Diário De Um Sobrevivente
16 Marcas do que se foi
Notas iniciais
As matanças que faltaram nesse cap. compensarei no próximo XD
Trecho acrescido dos testemunhos de Johan.
Era impossível adivinhar como o dono daquela voz fora capaz de construir uma armadilha tão funcional e tão destruidora. Enquanto o grupo corria, olhei para trás e vi uma quadra de cada vez daquele condomínio explodir em imensas bolas de chamas e destroços.
Nós corremos para a avenida através das árvores, nenhum morto-vivo surgiu para nos incomodar. Eu olhava a todo o momento para Amélia, temendo que ela pensasse em voltar à casa onde George havia ficado, parasse pra chorar ou até mesmo se matasse com o revólver que carregava. O que quer que ela pensasse em fazer eu estava disposto a impedir.
No entanto tudo ocorreu tranquilamente e chegamos seguros à rua, porém exaustos. Ao pararmos para respirar sobre a luz da lua, todos me encararam como se esperassem instruções do que fazer em seguida. Meu posto como Major do exército não me impediu de sentir-me mal, não fazia ideia do que fazer ou de pra onde ir. Mayport ainda estava se revolvendo devagar na minha cabeça, mas sem George ir pra lá não fazia sentido.
— Sei no que você está pensando Johan — Bernard se pronunciou, como raramente fazia. — Mas o que acho que devemos fazer agora, já que acabamos de gastar uma pá de munições nessa luta, é procurar mais armamento e outros suprimentos, por que comida acaba rápido.
— Sim, você está certo — recuperei as minhas forças e o controle da minha mente e corri até o carro mais próximo para verificar a gasolina. — Me ajudem a encontrar alguns carros bons pra darmos o fora daqui.
George
Por um momento pensei que estivesse morto. Senti a brisa acariciar meu rosto e o sol morno fazer arder de leve a minha pele, ouvi passarinhos cantarem.
Mas lembrei que os passarinhos eram imunes a zumbis. Esses malditos com asas, por um momento senti inveja deles, em seguida me veio o remorso.
Abri os olhos enfrentando a ardência e vasculhei ao meu redor. Estava no alto de um morro, deitado na grama verde, em um lugar tão calmo que cheguei a estranhar. Estava prestes a me perguntar se o apocalipse zumbi não teria acabado, mas então pude ver aquelas criaturas asquerosas andando de um lado pro outro lá embaixo.
— Se for isso que você estiver se perguntando, ficou desacordado por quase quinze horas — uma voz atrás de George falou. — Foi difícil carregar você até aqui e confesso que não sei o motivo de ter ficado desmaiado tanto tempo, deve ter sido pelo cansaço, por que milagrosamente você saiu ileso daquela explosão.
Quando me virei para encarar o homem tive que disfarçar o espanto. Ele tinha a voz grossa, porém calma e até mesmo tranquilizante, mas era tinha uma aparência meio assustadora. O dono da casa explodida parecia com o Van Hellsing, embora fizesse calor ele vestia uma roupa de couro preta com um grande casaco negro também de couro e fedorento, tinha um chapéu na cabeça e luvas nas mãos, pra completar um enorme bota de couro daquelas que um roqueiro mataria para ter.
Ele tinha cara de lutador, com seus braços, mesmo sobre aquelas roupas pesadas, visivelmente musculosos e seu rosto cheio de cicatrizes ele transparecia tranquilidade e uma estranha paz.
— Você era o dono daquela casa — conclui. — Você me salvou.
— Sim, eu era — respondeu tristemente. — Não consigo ver uma alma boa se contorcer na luta pela sobrevivência e não ajudá-la.
Os dois ficaram calados por algum tempo, entre eles uma fogueira esquentava um bule em que algo cozinhava. Perto do homem estava uma mochila onde caberiam suprimentos suficientes para mantê-lo por semanas. Ele me encarava sério e com apenas um olho, era o que eu achava, pois atravessando o meio do olho esquerdo dele havia uma cicatriz, o centro de suas pálpebras estava corta e nele não nasciam cílios, esse olho era completamente branco e pastoso, por isso conclui que era cego.
Mesmo com tudo isso seu rosto enrugado e queimado de sol era cálido e calmo, como se cada sofrimento e cada dor que tivesse superado fosse um aprendizado para alcançar uma bondade superior.
— Quer um pouco de chá? — perguntou ele de repente me tirando dos meus devaneios. — É de jasmim, você deve estar precisando de uma recarga de energia. Nunca soube por que se a gente dormir demais ficamos cansados — Ele comentou com um sorriso, me entregando um copo com um líquido verde amarelado.
Mais tarde saímos andando pela larga estrada de um lugar que eu desconhecia. No entanto aquele homem esquisito parecia saber exatamente aonde íamos.
— Seus amigos estão indo a Mayport não? — ele perguntou de repente sem olhar para mim.
Demorei um pouco para responder.
— Sim, essa era a ideia do meu tio. Mas como você sabe? E por que precisa saber disso?
— Vou devolver você para os seus amigos — ele falou, me espiando para conferir minha reação —, mas antes preciso de sua ajuda para algo.
— Como assim minha ajuda? E se eu não quiser ajudar?
Ele se encostou no vidro de um carro e procurou dentro dele. Depois pareceu se convencer de que não havia nada útil lá e voltou a caminhar.
— Você é um garoto esperto e acho que meus objetivos vão te interessar.
Mais silêncio, o homem parecia tranquilo, seguindo aquela avenida aparentemente sem rumo. Como eu não disse mais nada ele retomou sua reflexão.
— Passei a minha vida inteira acreditando que havia nascido para matar zumbis e que meu objetivo seria exterminá-los da face da terra. No entanto encontrei vocês. Ao descobrir que ainda havia seres humanos vivos e conscientes nesse mundo, percebi que minha missão não é exatamente essa.
— E qual é? — perguntei sem me conter.
— Descobrir o motivo disso e uma forma de fazer o mundo voltar a ser o que era antes.
Eu estaquei de boca aberta, há tempos aqueles que ainda tinham esperança de que o mundo não havia acabado necessariamente e buscavam uma maneira de reverter a realidade. Eu e, penso, meu tio somos esse tipo de pessoas. Entretanto esse é um desejo que arde no íntimo e ninguém nunca pensou em uma forma realmente prática para isso nem tampouco se colocara à frente para exercer esse plano.
Aquele homem era mesmo corajoso e honrado, ou completamente louco. Eu pensava nisso lá parado enquanto o estranho seguiu até outro carro, que tinha dois pneus furados.
Depois de analisar seu interior ele esticou a manga do casaco e quebrou o vidro da frente. Aproximei-me observando ele enfiar a mão dentro do carro e abrir a porta.
— Olha o que eu encontrei — ele sorriu pegando um revólver e jogando pra mim.
Era um Crosman 357, pra mim meio difícil de manejar, tinha espaço pra dez balas e estavam ocupados.
— Vou te dar uma dica — prosseguiu entrando no carro —, onde você encontra um ovo com certeza encontrará uma galinha.
O vi remexer no porta-luvas e depois embaixo dos bancos.
— Voilà! — exclamou saindo do carro com uma caixa de balas — Nós temos muita sorte — e atirou a caixa de balas pra mim. — Tem vinte balas, mas só use em momentos de extrema necessidade.
De fato não me lembrava de ter encontrado arma e munição com tanta facilidade desde que o apocalipse começara. Guardei a munição no bolso e coloquei a arma no coldre e nesse momento percebi que minha Glock e meu fuzil haviam sumido.
— O que aconteceu com minhas armas? — perguntei encarando-o sério.
— Que armas? — aquele olhar gentil e honesto me impediu de duvidar dele, mas continuei curioso com relação ao desaparecimento das minhas armas.
— Nada, deixa pra lá. É que prefiro matar zumbis com uma lâmina.
— Você realmente é um garoto esperto — ele abriu um largo sorriso.
O que ele fez a seguir me deixou surpreso. Ao tirar o casaco o homem pareceu uma loja de armas ambulante, um cavaleiro medieval e, somando tudo, um profissional na arte de matar mortos vivos.
Presas aos suspensórios havia duas Beretta 92 prateadas, nos coldres presos à cintura, duas Desert Eagle também prateadas, sobre a do lado esquerdo havia uma espada medieval com cabo áspero em uma bainha e sobre a do lado direito havia um machado do tamanho do meu braço também em uma bainha, havia ainda, nas suas costas, duas escopetas curtas de cano cerrado cruzadas.
Nesse momento eu tive medo daquele homem, ele poderia lutar contra um exército sozinho, estilo Rambo ou dizimar todos os zumbis do estado. Mas também fiquei ansioso para vê-lo em ação.
— Desculpe, não posso te dar a espada — ele disse, tirando o facão da cintura e me dando.
— Não se preocupe, eu estou acostumado com facões.
— Quem nesse mundo ainda não passou por este tipo de situação em que é necessário aprender a usar o que houver a mão, hein? — perguntou com mais um de seus sorrisos insanos. — Guarde o revólver para um momento de extrema necessidade. Precisamos continuar andando.
Ele vestiu a capa novamente e recomeçou a caminhar, eu o segui e percebi que depois dele ter confiado em mim daquela maneira eu o acompanharia onde quer que ele fosse.
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