Diário de 83
23 Queria Poder Dizer a Verdade
Notas iniciais
Encino, Califórnia – 14:22 hrs
1 de julho, 1983
Diário, diário… Mal começou o mês e já iniciou caótico.
Michael estava se preparando para mais um daqueles eventos, porém, dessa vez, a gente não poderia ir com ele. Eu estava a pouco de protestar, mas ele tinha bons argumentos. De qualquer forma, foda-se, poucas daquelas celebrações eram realmente importantes pra carreira do A-ha. Paul, Magne e eu estávamos ensaiando algumas das nossas músicas no último andar, num espaço cedido por Michael, quando ele apareceu abotoando o casaco brilhoso que usaria.
— Desculpe interromper, vocês estão indo muito bem — ele olhou pra mim. — Morten, tem um tempo?
Eu o segui para fora da sala. Paramos nos corredores, um pouco longe da porta. Eu me encostei na parede e joguei o meu olhar perdido na direção dele.
— O que foi?
Sorri muito fracamente.
— Mais um evento que a gente não vai junto…
Ele suspirou.
— Oh, boy… sim, é verdade, os convidados são estritamente selecionados, e… bom… Desculpa…
— Me diz uma coisa… — levei as mãos aos bolsos e relaxei os ombros — isso não é porque eu sou branco… é?
Ele desviou o olhar do meu e umedeceu os lábios. Bingo!
— Tá bom, já entendi. Convenção exclusiva da Black Radio…
— Não seja bobo, não é isso. É um evento mais reservado, não consegui encaixar vocês. Mas eu prometo que vou compensar…
— Ei… — eu sorri — Mesmo que seja isso, tá tudo bem. Eu gosto de um cara, que por acaso é negro, e eu só queria estar com ele durante o dia, mas tá tudo bem, eu respeito essas coisas.
Ele suspirou novamente, parecia um pouco envergonhado. Eu sinceramente não estava chateado, e eu queria que ele soubesse disso.
— Desculpa... eu prometo que vou compensar.
— Vai compensar saindo comigo. Lembra do que você disse mês passado?
— Lembro. Eu prometo. Podemos sair dia dez, acho que não vou fazer nada nesse dia.
— Feito…
Levei as mãos até sua cintura e o puxei pra perto. Michael também levou as mãos à minha, aproximou os lábios do meu pescoço e estava pronto pra dar aquele beijinho rápido, mas a dona Remy chegou naquele momento. Ele foi o primeiro a perceber, porque me empurrou com tanta força que eu meti as costas na parede!
— Aê!
— D-dona Remy! Er, o que foi?? Digo… aconteceu alguma coisa?
Ela olhou pra nós dois com um sorrisinho de canto a canto, era óbvio que a velha tinha visto alguma coisa. Contudo, se viu, não disse nada.
— A sua irmã La Toya está lá embaixo, senhor.
— “Michael”, dona Remy, “Michael”. Não precisa ser formal — ele riu timidamente, meio desconcertado. — Ahm, Morten, vamos descer? Eu ainda preciso te dizer uma coisa.
— Sim, senhor.
Eu sorri de canto ao ver a dona Remy segurando uma risada. Michael me puxou com tanta força que eu custei a duvidar que era ele mesmo naquele corpinho magrinho, seguimos até as escadas e paramos no primeiro andar antes de irmos ao térreo ver a maluca.
— Não faz mais essas coisas nos corredores, as pessoas podem pegar a gente.
— Você gostou e foi atrás, a culpa é metade sua.
— Se você parar de provocar, vai ajudar bastante — ele suspirou e cruzou os braços. — Não vou demorar, irei chegar logo. Você tem algum compromisso hoje?
— Não, o meu próximo compromisso é pra setembro, vamos fazer o show que vai decidir o rumo das nossas vidas.
— Ah, sim, você me disse… — ele mordeu os lábios — tem certeza de que não quer ajuda na divulgação? Eu posso ajudar vocês com o que precisarem…
— Obrigado, baby boy, mas os caras e eu precisamos fazer isso sozinhos. Se a gente não sair da sua sombra, quer dizer que não fomos mesmo feitos pra isso.
Ele assentiu.
— Tem razão. Isso é muito corajoso.
— Ei!
Viramos nossos rostos e vimos Paul e Magne no fim da escadaria. Eles desceram para nos encontrar.
— A gente precisa do nosso cantor de volta.
— Ele vai pro evento?
— Quem me dera… É a Black Radio. Quando alguém criar a “Viking Radio”, nós vamos.
Eu disse, eles gargalharam em seguida.
— Isso me lembrou quando fomos na Ebony, a gravadora lá em Londres — disse o Mags.
— Por que diabos vocês foram na Ebony? — indagou Michael, rindo em seguida.
— Já imaginou o que aconteceu, né? — eu comentei, aos risos — Como é que a gente ia saber que era uma gravadora de black music? Disseram que poderíamos pisar lá na próxima reencarnação.
— Eles humilharam a gente. Mas hoje isso é engraçado…
— MICHAEL!!
Nós quatro levamos um susto. Uma voz esganiçada surgiu da escadaria para o térreo, e, é claro, só podia ser de quem?
— La Toya… — Michael suspirou — eu nem sei o que ela tá fazendo aqui, era pra nos vermos apenas na convenção.
— Melhor a gente ir. Vamos, Morten? — Paul chamou.
Eu suspirei e dei uns tapinhas nas costas do moreno.
— Boa sorte.
Seguimos subindo as escadas até que as pisadas e as vozes dos irmãos Jackson fossem meras lembranças. Aos poucos tudo ficou em silêncio, os carros escuros lá fora se dispersaram, era apenas eu, os caras e os funcionários, cada um fazendo o seu trabalho. Nós voltamos a tocar, Paul queria testar meus vocais para “Take on me”, e pelo visto estava satisfeito em me ver alcançando as notas altas sem muita dificuldade. Demos uma pausa de 5 minutos e eu fui beber uma água.
Me sentei em um banco e passei um pouco daquela água no meu rosto. A casa do Michael era bem confortável, mas escolhemos desligar o ar-condicionado para não atrapalhar o nosso som, e com isso a sala se tornou uma estufa infernal. Eu definitivamente não estava acostumado com aquele tipo de verão, os verões noruegueses eram bem menos agressivos. Aproveitei aquele tempo não somente para descansar, mas para revisar a música que eu havia escrito. Eu já havia escolhido até mesmo o dia que iria cantá-la… Seria dia 10.
— “O a-mor é a ra-zão”… “tam tam tam”...
— Tá fazendo o quê?
Tive um mini infarto nesse momento. Suspirei e fiz um movimento negativo com a cabeça.
— Nada…
— É uma música. Foi você quem fez? Eu posso ver? — indagou Paul.
Na verdade eu não queria que ele visse, era algo íntimo, mas não posso negar que uma ajuda do Paul seria interessante, ele compõe a mais tempo que eu.
Cedi o papel com um pouco de mal gosto. Ele pegou e leu.
— Uau… é boa. Já sabe o fundo harmônico dela?
Em silêncio, peguei o violão mais próximo e o posicionei, em seguida comecei a tocar. Fui fazendo sons de guia com a boca, em tons mais baixos, pra que eu mesmo pudesse me acompanhar.
— “O a-mor é a ra-zão”… “tam tam tam”...
— Quem foi o brotinho que te inspirou?
Eu soltei uma risada de canto. Não era uma risada de alegria, tinha um pouco de revolta… Queria poder dizer a verdade, eles são meus melhores amigos, mas tem certas coisas nessa vida que eu não quero pagar pra ver.
— Não é da sua conta.
— A música é boa. Por que não coloca ela no nosso álbum?
— Não, não… Ela é um presente, cara. Eu fiz pra… uma pessoa. Eu só vou colocar se essa pessoa permitir.
Ele assentiu.
— Eu te respeito por isso. Se quiser ajuda… Acho que ela ficaria muito boa no teclado do Magne.
Eu olhei pra ele por alguns instantes. Era isso que eu estava pensando… um pouco de synth pop. Nossa, como Michael odiaria… já imagino aquele sorriso bobo no rosto, incrédulo que, apesar dos protestos dele, eu ainda sim havia criado um synth pop pra ele. Era o toque que faltava.
— Quero. Eu quero ajuda.
Paul sorriu e buscou o Magne com o olhar.
— Ei! Mags, vem ver isso…
Depois de alguns instantes deliberando, estávamos decididos de que gravaríamos aquela música. Paul e Magne tinham namoradas, eram dois melosos e românticos, sobretudo o Paul que já estava decidido até mesmo a mudar o próprio sobrenome quando se casasse, então eles passaram a me dar as mais diversas ideias pra presentear o meu “brotinho”, e uma delas era gravar aquela música e dar a fita de presente. Eu só queria cantar, mas fui na onda deles, os caras pensavam alto. Eu não sei se ia surtir no Michael o mesmo efeito que surtiria numa garota, contudo não custa tentar.
— Tá disposto a dirigir, Mags? Tem um estúdio em West Hollywood que eles me deixam entrar.
— Vamo lá! Pelo menos é algo a se fazer nesse dia chato.
Eu sorri e assenti. Pegamos as chaves do Michael e partimos.
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