Diário de 83

11 O Que Você me Esconde?


Notas iniciais
Ooi, gente ♥ Então... como quase eu não tô aparecendo aqui por causa da faculdade, e tenho 3 histórias pra ficar atualizando, pra facilitar minha vida vou postar tudo de uma vez no domingo! Assim vcs ficam com o resto da semana toda pra ler tranquilamente ♥ No caso dessa, eu postarei 2 caps por se tratar de uma longfic! As outras permanecem com 1 cap por semana. bjss e boa leitura! Esses capítulos aqui tão babado, viu? Comentem o que acharam! >3o

Los Angeles, Califórnia – 18:20 hrs

9 de março, 1983

Esse é o dia em que o Michael cumpriu o que havia prometido.

Billie Jean como videoclipe havia explodido as vendas do álbum Thriller de maneira inexplicável, o que instigou a equipe do cara a produzir mais daqueles vídeos com histórias. Foi uma marca no modo de trabalho do Jackson, que havia me dito o quanto adorava passar boas mensagens por meio do seu trabalho. Isso me fez pensar sobre a forma como o A-ha estava se vendendo: mais da metade das nossas músicas era sobre amor e desilusões, e, se eu entendi tudo o que eu aprendi até agora, significa que nosso público inicial certamente será de garotas de 13 a 17 anos completamente histéricas (eu não sei se eu quero isso pra mim). Michael me fez olhar a indústria da música com outros olhos, me fez pensar sobre se eu quero entrar nisso de qualquer maneira ou se eu quero ser seletivo, e isso era algo que eu ia debater com o Paul e o Mags sem dúvida alguma.

Mas isso teria que ficar pra depois, hoje o dia seria cheio.

Parte da East 5th Street estava fechada para as gravações, era noite e muitos homens estavam espalhados pelo perímetro — eles estavam se preparando para gravar o videoclipe de Beat It, que havia “pipocado” no mês passado (ah, saudades da Judy). Michael tinha me dito que me levaria para ver os bastidores de uma produção sua — bom, e esse era o momento. Levei as mãos aos bolsos e não deixei nada escapar da minha vista: estávamos em uma esquina suja e fedorenta, havia poças d’água pela estrada e vez ou outra um pedaço amassado de jornal enroscava na minha perna. Tudo em nome da imersão, eles realmente pensaram em cada detalhe.

— Ei, fica perto de mim, esses caras são gangsters de verdade.

Michael sussurrou próximo a mim, e o fez de uma maneira tão convincente que eu tive sérias dúvidas sobre se era verdade ou mais uma de suas brincadeirinhas. De qualquer maneira, ele conseguiu me deixar alerta, pois havia vários daqueles “gangsters” de rua, todos mal encarados e estilosos. Uns olhavam de um jeito estranho, pareciam sedentos por sangue.

— Michael! Quem é o rapaz?

Um homem chegou em nossa direção.

— Peters, esse é o Morten.

— Ah, sim! O seu estagiário…

— Eu prefiro o termo “aprendiz” — eu brinquei, Michael riu em seguida.

— Eu quis mostrar o cenário a ele e o processo de produção de um videoclipe.

O homem assentiu em silêncio e voltou a olhar pra mim. Depois de um tempo, comecei a me sentir exposto demais.

— Bonito, ele…

— Ah, não começa…

O tal o Peters riu e foi acompanhado por Michael, embora ele o tenha feito de maneira mais rápida e discreta. Eu realmente não entendi se deveria rir ou não, eu nem sabia que porra aquele cara fazia no clipe, e nem quais eram as intenções dele. Conclusão: eu estava completamente perdido.

— Ele sabe dançar?

— Não, não, não é a praia dele. Peters, eu sei no que você tá pensando, pode desistir.

— O senhor que manda. Quando estiver pronto, me diga, okay? Vamos filmar esse take o quanto antes!

Quando aquele cara chato saiu, eu mudei de direção e fui me sentar longe do cenário. Tinha uma mesa leve de metal cheia de equipamentos dos funcionários, e, por perto, uma cadeira vazia. Me acomodei e suspirei, inclinei minhas costas e o meu pescoço até o meu olhar conseguir alcançar o céu. Meu olhar se concentrou nas estrelas, porém pude sentir dois pares de olhos negros fitando as minhas reações. Michael me observava, um pouco afastado, com as mãos por trás do corpo. Não sei o que é que ele queria, e, depois da conversa esquisita com o outro cara, aquilo já estava começando a me incomodar. Virei o meu rosto o suficiente para que o meu campo de visão o alcançasse.

— O que é…?

Michael apertou os olhos, ficou em silêncio, era a mesma cara que ele fazia quando estava produzindo uma ideia, eu sei disso porque eu já vi acontecer outras vezes: ele fala, fala, tagarela sobre um monte de assuntos estranhos, e então fica em silêncio, seus olhos parecem viajar, logo a inspiração vem.

— Morten… você pode se ajeitar na cadeira?

Eu o fiz sem questionar. Eu estava usando um casaco escuro de moletom, então arrumei o tecido com os dedos e, depois, relaxei os braços nos apoios da cadeira. Michael cruzou os braços, continuou me olhando, se aproximou e pensou em levar as mãos até mim, porém algo o bloqueou.

— Er… eu posso?

— Você pode.

Eu brinquei. Michael levou as mãos ao meu rosto e começou a me “modelar”, seus dedos passearam pelo meu maxilar, induzindo o meu perfil a olhar para frente. Senti quando o seu polegar e indicador seguraram o meu queixo e o puseram no ângulo da vontade dele. Foi a primeira vez que eu me senti realmente intimidado. Michael pôs as mãos nos meus ombros, me induziu a inclinar o corpo para a minha esquerda. Não satisfeito, ele levou uma das mãos à minha cintura (e eu confesso que senti um arrepio muito estranho). Eu não entendia onde ele queria chegar, até que ele se afastou e se ajoelhou para ver melhor o seu “trabalho final”.

— Morten…

— Posso me mexer?

— Pode, pode…

Eu suspirei e finalmente saí daquela posição. Ri discretamente em seguida.

— Devo dar um bom modelo de corpo, não?

— Sim… você… daria um bom gangster, sabia?

Eu franzi o cenho.

— O quê? Contracenar com aqueles caras legítimos?

— Bom… eu sei que você não dança, e te ensinar tudo agora custaria um tempo precioso… — ele levou uma mão ao queixo, pensativo — mas você… bom, você é… — é impressão minha, ou as bochechas dele estão coradas? — ah, você sabe. Você é bonito, é galã… você daria um bom bad boy se te colocassem uma jaqueta legal. Mas você não pode dançar, então eu poderia te colocar como coadjuvante nas cenas que não precisam disso.

— Ei, calma, calma… Você quer me colocar assim, no seu projeto? E se eu fizer… sei lá, alguma besteira? — isso, “besteira”, prefiro não levar bronca por palavras impróprias hoje.

— Você não vai, eu confio em você. Não é você quem diz que o Branca não te dá o devido valor?

Depois daquelas palavras, eu realmente não sabia o que dizer. Realmente tive poucas oportunidades para mostrar o meu potencial, e Michael era o único que instigava isso. Porém tinha uma coisa que me intrigava… Tive poucas chances de ver o Michael em ação, geralmente nos falamos quando ele está com o dia livre, mas, quando essas chances apareciam, era perceptível como ele se transformava do cara brincalhão em um homem completamente sério e profissional. Eu sentia que ele era assim com os outros… mas não era assim comigo. Ele não mudava comigo. Um dia isso seria um problema…

Michael se aproximou e levou uma mão ao meu ombro. Eu olhei em seus olhos.

— Eu realmente acho que você tem potencial. O que me diz?

Mordi os lábios. Eu não podia dizer “não”, né? Seria muita burrice da minha parte…

— É, vai ser legal.

Vi quando ele sorriu, e então finalizamos aquele assunto por ali. Depois do tanto que o Michael havia tocado no meu rosto, pensei que ele não acharia estranho se eu retribuísse. Levei minha mão à sua bochecha e passei o polegar rapidamente. Ele se moveu em um reflexo, mas relaxou os músculos quando entendeu que eu não ia fazer nada demais.

— Você ainda fica envergonhado quando me elogia?

— Ah… não, claro que não — ele deu ombros. — Às vezes…

Eu sorri de canto.

— Sabia que você tá todo vermelhinho?

— Como assim?

— Suas bochechas. Eu notei isso desde que você me elogiou.

Eu realmente não sei por que motivo iniciei esse assunto, mas algo dentro de mim queria ver onde isso ia dar. Porém, diferentemente da reação que eu esperava, Michael se afastou, um pouco relutante, e puxou um pequeno espelho de bolso. Eu achei estranho o seu olhar curioso se transformar em um atordoado, ele parecia aflito. Olhou para a vermelhidão do seu rosto com um certo pavor, e eu vi falhar o seu esforço em esconder aquela reação tão genuína. No mesmo instante, fiquei em alerta.

— Michael…?

— E-eu tenho que ir. Se me chamarem, diz que eu tô no meu camarim.

— Tá bom…

Mal terminei a frase, ele sumiu sem me dar maiores detalhes. Eu sei que eu devia ficar na minha, nada da vida dele é da minha conta, mas, quando voltei para o meu lugar, quando me sentei naquela cadeira, minha mente só me confirmou o que eu já sabia: eu não ia conseguir ignorar isso. Balancei minha perna em um tique nervoso, tentei cruzar os braços para não sair daquele lugar e seguir o moreno até o canto onde ele havia se escondido, olhei ao meu redor e vi homens e homens andando pra lá e pra cá, me perguntando se alguém ali havia se dado conta de que algo estava errado…

… Eu sabia que a minha mente jamais me deixaria ignorar isso.

Suspirei e me levantei, segui Michael até o camarim dele. Eu já havia o perdido de vista àquela altura, mas sabia onde eram os camarins e o do moreno só podia ser o mais chamativo (eu sei lá que porra, não deve ser tão difícil distinguir, ele é o astro daquela gravação!). Caminhei por entre alguns funcionários, ninguém da equipe técnica ousava me contrariar, Michael havia me blindado completamente ao deixar bem claro que me queria naquele lugar. Ignorei todos eles e fui até uma porta com iluminadores bonitos (se não fosse aquela, eu virava turco), tentei entrar, mas é óbvio que estaria trancada.

— Michael?

Dei duas batidas e não ouvi resposta. Luzes saíam pelas brechas daquela porta, tinha alguém lá dentro, era óbvio, eu precisava abrir aquela sala discretamente. Olhei pros lados, pensei no que eu poderia usar. Um grampo, um cartão… aqueles filmes de espionagem viriam a calhar agora! Tentei acalmar a pressão da minha mente mais uma vez, quando enfim lembrei do card que eu havia ganhado para ter acesso aos bastidores (todos naquele lugar tinham um). É um cartão frágil que se põe no pescoço, não acho que essa merda vai conseguir abrir uma porta, mas não custava nada tentar. Puxei o cartão que estava debaixo da minha camisa, tirei o cordão do pescoço e tentei usar sem que ninguém visse e pensasse que eu era um maluco.

“Track!”

Ouvi um barulho, não sei se eu fui o responsável por aquilo ou, quem quer que estivesse lá dentro, havia desistido de se esconder, só sei que a porta se abriu e eu ligeiramente adentrei. Assim que acessei o lado de dentro, tive sorte em ter acertado as minhas suspeitas: Michael estava sentado defronte de um espelho enorme, do lado dele tinha uma loira com alguns itens de maquiagem, parecia retocar alguma coisa.

— Estou quase terminando!

Ele falou. Em silêncio, levei as mãos aos bolsos e encostei minhas costas na parede, enquanto o observava. A mulher saiu depois de alguns instantes, agora eram só nós dois.

Michael sorria um sorriso falso.

— Demorei muito? Peters deve estar louco, eu preciso passar os passos com os outros caras…

— Michael…

Ele finalmente parou. Olhei os seus olhos por alguns instantes, busquei o que havia nele que eu não reconhecia, o que a minha intuição dizia que estava errado. Levei uma mão ao seu rosto e ele recuou instantaneamente, o que me deixou intrigado. Então… percebi o que tanto eu havia estranhado.

— Suas bochechas estavam bem vermelhas…

— É, eu sei. Passou, uma hora o rubor passa, não é?

Eu aquiesci em silêncio.

— O que é que você me esconde…?

— Para com isso, eu não estou escondendo nada. Vamos, eu preciso que você troque de roupa, nós temos que gravar metade do vídeo hoj…

Eu levei uma mão ao seu rosto mais uma vez. Michael tentou recuar, e eu pus a outra mão no outro lado de sua face. Esse foi um dos momentos mais estranhos da minha vida até agora, uma sensação de "nada", de se estar fazendo as coisas no automático. Quando minhas duas mãos o tocaram, passei o polegar direito por sua maçã e percebi que ali, por debaixo daquelas camadas de cor, ele escondia uma coisa de mim, o rubor de suas bochechas, e eu ainda não havia entendido por que isso causava nele tanto pavor.

— Me deixe em paz!

Michael se desvencilhou, era a primeira vez que eu o vi tão agressivo. Não me feriu, quase nem tocou em mim, ele apenas se afastou de forma arisca e começou a chorar, buscando se manter discreto até mesmo nessa situação. Eu tentei pensar em alguma coisa, até então eu havia percebido os seus problemas com a sociedade, mas aquele caso parecia muito mais íntimo, eu não conseguia chutar nenhum palpite.

Deixei ele chorando. Michael se isolou em um canto da sala e tentou esconder suas lágrimas e seus soluços a todo custo. O que ele estava tentando fazer? Ele não confiava em mim?

Me aproximei. Michael se sentou em um pequeno estofado próximo e se encolheu no próprio mundo. Eu me inclinei, me juntei entre as pernas dele, meus braços se apoiaram em seus joelhos, meu rosto estava no seu campo de visão. Depois de muita relutância, ele me olhou com aqueles olhos escuros e marejados, a maquiagem ainda intacta, com exceção do borrão que eu havia feito em sua bochecha direita.

— Por que tá se escondendo de mim? Acha que eu vou ridicularizar isso? Justo eu…? — foram as palavras que ele havia me dito. Eu nunca me esqueceria delas. Depois de ouvi-las, Michael me olhou de um jeito diferente, mas ainda tinha melancolia ali. Eu continuei — Michael, você… você é o meu melhor amigo — era a primeira vez que eu confessava aquilo, e foi muito estranho fazê-lo naquela ocasião. Eu me sentia exposto, mas acho que não havia momento melhor. A real era que todo aquele dia tava muito esquisito. — Eu confio em você.

Eu não tinha mentido, porque realmente custei a considerar o Michael mais do que um colega de profissão. Nós convivemos por alguns meses como se fôssemos colegas de quarto de uma faculdade, e ele se mostrou um cara diferente de todos que eu já conheci, mas dificilmente eu vou me encantar por gestos de gentileza. Era mais do que isso, mais do que cortesia, compreensão e essas baboseiras bonitinhas… ele me aceitava como eu era, não tinha julgamento algum. Um garoto pobre de Kongsberg, que não entende merda nenhuma da vida, com uma carinha bonita e que não pode ser cristão, gostar da natureza e catalogar flores porque isso não é “maneiro”. Ele me ensinou a não ter vergonha de dizer o que penso, a ir na contramão dos gostos alheios, a ditar as minhas próprias regras para mim mesmo. Ele me ensinou a dizer “foda-se” pro mundo, e, se eu estou dizendo que confio nele, isso não é da boca pra fora.

Ele suspirou, limpou as lágrimas e conteve o choro.

— Isso é… lúpus.

Eu permaneci quieto, queria que ele continuasse. Michael não olhou pra mim e prosseguiu.

— Eu não consigo te explicar essas coisas agora, são muitos detalhes. Eu preciso me concentrar no vídeo…

— Então vai lá. Grava o vídeo.

— Mas ainda falta voc…

— Michael… eu vou te atrasar. Eu vou ter outras oportunidades, isso é o que não vai faltar. Agora, vai… faz aquilo que você sabe fazer.

Eu sorri e me levantei, deixei que ele tomasse sua decisão. Michael estava emocionado demais pra fazer uma boa escolha, mas eu confiava no seu tato. Olhou para o chão por alguns segundos antes de fitar os meus olhos e assentir com um movimento de cabeça. Após isso, se levantou.

Seguimos até o cenário em silêncio, o take que estavam gravando era no que parecia ser um bar de sinuca, pouco iluminado, com uma decoração rústica, simples e intimidadora. Os marmanjos mal encarados foram para os seus cantos e eu me ajuntei com a galera do fundão somente pra observar o show.

No meio daquela galera, ouvi burburinhos de que eles planejavam gravar o vídeo em pelo menos 2 dias, e realmente passamos muito tempo percorrendo por aqueles cenários, gravando takes diferentes, repetindo-os o mínimo possível. Michael estava ótimo, como de costume (eu só queria 10% daquela segurança própria). Tentei imergir naquela experiência o máximo possível, aquele momento era parte do sentido da minha viagem, contudo as minhas memórias custavam a se concentrar em absorver o presente, e a minha conversa com o Michael sempre voltava à tona.

Eu estava preocupado e eu nem sei explicar o porquê. Eu só sei que queria chegar em casa logo…

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Encino – 21:45 hrs

Nós não falamos muito durante o trajeto, e eu confesso que eu senti falta disso, das conversas dele…

Chegamos na mansão cujo nome eu ainda não sabia pronunciar. Seguimos quase em dupla pra dentro do lugar, mas o Michael ficou lá atrás pra trocar algumas palavras com o seu chofer. Eu me adiantei, subi as escadas, fui pro meu quarto e tirei aquela roupa. Tomei um banho muito rápido e me vesti com alguma coisa quente e confortável; coloquei uma calça e estava para pôr a camisa quando ele apareceu. Nós nos olhamos, vi quando os olhos dele passaram pelo meu corpo e, logo após, para a maçaneta da porta. Eu mordi os lábios.

— Eu juro que me esqueci de trancar…

Michael sorriu de canto e fechou a porta.

— E então… o que achou do passeio?

Virei meus olhos para o alto, pensativo.

— Bom… — murmurei, enquanto puxava a minha camisa para baixo, enfim cobrindo todo o meu tórax — eu queria ter aproveitado mais, mas sabe como é, muitos olhares intimidadores…

Ele riu baixo e assentiu com alguns movimentos silenciosos de cabeça, em seguida veio em minha direção em passos lentos. Eu o deixei à vontade pra caminhar por aí, não tinha feito nada de diferente naquele quarto, ele ainda era como o Michael havia me cedido.

— Isso é comum, não há espaço pra erros ou distrações naqueles momentos… as pessoas acabam fechadas demais em seus mundos, e esquecem um pouco da própria humanidade.

— E é por isso que o astro é você, não elas.

Eu disse meio inconscientemente, enquanto catava um casaco na minha mochila, porém, pelo silêncio do cômodo, eu percebi que aquelas palavras haviam levado o que quer que ele estivesse pensando em me dizer. Olhei para ele, o vi me olhando um tanto impressionado... ou seria… acanhado?

— Bom… obrigado… — ele se aproximou e se sentou na beira da minha cama — Morten, vem cá, quero te mostrar uma coisa.

Parei o que estava fazendo para ir até ele. Eu queria aquela conversa… queria entender o que é que o deixava tão silencioso. Me sentei ao seu lado e me inclinei em sua direção.

Ele começou arrebitando as mangas do suéter que usava. Com cuidado, revelou parte dos seus braços magros, e eu não vi nada além do caminho das suas veias saltadas. Michael passou o indicador pela própria pele, como se estivesse buscando algo, e eu segui os seus movimentos com o olhar.

— Olha isso…

Ele passou o dedo em uma área próxima das juntas, logo no início do antebraço. Vi uma mancha pequena, com uma tonalidade muito discreta de um desbotado. Não era branco, era mais claro do que eu, mas era pequena demais para ser importante.

— Olha isso…

Ele repetiu, e então, sem pensar duas vezes, removeu aquele suéter. Eu o ajudei a tirá-lo e pude ver, logo em seguida, um contorno que descia do seu pescoço até o centro do seu tórax, como uma gota de um desbotado escorrendo até desaparecer no escuro de sua pele. Eu nunca tinha visto isso antes… como se ele estivesse perdendo a própria cor. Inconscientemente levei o meu indicador até aquela mancha, como se meu cérebro quisesse atestar de que aquilo não era um simples borrão de tinta. Michael parecia acostumado com os meus toques, pois nem questionou, deixou que eu explorasse o seu corpo (isso vai pegar muito mal, mas foda-se). Passei o meu dedo por toda a extensão daquela cor estranha até chegar no centro do seu peitoral.

Olhei para ele, estava chorando em silêncio.

— Isso é… vi… vitiligo. É… vitiligo. Não é contagioso.

Ele me avisou como se eu tivesse tido nojo dele em algum momento da vida, quase me senti ofendido, mas Michael às vezes se expressava muito mal (tipo eu em algumas ocasiões). Sem dizer uma palavra, ainda deixando com que o meu corpo agisse sem os critérios dos meus pensamentos, levei aquela mesma mão ao rosto dele e passei o polegar nas lágrimas do seu lado direito. Ele fechou os olhos e os apertou, não quis olhar para mim.

— E o… do meu rosto é… lúpus.

— O que essas coisas fazem contigo…?

Ele suspirou e passou a fitar as próprias mãos que repousavam em seu colo.

— Eu não sei muito bem, eu tenho ido ao médico pra entender essas coisas. O vitiligo deixa essas manchas. Eu tenho medo… de quantas mais aparecerão… de como elas vão me deixar…

Não tive reação alguma. Que tipo de provação era aquela…? Aquele cara tem tudo do bom e do melhor… e, mesmo assim, a vida resolve testar as suas capacidades daquela forma. Na hora, eu não havia percebido como percebo agora, mas aquilo ia muito além de uma mera aparência estética… aquilo tocava na luta dele.

— E o rubor das suas bochechas…? — eu perguntei, tentando ao máximo não parecer invasivo. Levei minha outra mão ao seu rosto mais uma vez e limpei as lágrimas secas do lado esquerdo.

— A lúpus não é essa cor bonita que as suas bochechas têm, Morten… elas são essas manchas horríveis… vermelhas e marcadas. Têm muitos sintomas que envolvem a lúpus, mas o pior deles são as dores.

— Dores em quê?

— Em tudo — ele olhou pra mim. — No corpo todo… Tem dias que ela ataca, que eu não quero sair da cama, mas eu preciso… — novamente uma lágrima caiu. Eu deixei que ela percorresse pela sua bochecha, eu me concentrei nos seus olhos escuros — eu preciso dizer pra todo mundo que eu estou bem. Que tá tudo bem, mas não tá… não tá…

Eu segurei um suspiro, eu quase não sentia meu próprio corpo. Ele fez tudo o que fez hoje, dançou do jeito que dançou, atuou do jeito que atuou, provavelmente cheio de dores pelo corpo, e conseguiu disfarçar aquilo tão bem… Como ele fazia aquilo? Como eu deixei escapar aquilo?

Queria dizer alguma coisa, mas, advinha? Nada saiu. Justamente nas horas que eu preciso, as palavras se emaranham e desaparecem. Afastei minhas mãos do seu rosto assim que percebi estar segurando por tempo demais, porém ele realmente não se importou. Catou o seu suéter para voltar a se vestir, estava fazendo um pouco de frio.

— Me desculpe…

— Por quê? — ele indagou.

— Por não poder fazer muito… Eu me sinto um inútil.

Ele umedeceu os lábios e sorriu muito discretamente.

— Sabe… Nesse ano, dentre todas as minhas realizações, a melhor delas foi uma que o dinheiro não compra — ele levou o dorso da mão direita ao meu rosto e roçou lentamente na minha pele. Eu estava tão aturdido que mal percebi o contato. — A sua amizade.

Dito isso, Michael se levantou e caminhou em direção à saída. Eu fiquei ali, com cara de idiota, sem mexer um fio de cabelo, até enfim ser despertado pelo quase imperceptível ranger daquela porta (que deve custar mais que a minha vida).

— Michael… — nos olhamos novamente. Fiz a pergunta na mesma velocidade que pensei sobre ela — você quer dormir aqui? Ou… quer que eu vá dormir lá? Sei lá…

Ele pensou em silêncio.

— Eu vou pegar minhas coisas.

Depois daquela resposta, Michael foi embora, demorou a voltar. Deu tempo de desligar as luzes, deixar as cortinas entreabertas (do jeito que eu gostava pra dormir) e me cobrir nos cobertores. Eu já estava quase pegando no sono quando ouvi a porta novamente se mexer em um vai-e-vem delicado. Automaticamente cedi espaço, ele se abrigou do meu lado e não trocamos mais palavras naquela noite. Tudo o que eu lembro de ter sentido antes de apagar eram os dedos dele se aninhando aos meus por debaixo dos cobertores. Eu estava com um sono fodido, mas sei que eu pensaria sobre isso pela manhã.

Aquela noite tinha me deixado confuso.

Notas finais
Próximo capítulo: — Ei… — inclinei meu corpo pra frente. Michael recuou, e ficou estático quando suas costas tocaram novamente o caule da árvore em que a gente se abrigava. Eu tentei evitar muita aproximação, mas, só por ter me inclinado, nós quase podíamos sentir nossas respirações se chocarem. Eu olhei em seus olhos e vi medo neles, eu conseguia entender o que o deixava com tanto medo — tem vontade de ter alguém, do seu lado, pra passar por todas essas coisas? De não ter mais que lutar sozinho? Ele não disse uma palavra, suas expressões relaxaram, tentou conter sua própria respiração e apenas moveu a cabeça lentamente, em concordância.