Apenas deu uma risadinha e então olhou pra mim com aqueles olhos rubros tão exuberantes. – Eu gostei de você, é muito burro para atacar qualquer um, mas bem forte para derrubar alguém.
Ele lentamente foi saindo de perto do meu punho e foi andando para frente, até que se virou e aí sim eu pude ver com clareza seu rosto. Era muito jovem, praticamente a mesma idade que eu tinha, e possuía determinação em seu olhar, mas me dava nos nervos ver ou ouvir sobre ele naquele instante. Mal sabia eu que se tornaria meu melhor amigo dalí por diante, mas no momento, eu sentia repulsa. Ele sorriu e estendeu a mão, o que me deixou confuso e mais irritado, mas engoli meu orgulho e apertei a sua mão. Ambos possuíamos as mãos calejadas, mas as dele possuíam uma força fora do comum, como eu senti de primeira mão. Eu sorri, não muito confiante dos elogios dele, mas mesmo assim o fiz e abaixei a mão.
-Eu diria meu nome, como desculpa pelo ocorrido. – O garoto falava agora em um tom mais ameno, e mesmo sem perder a determinação nos olhos, ele perdia aquele ar arrogante. Olhei bem pra cara dele, me aproximei e fiquei a alguns metros dele. Senti a sua respiração e vi que estava muito tranqüilo, controlado, calmo. Aquela personalidade calma era mesmo um mistério. Mas, eu demonstrei algum respeito.
-Meu nome é Uriu Nelliw. E você? – Sem a menor nobreza pedi o seu nome em troca. Afinal, ele estava me parecendo ser alguém diferente dos outros aprendizes com o qual eu passei na Academia de Prontera. E o seu nome seria um na qual eu nunca esqueceria, e muito menos o povo de Rune-Midgard depois de vários acontecimentos. Mas o que importava, é que naquela época, ele era digno, forte, e acima de tudo, se importava com quem estava ao seu redor. Enfim, ele respondeu.
-Eu me chamo Seyren Windsor. Muito prazer, Sr. Malvado. – E depois daquela apresentação e de meu apelido maldito na qual ele me chamava até pouco tempo atrás, nós começamos nossa jornada pelo caminho da espada, ou como ele mesmo já disse uma vez, o caminho da liberdade.
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