Diário De Um Sobrevivente
2 É preciso confiar
Era o dia seguinte à morte de meu pai. Eu e mamãe passamos o dia inteiro limpando a casa silenciosamente, achamos três daqueles bichos, os matamos e jogamos seus corpos no porão. Não havia como sairmos de casa e não poderíamos queimá-los porque chamaria muita atenção.
Esse prédio, assim como o nosso, era formado por duas casas, uma em cada pavimento. Nós conseguimos achar apenas alguns enlatados na residência de baixo, porém no segundo pavimento demos mais sorte, havia muita comida – infelizmente boa parte era natural e apodreceria rápido, pois não havia energia e sem energia de nada adiantava geladeira –, água e também vários suprimentos médicos – uma caixa de primeiros socorros básica –.
Mamãe disse que tínhamos uma semana de alimentos no máximo e depois fo... depois ela disse uma palavra que não consegui entender.
Agora era o final da tarde, estávamos no piso superior porque minha mãe falou que se a casa fosse invadia por zumbis durante a noite nós seríamos alertados pelo barulho e ao menos teríamos tempo de despertar e nos defendermos.
Eu estava com muito medo, minha barriga doía e depois de um tempo, há horas sem falar nada e sendo acometida por tremedeiras, minha mãe encostou-se contra a parede do quarto e deixou-se deslizar de lá para o chão. Eu fui até ela, mesmo cansado, com frio e com tanto medo que ia ao banheiro a cada dois minutos, eu ainda era homem e agora teria de ser o homem da casa. Não exatamente da casa, pois nossa casa não era mais necessariamente nossa, bom o que importa é que eu tenho que ser forte, o mundo nunca teve pena de mim, não vai ser agora, com tudo se acabando e com mais coisas preocupantes acontecendo, que ele vai ter.
— Mãe, não chore, por favor. Eu vou dar um jeito nisso, prometo que vou pensar em alguma coisa — eu me ajoelhei na frente dela e a abracei, ela chorou ainda mais com a cabeça no meu ombro.
Nós dormimos em quarto com a menor janela e mais afastado da escada, a sacola com as armas ficou em um canto e deixamos dois revólveres engatilhados no criado-mudo ao lado da cama.
Eu demorei pra dormir e embora minha mãe fingisse estar dormindo eu pude ouvir seu choro durante boa parte da noite.
Sonhei com meu pai tropeçando e caindo em um abismo enquanto eu tentava correr pra segurar sua mão e salvá-lo, mas algo me impedia de sair do lugar e eu fui obrigado a vê-lo sumir nas sombras.
Acordei ofegante. Minha mãe não estava ao meu lado, pensei em gritar, mas de repente meu lado racional segurou meu grito, fazendo-me perceber que estava amadurecendo rapidamente.
Desci as escadas correndo o mais silenciosamente possível.
— Mãe? — chamei baixinho na cozinha.
— Filho, preparei o café — sua voz continuava tremida, mas havia algo diferente nela.
Tomamos um café quentinho silenciosamente e eu percebi que ainda havia gás e também fósforos.
— Mãe você não precisava fazer tudo isso sozinha — eu falei, penalizado.
— Tudo isso? Apenas voltei a minha rotina de dona de casa — ela deu um sorriso e mesmo sendo mínimo eu percebi que era verdadeiro.
Havia algo naquela casa que me fazia sentir sufocado, ou talvez até naquela cidade. Eu queria desesperadamente sair daquele lugar, saber notícias do resto do mundo. Eu tinha parentes no sul do estado, duas irmãs da minha mãe – a mais velha delas tinha uma filha bem bonita, o que não vem ao caso –, e queria poder vê-los mais uma vez.
Já estava quase no final do prazo de uma semana que minha mãe estabelecera, nós comíamos cada vez menos conforme o dia ia chegando e eu começava a sentir uma fome que era obrigado a ignorar da maneira que fosse.
Eu ficava observando aqueles zumbis pela janela do quarto, sempre meio encoberto pelas cortinas, e tentava entender como funcionavam. Perguntava-me se eles procuravam alguma coisa enquanto eles comiam pombos e outras criaturas que morriam na estrada.
Eu fiquei enjoado ao olhar como os zumbis abriam as tripas das aves no asfalto e levavam à boca. Estava prestes a sair do quarto quando ouvi um barulho na rua e voltei correndo até a janela, havia algumas pessoas armadas com facas, machados e tacos de baseball, eram homens e mulheres e eu não tive tempo de contar, pois um homem batia na porta da nossa antiga casa com violência gritando enquanto o resto do grupo cobria a rua subindo e descendo arrancando e esmagando cabeças.
Eu me senti feliz por alguns segundos, mas em seguida me senti amedrontado, poderia muito bem ser um grupo amistoso que nos acolheria sem hesitar, porém do mesmo modo poderia ser um grupo violento que não os quisesse, afinal mais gente significaria mais bocas para alimentar e um garoto e uma mulher frágeis e indefesos significariam um peso morto.
— George! — Minha mãe entrou gritando no quarto, trazendo a mochila de armas e trancando a porta às suas costas. — Fique junto de mim!
— Tudo bem mãe — eu apanhei uma Glock na mochila, pois era a mais leve e que se ajustava melhor a minha mão, e me agachei à janela para observar.
Passaram alguns minutos até arrombarem a casa e entrarem, ouvi uma voz masculina no piso superior e me arrepiei ao perceber que era conhecida, mas não conseguia me lembrar de quem era. Minha mãe abafou um gritinho e me fez lembrar de alguém me erguendo nos braços quando eu ainda era muito pequeno.
— Tio Johan! — exclamei sem me conter.
— George! Amélia! Jayden! — nós ouvimos a voz gritar.
— Ele esta nos procurando... ele não sabe que o papai morreu — eu falei meio triste, mas meu rosto estava brilhando de esperança. Aquelas pessoas poderiam nos ajudar.
— Filho — minha mãe falava lentamente em um tom estranho enquanto tirava um revólver calibre 38 da mochila — Não baixe a guarda, as pessoas não são mais como eram antigamente. Não existem mais regras, a justiça é estabelecida pelos mais fortes e se deixarmos os outros verem nossas fraquezas, não são todos, mas sempre haverá alguém que as usará contra nós.
—Mãe por que você esta falando isso? — eu estava ficando amedrontado mais por causa de como ela falava, pareciam emanar ondas de rancor de sua voz.
— Esse pessoal tem que nos dar motivos para acreditarmos neles certo?
Nós descemos até a rua, havia três integrantes daquele grupo na rua. Eram duas mulheres e um homem, uma das mulheres parecia ter mais de vinte anos, era meio gordinha e tinha o cabelo pintado de loiro, a outra era uma adolescente morena e magricela e o homem era um negro magro, de cabelo rastafári e braços tatuados.
O homem estava se aproximado de nós.
— Vocês são Amélia e George? Graças a Deus! Johan disse que vocês estariam aqui!
— Pare aí mesmo! — minha mãe ergueu o revólver na direção do homem, que parou obediente. Eles não carregavam armas de fogo, apenas armas brancas e ficaram amedrontados.
A rua não permaneceria limpa por muito tempo, eu já via zumbis subindo dos dois lados. Tentei agir como um adulto diplomático.
— Mãe! Eles estão tentando nos ajudar.
—Olha, mesmo que não sejam Amélia e George nós podemos ajudar vocês...
— Cale a boca! — minha mãe estava assustadoramente diferente, eu nunca tinha visto ela alterada daquele jeito.
— Nós temos dois carros e temos bastante comida, não temos um lugar pra ficar ainda, mas logo...
— Não mandei você calar a boca? Me dê motivos para confiar em você!
— Mãe!
— Amélia? — foi a primeira voz inalterada que eu ouvi ali.
Eu não reconheci meu tio, ele estava muito diferente, estava alto e forte como sempre estivera, mas seu rosto era coberto de cicatrizes e ele tinha um corte militar.
Johan vinha acompanhado de mais três pessoas, também traziam apenas armas brancas, mas meu tio estava estranhamente tranquilo.
Eu me tranquilizei, achei que minha mãe fosse baixar a arma e ela quase baixou, mas em seguida apontou para o meu tio e meu coração doeu.
— Eu quero provas de que posso confiar em você! — ela jogou a mochila de armas aos meus pés.
— Nós viemos até que para salvá-los, parece que não chegamos a tempo, meu irmã está morto? — meu tio perguntou enquanto fazia um sinal discreto para que os seus seguidores se reunissem aos outros.
— Sim, está morto porque você demorou demais!
— Eu lamento — Johan se aproximava da minha mãe e eu começava a sentir medo de que ela pudesse fazer alguma besteira impulsiva, mas meu tio parecia incrivelmente tranquilo.
— Lamente mesmo! Eu perdi meu marido por sua causa!
— Jayden era um homem bom, mas era orgulhoso e teimoso.
— Não fale assim do meu marido!
— Ele era o meu irmão! Você não o conhecia mais do que eu! — Johan parecia estar perdendo o controle, mas ele estava tão perto, só mais um pouco e...
Ele avançou na mão da minha mãe e apertou seu pulso esticando seu braço para o lado, depois o torceu e se colocou as costas dela, deu um golpe mata leão que a fez desmaiar.
— Mãe! — embora minha mãe parecesse ter perdido a razão eu não poderia aceitar aquilo.
Eu apontei a arma para o meu tio, ele suspirou sem se alterar e aproximou-se de mim.
— Escuta George, sua mãe teve alguns problemas que seu pai já deveria ter te contado, mas achou que você era muito novo para saber. Tenho uma história pra te contar.
— Por que eu acreditaria em você? — minha mão tremia, mas mantive minha mão no alto tentando parecer o mais ameaçador possível.
— Por que essa é sua única opção.
Era um argumento convincente, baixei a arma e mirei o chão, lágrimas caíram sobre o asfalto quente, eu já estava cansado delas caírem toda hora.
— Vamos dar o fora daqui está bem? Se ficarmos muito tempo aqui seremos iscas de zumbi — aquele homem com aparência fria agachou-se na minha frente e me abraçou, em seguida apanhou a mochila de armas e atirou para o homem tatuado, depois apanho minha mãe nos braços e pediu que o seguisse.
Os outros seis formaram um círculo ao nosso redor e nos levaram para fora da cidade, cortando cabeças e esfaqueando zumbis o mais silenciosamente possível.
Fale com o autor