Diário de 83

12 Sentimentos Confusos - Parte I


Notas iniciais
Capítulo 2 da semana saindo do forno ♥ Boa leitura!

Encino, Califórnia – 09:30 hrs

25 de março, 1983

Ei, diário!

Desde a última vez que eu escrevi, as coisas têm ficado um pouco confusas. Michael passou o resto do mês ocupado até o talo da agenda, eu quase não o via colocar o pé naquela mansão. Não que eu estivesse por dentro de todos os compromissos dele, mas, pelo que eu ouvi falar, foram algumas entrevistas, um musical no qual ele foi convidado a ver com aquela doida da irmã dele, e um evento comemorativo de algum estúdio em que ele trabalhou. Sobre esse último, ele recebeu algumas ligações e não parecia tão satisfeito assim, deliberaram bastante antes dele aceitar o convite. Eu pensei em perguntar sobre o conteúdo da conversa, mas aquilo realmente não me interessava, e ele também não contou espontaneamente, então ficamos por isso mesmo.

Mas, quer saber? No fim das contas, não era isso que permeava os meus pensamentos. Era ele. Esse cara não sai da minha cabeça (socorro…). Eu adorava a natureza (eu sei que eu já falei isso), então, naquela manhã, peguei minha câmera e fui espairecer no jardim; eu precisava parar de pensar um pouco no Michael. Fazia um tempo que eu havia percebido como os estímulos negativos que ele sofria me incomodavam, mas, desde que ele me contou aquelas coisas — sobre sua provação, sobre sua pele, sobre sua dor — a coisa parece ter descarrilado. Talvez eu estivesse o enxergando como um irmão mais novo, não sei (na verdade, estou torcendo pra ser)… eram sentimentos confusos.

Michael dormiu até um pouco tarde hoje, então eu ainda não tinha me deparado com ele, acabamos não tomando café da manhã juntos. Cumprimentei a senhora Jackson, baguncei os cabelos da baixinha Janet (que ficou puta comigo) e dei bom dia pra todos os funcionários que achei pelo caminho. Fui até os jardins ver as plantas ornamentais — e quebrei a cara ao descobrir que era tudo muito verde e podado, mas, depois de caminhar e fazer perguntas ao jardineiro, eu enfim havia encontrado minha mina de ouro. Me ajoelhei pra tirar algumas fotos das plantas e me surpreendi por ter encontrado flores de alguns cactos, não achei que fosse o tipo de plantação do agrado dele (ou ele não sabia que eram flores de cactos, o que eu acho difícil, Michael é inteligente). Parecia uma autêntica flor de outubro, e o vermelho arterial dela era a maravilha mais linda nos raios do sol, podia se tornar cor de pitanga ou até mesmo laranja com a combinação de tons quentes! Depois de tirar uma série de fotos, busquei no catálogo daquele jardim alguma espécie oriunda de países frios, e eu estava tão imerso naquela atividade que nada ao redor parecia importante…

Mas aí… ele aparece.

— Bom dia.

Eu me virei como se tivesse sido pego furtando. O flash disparou, eu acabei gastando uma foto com o borrado do movimento. Michael cerrou os dentes, parecia ter se sentido culpado por aquilo.

— Er… essas câmeras são digitais, não são? Se não forem, eu posso te comprar o filme…

— Ei, relaxa! É digital, não tem problema — eu sorri e involuntariamente passei a mão na nuca. — Acordando agora?

— É, eu só vou sair à noite…

Michael levou as mãos aos bolsos e se aproximou da sombra da copa onde eu me encontrava, naquele horário o sol já estava aquecendo tudo o que tocava com um pouco mais de intensidade. Não que houvesse muito espaço pra nós dois, mas, quando eu percebi que ele queria se abrigar, levei a mão ao seu braço e o puxei na minha direção. Nós nos juntamos próximo ao caule da árvore, vi como suas mãos se esquivavam do meu corpo, como se eu fosse um tipo de amuleto proibido. Lembranças inundaram os meus pensamentos… lembranças daqueles dedos se aninhando aos meus. Pensei que já havíamos quebrado aquela barreira de intimidade, mas, pelo visto, eu que estava me comportando que nem um esquisito.

— Suéter legal…

— Obrigado.

Michael respondeu, sorrindo. Era de fato um suéter maneiro, branco, parecia um tricô bem discreto. Ele estava usando por cima de uma camisa de mangas longas — tem um tempo que eu não o via mais usar camisas de mangas curtas —, além de calças confortáveis e os seus sapatos favoritos (será que ele também reparava nessas coisas ou só eu que tenho esse costume?).

— Suéter não é tão fotogênico…

Ele brincou. Sorri em resposta.

— No meu país, é a última moda.

Revidei, consegui arrancar uma risada dele. Não sei explicar a sensação… mas gostei de ouvir aquilo, eu gosto quando ele está bem; ele parecia esgotado nos dias que se passaram, era legal vê-lo com outro semblante.

— Então… — Michael iniciou — acho que cheguei tarde na sessão de fotos.

— Quer tirar algumas comigo? — levantei a câmera suspensa no meu pescoço.

— Não, eu… eu não estou nem vestido direito — ele riu.

Neguei com um balançar de cabeça.

— Vai, cara! Você tá ótimo! Vem.

Segurei sua mão e o puxei pra perto de mim. Michael não resistiu, saímos da sombra e seguimos pela passarela ladrilhada enquanto eu escolhia o próximo canteiro que faria parte da nossa sessão.

— O que você quer que eu faça?

— Ah, cara… aja naturalmente! Pega uma flor e faz uma pose.

Apontei para um lírio, ele riu e se aproximou do canteiro, sentou-se no gramado e levou uma daquelas flores para próximo do rosto. Ele não a arrancou das suas raízes, e eu não pude deixar de reparar nesse detalhe (tudo o que um amante da natureza pode desejar). Me ajoelhei e tirei algumas fotos da cena.

— Ei, posso sugerir o próximo cenário?

Tirei o último “click” antes de suspender a câmera no pescoço mais uma vez.

— Beleza. Onde vai ser?

Michael sorriu, se levantou e me chamou para segui-lo. Praticamente demos a volta na casa, andamos pra caramba, e foi quando eu ouvi barulhos de animais aleatórios que eu enfim entendi pra onde ele tava querendo me levar.

— Um… zoológico?

— Não é como se fosse um safári, são só alguns bichinhos da família. Eu te disse que eu adoro animais!

Michael parecia todo orgulhoso ao mostrar o seu refúgio. Eu o observei de canto, deixei ele ir na frente e voltei a admirar a imensidão do lugar. Putz, o cara tem um zoológico… No dia que eu for rico assim, vou construir uma estação de trem-bala de Kongsberg até Londres (vai ser muito útil).

— Como é que eu não vi isso aqui antes?

— Tem que passar mais dias ao ar livre, seu bobão.

Ele comentou, enquanto olhava pra mim e caminhava de costas. Rimos quase que instantaneamente, e ele voltou a prestar atenção no caminho.

— Conhece a Louie?

— É alguma funcionária daqui?

— Nããão… é minha garota! Minha Louie.

Franzi o cenho. Como é que o Michael tinha uma namorada e eu nunca havia notado isso? O cara vai do trabalho pra casa (e pra igreja, quando consegue), não chega com um perfume novo (eu saberia distinguir qualquer fragrância daquele perfume enjoado que ele usa), não recebe carta nem fala no telefone até de madrugada (não me pergunte como eu sei disso). Ele escondeu esse brotinho muito bem, pelo visto.

— E como vocês se conheceram?

— Ah, ela era de um circo. A coitadinha trabalhava levando crianças pra passear.

Que puta trabalho esquisito. Franzi o cenho pela segunda vez, dessa vez de forma mais enojada, e ele começou a rir, provavelmente eu tava com uma cara engraçada a essa hora.

— Vai, pergunta mais…

— Tá… ela é mais nova que você?

— Hum… Tá aí uma boa pergunta… Ela é mais nova sim, muitos anos mais nova que eu, mas acho que ela é considerada “mais velha” no mundo dela.

Eu franzi o cenho pela terceira vez, e, juro, dessa vez eu parei de andar. Michael segurou um sorriso, esse cara tá brincando comigo.

— Tá me tirando?

Ele gargalhou.

— Vem comigo! Eu vou te mostrar meu bebê.

Caminhamos até um cercadinho onde alguns funcionários faziam seu trabalho. Michael se embrenhou por aqueles cantos e voltou, instantes depois, com uma puta lhama branca e crescida! Drittsekk, como eu não notei isso antes?

Ele beijou o rosto do animal e a puxou carinhosamente na minha direção.

— Morten… essa é a Louie! Louie, Morten!

Eu me aproximei e levei a mão com cuidado à pelagem dela. Michael fez um olhar surpreso, embora contido.

— Que foi?

— É que… bom, ela é extremamente perigosa, pensei que ela ia cortar o seu braço fora.

Porra, e ele só fala isso agora! Tirei a mão bem disfarçadamente, e então ele riu quase no mesmo instante.

— Eu tô brincando! — ah, vai se foder! — A Louie é boazinha, mas muita gente não tá acostumada com lhamas, então… bom, foi a primeira vez que eu vi alguém fazer carinho nela sem receio nenhum.

— Michael, eu vou te matar…

— Ei! — a lhama pareceu um pouco agitada, mas foi rapidamente contida pelo moreno — Ela entende, viu? Eu tomaria cuidado com as palavras.

Fiz um movimento negativo de cabeça, segurando um riso de nervoso, em seguida levantei a câmera suspensa em meu pescoço.

— Vamo tirar umas fotos dessa gracinha?

— Você tá se referindo a mim ou à Louie?

Ele brincou, sorrindo. Eu abaixei a câmera por uns segundos e olhei em seus olhos.

— Aos dois.

Dada a resposta, Michael ficou em silêncio. Mordi os lábios, não sei o que deu em mim, mas às vezes eu sentia que ele me provocava de propósito, eu já estava cansado de esconder alguns dos meus pensamentos. Fomos até uma sombra agradável e eu comecei a tirar as fotos como se estivéssemos em uma sessão pra alguma revista de famoso.

— Morten, posso tirar uma foto sua?

— Minha? Por quê?

— Ah, me deixa brincar com isso, vai! Só uns dois clicks, eu juro.

Ele estendeu a mão e aguardou uma resposta minha. Olhei pra câmera em minhas mãos e pensei um pouco, Michael adorava fazer joguinhos comigo, tava na hora de revidar toda aquela brincadeira.

Disfarcei um sorriso malicioso.

— Claro… te dou, com uma condição.

Ele arqueou a sobrancelha e cruzou os braços.

— Qual?

— Sabe nadar?

Michael lentamente negou em silêncio, sem conseguir conter o sorriso nervoso no rosto.

— Oh, boy, nem vem, eu não gosto de me expor…

— Ah, deixa, vá! Não é “se expor”, é só nadar na piscina. A gente pode chamar teus irmãos…

Ele mordeu os lábios.

— Acho que… ah, eu não sei, aqui não parece uma boa ideia, meus pais não gostam de bagunça — quando ele citou os velhos, eu finalmente percebi que quase tinha me esquecido que aquela casa não era totalmente dele. Que vacilo… — M-mas… eu tenho um condomínio, tem piscina e tudo. A gente pode ir pra lá num fim de semana. Tá bom pra você?

— Você tava esperando uma oportunidade pra revelar que tem outra casa?

Michael deu ombros.

— Pensei que fosse óbvio presumir que eu tenha outras propriedades, mas isso não é realmente importante… — ele voltou a estender a mão — e agora? Posso usar?

Cedi a câmera. Michael sorriu, enrolou o cordão no pescoço e a deixou suspensa no tórax, logo voltou a manusear a lhama.

— Vou levar ela de volta.

x ----- x

11:35 hrs

Depois da sessão de fotos, Michael e eu decidimos voltar pra dentro da mansão apenas na hora do almoço. Ele me guiou até um refúgio um pouco distante, um canto escondido entre alguns arbustos podados e árvores avantajadas, ainda dentro dos limites de Hayvenhurst (nem me peça pra pronunciar isso, escrever já foi difícil). Nos sentamos no gramado, encostamos as costas em um daqueles belos caules e ficamos a observar a paisagem em silêncio. Não havia tantas coisas para se ver desse lado, apenas um campo extenso e, lá no horizonte, a trilha que nos levava para fora do bairro rico.

Olhei para o Michael. Ele juntou o queixo nos joelhos, abraçou as próprias pernas e fitou aquela imagem. Tentei não olhar muito, sabia que uma hora ele me notaria. Um lampejo veio à minha mente, uma daquelas ideias idiotas e descartáveis, mas que eu tinha muita curiosidade em concretizá-la.

Esperei que ele se cansasse daquela posição, e, quando Michael soltou e relaxou as pernas, eu me inclinei para deitar a cabeça em seu colo.

À princípio, ele não teve reação alguma, apenas o seu olhar hesitante me dizia alguma coisa. Eu revidei com um sorriso.

— Ei, o que você acha que sua mãe vai fazer pro almoço?

Brinquei. Ele revirou os olhos e sorriu.

— Não sei, mas você leu minha mente agora. Provavelmente ela não vai deixar a cozinheira fazer… — ele riu — mamãe ainda não largou os velhos hábitos. Às vezes eles voltam.

— Você também faz isso, não faz?

Ele suspirou e olhou para o horizonte.

— Acredite ou não, estou mais acostumado que ela…

Senti sua mão lentamente se arrastar pela minha pele, em um movimento único que desceu do meu pescoço até a área do tórax por debaixo da camisa. Senti minha pele arrepiar, tentei segurar o ardor da minha face. A mão dele voltou, buscou o meu rosto e parou quando o seu dorso deslizou pela minha bochecha, ainda sem olhar pra mim.

Tentei continuar o assunto.

— No passeio do feriado, você parecia nostálgico.

— Ah, eu… foi uma recaída. Pare de me julgar!

Ele riu e voltou a me olhar. Sorri em resposta, enquanto descansava minhas mãos no meu próprio abdome.

— Mas, pra sua mãe, não deve ser fácil largar esses hábitos, ela cuidou de muitas crianças, não? Quantos irmãos você disse que tem, mesmo?

— Oito.

— Eu tenho quatro, são cinco comigo.

— Mesmo? Ah, então você entende o que é viver numa família grande.

Dessa vez, sua mão foi ao meu cabelo. Fechei os olhos e me concentrei nos seus dedos se aninhando aos meus fios.

— Sim, eu sei… é bem mais difícil se virar sozinho, você acha estranho a falta do barulho, todo aquele espaço na casa…

— É… você precisa se virar… se proteger.

Aquele comentário me fez pensar.

Michael ficou em silêncio, não puxou mais assunto. Ficamos ouvindo o ruído do vento e das folhagens balançando, nem mesmo os pássaros estavam por perto. Depois de um tempo com o corpo relaxado e a preguiça quase tomando conta da minha alma, eu tive a sensação de que ele estava olhando pra mim ao mesmo tempo em que senti o seu dorso mais uma vez resvalar na minha bochecha. Abri os olhos e vi quando ele desviou o olhar.

— Ei… — inclinei meu corpo pra frente. Michael recuou, e ficou estático quando suas costas tocaram novamente o caule da árvore em que a gente se abrigava. Eu tentei evitar muita aproximação, mas, só por ter me inclinado, nós quase podíamos sentir nossas respirações se chocarem. Eu olhei em seus olhos e vi medo neles, eu conseguia entender o que o deixava com tanto medo — tem vontade de ter alguém, do seu lado, pra passar por todas essas coisas? De não ter mais que lutar sozinho?

Ele não disse uma palavra, suas expressões relaxaram, tentou conter sua própria respiração e apenas moveu a cabeça lentamente, em concordância. Eu inclinei minha cabeça para a esquerda enquanto olhava pra ele, eu tinha apenas um pensamento em mente e esse pensamento incluía estritamente complicar nossa situação atual, mas eu sabia que ele, naquele momento, estava concordando comigo (afinal, nós dois gostamos de joguinhos).

Me aproximei, eu só tinha uma chance. Michael quase fechou os olhos por completo, quase cedeu àquele momento, nós estávamos tão perto que nossos narizes se encostaram, eu senti a ponta dos seus lábios tocarem os meus…

— N-não…

… mas ele não estava pronto.

Abri os olhos e me afastei um pouco. Fitei o seu olhar, pensei no que poderia tê-lo feito desistir (além do óbvio). Ele não me respondeu, mas seu semblante melancólico dizia tudo.

— Não dá… me desculpe.

Michael logo se levantou. Ainda ofegante e sem se despedir, foi ao encontro dos seus pais, já era a hora do almoço. Não falou com ninguém, nem olhou pra ninguém, apenas seguiu para dentro da mansão. Eu fiquei lá, com cara de idiota, esperando que a vermelhidão do meu rosto aliviasse mais (o lado ruim de ser branco que nem papel). Eu pensei em tudo o que aconteceu, desde o início daquele dia até aquele momento, e enfim realizei… que eu estava muito, mas muito fodido.

Mas eu gosto dele. É, eu gosto… e torci demais pra que não fosse isso.

Notas finais
Próximo capítulo: Ele levou as duas mãos aos meus ombros e eu tentei, mais uma vez, segurar os meus impulsos. Me perguntava se o Michael sentia o mesmo… se ele sentia os mesmos desejos que eu, como se aquele momento no jardim tivesse destravado algum comando desconhecido no meu coração. [...] Ele lentamente afastou as mãos dos meus ombros e umedeceu os lábios. — Eu preciso te pedir uma coisa. Eu não queria chegar a isso, mas eu preciso… eu preciso de um tempo. Eu não respondi, não entendi onde ele queria chegar com aquilo, mas eu temia essas incertezas.