Diário de 83

24 O Amor é a Razão


Notas iniciais
Já vou avisando que esse capítulo é bem tristinho.. Boa leitura! ♥

Encino, Califórnia – 10:14 hrs

9 de julho, 1983

Quando Michael estava no condomínio, aquelas paredes entoavam música. Sério, éramos quatro músicos, era impossível haver silêncio naquele lugar! Ou o Michael estava dançando em uma das salas, ou os caras e eu estávamos tocando. Aquilo me deixava mais ansioso para o dia 10, e parecia que quanto mais perto ficava, mais lento o tempo passava. Eu estava ansioso para presentear o Michael com a coisa que ele mais amava nessa vida: música. Mas, naquele dia, as coisas estavam diferentes, e isso me preocupou.

Michael passou a manhã fora e não me disse pra onde iria. Ele nem tinha essa obrigação, porém era um comportamento estranho, dada a nossa cumplicidade. Àquela altura, Michael já me contava muitas coisas sobre sua rotina, sua vida profissional, então, pra que ele não me contasse, era algo muito pessoal. Resolvi esfriar a cabeça e fui ver o que os caras estavam fazendo.

— Vão aonde?

Eles estavam andando pra lá e pra cá. Paul pegou os óculos e o casaco, e o Magne pegou a própria câmera fotográfica.

— Eu vou mandar alguns presentes pra Lauren e pros meus pais — disse o Paul.

— E eu vou ver as galerias de arte de Los Angeles. Ah, falando nisso, posso pegar o carro?

— Vai com um funcionário. Se você bater, eu vou me foder — suspirei. — Porra, vocês vão me deixar aqui mesmo?

— Desgruda, cara, vai sair com a sua garota.

— Se quiser vir comigo, pode vir.

Vish, nem pensar. Não tô afim de ver aquelas obras de arte contemporâneas em corredores brancos e sem graça.

— Valeu, eu fico. Traz um brinquedinho pra mim.

Eu sei que o Paul entendeu a ironia das minhas palavras, mas havia um risco sério do Magne chegar com um presentinho de verdade, então eu resolvi avisar que era brincadeira antes de ver os dois irem embora. Assim que eles saíram, o condomínio voltou ao mesmo silêncio de quando eu estava sozinho e doente, no mês passado. Fui até o meu quarto e me joguei na cama, em seguida levantei um pouco o colchão e tirei de lá a fita cassete. Eu não embrulhei nem coloquei fitinha (muito coisa de fresco), acho que ele não vai se importar, mas preciso lembrá-lo de levar o walkman bonito e vermelho dele.

Ouvi a porta abrir.

Perdi quando o carro estacionou, meus pensamentos estavam distraídos naquele presente. Mas a porta… consegui captar o momento em que ela se abriu, em que ele entrou, consegui captar os seus passos; ele estava perambulando pelo térreo. Guardei a fita novamente e fui vê-lo, e o encontrei jogando o casaco na poltrona.

— Como você tá galã, hein? Pra onde foi?

Brinquei. Ele me olhou, parecia meio perdido, e então não falou nada. Pensei que eu pudesse ter dito alguma besteira, mas eu sempre brinquei com o jeito dele de se vestir, Michael nunca se ofendeu com isso. Olhei novamente para suas vestes, pensei que algo nelas poderia me dar mais informações: camisa social azul céu, colete azul marinho, um terninho formal. Definitivamente ele não havia saído ao trabalho, Michael era muito mais extravagante que aquilo. Aquelas eram peças normais.

— Michael… o que aconteceu?

Ele suspirou.

— Estou cansado, Morten. Eu… quero ficar sozinho.

Aquilo não era nada bom, mas, naquele momento, eu não podia fazer nada. Não, enquanto ele não quisesse.

— Tudo bem.

Ele se retirou, e, pela primeira vez, aquele condomínio ficou em silêncio, apesar da sua presença. Eu segui para o meu quarto novamente e me deitei; fiquei assim até o final da tarde. Paul e Magne não haviam chegado ainda, eu perdi muito tempo naquela cama, mofando, viajando nos meus pensamentos. Eu queria ajudar o Michael a qualquer custo, mas eu não podia obrigá-lo a querer minha ajuda, eu realmente senti o peso daquelas palavras quando ele me pediu pra ficar sozinho.

Eram umas 16:59h quando resolvi me levantar. Eu estava com o corpo dolorido, os olhos ardendo e uma dor de cabeça, sinais óbvios por ter ficado tanto tempo na mesma posição, olhando pro nada e pensando. Michael não cantou, não colocou uma música pra tocar, sequer caminhou pelos corredores; eu saberia se o tivesse feito, porque eu estava acordado até agora. Fui em direção ao seu quarto, ele só poderia estar lá.

— Michael…?

Pensei não ter ouvido nada, os corredores estavam silenciosos, as luzes do quarto estavam desligadas e a porta estava trancada, mas eu ouvi, no fundo, alguns soluços tímidos. Ele estava lá, e estava chorando.

— Michael, abre a porta. Me deixa falar contigo, por favor.

Os soluços pareciam mais altos, porém, em um segundo, cessaram. Tentei abrir a porta, sem sucesso, e suspirei de frustração.

— Por favor…

Ele continuou em silêncio. Eu não podia fazer nada, só se eu arrombasse aquela porta, o que estava fora de cogitação.

Mas então… ele acatou.

Abriu a porta e olhou nos meus olhos. Em silêncio, eu vi aqueles olhos escuros e marejados cintilarem o meu reflexo, eu pude sentir o peso daquele sofrimento. Eu não sabia o que tanto o machucava, mas eu queria estar lá para ele, eu queria ser o seu apoio. Entrei no seu quarto e fechei a porta; as luzes estavam desligadas, mas a janela estava aberta, permitindo entrar os raios de sol de um fim de tarde. Mordi os lábios e voltei a olhar pra ele, que já havia se deslocado para a própria cama. Michael se sentou na beira dela e eu fui para o seu lado.

— O que foi…?

Ainda sem olhar pra mim, ele custou a falar, mas prosseguiu.

— Hoje eu fui… eu saí com as testemunhas.

A princípio eu não entendi do que se tratava, porém lembrei dos nossos papos sobre religião, essa era a forma como as testemunhas de Jeová se denominavam. Eu já estava começando a desenhar pra que tipo de rumo essa conversa iria…

— A minha mãe… ela me chamou pra ir na casa de alguns irmãos. Eu ainda sou testemunha, eu não consigo imaginar minha vida fora do Salão. Eu tento trabalhar para que isso não aconteça, mas… é difícil. Eu fiz uma visita hoje, completamente disfarçado, e tirei os disfarces dentro da casa da moça. Ela desmaiou. Oh, man… eu não sirvo mais pra isso.

Ele levou as duas mãos ao rosto, aturdido. Eu passei a mão nos meus cabelos, sem entender onde ele queria chegar, temendo pelo pior. E então… ele continuou.

— Fomos à casa de uma mulher. Ela tem uma filha… uma filha problemática. Pelo menos, essas foram as palavras dela. Minha mãe ficou lá… falando… — as lágrimas dele começaram a correr, aquele momento da conversa me preocupou — parecia que estava falando comigo. A minha própria mãe. Eu…

— O que ela disse, Michael…?

Indaguei, tentando manter a minha voz baixa e serena. Eu não queria pressioná-lo, ele já estava sofrendo demais.

— Ela dizia coisas como… “não consigo imaginar a dor do seu coração” e “são pecados imorais e repugnantes, mas, apesar da decepção, se esforce para trazê-la aos caminhos de Jeová”... e… depois… — ele suspirou pesadamente — quando íamos embora, ela disse… “agradeço a Jeová por… não passar por isso”.

Fiquei em silêncio. Ele moveu a cabeça lentamente, em negação, e apertou os olhos para que suas lágrimas escorressem. Eu esperei que ele falasse mais alguma coisa, porém, dado o tempo em que ficou em silêncio, eu automaticamente completei o seu raciocínio.

— A garota gosta… de garotas… não é…?

Ele não respondeu, apenas juntou as mãos no colo, seu olhar permaneceu preso ao chão, seus olhos já não possuíam lágrimas para soltar. Era o que eu estava esperando.

— Michael…

— Eu não… não quero ser uma decepção, nem cometer pecados… repugnantes…

— Michael, olha pra mim…

— Não, não! — ele se afastou bruscamente — Morten, eu não…! Eu não posso! Não posso, eu já disse… Eu tenho a minha família, a minha mãe… eu tenho o Salão…

Eu já estava em um beco sem saída. Meu coração acelerou, mas eu busquei me conter, eu não podia explodir agora; eu o estava perdendo, e eu não queria isso em hipótese alguma, eu tinha medo disso.

— Michael, pecado é matar, é abusar, é roubar! Você está amando…!

— Não! Não, por favor… não me venha com essa conversa, não é a primeira vez que eu escuto essa conversa — ele queria chorar, mas já não havia mais nada para sair. Era possível ver o seu semblante cansado, e aquilo estava me machucando. — A minha mãe não pensa assim. E eu a amo. E eu não quero, Morten, não quero trazer essa dor a ela…

Engoli seco.

— Sua mãe vai te amar de qualquer maneira…

— Eu sei, mas ela vai sofrer…

Eu já não sabia mais o que falar, ele já estava decidido, não tinha quem o fizesse mudar de ideia. Mas eu sabia que ele não suportaria ignorar o que sentia por mim, e que isso iria machucá-lo como ele estava fazendo comigo agora. Eu não queria que as coisas chegassem àquele ponto, eu não queria… Eu depositei as minhas últimas esperanças na minha canção. Eu não queria entregá-la naquelas circunstâncias, porém meus planos precisaram ser mudados.

— Michael, eu queria… eu tenho uma canção…

— Não, agora não…

— Por favor, me escute! — eu me ajoelhei e me encostei em seu colo para não perder o contato com os seus olhos — Eu tenho essa canção… eu fiz pra você…

Ele fechou os olhos e umedeceu os lábios, em seguida soltou mais um daqueles suspiros pesados, enquanto negava silenciosamente. Eu prossegui, eu fui contra os sinais que o seu corpo me dava, eu precisava fazê-lo ouvir o meu coração.

"Minha respiração vem rápida…

E enquanto eu tomo uma iniciativa…

Você… se vira para partir…"

— Morten…

— Me escuta… me escuta…

Minha voz estava falha, meio embargada, havia um nó irritante na minha garganta, um nó que doía nas minhas cordas vocais, mas eu continuei com as forças que eu tinha.

"Farei… o que você quiser que eu faça.

Chorarei… ao mero pensamento de… de perder seu coração.

O amor é a razão

O amor é a razão

O amor é a razão… suficiente."

As primeiras estrofes se foram, e o seu olhar ainda estava vago, no nada, sofrendo com cada palavra proferida por mim. Suspirei, minha garganta doía, mas eu continuei, eu não pararia enquanto não desse a ele todo o meu presente.

“Minha moral está mudando rápido…

Eu te disse… que isso não duraria…

Você se vira e parte…

Serei… o que você quiser que eu seja…

Morrerei… ao mero pensamento de perder o seu coração.

O amor é a razão

O amor é a razão… suficiente."

Quando terminei, deitei o meu rosto em sua perna e me silenciei, queria aliviar a dor que sentia na minha garganta. Michael não me disse nada, permaneceu quieto, intocável, e aqueles minutos sem reação me pareceram horas. Sem olhar para ele, senti quando sua mão passou pelo meu cabelo, quando os seus dedos se aninharam às minhas mechas e puxaram em um carinho agradável.

— Morten…

Lentamente levantei meu rosto ao ouvi-lo me chamar. Ele se aproximou, eu fiz o mesmo, nos beijamos e, por um segundo, tive medo de nunca mais ter esse contato. Michael levou uma mão ao meu rosto e a outra passou a massagear minha coxa; aquele era o combustível que ele tinha para devorar minha boca sem nenhum pudor. Eu mordi o seu lábio superior com carinho, e puxei para deixá-lo com vontade. Ele avançou, sua língua buscou a minha na mesma vontade que os seus dedos tinham em apertar a minha perna, em tocar no que havia ali. Eu quis continuar, mas então ele desfez o beijo, sua boca tinha fome de mim. Seus lábios beijaram meu maxilar, beijaram o meu queixo e o canto do meu rosto até chegar em minha orelha; ele mordiscou um pedaço dela e lentamente se afastou.

— Ei… — ele sussurrou. Seus olhos grandes e escuros percorreram pelos meus, pelo meu rosto e pelos meus lábios — é a primeira vez que eu te vejo chorar.

Eu custei a entender aquilo, até levar a mão à minha bochecha e perceber que, no percurso das ações, eu realmente acabei chorando um pouco. O gosto da água salgada no meu rosto deve ter entregado.

— Dizem que… — eu suspirei e não consegui conter um sorriso besta — nórdicos são difíceis de demonstrar sentimentos. Uns corações de pedra.

Ele mordeu os lábios e sorriu muito fracamente, enquanto uma de suas mãos permanecia acariciando meu rosto.

— Você não é assim…

Ele não me deixou sequer pensar sobre aquela resposta, aproximou novamente e voltou a beijar minha boca. Eu já estava cansado de ficar na “maré baixa”, o empurrei na cama e deitei sobre o seu corpo. Michael jogou a cabeça para trás e relaxou as costas no travesseiro, enquanto me via grudar o meu quadril ao dele e entrelaçar nossas pernas, uma na outra. Tirei a minha camisa, sem me importar com o que realmente nós iríamos fazer, e vi o momento em que ele, ainda timidamente, roçou as pontas dos dedos pelo início da minha calça; seus olhos não largavam os meus.

Levei os meus dedos para debaixo da sua camisa, que não era mais o tal terninho formal, e o instiguei a removê-la. Michael não gostava de mostrar seu corpo, por mínimo que fosse, as manchas do vitiligo àquela altura já haviam tomado partes consideráveis. Mas, sinceramente, ele sabia que eu não me importava. Quando aquela peça veio abaixo, me debrucei sobre o seu corpo e beijei o seu pescoço até que o meu fôlego acabasse. Beijei os seus ombros, o seu tórax, senti a pele dele arrepiar. Michael soltava suspiros entre os meus beijos e continha gemidos baixos dos quais ainda tinha vergonha, gemidos esses que eriçavam todo o fio de cabelo do meu corpo. Ele descansou nos meus beijos por longos minutos, até se cansar e inverter as nossas posições com um movimento brusco e rápido.

Agora, ele estava sobre mim. Michael suspirou, tomou fôlego; aquele quarto estava quente como uma fornalha, a sua pele cintilava, seus cachos molhados respingavam o suor sobre a face, e isso era perturbadoramente excitante. Ele mergulhou no meu corpo, começou mordiscando o meu pescoço e ombros antes de me molhar com os seus beijos cheios de tesão. Quando seus lábios se aproximaram do meu rosto, eu mesmo tratei de buscar sua boca e devolver tudo o que ele estava causando em mim. Uma das minhas mãos estava relaxada ao lado do meu rosto, e ele resolveu segurá-la e entrelaçar os seus dedos aos meus enquanto nossas línguas brincavam uma com a outra.

Eu custei um pouco para perder o meu fôlego, eu tinha treinamento com natação, mas, quando chegou esse momento, soltei um suspiro profundo e olhei em seus olhos. Olhei dentro deles para ter certeza de que eu realmente queria pôr pra fora as palavras que estavam fincadas na minha cabeça.

— Michael… — sussurrei — se… se você quiser avançar… só se você quiser… eu também vou querer.

Ele não me respondeu, porém eu senti que ele havia entendido minhas palavras, pois seu olhar se fechou em uma expressão séria e decidida, uma expressão que, por um segundo, me deixou apreensivo; eu havia dado sinal verde pra que ele pudesse explorar o meu corpo sem nenhum pudor. Eu só podia estar muito doido da cabeça.

Mas então… um carro pôde ser ouvido do lado de fora, a porta do térreo se abriu.

Aquilo nos despertou imediatamente pra realidade! Michael me olhou assustado e eu devolvi na mesma intensidade. Nós pulamos da cama e trancamos a porta, isso nos daria tempo pra nos recompormos.

— Droga, tão cedo…

— Já são umas seis, eu acho… — ele murmurou — perdemos a noção do tempo.

— Desculpa, Michael, não era pra ter chegado a esse po…

— Shh… — ele foi até mim e segurou meu rosto com as duas mãos — Você melhorou o meu dia.

Levantei as sobrancelhas.

— Tá melhor mesmo?

— Sim.

— Mesmo, mesmo?

Ele sorriu de canto.

— Mesmo, mesmo.

— Você vai sair comigo amanhã?

— Eu… vou. Claro que eu vou. Não vou perder o nosso “dia dos caras”.

Nós rimos em seguida. Ah… aquilo foi como tirar um peso dos meus ombros. A conversa que ele teve comigo foi uma das mais pesadas, e eu duvido que ele a tenha esquecido completamente, mas, pelo menos, eu pude aliviar um pouco o seu fardo. Eu só quero que ele fique bem.

— Vai tomar um banho?

— Eu vou dormir, Morten. E… sinceramente, eu não quero tirar nada do que você fez em mim. Não agora.

Eu mordi os lábios, Michael às vezes pagava de inocente, eu tinha dúvidas se ele o fazia se propósito ou não, mas ele tinha um lado sexual que eu queria muito explorar e sempre me faltou coragem.

— Falando assim, vou me sentir culpado por tomar um banho agora de noite.

Ele soltou uma risada baixa.

— Se for ver seus amigos, eu recomendo. Boa noite…

Michael se aproximou e beijou os meus lábios, dessa vez contendo-se um pouco mais. Eu devolvi no mesmo ritmo e saí antes que alguém nos flagrasse e mais perguntas fossem feitas. Realmente, naquela noite, eu não falei com os caras. Fui direto pra minha cama, eu quis assim, quis dormir sentindo a presença dele em cada canto do meu corpo e dos meus pensamentos.

Notas finais
Próximo capítulo: As manhãs em Hollywood costumam ser agitadas e ensolaradas, sobretudo naquele verão. Acordamos cedo, eu quis ajudar a dona Remy com o café da manhã e, instantes depois, Michael se juntou à gente. Fizemos uma refeição leve, eu disse pra ele não comer muito e não disse o motivo, eu queria que todo aquele dia fosse uma surpresa. — Você tem walkman? — Tenho, por quê? — Leva ele. Você vai precisar.