Diário de 83
2 Diário de 83 - Parte I
Notas iniciais
Los Angeles, Califórnia – 07:30 hrs
Dezembro, 1982
Assim que o despertador tocou, eu acordei sem maiores problemas.
Levantei num pulo, olhei pra todos os lados e me lembrei, ao olhar para aquelas paredes bonitas e desconhecidas, que tudo o que eu havia vivenciado no dia anterior era real. Tudo mesmo. Corri até a janela sem pensar duas vezes e, ao ver aqueles letreiros bonitos de cidade grande — aquele tanto de cores e marcas famosas, o berço do capitalismo —, eu enfim aceitei que era real.
— Drittsekk…
Ouvi duas batidas na porta, mas estava impressionado demais pra me importar.
— Ei, menino… Qual o seu nome?
— Morten — respondi sem olhar para a porta, que ainda estava trancada.
— Morty, okay.
— Morten.
— Morton, eu já ouvi. Abra a porta, por favor.
Lentamente me afastei da janela, indo até a porta em passos para trás. Assim que bati as costas na parede, busquei a maçaneta e destranquei. Aquele estranho entrou logo em seguida.
Assim que olhei pra ele, eu enfim me lembrei dos detalhes. Cheguei da viagem de avião com o tal do Barron, e ele me deixou com esse tal de John, que seria o meu responsável. Eu não entendi porra nenhuma e eu espero que ele esteja afim de me assessorar, porque estou quase achando que entrei numa fria. De qualquer forma, até agora ele foi bem cortês. Me deixou em um hotel do cacete! Lindo demais! Com vista pros edifícios brilhantes. Consigo ver cada gravadora daqui da janela, e me dá um frio na espinha quando penso em visitar cada uma delas.
— Eu sou John Branca, muito prazer.
Assim que ele estendeu a mão, eu o cumprimentei em silêncio.
— Você é o Morton Harket, não é?
— Mottūn.
— O quê?
— Pronuncia assim — eu sorri e dei ombros, levando as mãos aos meus bolsos. Na real, eu não ligo pra esses detalhes, mas é engraçado ver um americano se embananando nas palavras.
— Vou te chamar de Morton e não falamos mais nisso, está certo? — disse ele, deixando um sorriso social evidente — Vamos, o seu dia vai começar cedo. Se apronte e desça para o café da manhã, lá eu te explicarei os detalhes, está bem?
— Okay.
Não tava afim de discutir. Assim que ele saiu, fechei a porta e fui tomar um banho. Depois, coloquei uma das minhas roupas prediletas: camisa sem mangas, de alças largas, calças jeans, tênis brancos, pulseiras escuras e a minha gargantilha de cordas. O visual ficaria perfeito se eu não fosse obrigado pelo frio a vestir um casaco extra quente por cima (e um cachecol. Minha mãe ia adorar ver isso…). De qualquer forma, eu tinha que causar uma boa impressão, a América quer gente que sabe se impor! Nada dos tipos introvertidos!
Tá, já chega de me exibir. Me olhei no espelho uma última vez e saí em busca do meu assessor.
Porém… Ah! Ele acha que eu sou inocente, ah, se acha… Desci as escadas em passos cuidadosos e me esgueirei pelos corredores à medida que chegava mais perto do salão de refeições. Era uma sala ampla e bonita, toda iluminada, com paredes de vidro que davam para uma linda vista do exterior do hotel. Não tinha quase ninguém no salão e eu precisei tomar o dobro de atenção até enfim me deparar com o homem, em uma daquelas mesas, fazendo uma ligação (putz, eu devia ser rapper).
— Vai ser uma surpresa, Barron. É, eu sei… muito obrigado por ter me ajudado com isso.
Hum… falando com o velho de Londres, não é? O que será que esse tal de Branca tá tramando?
— Sim, é arriscado, mas ele ficará feliz. Ele está muito solitário.
Estou começando a achar que a teoria do Mags é muito verdadeira, e pensar nisso me deixa desconfortável de muitas formas.
— Quanto ao Morton? Mas já está tudo certo, eu vou gerenciá-lo. Sim, sim, vou fazer sim — ele se inclinou para a direita e o seu olhar acabou se chocando com o meu. Gelei no mesmo instante. — Morton! Venha, se acomode.
Ele desligou o telefone celular na hora. Arqueei a sobrancelha, mas tentei não soar suspeito. Cheguei em passos lentos e puxei a cadeira.
— E então… vamos beber o quê hoje? Conhaque? Tequila?
Ele me olhou com uma expressão surpresa. Eu levantei as sobrancelhas e deixei um sorrisinho estampar o meu rosto.
— É brincadeira, velho, fica tranquilo.
Não sei o que deu nele, mas, quando ouviu minhas palavras, soltou uma risada animada, daquelas típicas de velhos que não querem parecer chatos. Eu confesso que jurava que isso ia me tirar alguns pontos com ele, eu até pensei em tratá-lo com um pouco mais de formalidade (como o Paul provavelmente faria), porém isso deixaria as coisas monótonas. Ele poderia pensar que eu sou mais do mesmo.
Pelo visto, ser um pouco mais descontraído era a resposta certa.
— Quantos anos você tem mesmo?
— Vinte e três.
— Isso é bom. Não temos muitos "jovens talentos" atuando, os que acabam seguindo por esse caminho se tornam um pouco reclusos, e isso leva para muitos problemas…
— Quais problemas? — arqueei a sobrancelha. É sério, eu não sabia. Não que a Noruega fosse santa, mas eu podia considerar que éramos "bem-educados".
— Nada importante, apenas coisas das quais você deve ficar longe.
Assim que ele terminou de falar, um garçom veio servir a gente. Eu queria sair das terras do meu país e acabei pedindo pratos típicos de um café da manhã estadunidense. Eu sabia que não ia conseguir comer metade daquela gororoba, mas eu queria tentar. Já o Branca, se contentou com um copo de maltado.
— Bom… vamos falar sobre negócios — ele iniciou, e eu dei toda atenção. — Eu vou te levar até um estúdio de gravação. Lá, você irá se apresentar para mim. Preciso ver pessoalmente.
— Tá bom — falei com dificuldade, ainda engolindo a comida.
— Prepare a voz, hum? E nada de bebidas geladas.
— Eu sou filho dos vikings, nascido do frio, eu não tomo bebidas geladas. A nossa cerveja é a melhor e é quente — falei, tomando um gole d'água em seguida.
— Hm… me lembre de te deixar longe de álcool. Só por precaução — ele tomou um gole da própria bebida, e eu quase engasguei ao deixar um riso curto escapar pelo comentário. — Então… você tem muitos amigos? Tem facilidade em fazer amigos?
Eu dei ombros.
— É, eu acho que sim. Não sou de falar muito, mas não sou tímido.
— Conhece muitos jovens com esse seu espírito musical?
Ponderei sobre aquilo.
— Hum… a minha banda.
— Fora eles, mais ninguém?
— Bom, eu não conheço muitos caras que levam isso a sério. A maioria desiste por causa da família ou pra fazer faculdade.
Ele assentiu, parecia querer me dizer alguma coisa, mas, se era isso mesmo, desistiu. Terminei de comer minha refeição e já me levantei pra seguirmos até o estúdio, já estava me sentindo pronto.
— Espere um segundo…
Eu me virei e arqueei a sobrancelha. O que quer que ele estivesse escondendo, enfim resolveu me contar.
— Antes de tudo, quero te apresentar a uma pessoa.
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