Diário de 83
3 Diário de 83 - Parte II
Notas iniciais
10:15 hrs
Branca me levou até um estúdio em West Hollywood. Demorou um pouco até chegarmos lá, a neve obstruiu vários pontos daquele trajeto, mas o que importa é que deu certo.
Porém, isso era o que menos me preocupava. Tudo o que passava pela minha cabeça era dar a melhor performance para que, assim, ele tivesse interesse em chamar os caras. Não parava de pensar em que música ia cantar, mas ele estava com uns papos estranhos na viagem. Passamos um bom tempo falando sobre coisas desconexas do assunto principal e eu ainda não entendia a razão desses diálogos.
— Sabe, eu não sou tão velho como você pensa. Temos apenas nove anos de diferença.
— Pra mim, passou de cinco, já é bem velho — eu brinquei, mas então mordi os lábios pra ficar em silêncio. Ele ainda era meu assessor.
— Eu não vou morder, eu juro — ele tentou entrar no ritmo. — Escuta, o que você acha de conhecer outras pessoas nessa sua idade, que seguem o mesmo sonho que você?
— Tipo concorrentes?
Ele franziu o cenho.
— Mais ou menos… Olhe, não leve isso como uma competição, ou então não se tornará uma situação saudável. Eu estou falando de um amigo, alguém com quem trocar ideias. Vai ser bom até mesmo para aperfeiçoar seu inglês que é muito puxado.
Hunf, pelo menos eu sei pronunciar “John Branca”.
— Se você acha que é o melhor pra mim…
— Sim, sim, eu acho — ele parecia ter gostado do que eu falei, porque se apegou na frase. — Como o natal está chegando, eu não sei se ele poderá vir te ver, talvez eu só consiga apresentá-lo a você no ano que vem, mas vai ser uma experiência interessante para os dois. Dois jovens que respiram a música, que têm cada um sua base criativa, suas vivências… Ele vai adorar você, ele tem fascínio por terras distantes.
Assenti em silêncio. Eu não queria soar antipático, então deixei um sorriso de canto aparecer, mas não estava muito empolgado com a conversa.
— Quando chegarmos, posso fazer uma ligação?
— Se quiser fazer no carro, tem o meu telefone celular.
Arqueei a sobrancelha enquanto olhava pra aquele troço enorme. Segurei com as duas mãos.
— Isso é um telefone?
— É, eu sei, tecnologia nova. Mas funciona, eu já testei.
— Obrigado, acho que prefiro o telefone menor, grudado na parede.
Ele riu junto comigo, enquanto eu colocava o objeto de volta no lugar.
— Eu gosto do seu senso de humor. Continue assim e você vai abrir muitas portas.
Dei ombros e sorri. E olha que os nórdicos têm fama de coração de pedra.
Seguimos em frente até chegarmos em um prédio com a fachada coberta de neve. Atravessamos os primeiros portões e enfim ele estacionou, já estávamos no estúdio. Naquela hora, senti meu estômago revirar. Era a mesma sensação de estar prestes a fazer a prova da sua vida! Eu precisava ligar pro Paul pra relembrar quais músicas tínhamos, ou do contrário eu teria que fazer um cover improvisado do Jimi Hendrix (que inclusive eu gosto bastante).
Passamos rapidamente por um corredor longo. Haviam poucos funcionários por perto, e os que estavam lá já estavam preparando suas coisas pra não voltar nunca mais naquele ano. Branca parecia estar procurando por algum lugar em específico, e então eu parei de prestar atenção nele pra olhar os quadros pendurados nas paredes. Eram discos de todos os tamanhos e estilos: platina, ouro, diamante, de artistas que eu sequer conseguia ler o nome! À medida que eles apareciam, mais rápido John parecia caminhar. Eu fiquei atordoado com aqueles quadros, imaginando se um dia não teria um daqueles, um sequer. Ou dois, ou mais. Contudo, antes que eu pudesse completar a reflexão, o velho me puxou para uma daquelas salas e então eu percebi que estávamos em um quarto de gravação.
Só tive tempo de flagrá-lo fechando a porta. Não esperei por suas ordens, procurei o telefone mais próximo e comecei a discar, ele havia me prometido aquela ligação! E não demorou muito para Paul atender.
— Alô.
— Ei! Paul, passa o nosso “catálogo” agora!
— E como está aí? Como estão as coisas?
— Ele perguntou da gente?? Como são os americanos?? — Mags se intrometeu na ligação. Suspirei e respondi.
— Se vocês não passarem a porra das músicas agora, talvez ele fique afim só de me gerenciar mesmo.
— Eu preciso visualizar a situação pra te passar, não é qualquer merda que você vai cantar! Vamos, vai me detalhando…
Olhei pros cantos.
— Estou numa sala de gravação. Está frio. Hum… esse cara quer muito me apresentar pra um amigo dele, não faço ideia de quem é e não tô nem aí também. Ele fala muito sobre trocar experiências.
— Só por precaução, vigia as costas.
— Cala a boca, Mags.
Ouvi os dois gargalharem no fundo.
— Frio, não é? Você pode cantar The Blue Sky. Ou Train of Thought, tem tudo a ver com a ocasião.
Porra, ele escolhe justo as mais underground possíveis. Eu só vou impressionar minha mãe com isso.
— Morton, preciso que termine essa ligação agora, não teremos muito tempo aqui, os funcionários estão se preparando para entrar de férias.
Suspirei pesarosamente.
— Francamente, eu vou de cover.
— O quê?? — Paul exclamou, e eu não ouvi mais o Magne depois disso. — Pensei que a ideia fosse vender a gente, não promover alguém que já foi vendido.
— Ele só quer testar minhas habilidades vocais, e tem coisa que só dá pra fazer com vocês aqui. Eu vou me virar, vai dar tudo certo.
Ouvi ele suspirar.
— Vai lá.
— Liga pra gente depois! — disse o Magne.
— Okay.
Assim que desliguei, senti um vazio. Aquela ligação foi completamente inútil, e só me fez perceber como eu estou meio perdido em pensamentos sem os caras por perto. Eu sei o que eu quero e sei o que vou fazer pra obter isso, mas tem coisas que não dá pra fazer sozinho. As músicas do Paul só dão certo com todos nós juntos, e é por isso que somos um trio.
— Está preparado?
Assenti em silêncio.
— O… o seu amigo não veio?
— Ah, ele… ele vai se atrasar. Talvez ele sequer venha, está nevando muito lá fora. Vamos deixar isso para o ano que vem mesmo — o homem se encostou em uma mesa próxima. — Eu só quero que me mostre um pouco da sua voz em ação, tudo bem? Mais ou menos como você fez com o Barron, eu quero ver o que é que ele viu que o deixou tão impressionado.
“Impressionado”... Essa palavra me preocupava.
Olhei para aqueles discos nas paredes, ainda haviam alguns pela sala. Me intimidavam, mas eu sentia o gosto do desafio. Havia chegado a hora de provar alguma coisa e eu sinceramente espero que a intuição bizarra do Paul esteja certa como da última vez.
"Ele gosta de ter no jornal da manhã
As palavras cruzadas resolvidas
Palavras sobem, palavras descem
Para a frente, para trás, de trás para frente
Ele pega uma pilha de cartas de uma pequena mala
Desaparece para dentro de um escritório
É mais um dia de trabalho
E os seus pensamentos estão cheios de estranhos…
Corredores de luzes nuas…
E em sua mente, que já esteve cheia de razão,
Agora há mais do que aparenta
Oh, um rosto de um estranho que ele carrega consigo…"
Vi o rosto dele se fechar em pensamentos e expressões silenciosas, concentrado no que minha voz poderia oferecer, indagando se era suficiente, comparando a tudo o que já viu. Esse homem já deve ter visto de tudo e pensar nisso me deixava ainda mais nervoso.
"E por dentro ele é cheio de estranhos
Driblando a sua linha de pensamento…"
Finalizei a canção e notei uma microexpressão de interesse.
— Sabe tocar algum instrumento?
Assenti em silêncio. Haviam alguns pela sala, os mais tradicionais, e ele me permitiu escolher um deles. Eu não sabia tocar muitos (piano era definitivamente o meu maior problema), mas adorava guitarra e eu já estava a um tempo querendo fazer um cover. Escolhi Purple Haze, do Jimi Hendrix (ousado demais?), em seguida peguei a guitarra e… bom… agora é tudo ou nada.
"Névoa roxa por toda a minha cabeça
Ultimamente, as coisas, elas não parecem mais as mesmas
Estou agindo meio engraçado, mas não sei o motivo
Me dê licença, enquanto beijo o céu!
Névoa roxa por todos os lados
Não sei se estou subindo ou descendo
Estou feliz ou triste?
O que quer que seja, aquela garota colocou um feitiço em mim…
Me ajude, me ajude!
Oh, não, não!"
Toquei até o segundo tempo, meus dedos começaram a doer, mas ignorei e finalizei antes de chegar na parte que eu ainda não sabia tocar tão bem (a gente tem que fingir que sabe de tudo, não é? Não é assim que funcionam as provas escolares?).
— Hum… Jimi Hendrix, não é? Gosto da sua bagagem, mas quero que se concentre nos seus autorais, está bem? — droga, levei um sermão — Gosto do seu grave, me lembra o Elvis em alguns momentos. Há uma volúpia na sua voz que pode ser usada como marketing quando você for mais velho, porém… — ah, não, não me desanima — ainda é mais do mesmo. Preciso que me mostre alguma habilidade, alguma coisa que apenas você faz. Barron disse que achou sua voz potente. Você consegue segurar as notas? Consegue mostrar alguma coisa nova para mim?
Suspirei discretamente e pensei em qual música poderia elevar o potencial da minha voz. Sim, tinha uma coisa que eu sabia fazer, mas, àquela altura, eu já não sabia se isso era grande coisa. Eu conseguia ir do grave ao agudo sem deslizar, mas já não sabia se isso fazia diferença.
Eu precisava tentar.
"Vivendo uma história de aventura para meninos
Por sua causa!
Vivendo uma história de aventura para meninos
Oh, você sabe que é verdade!
Vivendo uma história de aventura para meninos
De tantas maneiras! Ah!
Por tantos dias…"
Escolhi Living a Boy's Adventure Tale. Não era minha composição preferida do Paul, mas foi o que veio na minha cabeça. O velho analisou em silêncio, ia dizer alguma coisa, mas duas batidas na porta fizeram o meu coração quase sair pela boca.
Suspirei. Eu estava puto (PUTO!) por ter sido interrompido, mas talvez não fosse tão ruim assim, talvez o desgraçado pudesse ter ajudado.
Hum… Falando nisso… quem era?
— Fique aqui.
Branca se retirou antes que o cara entrasse. Eu passei as duas mãos no rosto, senti toda a pressão turvar minha visão, eu nunca havia ficado tão estressado na vida. Aproveitei que ele saiu e tentei arejar a mente pensando em outras coisas, mas o sossego não durou muito, logo o velho retornou.
— Morton, a sala vai ser usada. Vamos, quero conversar com você no corredor.
Aquiesci em silêncio mais uma vez, naquele momento eu estava em completa inércia, toparia qualquer coisa que esse cara falasse.
Assim que ele saiu da sala, eu o segui logo atrás, porém quase dei de cara com outra pessoa.
— Desculpe…
Ele murmurou baixo. Embora tivesse um tom de voz introvertido, sorriu com certa segurança e seguiu para dentro da sala. Eu sei lá, mas senti que a gente ficou se olhando por mais de dois segundos antes dele realmente ir embora (e eu só senti mesmo, não dava pra ver os olhos dele, usava um Ray-Ban bonito). Apertei a vista e me virei para ver aquele cara de novo, mas Branca me puxou para fora e seguimos até o corredor.
— Você é bom com falsetes, sabia? Você tem qualidades notáveis, só não tenho certeza se tem a cara da América. Você traz uma discrição típica dos europeus, e o público daqui gosta de extravagância, brilho, poder.
Fui direto para uma daquelas cadeiras nos corredores, enquanto ele parava em um canto para pôr as mãos nos bolsos e ficar de pé, me olhando.
— E então?
— Podemos melhorar isso. É o de menos, isso se conserta com o marketing certo, o mais importante é o talento, talento esse que você tem.
Ouvir aquilo fez o meu corpo paralisar. Eu tentei segurar um sorriso bobo, finalmente eu estava sendo reconhecido por alguém daquele meio!
— Bom, o seu nome artístico será Morton mesmo?
— É… e-espera aí! — Finalmente despertei. Não era pra aquele cara estar pensando em carreira solo, eu precisava trazer os outros também! — Eu tenho uma banda. Somos o "A-ha", é tipo a-ha! Surpresa, coisas novas… você entendeu.
Branca arqueou a sobrancelha.
— Ah, sim! Os outros dois jovens… O que eles fazem na banda?
— Paul escreve as composições e ele sabe trabalhar com a minha voz. Magne que formou o grupo, ele é o cara dos teclados e é muito bom nisso! Ele faz umas coisas que eu nem sei pra onde vai…
— Morton, vou ser sincero. Posso trazer sua banda, mas garanto a você que as bandas, aqui, não duram muito, principalmente quando elas têm membros que se destacam — ele fez um movimento com a cabeça, sinalizando para a sala que acabamos de deixar. — Viu o rapaz que passou por você? Ele também era de uma banda. Saiu porque se destacou, porque acabou se tornando maior que aquele grupo. A América é para mentes racionais. Se você se destacar, o que vai acontecer, ignorar isso para manter a união e a amizade do grupo é dar um tiro no próprio pé. E te aviso que nenhum assessor gosta de investir nas pessoas erradas.
Ouvir aquelas palavras me deixou sem ter o que dizer. Eu ia falar o quê? Que ele está errado? Eu sou só a droga de um cara que saiu a pouco tempo da adolescência e está tentando coisas novas, eu estou tentando sair do trivial. Ah, pastor, músico de orquestra! Pensar que, se eu voltar pra Noruega, irei virar essas coisas é desesperador! Eu não posso aceitar isso, não posso trair os caras, mas não posso perder a oportunidade da vida! Que decisão complexa…
— Eu posso… eu posso pensar?
Minha voz quase falhou, mas consegui segurar o nervosismo. Sei que falar isso e dizer que não quer é quase a mesma coisa, porém Branca pareceu bem compreensivo. Ele assentiu e levou uma mão ao meu ombro.
— Espero que tome a melhor decisão. Eu gostei de você e estou planejando criar sua carreira durante todo o ano que vem, pense nisso.
Como ele consegue me consolar e me pôr na merda ao mesmo tempo?
Assim que ele saiu, fiquei ali, sozinho. Pedi um tempo para pensar e eu tinha até o horário de almoço, que era quando eu teria que voltar pro hotel com ele. Naquele momento, não saí do meu lugar, apenas abaixei a cabeça e pensei por várias horas. Devo ter perdido todo o tempo que tinha, pois as poucas pessoas que estavam no prédio iam e vinham, sentia elas olhando para mim, mas não tinha vontade de olhar de volta. Fiquei até aquela sala, em que eu estava antes, ficar silenciosa — sinal de que, quem estivesse usando, tinha acabado naquele momento. Ouvi a porta abrir, as chaves tilintarem, porém não tinha a mínima vontade de levantar o rosto. Senti uma presença se aproximar. Ele passou, mas voltou pouco depois.
— Está tudo bem?
— Hum…? — levantei o rosto e vi o mesmo rapaz que quase esbarrou em mim naquela hora. — Sim.
Ele não pareceu convencido (eu acho… Ele ainda usava o Ray-Ban. Eu não conseguia ver nada dos olhos dele com aqueles óculos enorme). Se aproximou e sentou do meu lado, deixando apenas uma cadeira de distância. Eu voltei a fitar o chão, ainda um pouco atordoado.
— Eu… ouvi a sua audição. Você canta muito bem.
Continuei em silêncio. Nem sei por que ele tá tentando falar comigo, eu tava no mundo da lua naquele momento.
De um jeito ou de outro, ele continuou.
— Jimi Hendrix… eu fiquei surpreso com a sua escolha.
Ao dizer aquelas palavras, eu enfim olhei para ele de soslaio, a fim de que prosseguisse.
— Q-quer dizer… ele morreu há mais de dez anos, não é? Achei que você teria um repertório diferente… atual. Enfim, eu gostei, você tem bom gosto. Ele é um símbolo negro.
Umedeci os lábios só pra me manter calmo. Eu entendi onde ele queria chegar, meio que eu já tinha uma noção da segregação velada daquele país. Na forma como fui criado, isso não fazia diferença alguma pra mim.
Eu pensei em dizer alguma coisa, mas ele continuou.
— Ah, não ligue muito pra o que o Branca fala, ok? Ele entende mais de burocracia do que de música — eu soltei um riso curto com o comentário, mas tentei me conter. Vi o sorriso dele se abrir e então fiquei um pouco mais à vontade. — Jimi Hendrix é show…
Ele comentou, em seguida desviou o olhar do meu, buscando qualquer outra coisa naquela sala. Eu continuei espiando de soslaio e ele manteve o silêncio. Era bizarro como éramos os únicos jovens naquele lugar de velhotes, além do mais ele parecia ser mais novo que eu, tinha uma voz baixa e suave, frágil como vidro.
Ficamos em silêncio. Não que eu fosse tímido, mas era péssimo em manter o ritmo de um assunto, principalmente quando eu não queria conversar. Já ele era diferente, parecia mesmo ser acanhado, não era o forte dele puxar papo.
Tentei murmurar alguma coisa.
— Também adoro Queen. The Beatles…
Vi o sorriso dele acentuar.
— Eu também. Eles são incríveis, não é? Eu já falei com alguns deles algumas vezes…
— Já?
Deixei de ceder o meu olhar para ceder todo o meu rosto para aquela conversa. Me virei, aquele cara conseguiu me despertar da mesma forma que um café expresso faz. Eu deixei a angústia que me assolava um pouco de lado e mergulhei naquele bate-papo.
— Sim! Principalmente sobre música. É assim que a gente adquire conselhos valiosos. Nessa indústria, as melhores conversas que você pode ter com um artista de peso como eles são sempre sobre música, composições, feats…
— Se um dia você fizer feat com o Queen, eu vou querer saber — comentei, tentando segurar o coração no peito, mas acho que ele percebeu, pois soltou uma risadinha curta.
— Talvez… Regra primordial: nunca fale dos seus acordos com os outros. É para fins de segurança.
Depois dessa frase, acho que ele piscou pra mim (sei lá, porra, os óculos, os óculos! Já falei). Eu assenti, aquele cara parecia bastante profissional, mesmo sendo tão novo. Ele me seria um ótimo guia nesse ambiente maldito.
— Puxa, você sabe muitas coisas nesse meio, não é?
— É que eu estou “nesse meio” há um bom tempo… — ele começou a remover as luvas escuras que usava. Foi quando eu finalmente olhei para os seus trajes — ou você aprende ou te deixam pra trás. Esse meio é como uma corrida que nunca acaba, e você sempre deve se manter em primeiro lugar.
— Legal… — acho que olhei pras luvas por tempo demais, pois ele começou a brincar discretamente com elas, um tanto contrariado. Eu despertei quando aquela lantejoula furou o meu olho com aquele brilho — ahr… digo… er, qual o seu nome mesmo?
Ele sorriu.
— Eu quase não escuto isso, sabia? Essa pergunta… é bom ouvi-la às vezes — ele deu uma pausa e voltou a relaxar os ombros naquela cadeira desconfortável. — Meu nome é Michael. Michael Jackson. E o seu?
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12:34 hrs
Já no horário de almoço, Branca e eu fomos pro carro e tomamos a estrada mais uma vez. Eu tinha decidido ficar, mas nós teríamos uma conversa melhor no hotel. De qualquer forma, eu olhei para a paisagem passando pela janela, enxergando branco em todo lugar, quando me lembrei da miséria de vida de mendigo que eu deixei em Londres, de como os caras estavam aguardando por mim, e então eu decidi que eu ia adiantar aquele papo ali mesmo.
— Eu acho que eu falei com quem você queria que eu falasse.
Ele arqueou a sobrancelha e me encarou de canto, enquanto dirigia.
— É mesmo? Quem?
— O cara do Thriller. Eu vi o disco dele vendendo como água em Londres, mas eu fiquei bem por fora porque era lançamento e eu sou meio saudosista.
— Não era porque você não tinha dinheiro?
Revirei os olhos e tentei não ser expulso do carro ali mesmo, mas, errado, ele não estava.
— Bom, você queria que eu falasse com um cara mais ou menos da minha idade que também está tentando ganhar com a música, não é? Quando me disse isso, eu não pensei que ele já estaria consolidado… Por que quis me apresentá-lo?
— Eu queria que vocês trocassem experiências, que ele ensinasse algumas coisas para você. Sei que se encontraram, ele me falou. Eu sou assessor dele.
Levantei as sobrancelhas.
— Você é assessor do cara que tá vendendo disco como água?
— Eu não tenho muito crédito nisso, foi esforço dele e do Quincy, que é outro a quem vou te apresentar futuramente.
Assenti.
— Okay, mas por que esse Michael perderia o tempo dele comigo? Se ele está focado na carreira dele…
— Michael gosta de trabalhar sozinho, mas não gosta, em hipótese alguma, de estar sozinho. Essa é sua oportunidade de pegar um pouco dessa experiência americana de produção acelerada, investimento, lucro e fama com ele. Vou marcar mais encontros entre vocês.
Eu ainda não entendia aonde ele queria chegar.
— Você vai criar minha carreira e ele vai me treinar? — indaguei, franzindo sutilmente o cenho.
— Perfeito. Por que não?
— Ele tá sabendo disso?
— Não, mas ficará, e eu garanto que ele vai gostar da ideia.
— Como tem certeza?
Perguntei novamente, e ele me olhou diferente, de um jeito como se estivesse pedindo pacientemente que eu acreditasse. Desviei o olhar para o painel do carro e me distraí naquelas luzes quando o ouvi falar novamente.
— Eu sei. Eu conheço o Michael.
Ele parecia estar escondendo algo, e eu não quis insistir.
— Certo, eu acredito… — tentei disfarçar a ironia da minha voz a todo custo — mas tenho algumas condições. Eu quero o meu grupo em Los Angeles. Eu te garanto que nós três somos bem melhores juntos, e você me garante que o moço dos óculos Ray-Ban vai gostar de ser a minha babá. O que me diz? Vamos garantir coisas juntos?
Putz, o caminhão de sarcasmo descarrilou. Eu juro que tentei me segurar, e rezei dentro de mim para que aquele homem não se ofendesse.
Felizmente foi o que aconteceu.
— Assim seja. Abra o porta-objetos.
Dei ombros e abri no automático. Lá achei apenas uma caneta de político, um mini calendário pin-up (esse eu vou pegar pra mim sem ele ver) e um bloco de notas azul.
— O que você quer que eu pegue?
— Esse bloco de notas é para você. Pode fazer o que quiser com ele, é um presente, mas eu comprei para que você anotasse tudo o que vai acontecer no ano que vem. Iremos construir sua carreira e eu quero que aprenda rápido. Nós somos bem imediatistas, você precisará entrar no ritmo logo.
— Hum… — olhei para um lado e para o outro daquele objeto — tipo um diário… Okay.
Depois dessa conversa, seguimos viagem. Assim que cheguei no hotel, corri para o telefone mais próximo para contar as novidades aos caras (e aproveitei para enfim revelar a surpresa pra minha mãe, sei que ela vai me matar, mas pelo menos ficará orgulhosa!). Agora eu tinha o desafio de construir uma carreira, reunir a banda, aprender sobre aquele mundo com o único da minha idade e anotar tudo nesse diário azul.
Bom… essas são as minhas primeiras histórias antes de iniciar o ano, e eu espero que ninguém leia essa droga, porque estou começando a gostar dessa liberdade.
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