Diário De Um Sobrevivente
1 O mundo cai
Notas iniciais
Éramos eu, minha mãe e meu pai, sobreviventes do tal apocalipse zumbi, que já havia sido anunciado pelos noticiários como tragédia de amplitude global há dois meses – o governo demorou alguns dias para ceder à pressão do povo e anunciar os acontecimentos na TV aberta – e fomos aconselhados a esperar pela vinda do exército que, supostamente, livraria a cidade da ameaça mutante.
Não foi assim aconteceu. Nós morávamos em um subúrbio da grande cidade de Atlanta. Boa parte das famílias foram espertas e se mandaram dali. Digo espertas, pois as que não saíram da cidade acabaram sendo devoradas por aquelas coisas e acabaram ficando iguais a elas.
Meu pai, por puro orgulho, não quis que saíssemos de casa. Mas até que ele foi inteligente, nos primeiros dias daquela confusão ele fortificou as janelas da nossa casa e trancou as portas, pegou emprestadas – roubou – algumas armas da loja de armas mais próxima e comprou – também roubou – mantimentos suficientes para alguns meses.
Como eu disse, não foi por causa da promessa do governo de enviar um exército para nos ajudar que permanecemos ali. Acontece que sempre fomos muito pobres, pelo menos desde que eu nasci, há doze anos, mal entrava dinheiro naquela casa para nos alimentar e só tínhamos um lugar para morar por que o irmão mais novo, e rico, do meu pai nos tinha dado aquela casa sem pedir nada em troca. Por isso, puro orgulho, meu pai queria manter a casa para que pudesse devolvê-la a meu tio.
Mesmo eu sendo criança sabia que a atitude do meu pai era uma extrema burrice, o tempo passa e um dia ele vai acabar recebendo a merecida recompensa. Não que eu queira isso, pelo contrário, amo muito meu pai, ele é muito legal e sempre faz de tudo para me agradar, ele só é muito esquentado e deixa o estresse assombrear seus pensamentos. Mas eu sou consciente, pois amadureci muito nesses últimos tempos, de que não posso julgar ninguém.
Pois é, uma criança de doze anos falando, pensando, sobre amadurecimento, mas é o que esse mundo faz, ou melhor, os seres humanos desse mundo. Meu pai nos ensinou como usar as armas, só Deus sabe como ele aprendeu. Ele nos levava todos os dias até um campo fora dos limites da cidade, minha mãe demorou pra concordar com tudo isso claro, mães são assim, mas ela acabou decidindo que realmente era necessário aprendermos a usar armas. Meu pai não estaria por perto para sempre e afinal ele conseguia nos levar e nos trazer todos os dias em segurança. Ele aprendeu um caminho seguro pra sair e entrar na cidade sem problemas e nossa casa ficava perto desse trajeto.
Nós atirávamos naquelas coisas, felizmente e infelizmente a maioria parecia estar concentrada dentro da cidade. Foi difícil começar direto atirando em alvos móveis, mas um dia a adrenalina me agraciou com uma capacidade de aprendizado intenso e rápido.
— George depois de você errar um tiro você deve me pedir permissão para tentar outro, entendeu? — Era uma das primeiras tardes de treino e eu já tinha errado muitos alvos. Meu pai estava tentando também me disciplinar.
Meu nome era George por causa do ex-presidente. Meu pai o considerava o maior presidente de todos os tempos, não posso criticar seu conhecimento político porque eu não tenho nenhum, e queria me dar o nome de Bush, mas minha mãe convenceu ele para que ficasse George.
Eu tentava absorver o que ele falava quando um daqueles bichos apareceu atrás dele, levantei minha arma, minha mãe estava cobrindo uma área a dois metros de distância da gente e meu pai parecia não perceber que corria perigo, não o culpo, pois essas coisas parecem pessoas contaminadas por complexo de retardamento, mas às vezes elas pareciam brotar do chão.
Foi o caso. Levantei minha arma e apontei para o bicho. Meu pai ficou assustado, pensou que eu iria atirar nele, eu não consegui entendê-lo nem falar nada porque o pânico havia paralisado meu cérebro.
— Ei filho, o que você tá fazendo? — meu pai perguntou amedrontado, sua voz tremia assim como suas pernas.
Eu atirei, pela primeira vez foi um tiro certeiro que fez um buraco na testa do bicho.
— Yeah! — gritei, fazendo um gesto vitorioso, fechando o punho e puxando o braço pra trás na altura da cintura.
Meu pai procurou às suas costas e encontrou o bicho que acabava de cair contra o chão fofo de folhas secas. Por um momento achei que ele fosse chorar de gratidão, mas eu o estranharia se fizesse isso.
— Você conseguiu acertar um tiro! Parabéns! — ele deu umas batidinhas carinhosas na minha cabeça. — Acho que está bom de treino por hoje.
— Qual é o problema Jayden? — nós estávamos na cozinha de casa, fazia um mês que eu tinha acertado meu primeiro tiro e desde então havíamos reduzido os treinos, meu parecia preocupado e minha mãe parecia perceber isso melhor do que eu.
— Têm vários problemas na verdade — meu pai sentou-se em uma cadeira e esfregou a testa. Parecia no ponto de pedir arrego. — A comida está acabando, as munições estão acabando.
— Não acha que é hora de sairmos daqui? — minha mãe estava começando a se exaltar, eu sabia onde isso poderia levar, já tinha ouvido discussões demais daqueles dois.
— Amélia, tenho que devolver essa casa...
— O caramba que tem! Seu idiota não percebe o que aconteceu com o mundo? O mundo todo? — ela começou a gritar e eu percebi que era hora de sair despercebidamente de cena.
Não havia lugar daquela casa onde eu não pudesse ouvir os gritos daqueles dois. Eu desci as escadas até o primeiro andar e me sentei no sofá. O pavimento inferior na verdade poderia acomodar outra família e antes dessa catástrofe mundial era pra isso que servia, mas as pessoas que a alugavam foram uma das famílias espertas que citei anteriormente.
Fiquei lá embaixo até que meus pais tiveram sua discussão atenuada pela ausência do filho.
Meu pai já tinha vindo me buscar várias vezes naquele lugar, então não tardou a me encontrar encolhido no sofá.
— Filho, me desculpe — Jayden sentou-se ao meu lado no sofá, ele falava suavemente.
— Não! Já estou cansado dessas brigas idiotas de vocês! — eu gritei na cara dele, meu pai pareceu ofendido, mas afastou os sentimentos ruins, ele precisava ser mais forte do que eu.
Então mais uma vez uma daquelas criaturas usou seu talento de brotar do nada e apareceu atrás do meu pai, será que ele tinha sangue doce?
— Pai! cuidado! — Eu gritei, ele virou-se alarmado e segurou o zumbi que estava prestes a mordê-lo.
— O porão! Feche a porta do porão!
Eu corri até o porão, tarde demais. Incontáveis daquelas criaturas subiam a escada de madeira. Tentei empurrar a porta, mas eles já entravam.
— George! — ouvi meu pai gritando, em seguida ouvi o som da mesa de centro quebrando e desejei que fosse sob o corpo do zumbi.
Meu desejo foi atendido, quando os zumbis avançavam até meu corpo, em estado de choque, meu pai se atirou sobre eles derrubando pelo menos cinco, trazia na mão um pedaço de madeira com o qual golpeava as cabeças deles.
— George pegue sua mãe e fuja! — eram mais zumbis do que meu pai conseguia segurar e continuavam vindo.
— Mas pai...
— Agora!
— Jayden! — minha mãe apareceu na porta com a escopeta de cano serrado que nunca ousamos usar.
— Não! Isso vai atrair mais deles! — Meu pai berrou e caiu no chão sob o peso da multidão de mortos-vivos que avançavam pra dentro do corredor.
Mas minha mãe não o ouviu e atirou, derrubando três deles, mas um dos estilhaços de bala atingiu a perna do meu pai.
— Desculpa amor!
Meu pai levantou-se, golpeou mais dois daqueles zumbis e nos compeliu a subir. Trancou a porta que dava acesso ao piso superior e nos reuniu em um quarto.
Ele olhou pela janela, a distância entre nossa casa e a casa vizinha era bem pequena.
— Amor, sua perna...
— Silêncio! — meu pai raciocinava rapidamente, nós começamos a ouvir batidas na porta em seguida o som de madeira partindo.
Ele correu até o guarda-roupa e puxou-o em direção a janela.
— Me ajudem aqui! — ele ordenou e nós três levamos o guarda-roupa até a janela, era um móvel estreito e cabia na janela, nós o colocamos sobre a janela e empurramos até a janela da casa vizinha. Meu pai pegou uma pistola e deu um tiro na janela que se estilhaçou e então empurramos o guarda-roupa para dentro do quarto daquela casa.
Entendi o seu plano. Minha mãe correu até o outro cômodo e pegou a mochila de armas.
— Deve aguentar um de cada vez — Ele falou, no momento em que a porta contra a qual os zumbis se esmurravam cedeu e meu pai correu até lá. — Vão! Eu atraso eles.
— Pai! — gritei, mas minha mãe me forçou a atravessar a passarela improvisada. Ela jogou a mochila de armas para mim e depois atravessou.
Depois de estarmos nós dois sãos e salvos naquela casa minha mãe voltou a olhar para a casa que era nossa com lágrimas nos olhos. Meu pai voltou ao quarto de onde tínhamos acabado de sair, ele tinha amarrado um pano na perna para parar o sangramento e mesmo depois que ele empurrou o guarda-roupa, que se estatelou no beco abaixo, eu fiquei sem entender qual era sua ideia.
— Pai! — chamei, também prestes a chorar.
— Desculpe não escutar você amor, isso é tudo culpa minha.
— Não! — minha mãe gritou, foi um grito que fez arder meu coração e as lágrimas contidas transbordaram.
— Fiquem em silêncio ou o que eu vou fazer vai ser em vão!
— Pai! — chamei novamente, contrariando seu pedido.
— George, eu te amo. Cuide da sua mãe do jeito que eu não pude cuidar — Ele deu um último sorriso e saiu do quarto. Pouco tempo depois eu ouvi alguns tiros na rua, minha mãe me abraçou e eu fiquei feliz de não poder ver o que aquelas criaturas sanguinárias faziam com o velho tolo que eu tanto amava.
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