Notas iniciais
Boa leitura ♥

Encino, Califórnia – 15:03 hrs

4 de agosto, 1983

Hoje fomos à Hayvenhurst. Tem um tempo que eu não visitava essa mansão, já estava até com saudades daquele jardim cheio de flores silvestres. Contudo, naquele dia, a gente não foi tirar fotos dos canteiros; Michael nos levou ao seu estúdio particular, era mais próximo de nós se comparado ao único estúdio que tenho acesso livre, em West Hollywood.

Paul e Magne já estavam no mini estúdio com o Michael, só faltava eu pro grupo ficar completo. Eu estava atravessando o corredor quando me deparei com a tampinha.

— Ei…

— E aí, palmitão — Janet sorriu, vindo na minha direção. — Tá tudo bem?

— Tudo. Só atrasado, como de costume.

— Distraído com o novo catálogo de flores do jardim?

Arqueei a sobrancelha. Putz, tô deixando esse povo me conhecer demais.

— Acho que eu vou ter que te apagar.

Ela riu e fez uns movimentos de karatê com as mãos.

— Quero ver tentar! — brincou — E como estão vocês? Sabe… você e o meu irmão.

Ela pigarreou, pelo visto ainda não estava acostumada, eu sinceramente não a culpo. Levei as mãos aos bolsos e suspirei.

— Bem. Estamos bem.

— Legal.

Vish, o assunto morreu rápido, era o que normalmente acontecia quando se chegava nesse ponto. Mordi os lábios discretamente e tentei pensar em outra coisa.

— Então… quantos anos você tem agora?

Ela cruzou os braços.

— Como você esqueceu isso? Foi uma das nossas primeiras conversas! E acrescenta mais um ano do meu aniversário…

— Okay, okay… — nunca vi a Janet se importar com que eu soubesse disso. Pensando melhor… talvez fosse o jeito dela de me considerar. Eu não sei como essa baixinha gostava de mim, éramos um pé no saco um pro outro — vejamos… vai um, sobe sete, fica oito, aumenta cinco…

— Você tá de brincadeira…

— Você deve ter uns vinte e dois, vinte e três… — dei um sorriso cínico — Isso se eu contei certo, tô achando que tem uma margem de erro de pelo menos cinco anos a mais aí.

— Seu idiota! — ela deu um tapa no meu braço. Eu ri em seguida.

— Ai! Sua maluca!

— Fala sério!

— Dezessete, você tem dezessete, não é?

— Hunf… é, tenho.

Ela voltou a cruzar os braços, em seguida sorriu, vencida. Pelo visto, acertar aquela idade era muito importante pra nossa amizade. Vai entender, mas eu gosto dela.

— É que é tão diferente… vocês não comemoram aniversários, eu quase me esqueço que fizeram ano. O Michael já fez?

— Vai ser esse mês — quando ela disse isso, eu quase gelei.

— Esse? Drittsekk…

— Tá pensando em quê?

— Nada, eu não sabia. Quando vai ser?

— Dia vinte e nove. Vê se não esquece que a gente não comemora essas coisas, hein?

— Eu já sei o que eu vou fazer… — e o bom é que dá tempo, vai ser no fim do mês! Contive meus ânimos e falei o mínimo — Valeu, tampinha. Eu tenho que ver os caras.

— Vai lá… depois, me diz o que você vai fazer, tô curiosa — ela riu baixinho.

Com um aceno, nos despedimos. Segui em direção ao caminho externo que me levaria ao mini estúdio e lá encontrei Michael interagindo com os meus amigos. Entrei em silêncio e me sentei perto do Mags.

— O que tá rolando?

— Paul e o Michael tão se dando bem…

Arqueei a sobrancelha. Paul e Mags eram bem mais amigos entre eles que comigo, se conheciam desde pequenos, então ver o Magne de canto, observando a sala em silêncio enquanto o Paul brincava com a mesa de comando era uma cena bem estranha. Pior ainda era ver o Michael servindo de combustível pra isso.

— Eu tenho um jeito diferente de fazer minhas composições. Elas surgem do nada, eu tenho que estar preparado.

— Eu sei como é, eu também sou assim, a ideia vem de repente. Não gravo minha voz primeiro como você, eu começo escrevendo sobre o que eu quero falar, tipo um brainstorm, e depois penso no fundo harmônico.

— Tenho amigos que já tentaram me convencer a fazer as coisas desse jeito, mas não consigo, eu funciono de outra forma — disse Michael, rindo em seguida. — Morten sabe, ele já me viu compondo várias vezes. Estou trabalhando numa música…

Paul assentiu. Mesmo depois de citar o meu nome, nenhum deles olhou pra mim, nem mesmo cogitaram saber se eu estava na sala. Olhei para os dois de longe, meus braços cruzaram no automático, me encostei na parede e fiquei observando aquela dinâmica. Paul e Michael estavam sentados cada um na sua cadeira, próximos do painel de controle. O loiro tinha a própria guitarra no colo, e o moreno, apenas algumas anotações em papel. Até parece que eles se conheciam há anos, Paul sempre foi esse irritante que gosta de se autopromover, e o Michael, quase nunca dá pra saber se ele tá se fazendo de bobo ou sendo um de verdade. Ahrg!

Magne estava do meu lado. Ele chiou baixo e deixou um sorriso evidente, um sorriso que eu conhecia bem, e não esbanjava alegria.

— Ele fala do fundo harmônico como se ele fizesse isso… — Mags murmurou.

Pensando melhor, isso foi uma merda, como se Paul fizesse tudo sozinho. Eu voltei a olhar os dois conversando, em silêncio.

— Você trabalha em ritmo acelerado ou gosta de fazer lançamentos esporádicos?

— Eu não gosto de fazer música à rodo, até porque nem todas as minhas criações acho boas pra serem lançadas. Não sou igual a alguns artistas no mercado, que lançam tudo o que criam sem construir um pensamento crítico sobre si mesmos…

Putz, até já sei pra quem foi essa indireta. Paul apenas aquiesceu, duvido que ele tenha entendido. Tem um artista que está crescendo nas pesquisas daquele ano, e o nome dele é Prince. O cara faz música sobre um monte de coisa, mas sexo era o seu carro-chefe. Michael odiava como esse tipo de canção fazia sucesso, e eu só conseguia rir no meio do caos.

— Quais artistas fazem isso?

— Alguns, mas isso não é importante. Não seja como esses artistas, não produza lixo. Seja inteligente.

— Isso é interessante… A gravadora não te dá uns puxões de orelha se você fizer poucos lançamentos no decorrer dos anos?

— Depende. Se você traz excelentes resultados, eles não vão poder te dispensar — os dois riram. — Isso também depende dos acordos que você fizer com ela. Tá aí a importância de se ter um bom advogado e ler as entrelinhas.

Suspirei alto.

— Ei, Mags, amigão! O que você tá fazendo aqui, no canto? O Michael não te convidou pra conversar com ele? Te deixou de escanteio? Poxa, ele não é de fazer isso, não, viu? — eu disse em voz alta.

Paul e Michael se viraram pra mim e enfim me viram na sala. Mags ficou vermelho que nem um pimentão, e o Michael, bom, seu olhar incrédulo já dizia muita coisa.

— A quanto tempo você tá aí? — Paul perguntou.

— Sei lá… Eu tava conversando com meu amigo Magne Furuholmen, que passou perrengues comigo em Londres e agora veio aos Estados Unidos aprender mú-si-ca com um artista chamado Michael Jackson, que tá aí do seu lado.

Michael suspirou.

— Morten, para…

— N-não, gente, tá tudo bem. Olha, não tô com raiva, tá? Pega nada…

— Magne… é “Mâgne”, não é? — Michael se levantou e veio na nossa direção com aquele olhar de anjinho que me deixava puto.

— Aham…

— É difícil, mas eu pego a pronúncia rápido — ele riu casualmente. — Se você tiver alguma pergunta, quiser saber alguma coisa, eu vou falar com o maior prazer, tá bom? Não falamos muito sobre termos técnicos porque você me disse que veio de uma família de músicos, acho que isso era rotina na sua casa.

— Se é. O Paul estava cheio de perguntas, eu prefiro que ele vá na frente. Minha dúvida é mais sobre a indústria.

Eu revirei os olhos. Magne também não tava ajudando… usei ele um pouquinho pra ver se eu conseguia tocar no Michael, mas só me fodi.

— Falou. Pensei que, nessa hora, a gente ia ensaiar “Take on me”, o show tá na porta.

Drittsekk, é mesmo… — murmurou Magne.

— Você já sabe os vocais e alcança as notas, só vai fazendo os exercícios e treinando a voz. A gente pode ensaiar hoje à noite, não precisa ser aqui pra não incomodar a senhora Jackson.

Mostrei a língua ao Paul, que revirou os olhos e desviou o olhar. Michael interviu.

— Falando na mamãe, a essa hora ela com certeza deve estar procurando a gente, ela adora cozinhar algumas coisas para os convidados. Podemos retomar o assunto depois, Paul?

— Sim, com certeza.

— Legal. Vocês sabem onde é a sala de jantar. Podem esperar a gente lá?

Olhei pra ele e arqueei a sobrancelha. Paul e Mags entenderam o recado e saíram sem deixar rastros. Eles nem questionaram… esses caras gostam de ver o circo pegar fogo.

Assim que saíram, Michael cruzou os braços e se virou na minha direção.

— Mas o que é que você tá fazendo?!

Eu olhei pra ele por alguns instantes, completamente vencido. Suspirei, eu não sou garota pra ficar de joguinhos.

— Eu tô com ciúme, tá? É isso…

Levei as mãos aos bolsos, desviei o olhar e tentei relaxar os ombros. Michael me olhou por alguns instantes, eu vi o momento em que ele segurou um sorriso; eu sei, eu parecia um idiota agora. Ele se afastou pra ter certeza de que os caras se foram, e, quando se certificou, fechou a porta por dentro e se aproximou de mim.

— Ciúme de quê? Você acha que tem motivos?

— Sim, acho.

Eu nem pensei na minha resposta, meti um “acho” e foda-se. Ele me olhou mais um pouco e fez um movimento negativo.

— Eu dou muita atenção a eles? É isso? Você é bem emocionado, hein? Pra “coração de pedra”, ainda falta muito…

— Ah, Michael, dane-se…

— Vem cá…

— Não, me deixa em paz.

— Não deixo, não…

Ele riu, e então me puxou pelas duas mãos, entrelaçou os braços na minha cintura e me deu um selinho. Ele estava pra dar outro em sequência, mas eu deixei meu tórax ereto de propósito, o que o obrigou a esticar o próprio corpo pra alcançar os meus lábios.

— Seu idiota… — ele sussurrou, me dando outro beijo.

— Eu sei… eu sou mesmo.

— Que bom que reconhece — ele lentamente se afastou e levou as mãos à cintura. — Vamos? Eles estão esperando, minha mãe com certeza deve estar fazendo um monte de perguntas.

— A senhora Jackson nem fala tanto assim, ela é bem tímida até.

— Não depois de conhecer a pessoa — ele riu. — Vamos, vamos salvar seus amigos.

Eu sorri fraco, mas não deixei ele ver. Saímos em silêncio, ele foi na frente e eu o fiquei observando caminhar. Desde que os caras chegaram em Encino, eu nunca tive problemas na relação deles com o Michael. O lance não estava em ele dar atenção aos caras, mas na forma tosca do Paul falar sobre si mesmo e o jeito inocente de como o Michael alimentava isso. Contudo, talvez eu estivesse exigindo demais… talvez eu estivesse me esquecendo que o Michael quase não teve amigos na vida, e que conversar com gente da idade dele sempre o deixava embasbacado. Bom, não importa o que fosse, eu teria que me acostumar; se conheço bem o Paul, ele vai tentar arrancar todo tipo de informação que puder sobre a indústria da música, e não tem quem aguente. Sei que, uma hora, Michael vai precisar ser “salvo” dos meus amigos idiotas, e eu vou estar lá para protegê-lo.

Notas finais
Próximo capítulo: — Bom, você sabe que eu tenho um compromisso hoje, e eu consegui, de última hora, encaixar vocês três. Vai ser uma experiência interessante. — Espera… você conseguiu?? Ele aquiesceu, estampando aquele sorriso vitorioso. — O que ele conseguiu? — Paul indagou. Nenhum dos caras sabia, Michael contou apenas pra mim porque não tinha certeza se conseguiria garantir a vaga dos dois e não queria deixá-los chateados… sabe, coisa de Michael. — Ingressos para simplesmente a melhor turnê musical do ano! — A Serious Moonlight Tour do David Bowie — Michael anunciou. — O quê?!