Diário De Um Sobrevivente
21 Vivendo com alguns loucos
Notas iniciais
Mal terminei de contar minha história, a primeiro tenente entrou no corredor.
— Comam — ordenou ela empurrando os pratos metálicos com uma sopa rala e meio esquisita através das grades. — Vocês precisam estar fortes, quero fazer um treinamento com você amanhã garoto.
— Por que você não começa a me treinar hoje? — indaguei antes de pegar o prato que ela me oferecia.
— Por que o treinamento dos soldados é cedo pela manhã, à tarde eles tem outros afazeres e à noite você pode chamar de período de descanso — explicou ela de uma forma que pareceu arrogante. — Nós temos regras sabia? É uma ótima forma de viver nesse mundo. Agora pegue!
Helsin veio como um cachorrinho e pegou seu prato. Eu apanhei meu prato também, como se me rendesse, e ao encará-lo em minhas mãos fiz uma cara de desagrado.
— Sinta-se honrado, afinal você está comendo o prato principal, a mesma coisa que nós comemos — ela incitou de forma ainda mais arrogante e virou-se saindo pelo corredor com o nariz apontando para o teto.
Quando a porta do corredor bateu Helsin já havia comido metade da sua sopa anêmica, eu o encarei meio com desgosto meio com raiva.
— O que foi? —perguntou ele com a boca cheia.
No outro dia eu acordei bem cedo, antes do sol para ser exato, fiquei deitado encarado a parte de baixo da cama de Helsin. Era estranho, mas mesmo depois de todos os horrores pelos quais eu havia passado ainda tinha certos medos ridículos e um deles era a altura da cama superior do beliche, o coronel ao ver minha expressão logo entendeu e deitou-se na cama de cima sem nada dizer.
Esperei o tempo que minha paciência resistiu, refletindo sobre o plano hediondo daqueles que deveriam proteger e em como isso com certeza resultou na morte de milhões. Depois do que me pareceram vários minutos me levantei e comecei a bater na grade. Estava arrastando minha mão nas grades de um lado a outro da parede até ouvir um murmúrio.
— O que está havendo garoto? — perguntou Jack com a voz embargada.
— Estou preocupado — respondi sinceramente. — Na verdade ansioso, acho que define melhor.
— Sim, acho que sim — sua resposta vaga me levou a crer que ele havia voltado a dormir.
Depois de conferir o meu herói preguiçoso voltei à grade e me deparei com a mulher que eu odiava em segredo.
— Parabéns recruta! Não é todo homem que encara a manhã de cabeça erguida — saudou a primeiro tenente, encarando depois, com uma expressão entediada, Helsin que agora roncava. — Ainda mais tão esperto quanto você parece estar. Então, está pronto para um treinamento de soldado digno de sobrevivente?
— Sim, estou. Devo acordar meu amigo agora, não?
— Não! Deixe-o descansar, o homem é um veterano do exército, creio que ele não precise de treinamento tanto quanto você.
— Certo — respondi e esperei ela destrancar a cela. Quando estava prestes a sair ela ergueu a mão para mim.
— Espere um momento! Preciso dizer que você está aceitando um contrato e, peço que me desculpe, mas ainda não posso confiar a você a minha segurança e de meus soldados, você é um estranho para nós.
— Vá direto ao ponto — pedi, cerrando os olhos para ela.
— Você é apenas um garoto, mas como já lhe disse, temos regras e é com elas que mantemos tudo funcionando. Então vou lhe pedir que volte aqui ao final do dia por um período de três dias, para que possamos estabelecer uma relação estável onde você não tente nos matar.
— Certo.
Quando cheguei à área de treinamento, ao encarar aquelas trincheiras com arame farpado e lama, rampas de barro, pistas de obstáculos e paredes de escalada achei que pra alguém que passou quase um ano matando zumbis, comendo enlatados velhos e correndo de um lado pro outro regido à adrenalina seria moleza. Estava enganado.
Depois de cinco minutos fazendo aquele treinamento me senti igual um filho de uma égua e depois que Taylor me deu um rifle descarregado para correr com ele à mão minha expressão não melhorou.
— O primeiro dia é sempre assim — Taylor informou ao me ver caído no meio da lama depois de várias voltas e do que me pareceram horas de treino.
— Sério? — perguntei debochado.
— Vamos, você almoça e descansa, estou pensando em te enviar em um treinamento de campo no terceiro dia, o que acha?
— Está falando de sair para matar zumbis?
— Um helicóptero do exército vem nos trazer provisões para mais um mês. No entanto me parece que ele não pode simplesmente jogar as provisões aqui na nossa varanda, por motivos óbvios. Logo, meu superior estabeleceu sempre um local diferente para deixar a carga. Isso vai acontecer daqui a dois dias e o que quero que você faça é que vá com minha equipe silenciosa de carregadores, para o local indicado.
— Quer que eu ajude a escoltar sua equipe?
— Pode se dizer que seja isso mesmo.
— Se eu não aceitasse, o que você faria? — perguntei, mantendo a expressão inalterada.
— Creio que é um direito seu escolher. Você já passou um bom tempo lá fora, sabe como são as coisas, seria um bom acréscimo à minha equipe, que devo admitir, não passa muito tempo matando zumbis. Mas se estiver com receio de voltar à ativa tão depressa.
— Não tenho mais medo desses mortos vivos.
Ela deu um sorriso quase imperceptível. Então ouvimos uma sirene.
— É hora do almoço, depois da refeição um soldado vai te escoltar de volta à cela, se você quiser pode pedir pra ele te indicar a biblioteca, sei que é chato ficar preso em uma cela sem nada pra fazer, ler um livro pode não ser tão útil hoje em dia, mas se trata de diversão.
Ela deu mais um sorriso, dessa vez tão aberto que eu imaginei que tivesse a intenção de ser acolhedor. Um soldado estranho que parecia ter feito voto de silêncio me levou até o refeitório. Eu peguei minha pasta gosmenta que chamavam de comida depois de esperar em uma fila e segui até uma mesa isolada. Havia cerca de cinquenta soldados ali, não enchia o refeitório, mas fazia-me imaginar onde eles estariam quando eu e Helsin estávamos cortando aquela grade.
Um homem meio magro veio andando entre as mesas do grande salão em minha direção, fiquei imaginando que ele sentaria em qualquer mesa no caminho, mas ele veio até mim e sentou ao meu lado.
— Então é verdade — falou ele, depois de comer uma colherada do arroz de lodo.
— Posso perguntar o quê é verdade?
— Que um garoto foi recrutado, por ser matador de criaturas.
— Criaturas... você quer dizer... zumbis? — perguntei meio sem jeito.
— Criaturas erguidas pela ciência nojenta do homem. Maldito seja!
— Acalme-se homem — pedi meio desesperado, por que ele dera um soco na mesa e alguns soldados ficaram olhando com uma expressão incomodada. Eu olhei a insígnia em seu ombro e lembrei-me de já ter visto aquilo quando meu tio me levou na sede da força aérea. — Então sargento da aeronáutica, o que você faz aqui?
— Vejo que você é um garoto esperto, quantos anos você tem? — perguntou, cerrando os olhos para mim com a colher a meio caminho da boca.
— Treze. Já respondi sua pergunta, agora responda a minha.
Ele deu um sorriso antes de falar.
— Não sou o único — ele apontou a insígnia no ombro de outro homem à umas duas mesas de distância, pude reparar que o símbolo era quase igual ao do homem com que falava, exceto pela ausência de uma tira na parte de cima e de um losango sobre a estrela. — É meu subordinando, aparentemente o exército tem tudo sobre controle, como se houvesse planejado isso há tempos, não? Eu não sei para que serve o helicóptero ainda, mas estou as ordens.
Eu olhei para a cara daquele homem seriamente, seus olhos velhos e seu rosto branco com alguns sinais e meio enrugado, ele parecia estar sendo sincero.
— Então sargento, deixe-me lhe contar uma história.
Os soldados que eram ordenados para me escoltar pareciam mais com carrascos, pois não me dirigiam nenhuma palavra e nem sequer olhavam em meus olhos. O soldado que foi mandado para me levar até a biblioteca apenas apontava e se eu tivesse alguma duvida, permaneceria com ela.
— Você acha que eu cosigo ler algum livro dessa série “as crônicas de fogo e gelo” em três dias? — perguntei erguendo o pesado livro para o homem. Não houve resposta. — É melhor eu não ler uma série não é? Então, tem algum livro para me recomendar?
Acabei escolhendo um livro que tirasse meus pensamentos do apocalipse zumbi, peguei um livro de mitologia grega.
— Helsin, tenho notícias — falei depois que o soldado caladão trancou a grade e saiu do corredor batendo a porta.
— Dá pra parar de me chamar Helsin? — pediu ele entre uma repetição de flexão e outra.
— Não, se quisesse que eu te chamasse pelo nome teria me dito que se chamava Jack Johnson e que era do exército quando eu acordei naquele lugar — falei impassível. — Então, vai querer ouvir minha história ou não?
Ele continuou o exercício.
— Pode falar, estou ouvindo.
Então eu falei sobre meu dia, sobre o sargento, sobre a missão de apanhar suprimentos e sobre meus planos para o futuro.
— Eu passei o dia pensando sobre estar aqui. Eles não vão me treinar, espero que você já tenha percebido, eles não precisam de mim — soltou o coronel de repente.
— E por que você diz isso? — perguntei me jogando na cama.
— Eu recebi um convite do exército antes disso começar — ele falou deitando de costas no chão. — Na carta havia os motivos do convite. Por eu ter descoberto o vírus que levou à tudo isso, por eu ter sido condecorado como herói, era suposto que eu merecia participar do plano, mesmo tendo me aposentado por causa disso.
— Então você acha que vai ser descartado por rancor? — perguntei meio cético.
Ele levantou-se de um salto e olhou-me incisivamente no fundo dos olhos.
— Você não acredita nisso? Não percebe como funcionam suas mentes demoníacas? As pessoas são nada mais que ferramentas em suas mãos e é isso que eles querem que você seja, assim como os seus amigos também. Mas eu, eles sabem que já percebi isso e que nada de útil pode vir de mim para eles.
Esperei um momento desagradável absorvendo aquelas palavras, imaginando o que aconteceria no terceiro dia, quando eu fosse libertado.
— Então, o que você acha que acontecerá?
— Pensando no que você disse, não é muito difícil supor. Serei executado nesse tal terceiro dia.
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