Diário de Um Nelliw
2 O Desfecho
A corrida começava se mostrar difícil, pois era um caminho reto, único, e por onde eu e Seyren corríamos, uma pequena névoa espessa cobria do nosso tornozelo para baixo, assim sendo, impedindo nossa visão do chão. Por onde passamos, vimos alguns aspirantes a Espadachins caírem em precipícios, buracos escondidos, e em algumas partes de nossa jornada, havia pontes suspensas de uma tábua fina e estreita. Eu não estava interessado em passar com cuidado, então corri loucamente por entre as passarelas de madeira, sem me preocupar. Eu tinha muito equilíbrio, e sempre foi fácil para eu coordenar o meu corpo. O aprendiz Seyren também era rápido e equilibrado, passando ao meu equivalente na segunda passarela, paralela a minha. Nós corremos vários metros, e na ansiedade de ser um bom Espadachim, algumas vezes, eu empurrava os aprendizes incautos que estavam perto de buracos, fazendo-os cair e voltar para o início.
-Você é um desonesto! – Seyren sempre me repreendia, aliás, até os dias atuais tentava me concertar, mas na hora, não dei a menor intenção de ajudar os outros. Já era meio estranho estar com um parceiro, mais alguns aprendizes a mais seria insuportável. Na nossa desenfreada corrida, algumas aprendizas bonitas paravam-nos para pedir ajuda, e seguir o caminho em segurança, e aí, eu tentava me aproximar sutilmente delas, enquanto Seyren, fazia o de sempre. Ser chato!
“Oi, quero transar com você, minha linda!” – Era meu cumprimento. Eu não pensava duas vezes em fazer os acordos mais impressionantes que um garoto da minha idade poderia dizer, e eu já era “impuro”, se é que alguém vai ler isso um dia e entender. Enfim, encontramos no caminho uma garota com aparentes 15 anos de idade. Era uma aprendiza, com sua pequena faca e roupas simples, mas isso pouco me importava, eu queria era me divertir. Estávamos perto da saída, onde um portal resplandecente pairava a nossa frente, e um pouco antes havia uma garota cheia de machucados nas pernas e nos braços. Parecia estar no limite.
- Ei, vocês dois poderiam me ajudar? Eu estou tão cansada. – A garota era muito bonita, possuindo um cabelo semi-comprido castanho liso. Ela cheirava bem, disso lembro-me como se fosse hoje, e seus olhos verdes me hipnotizaram. O seu corpo, nova ou não, já era bem definida, com um par de seios grandes, lindíssimos e pernas bem delineadas. Uma princesinha que precisava ser salva do perigo, e foi quando eu e Seyren nos aproximamos dela que ela então pediu nossa ajuda, e sem mais delongas, eu estava pronto para conquistá-la. Claro que ela não pensava dessa forma.
-Oi, quero transar com você, minha linda! – Deu tempo de dizer apenas isso, antes de levar um tapa da pasmada garota. Ela parecia envergonhada, com o rosto corado e a cara de espanto. Olhou para Seyren, que mesmo sem esboçar um único sentimento aparente, levou uma bofetada na cara também, o deixando perplexo. A garota saiu correndo para a saída, enquanto eu me recuperava rapidamente. Não era meu primeiro nem meu ultimo tapa na cara de uma garota, mas o de Seyren era. Ele olhou para mim com uma perplexidade aterrorizante, vendo-me soltar alguns risos engasgados, e então começou a gargalhar. Eu estranhei o ato, e comecei a rir alto também. Gargalhamos durante alguns minutos e começamos a enxugar nossas lágrimas divertidas.
-Faz um bom tempo que não rio dessa maneira. – O garoto de cabelos brancos secava seu rosto em meio a um largo sorriso, e arrumava seu capuz, derrubado ao levar o tapa.
-É? Eu não sei o que eu falo de errado. As gatinhas sempre fazem isso comigo. – Eu tentei contar vantagem, pois não tinha idéia nem noção do ridículo. Apenas queria fazer o eu hoje faço com menos freqüência. Mas eu era muito novo para entender a vida que eu teria a partir daquele instante. Seyren olhou sério para mim, como se tentasse enxergar minha alma.
-Você parece ser muito feliz com a vida que tem. – Eu havia notado certo tom de inveja nele, mas nada fiz a respeito. Respirei fundo, ri alto mais um pouco e me acalmei, apenas dando uma palmadinha nas costas dele, o fazendo ir pra frente e tentando animá-lo.
-Relaxa! Ande comigo e você vai ver o que é animação. E daí que perdemos uma garota? Nós vamos ter um harém para nós assim que virarmos Espadachins. – Eu estava bem confiante, afinal, era jovem, não tinha o conhecimento que tenho hoje, mas tinha mais vigor e força de vontade do que tenho diante a minha vida atual, e o que me fazia ser tão indisciplinado e descontraído era o fato de que eu sempre achava que não havia limites para meu poder, e meus atos. Ledo engano. Lembrem-se, se algum dia lerem isso é claro, de que nunca devem esperar pelo que vai acontecer amanha, pois sempre tem um filho da mãe que te ferra a vida hoje.
Voltando a nossa corrida, nós nos adiantamos e íamos chegando até o final do enorme corredor, com os pensamentos presos e apenas acreditando no sucesso da passagem. Nós passamos o portal e chegamos a uma caverna um tanto escura, mas que ressoava alguns sons familiares. Nós andamos um pouco pela caverna, quando nos deparamos com o cadáver da mesma garota que eu queria loucamente ter minhas fantasias realizadas. Estava com o estômago aberto, as vísceras saindo por ele, enquanto várias larvas também saiam de dentro da barriga dela. Seyren parou ao lado do corpo frio da aprendiza e a investigou. Desde que eu o conheci, eu sabia que ele era diferente de mim, era forte, capaz e não tinha dúvidas nos seus atos. E naquele momento, quando analisou a ferida aberta e as dezenas de Fabres devorando o intestino delgado dela como se fosse um macarrão macabro, eu já sabia que não poderia superá-lo nunca, pois ele sempre foi justo e bondoso, mesmo com suas limitações, mas eu só consegui atingir o mesmo patamar dele muito recentemente.
-Ela não teve chance. Esses Fabres são fracos, mas se deixar aglomerar, eles...
-Eles te comem! – Eu interrompi a dedução de Seyren, que me olhou com uma cara feia, como se eu estivesse envergonhando-o. Seus olhos rubros se arregalaram para mim, enquanto mexia com sua mão involuntariamente no poço de sangue e larvas que estava a sua frente.
-Cara, você não tem jeito com as palavras mesmo. – Ele sorria, e eu sabia que ele apreciava o meu modo de vida. De alguma maneira, senti-me penalizado por minhas atitudes, mas não o repreendia, não pelo menos naquela hora. Eu passei a ver Seyren diferente, de um modo que eu nunca imaginaria que aconteceria comigo.
-Ah, vá se ferrar. Se me encostar essa sua mão gosmenta e ensangüentada eu juro que te mato. – Eu falei ao ver que ele iria coçar o nariz com a mão direita, que estava banhada em sangue. Ele gargalhou e ameaçou tocar em mim com aquela coisa, mas eu pulei para trás, tropecei em uma pedra, caí e saí rolando para trás sem ver onde eu estava indo, bati a cabeça na parede áspera e senti alguma coisa cair no meu colo, algo gosmento e repulsivo, que se mexia constantemente. Seyren estava gargalhando alto com meu marabalismo dolorido, mas eu o ouvi parar de rir e ofegar, correndo em minha direção. Eu estava de olhos fechados por causa da dor de cabeça que estava me incomodando, quando algo caiu no meu colo e o aprendiz de cabelo branco saiu em disparada na minha direção, e senti que ele havia chutado o que havia caído. Eu abri os olhos, descrente e me perguntando o que havia acontecido tão rapidamente, e observei Seyren, com sua face inabalada, mas que com certeza havia se preocupado com algo. Ele fitava algo que havia caído ao meu lado, depois que dera seu chute, e então eu olhei para o lado, e bem na frente do meu nariz, uma Fabre se debatia violentamente perto da minha mão que eu apoiava no chão.
Esbocei uma cara de nojo, mas já tinha motivos para me preocupar mais, já que mais e mais Fabres começaram a aparecer rapidamente. Eram em torno de três dúzias das larvas repulsivas que nos rodeavam. Rapidamente fiquei de pé, e fui para o lado de Seyren. Sacamos nossas facas e nos preparamos para nos defender, do jeito que dava. Eu havia aprendido a lutar com facas e espadas de uma maneira diferente, desferindo os golpes de forma rápida e com extrema força, destruindo o alvo com um único ataque, e meu estilo era único, segurando a faca posicionada ao lado da sua bainha. Porém, Seyren estava diferente. Ele estava sério, olhando para a faca, e com se hipnotizado por ela, guardou-a de volta na bainha, mas mantendo-a segura com a mão.
-Você tá maluco? Puxa essa coisa aí, ou vai perder. – Eu fiquei indignado. Mas que raios ele pensava que o fez guardar sua única arma e garantia de defesa? Não houve resposta dele, e nem minha, pois os Fabres começaram a atacar. O primeiro veio saltando em minha direção, e eu o destruí com um forte corte de baixo para cima, dilacerando seu corpo mole, enquanto o aprendiz de cabelo branco não fazia nenhum movimento. Eu comecei a me preocupar quando três Fabres foram atacá-lo e eu não iria ter tempo de reação. Porém, ele me surpreendeu, sacando rapidamente a faca da bainha, mutilando as Fabres como se fossem feitas de papel, e guardando a faca na bainha em seguida. Olhei para as Fabres que eu matei e as que ele retalhou. Com um golpe, eu praticamente fiz explodir uma larva, mas com um corte dele, três Fabres foram dividas ao meio em segundos. Ele realmente me deixava intrigado, até que eu decidi acabar com tudo aquilo de uma vez e saí pelo meio das Fabres, cortando e dilacerando seus corpos. Fui descuidado e fui cercado por muitas, tantas que eu não conseguia me defender de suas mordidas e arranhões.
Essa espécie é fraca e pouco resistente, porém, junte várias delas e você vira a sopa da mosca, ou melhor, da larva. Elas tem um hálito ácido, que por onde mordem, vai derretendo aos poucos, e eu via minha roupa sendo rasgada e consumida pela acidez da mordida deles. Senti a morte por perto, até que Seyren reagiu, passando por mim e pelas Fabres, brandindo seu braço com extrema rapidez e precisão, separando as larvas de mim.
-Você está bem? – Ele se aproximou de mim, caído de bruços no chão, e com tamanha vergonha que eu tinha por ter sido salvo, me levantei rapidamente e mesmo com as dores das várias mordidas ácidas das Fabres, chutei no meio das pernas dele.
-NINGUEM ME SALVA! – Eu chutei forte, o fizele erguer-se do chão, com os olhos lacrimejando e as mãos segurando seus genitais recém batidos. Ele não gritou, apenas segurou sua boca e fechou os olhos, caindo de joelhos. Eu caí também a sua frente, e percebi um forte movimento no ar, então senti sua mão fechada dar um forte impacto no meu rosto. Foi um golpe violento, que mesmo ele debilitado, conseguiu desferi-lo, me deixando atordoado e com uma grande dor no maxilar. Eu esperei passar um pouco a dor na minha face, para poder encará-lo. – Desculpe, eu não devia ter feito isso. Te devo uma.
-Não esquenta. Também sou sangue quente, mas afinal, somos amigos não somos? – Ele perguntou com uma sinceridade assustadora e aparente. Eu fiquei mais atordoado que novato levando um Golpe Fulminante. Esqueci das dores, esqueci da caverna. Amigo? Eu agora tinha um amigo? E o mais impressionante é que eu nunca pensei que um garoto como ele não tinha amigos. Meu rosto devia estar meio inchado, pois eu sentia o pulsar do sangue na minha face, e Seyren ria da minha cara. Nós nos levantamos e nos encaramos. Olhamos ao redor, e vimos que havia mais Fabres se aproximando, e ao fundo do caminho, em uma pequena fenda, uma luz azulada brilhava. – Lá é a saída. Enfim, vamos acabar com isso tudo.
-Sem dúvida, meu caro, sem dúvida. – Finalmente eu estava animado. Seyren se mostrava da mesma forma, e senti que ambos confiávamos um no outro. Ele foi meu primeiro amigo de verdade, e nós começaríamos nossa jornada rumo ao caminho da espada. Meu coração batia forte, dava pra sentir a pulsação por todo o corpo, e minha mão suava ao segurar a pequena faca de combate, mas ela se tornava pesada e a poderosa com meus golpes, assim como o aprendiz de olhos rubros também fazia uma dança de sangue com sua arma. Matamos mais algumas larvas, gargalhei ao ver o sangue verde cair na boca de Seyren e ele ficar enjoado, e acima de tudo, conseguimos chegar até o portal final. Nossa teleportação foi rápida, e logo estávamos na frente do Mestre Espadachim que nos mandou para o teste, na sala secundária. Percebi de relance que uma garota passava pela porta atrás dele, e era a mesma aprendiza que morrera pelos Fabres antes. Eu estava de boca aberta, e Seyren me deu um tapinha nas costas.
-Você não sabia que se algo acontecer lá em baixo você retorna? – Ele me olhava rindo de minha ingenuidade, enquanto o Mestre sucumbia a tal história, caindo aos risos, me deixando ruborizado.
-Não me diga que nunca soube da existência da magia protetora? Que tolo. Porém, vocês chegaram ao final. Formam uma grande equipe. — O Mestre sentou-se em uma cadeira que estava escorada na parede e olhou para nós dois. – No armário aí do lado, tem algumas roupas limpas e novas. Vocês vão poder usá-las de agora em diante.
Nós nos dirigimos até o dito armário, onde havia camisetas mais grossas, calças com suspensórios, botas, sobrepeliz e luvas de couro. Realmente, nos vestíamos naquele momento como Espadachins, e isso deixou o Mestre Espadachim feliz de certa forma. Ele se levantou e se aproximou de mim e Seyren, colocando suas mãos em nossos ombros, olhando para nós com um ar animado e descontraído.
-Bem, meu bebê, Shurank esta na casa de meus pais neste momento, o que me da um bom tempo para treinar. Mas acho que treiná-los será mais divertido, o que acham? – Aquele convite me deixou animado, e eu aceitei na hora, levantando a mão e gritando como um louco. Mas Seyren não se mexeu, apenas ficou sério. O Mestre olhou fundo para ele, encarando-o por um bom tempo, até que Seyren sorriu e estendeu a mão.
-Será uma honra. – Com a oferta aceita, aquele homem em nossa frente sorriu e apertou a mão de Seyren. Ele nos deixou na sala, para pegar suas coisas em seu alojamento, enquanto eu e o formado Espadachim Seyren riamos e contávamos vantagens por nossas novas classes. Claro, eu continuava indiscreto.
-Sabe, agora que sou um Espadachim, vou caçar por um tempo, para poder conquistar as mulheres mais bonitas do mundo todo. – Minha empolgação era tanta, que meu ego só foi sufocado por uma pergunta indevida do meu novo amigo.
-E o que fará no futuro? Depois que treinarmos com o Mestre Espadachim? – Ele estava tão empolgado quanto eu, mas para mim, parecia que ele queria antecipar o futuro, para poder enfrentá-lo. Eu respondi com sinceridade, como eu queria que meu futuro fosse nobre.
-Quero ter transando com no mínimo cem mulheres. – Eu nunca fui bom com as palavras, como pode ser percebido. Ruborizado, o garoto de olhos rubros balançou a cabeça negativamente, e andou até uma janela na sala secundária. Ele colocou as mãos no parapeito da janela, olhando o pôr-do-sol por ela.
-Quero ser um Cavaleiro um dia, e ajudar as pessoas, principalmente a minha terra.
-E de onde você vem? – Minha pergunta não foi respondida com palavras, e sim pelo próprio ato. Seyren suspirou e sua face ficou mais séria. Provavelmente para mim, e depois de alguns anos as suspeitas se mostraram verdadeiras, ele vinha de Lighthalzen, onde o povo vivia em constante conflito, pois a economia de lá era centralizada, o que gerava alto lucro para o centro da cidade, mas no distrito mais longínquo as favelas dominavam a paisagem. Pensei se ele fosse da área nobre da cidade, mas não consegui perguntar naquela hora, pois o Mestre voltara com alguma bagagem, e depois, saímos com ele para uma longa jornada.
Esse foi um grande marco na minha vida, pois iniciei minha caminhada nas artes da espada, possuía um professor, e mais que isso, tinha agora um amigo, um valioso companheiro. Nossa viagem durou anos, passando pelas diversas cidades de Rune-Midgard. Nós nos fortalecemos muito, mas chegou um dia que tivemos de ir por caminhos diferentes. Passou-se três anos, e enfim, eu voltei para Prontera, enquanto Seyren foi para sua cidade natal, Lighthalzen. Nós havíamos crescido como espadachins, e já era hora de superar essa classe.
Vou parar de escrever por aqui, pois agora estou indo para Juno, em uma missão pela coroa de Prontera, e depois partirei para Lighthalzen. Talvez em minha viagem eu escreva mais, como a segunda coisa que mudou a minha vida, que foi a minha família, a união de Seyren e Margareth e sobre nossos novos e complicados caminhos. Espero que Seyren esteja bem, já faz duas semanas que não tenho notícias dele, mas ele é um excelente guerreiro, aquele em quem eu me baseio para ser um ser humano melhor.
Até logo, querido diário...
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