Mortos. Essa era a palavra que nos definia naquele momento. Caminhávamos lado a lado pela Avenida Paulista que agora parecia cenário de filme de terror, o metrô não funcionava e as lojas estavam fechadas. Caminhamos em direção ao Plaza da Paulista.

– Acho que estamos perto. — disse ofegante.

– Espero, já passamos pelo museu e nada. Argh! — sussurrou Giovanna.

– Provavelmente mais um quarteirão e estaremos lá. — Willian disse à frente.

– Sinto falta da minha moto nessas horas. — Everthon entristeceu.

Finalmente alcançamos o shopping, era grande e espelhado com alguns carros na frente.

– O que exatamente viémos fazer aqui? — perguntei.

– Pegar algumas... coisas. — respondeu Willian.

– Vamos entrar, antes que mais daquelas coisas apareçam. — eu disse.

– Calma, eles apenas aparecem em maior quantidade durante à noite. — rebateu Giovanna.

– Espero, vamos entrar. — disse Everthon.

Adentramos na parte da frente do shopping, o saguão estava vazio e pouco iluminado. Penso que os geradores ainda estão ligados, mas logo mais, não vão.

– Hum... Alguém sabe onde fica a praça de alimentação? — perguntou Everthon.

– Cara, não é hora para isso. Aguenta mais ai. Depois que pegarmos tudo, poderemos buscar algo para comer. — disse Willian enquanto ia em direção às escadas rolantes. — Venham comigo!

Subimos até o piso superior, local onde se encontravam várias lojas de artigos esportivos e quiosques.

– Será que não há mais daquelas coisas por aqui? — perguntou Giovanna.

– Provavel que sim, vamos ficar de olhos bem abertos. — respondi enquanto passava a mão no cabelo.

– É logo ali na frente, venham. — chamou Willian.

Corremos para alcançá-lo, ele andava rápido e parecia animado para fazer algo. Encontramos ele na loja "Fabris", uma loja que vendia tudo que se pudesse imaginar.

– Hehehe, peguem isso. — disse Willian enquanto jogava para mim uma mala pequena com algumas... raquetes? Sim, raquetes. Aquelas tipo, de jogar tênis.

– O que é isso? Raquetes elétricas? — perguntei.

– Na lata! Sim, testaremos em zumbis, quem sabe né? Agora venham. — disse Willian.

O seguimos pelos corredores calmamente enquanto observávamos os itens nas prateleiras.

– Acho que aqui é só. Vamos! — Willian saiu da loja e o seguimos até o corredor do shopping novamente. — Uou, que demais! Uma loja de armas!

– Que foi saqueada. — respondi em tom de desanimo.

Entramos na loja e verificamos as prateleiras: nada. Olhamos as vitrines: nada. Resolvi ir até a sala dos fundos verificar se havia algo, tive que forçar a porta para ela abrir e então, entrei. Estava um pouco iluminada, e eu conseguia enxergar muito bem. Fui até a mesa e abri as gavetas: nada além de papéis. Abri um armário no canto da sala e não havia nada nas prateleiras de cima. Olhei em baixo e havia uma mala preta grande com desenho de um triângulo, me abaixei e abri. De primeira, não vi nada além de papel e então quando olhei mais fundo, vi que não era apenas isso.

– Droga! — sussurrei.

Havia uma RPG de verdade ali, aquela arma super demais que explodia veículos e tudo mais. A tirei da mala e a observei: havia o número 38326635 desenhado em ouro na parte inferior.

– Isso vai ser útil nessa altura do campeonato. — eu disse animado. — Pessoal, venham cá!

Giovanna veio correndo em menos de seis segundos e atrás dela vieram os outros

– O que foi? — perguntou ela nervosa.

– Olhem só o que o papai achou. — mostrei a eles a RPG intacta.

– Droga, cara. Como assim? Mas como? — Willian perguntou.

– Alguém queria esconder isso aqui de todo mundo, pelo o que parece. — rebati. — Isso pode ser bem útil. Vou dar mais uma olhada, encontro vocês lá fora.

– Tudo bem. — disse Everthon feliz.

Eles deram meia volta e saíram da sala, fechei a porta e guardei a RPG na mala que podia ser carregada nas costas. Continuei olhando a sala, peguei alguns papéis ao chão e li alguns nomes. Planos de viagem, viagens para outros continentes e etc. Soltei os papéis de imediato quando ouvi sons vindos da loja, algo me dizia que tínhamos companhia. Observei pela brecha da porta: dois homens de capuz e roupas pretas com o logo da SWAT estavam escoltando meus amigos para fora da loja

– Ei, nos larguem! Não fomos mordidos — gritava Willian enquanto era levado por um soldado.

Eu não podia ver aquilo e não fazer nada, observei atrás do armário: havia um cassetete de polícia médio daqueles que os polícias usavam nas ruas. O peguei e abri a porta, sai abaixado e me abriguei numa vitrine que ficava no meio da loja. Enquanto os soldados saíam pelo corredor, me levantei com o cassetete em mãos e corri na direção do soldado da direita: o atingi na cabeça e ele caiu em cima de um lixo, antes que o segundo soldado pudesse notar, o atingi nas pernas e ele cedeu. Dei dois golpes na cabeça e ele apagou de imediato.

– Cara, essa foi por pouco. — disse Everthon.

– Obrigada! Pensei que seríamos levados por esse nojentos, mas afinal, por onde eles vie.... — antes que Giovanna pudesse terminar a sua frase, vimos luzes vindo do final do corredor e vozes.

– Corram, para aquela direção! — eu disse. Ajudei Willian a levantar e o segurei em volta do pescoço enquanto corríamos. — Por aqui! Rápido — apontei para uma saída de emergência que levava até o telhado. Subiamos as escadas rapidamente e chegamos ao telhado. Soltei Willian e a mochila atrás da parede da escadaria, e corri até a beirada com Everthon: estavámos muito alto, era suícidio na certa tentar algo naquela altura e não haviam prédios ao redor para que pudéssemos pular e fugir. Giovanna foi até o outro lado do telhado e observou o horizonte

– Uma tempestade está vindo. — Ela foi calmamente em direção a Willian, mas na mesma hora, dois soldados subiram as escadas e apontaram as armas para mim e Everthon.

– Mãos aonde eu possa ver! — gritou o primeiro soldado.

– Nem tentem nada, ou iremos atirar sem piedade. — gritou o segundo. — É o fim!

– Opa, calma amigo. — levantei as mãos.

– Vamos convesar. — disse Everthon.

– Nada disso, não vamos cair nessa. Vocês foram mordidos e irão ser eliminados como ordem do governo. — disse o primeiro soldado.

Giovanna na mesma hora sacou seu arco e suas flechas, e antes que pudéssemos piscar ela atirou na cabeça do segundo soldado. O primeiro, sem entender o que estava acontecendo, olhou para cima procurando de onde o tiro tinha vindo. Antes que ele notasse que Giovanna estava atrás dele, ela atirou na sua cabeça e ele caiu morto. Giovanna correu para abraçar eu e Everthon.

– Estão bem? — ela perguntou.

– Melhor agora — respondi. Ela riu.

– Sem dúvidas! — Everthon balbuciou.

Ouvimos um som de tiro próximo a nós. Olhamos para Willian assustados. Sem que nós percebêssemos, um soldado havia entrado no telhado e ido até Willian, que agora caiu de joelhos na frente do soldado. Ele tinha as mãos no peito agora, e alternava os olhares entre nós e a sua mão ensaguentada.

– NÃO! — gritei.

Giovanna atirou com seu arco no soldado que caiu morto antes que pudésse sequer, fazer algo. Corremos até Willian que agora estava deitado com a mão no peito.

– Dor.... — sussurava ele. — muita dor...

– AGUENTA CARA, AGUENTA! SEJA FORTE ASSIM COMO VOCÊ FOI QUANDO QUEBROU O BRAÇO COMIGO, LEMBRA? — eu dizia rapidamente.

Everthon havia tirado a sua camiseta enquanto a usava para estancar o sangue da barriga dele. — Aguenta, vamos buscar ajuda! — ele dizia.

– Cara, não fecha os olhos! Fica acordado! Olha para mim, ei, olha aqui para mim. — soltei um sorriso falso e frágil. — vai ficar tudo bem, ok?

Porém, qualquer tentativa era inútil. Era inevitável o que vinha a seguir, ele havia perdido sangue demais. Willian deu o seu último suspiro.

– CARA ACORDA! POR FAVOR, ACORDA, VOLTA! — gritei.

Everthon me segurava agora enquanto eu me debatia e tentava me soltar, porém inutilmente. Giovanna se aproximou dele, fechou suas pálpebras e beijou a testa dele. Enquanto eu chorava e gritava, ouvi sons de helicópteros vindos do norte.

– CORRAM! — Giovanna gritou em quanto os helicópteros começaram a atirar em nossa direção. Everthon me empurrou pra dentro da área coberta da escadaria.

– Sinto muito, sinto muito mesmo eu gostava dele. — Everthon disse.

Limpei as lágrimas na camiseta e falei:

– Tenho uma idéia. Evethon, preciso de cobertura enquanto pego a mala preta.

– Certo! — ele disse enquanto saia da pequena sala.

Everthon correu por todo perímetro do telhado, e o helicóptero o seguia tentando matá-lo. Sai da sala e fui até a mala, tentei não reparar no corpo de Willian que ali estava. Abri a mala e tirei a RPG e chequei as munições: dois tiros.

– Certo, vem para o papai, vem! — mirei a RPG no helicóptero que agora vinha em minha direção e atirei. O tiro foi certeiro, atingiu a parte da frente do helicóptero que entrou em chamas enquanto passava rente ao telhado e caia na avenida.

– Surpresa, otários! Isso foi por ele. — apontei para Willian. — QUEIMEM!

Soltei a RPG no chão, que agora estava super quente. Giovanna e Everthon correram até mim, Everthon estava ofegante de tanto correr. Abracei os dois e observamos o helicóptero queimar lá em baixo. Soltei-os e fui até Willian, sentei ao lado dele e comecei a chorar muito. Giovanna e Everthon sentaram na beirada do telhado e observaram o sol no horizonte. Naquele momento, uma pessoa normal em tais circustâncias estaria pedindo para tudo isso acabar e voltar pra casa. Eu só queria o meu amigo de volta.