Diário de 83
25 As Palavras Que eu Estava Esperando
Notas iniciais
Para Hollywood, Califórnia – 10:36 hrs
10 de julho, 1983
Eu dormi com as memórias do dia anterior, perguntando-me, caso não tivéssemos sido interrompidos, se realmente teríamos tido coragem de ir tão longe; perguntando-me se aquele olhar que ele me deu, sério e decidido, era o olhar de alguém que não teria se arrependido depois. A grande questão era que eu ainda me perguntava o quanto ele me amava… o quanto ele verdadeiramente queria seguir em frente com isso.
As manhãs em Hollywood costumam ser agitadas e ensolaradas, sobretudo naquele verão. Acordamos cedo, eu quis ajudar a dona Remy com o café da manhã e, instantes depois, Michael se juntou à gente. Fizemos uma refeição leve, eu disse pra ele não comer muito e não disse o motivo, eu queria que todo aquele dia fosse uma surpresa.
— Você tem walkman?
— Tenho, por quê?
— Leva ele. Você vai precisar.
— Pra onde a gente vai, Morten? Não é mais um daqueles seus “rolês” improvisados, não é?
— Dessa vez, não, pra sua sorte. Mas eu quero te pedir outras coisas… — seguimos para fora do prédio. Ele arqueou a sobrancelha e me encarou — A gente vai pra Hollywood, e você não vai poder dirigir na ida, então eu preciso de um carro e um motorista.
— Hum… — ele murmurou, desconfiado. Eu gargalhei.
— Confia em mim! Vou te vendar.
— Sério?
— Sim. É uma surpresa, cara! Pega o conceito de surpresa.
— Okay, okay, já entendi… Eu vou precisar me disfarçar? Vamos sair ao ar livre?
— Bem pensado, mas eu acho que só um casaco com capuz vai dar conta do recado. E usa um par de tênis ao invés dos mocassins.
— Não esquece que os meus fãs estão ficando mais experts em me estudar. Se alguma coisa der errado, pelo menos você já fica sabendo o possível porquê.
— Vai dar tudo certo, não se preocupa! Já fomos a rolês piores.
— Eu só vou saber no fim do dia — ele gargalhou e eu o acompanhei.
Seguimos até a “tímida” coleção de carros dele. Pra o que ele recebe, Michael ainda não tinha muitos, mas eu realmente acreditava que não demoraria muito para ele ter mais carros que pares de sapatos. Escolhemos o mais discreto possível, nada de limousines ou carros veneno, e adentramos rumo à Hollywood, guiados pelos meus comandos. Enquanto o motorista seguia pela pista, eu brinquei com aquela parede de vidro escurecido que ficava entre os bancos da frente e os de trás, apertando o botão de subir e descer; eu adorava aquele troço. Michael pôs os óculos escuros e ficou observando as minhas criancices, senti que ele queria participar da brincadeira, mas não era retardado como eu era.
— Eu adorava fazer isso quando comprei meu primeiro carro de luxo.
Eu sorri e apertei o botão para subir, definitivamente, até que o vidro obstruísse completamente a visão do motorista para os bancos de trás. Em seguida, voltei a olhar pra ele.
— Ei, tá fazendo o quê com esses óculos?
Brinquei; levei minha mão até o rosto dele e removi aqueles óculos, em seguida tirei do bolso do meu casaco uma venda preta. Michael mordeu os lábios, não conseguiu segurar o sorriso, e deixou que eu amarrasse aquela faixa nos seus olhos. Dei um laço firme, mas confortável, ele não reclamou.
— Tá vendo alguma coisa?
Ele negou em silêncio. O puxei pra perto de mim, eu era mais alto que o Michael, então foi mais fácil sua cabeça repousar no meu ombro que o contrário, e foi o que ele fez. Eu levei os lábios à sua orelha e a beijei com carinho, em seguida comecei a cantar em sussurros.
— “Me dê uma chance…”
Eu queria que ele se concentrasse na minha voz, pois eu sabia que o barulho das músicas infantis e dos gritos das crianças lá fora entregariam o passeio. Acho que Michael fechou os olhos, pois a cabeça dele pesou, seus ombros relaxaram. Continuei ali, cantando para distraí-lo.
— “Me aceite… Eu irei embora… em um dia.”
Chegamos. Bem como eu pensei… cheiro de algodão doce e pipoca, crianças gritando, músicas simples, ia ser difícil esconder aquele cenário dele. Pedi pro motorista parar um pouco mais longe, em seguida saí do carro com o Michael — que à essa altura já havia levantado o capuz — e o guiei até a entrada do parque. Ele suspirou profundamente, acredito que foi nesse momento que ele entendeu onde nós estávamos.
— I-isso é um…
— Eu prefiro que você me diga se é.
Desatei a faixa dos seus olhos e ele mesmo a puxou imediatamente. Seus olhos se iluminaram ao ver o tanto de cores, sabores e sons que haviam naquele lugar, naquele momento eu me lembrei das conversas que tivemos sobre infância e senti que não havia lugar melhor pra se estar com ele. Michael sorriu, caminhou em passos curtos, ainda sem saber bem para onde ir. Nesse momento, eu o instiguei a correr.
— Ei, vamos! Ou senão você vai perder o dia todo!
Michael gargalhou e seguiu ao meu lado, corremos pelo parque que nem dois idiotas abobados. Ele escolheu os primeiros brinquedos, eu só fui na onda até que ele se cansasse — o que, pelo visto, não aconteceria tão cedo.
— Eu quero ir em um bem rápido! Talvez, hum… a montanha-russa, e depois o tornado!
— Você quer transformar a gente em milkshake?
— Não seja chorão, a gente consegue! Depois, vamos no navio fantasma.
— Tem alguma motocicleta que fica girando no canto, pra mim, não?
Brinquei. Ele gargalhou.
— Isso é pra crianças de quatro anos, Morten. Você é um bebezão! E depois, sou eu que sou o “baby boy”.
— Mas e o carrossel?
— Carrossel é bem diferente de uma motocicleta girando no canto.
— É um monte de cavalo e pônei girando no canto.
— Suspensos em hastes presas ao teto, solitárias e nada seguras para crianças muito pequenas.
— Tá bom, tá bom, você ganhou…
Ele riu e deu um tapinha de leve no meu braço.
— Não tente me derrotar no quesito “brinquedos”, você não vai conseguir — ele desviou o olhar para um daqueles brinquedos rápidos e sorriu. Eu engoli seco, já vi que ia me foder. — Vamos ali!
— Ali ond…!
Ele me puxou e seguimos em direção ao “tornado”. Eu girei mais que roda de cassino, quase coloquei todo o café da manhã pra fora (e isso porque eu tinha comido só umas frutas). Michael segurou minha mão e me fez levantar os braços, mas não durou muito, eu me segurei na barras com uma mão e apertei a mão dele com a outra até aquela porra parar de girar.
Saímos completamente tontos.
— Eu juro que pensei que você gostasse de pônei, de carrossel, sei lá…
— Também gosto, podemos ir neles agora!
— Se importa se eu tirar umas fotos? Isso vai ser divertido.
Ele riu e negou com um movimento de cabeça.
— Vamos, Morten!
Ele me puxou novamente; Michael estava uma pilha de energia, parecia ter tomado uns seis ou sete copos médios de café seguidos, eu nunca vi esse cara tão agitado quanto agora! Fomos até o carrossel e eu tirei umas fotos, depois seguimos para o navio fantasma e, por fim, à montanha-russa, onde eu já estava mais preparado pra aquele momento. Tiramos um take legal na hora da descida, porém, quando saímos do brinquedo pra pegar a foto com a funcionária, ela fez o temido comentário…
— Uau, você parece o Michael Jackson.
— M-mesmo? Er… q-que coisa…
Legal, Michael, cê não sabe nem disfarçar. Peguei a foto no mesmo instante e notei que o capuz dele caiu naquele momento; isso daria um problema…
— Você não seria ele, né?
Ela brincou, e o Michael, novamente, não sabia o que dizer. Ele estava pronto pra negar, mas eu enfiei a foto no bolso e o puxei pra perto.
— Claro que ele não é. Se fosse, eu saberia. Tá me devendo dez pratas e até hoje não pagou.
— Eu juro que vou te pagar! — ele entendeu logo o meu plano e começou a ir na onda.
— Você vendeu Thriller! Se usasse um por cento daquele dinheiro pra me pagar…
— Eu vou vender um dos meus vários carros de luxo pra te pagar, prometo, e com juros!
Nós gargalhamos. A mulher, bem sem graça, sorriu, meio desconcertada, e voltou ao trabalho. Fizemos um “toca aqui” e fomos até o último brinquedo do passeio.
— Essa foi por pouco…
— Eu duvido que isso vá colar com todo mundo, é melhor a gente evitar esses brinquedos muito loucos.
— Okay, senhor Harket.
— Muito bem, senhor Jackson.
Eu sorri ao ver que ele riu timidamente com o meu comentário. Fomos até a roda-gigante pra finalizar o passeio; eu tinha planejado isso, seria lá que eu mostraria e ele o meu presente. Não seria uma surpresa tão grande, eu acabei precisando usá-lo ontem, mas torci para ser um momento especial de qualquer maneira.
Quando escolhemos o lugar, o brinquedo começou a funcionar e nos levou ao alto em um movimento sereno e agradável. Já bem distante do chão, eu olhei pra ele, o vi perdido na paisagem abaixo. Abri um pouco o casaco e tirei a fita do bolso.
— Cadê o seu walkman?
Michael lentamente tirou o aparelho do bolso da própria jaqueta. Quando se virou pra me ver, ele notou a fita na minha mão e arqueou a sobrancelha.
— É pra mim?
— Não sei…
Brinquei. Coloquei a fita no aparelho e os fones nos ouvidos dele. O passeio prosseguiu calmo, Michael ficou distraído na música, sorrindo besta em algumas ocasiões. Era louco o jeito como ele aproveitava a música… Ele balançava a perna no ritmo das batidas, às vezes seus dedos e seus ombros também as acompanhavam. Eu segurei o meu sorriso e deixei ele lá, ouvindo, enquanto olhava para outros pontos daquela vista enorme de Hollywood, como o famoso letreiro lá no horizonte…
Senti os dedos dele tocarem o meu braço. Me virei, o moreno removeu os fones e guardou o aparelho e a fita novamente.
— Gostou?
— Você esperava uma coisa diferente?
Eu dei ombros.
— Ah, achei que você ia odiar, você disse pra mim que odeia synth pop.
— Você fez uma música pra mim já esperando que eu fosse odiar?
— Na verdade, sim, mas eu sabia que a letra ia compensar.
Ele sorriu e negou em silêncio.
— Eu gostei. Foi o primeiro synth pop que eu gostei. Pode se animar com esse feito.
— Yes! — imitei uma comemoração extravagante, e ele riu com a brincadeira.
Ficamos em silêncio depois daquele momento. Michael segurava minha mão escondida nos bancos e, com a outra, apontava para lugares que já foi pela cidade.
— Os maiores estúdios ficam por lá. E ali é o melhor lugar pra se fazer compras. Ah, a calçada da fama fica ali, tá vendo?
— Você já tem uma estrela lá?
— Com os The Jacksons. Espero conseguir a minha logo.
— Que louco… Será que eu consigo uma, um dia? Ou melhor… o A-ha.
— Se você ficar por aqui, tenho certeza que sim — ele murmurou, em seguida umedeceu os lábios e desviou o olhar.
Eu olhei em sua direção, esperando que ele prosseguisse. De alguma forma, chegamos àquela conversa, e ficamos desanimados; eu sabia que eu tinha "prazo de validade".
— Ficar…?
— Sim. Eu sei que você não pode, mas… quando se estabilizar, talvez…
— Nah, eu vou grudar em você que nem chiclete, melhor ter cuidado com o que deseja.
Ele riu e apertou minha mão com carinho, em seguida suspirou. Eu estava para voltar a olhar a paisagem, essa era a nossa última volta no brinquedo, mas senti que ele virou seus olhos para mim. Eu deixei uma vista de tirar o fôlego para olhar naqueles olhos escuros, e, sinceramente, eu faria tudo de novo.
— Ei, obrigado… por ter feito o meu ano mais caótico, mais divertido.
— Eu não planejei isso, pode apostar.
Eu sorri. Ele assentiu, mordeu os lábios e não tirou o olhar do meu.
— Eu te amo.
Custei a acreditar que estava ouvindo aquelas palavras, porém, mais do que ninguém, eu entendia o peso delas, pois eram essas as palavras que eu estava esperando desde que me peguei apaixonado por ele. Michael continuou me olhando, desceu os olhos aos meus lábios, sabia que não podia me beijar, estávamos descendo, mas eu guardaria aquilo pra mim, eu retribuiria as suas vontades em um lugar onde não precisássemos nos esconder.
— Eu te amo…
Ele sussurrou novamente, mas eu não tinha voz para retribuir. Saímos do brinquedo e seguimos de volta para o carro.
x ----- x
Encino, Califórnia – 20:44 hrs
Paul estava ensaiando com o violão no próprio quarto, Magne já tinha ido dormir, então eu aproveitei e fui ver o Michael antes de aposentar aquela noite.
Dei duas batidas na porta e ele veio me atender. Ao me ver, me deixou entrar e trancou o lugar novamente.
— Você não está cansado? — perguntei.
— Não muito… Eu estava lendo As Mil e Uma Noites, eu adoro essas fábulas orientais.
Assenti em silêncio, na verdade eu estava seguindo minhas vontades no automático, não sabia o que tinha ido fazer ali, só sabia que queria estar com ele. Me sentei à beira da cama, Michael voltou a se deitar, apoiando as costas nos travesseiros e relaxando os ombros pra ler. Eu me inclinei e deitei ao seu lado, com a cabeça em seu colo, e ele passou a acariciar o meu cabelo.
— Desculpa…
— Pelo quê…?
— Por não ter devolvido o seu "eu te amo". Eu tava travado.
Ele sorriu de canto.
— Não fiquei chateado.
— Bom, quero fazer direito agora — me inclinei pra frente e olhei em seus olhos. Michael deixou o livro de lado e me deu atenção. — Eu te amo… Às vezes eu me pego pensando em como eu entrei nessa loucura.
— Me amar é uma loucura?
— Se é… e eu faria tudo de novo, Michael. É como se eu estivesse descobrindo uma parte de mim mesmo que sempre esteve lá.
Ele suspirou.
— Pra mim, essa é a pior parte. Não saber as coisas, não ter controle das coisas…
— E qual é a melhor?
Ele mordeu os lábios.
— Essa… — Michael se aproximou e beijou os meus lábios. Fechei os olhos imediatamente e desfrutei daquele carinho como se fosse a primeira vez.
— Eu adoro essa parte…
Ele riu com o meu comentário.
— Vamos dormir, Morten, você fica parecendo um zumbi de manhã por causa dessas noitadas.
— Só vou dormir se você cantar pra mim.
— O quê? Por quê?
— Porque sim, ué! Eu sempre estou cantando pra você, eu quero te ouvir um pouco também.
Ele me olhou por alguns instantes e disfarçou um sorriso vencido.
"Se perguntarem: por quê? Por quê?
Diga que é a natureza humana
Por quê? Por que… ele faz isso comigo?"
Ele cantou sem protestar. Eu adorava ouvir aquela voz em ação, e, sem os toques das gravadoras — apenas o puro soar da sua voz —, era uma das melhores coisas a se ouvir.
— Você já aceita, Michael?
— Aceito o quê?
Levei uma mão ao seu rosto, segurei o seu queixo e o beijei novamente.
— "Que isso é a natureza humana…" — cantarolei. Ele riu em seguida.
— Você está tirando a música de contexto, seu mané.
— Você escolheu justamente esse trecho, a culpa é sua.
Nós rimos na mesma hora. Michael fechou o livro e o colocou na mesa de cabeceira, em seguida se levantou pra desligar as luzes.
— Hoje foi o nosso melhor "rolê" – ele deu uma piscadela, e era engraçado como ele não sabia piscar direito, sempre o fazendo com os dois olhos. — Boa noite, Morten.
Eu sorri e devolvi a piscadela… do jeito dele.
— Boa noite, baby boy.
Fale com o autor