Diário De Um Sobrevivente

17 É preciso estar vivo para enlouquecer


Notas iniciais
Um capítulo cheio de ação para compensar o último ^^

Tudo estava silencioso. Nada havia nos perturbado naquele lugar. Já entardecia o dia seguinte ao qual eu havia acordado naquele lugar desconhecido, com um salvador misterioso, e eu estava prestes a adormecer quando a corda da vara de pescar tremeu e criou marolas na superfície do lago quieto de águas escuras. Eu puxei a vara e fiz o peixe cair se debatendo na areia escura da margem.

Levantei e matei o peixe com meu facão. Em seguida virei para chamar meu colega misterioso.

— Ei! É... — eu não sabia como chamá-lo. — Estranho que me salvou! Eu consegui um peixe! — Gritei erguendo o peixe morto.

Ele desceu da árvore onde estava com um baque nas folhas mortas do solo da floresta.

— Arranque a cabeça dele e coma o resto — ele aconselhou.

— Você vai querer? — perguntei, já colocando o peixe no chão para arrancar sua cabeça.

— Eu sobrevivo com um pedaço. Agora vamos acender uma fogueira e assá-lo.

À frente da fogueira crepitante eu comia o peixe lentamente, como se tivesse medo que ele voltasse em forma de zumbi e também por não saber quando seria minha próxima refeição. O meu guardião esquisito estava deitado de costas para uma pedra com um chapéu sobre seu rosto e a espada fincada ao seu lado.

— Escuta, acho que era uma tradição no mundo antigo, o mundo normal — comecei —, saber o nome das pessoas com quem a gente convive.

— Sério garoto? — ele perguntou com sarcasmo. — Eu não considero isso tão importante, você vai querer minha identidade também? Por que eu não sei onde a deixei...

— Não é isso — tentei me manter paciente. — E se estivermos em perigo, digo, e se eu precisar chamar você ou você precisar me chamar? Precisamos ao menos saber os nomes um do outro, não?

Ele apenas encheu o peito, esvaziou e nada disse.

— Bom — decide me dar a conhecer, já que ele não diria nada —, meu nome é George.

— Prazer.

Ele continuou calado. Depois de dois minutos eu perdi a paciência.

— Vou te chamar de Helsin então, por que você parece o Van Hellsing.

Ele permaneceu calado, o que me fez repensar se ele seria uma boa ou má companhia.

— Certo, você precisa dormir um pouco — anunciou ele por fim, levantando-se, jogando o chapéu pra mim e subindo na pedra. — Segura isso Georgezinho, agora você é o caçador de monstros.

Nós acordamos cedo no outro dia. Estávamos andando entre as árvores de um lugar que eu também não conhecia. Procurávamos um carro e até então estava difícil encontrar um que funcionasse.

— Ei Helsin, onde exatamente estamos indo? Você ainda não me falou e acho que preciso saber.

— Seu tio me disse que eles estavam indo para Mayport — Ele ajeitou o chapéu na cabeça.

— Então estamos indo para lá?

Ele demorou para responder.

— Ainda não.

— Como assim ainda não?

— Precisamos fazer algo primeiro.

— O que?

Ele parou e se virou para mim.

— George você sabe o que é isso?

— Isso...?

— Isso, o mundo, os zumbis?

— O apocalipse — falei lentamente.

— Mas como começou, de onde surgiu, por que isso está acontecendo.

— Hã... — fiquei totalmente confuso.

— O exército meu amiguinho. O exército estava trabalhando em uma pesquisa de uma arma. Uma biológica com poder para ameaçar ou até mesmo destruir uma nação por completo. Sem lixo, sem destruição, sem perca de recursos da região e, principalmente, sem radiação. Tudo que seria preciso era implantar a “arma” em locais estratégicos e deixar que os soldados mortos-vivos agissem por si mesmos. Mas algo deu errado e agora os zumbis estão tomando conta da nossa nação. Por isso estamos indo à Filadélfia, onde supostamente tudo começou, temos que encontrar as pesquisas, com certeza os pesquisadores tinham uma cura.

Fiquei calado, um tanto cético um tanto perplexo. Mas sentia que restava algo ainda não explicado, eu tinha uma dúvida, embora ainda não soubesse qual. Tinha que perguntar uma coisa, porém não sabia o que era.

— Uma cura? — uma voz de mulher indagou, parecia meio sádica e uma gargalhada estranha me fez ter certeza de que era. — Não me faça rir, por que iria querer curar isso?

Viramos ao mesmo tempo para ela. A mulher branca como um vampiro sugador de sangue e assassino de humanos, esguia, com seus cabelos negros em dreadlocks caindo para os lados, presos de forma horrível com pedaços de ossos, que eu supus serem de humanos, olhos e lábios escuros, saía do meio das árvores, andando vagarosamente, como uma chefona, dona da vida e da morte, como se sentisse superior a nós.

Ela vestia uma roupa de couro, camisa sem manga e calça, com cintos carregados de balas e duas bainhas, uma de cada lado do corpo, cada uma carregava uma katana.

— Do que você está falando? — Helsin perguntou a ela, notando a AK-47 nas suas costas e se colocando a minha frente. — Por que iríamos querer curar isso? Será que é por que os zumbis são como doentes e estamos morrendo por causa disso? Será que é por que a vida não é mais a mesma?

Dessa vez ela gargalhou.

— A vida não é mais a mesma? O ser humano mata outros seres humanos desde sempre. A história prova isso. Desde seu nascimento, o Homo Sapiens matou o Homo de Neandertal para evoluir e desde então homens vem matando homens para fazer crescer seu império, para melhorar sua economia, para crescer, para sobreviver.

Nós ficamos calados, Helsin recebeu aquilo como se fosse a verdade, como se fosse o certo.

— E neste mundo pelo menos matamos sem ir para a cadeia. Nesse mundo matamos para impedir que nos matem. Nesse mundo o que precisamos para comer é apenas buscar comida, não há trabalho, não há escola, — ela olhou para mim — não há governo, não há quem nos diga o que fazemos ou deixamos de fazer. Ninguém no julga ou nos repreende, esse mundo é divertido!

— Cale-se! — Helsin gritou. — Você é asquerosa, você me dá nojo. Como pode falar algo tão terrível dessa maneira? Pessoas morreram, o mundo está uma zona, nós precisamos matar diariamente, lutamos para comer, para sobreviver, nós perdemos amigos, família, perdemos conhecidos e choramos por eles e você vem nos dizer que esse mundo é divertido? — Helsin parecia tão furioso que até eu tive medo.

— Que pena — ela estalou os lábios. ­— Vocês pareciam bem fortes, poderiam ser ótimos acréscimos ao nosso grupo. Mas têm a mente fechada, ridícula — Ela levou a mão às costas, mas meu amigo foi mais rápido.

Helsin jogou uma bomba de gás a nossa frente e me puxou pelo braço me fazendo correr com ele entre as árvores. Ouvimos os tiros do fuzil arrancado pedaços de cascas das árvores e voando sobre nossas cabeças, além de um apito metálico que ecoou sobre as copas das árvores.

Depois de alguns segundos correndo ouvimos o som de um carro. As árvores naquele bosque eram espaçadas o suficiente para que um jipe passasse entre elas e ele vinha em nossa direção. Um homem estava de pé na parte de trás atirando com uma metralhadora presa ao suporte do veículo.

As balas voaram sobre nossas cabeças enquanto corríamos e eu achei que fossemos morrer. Helsin tirou uma das escopetas de baixo da capa e atirou no pneu do carro que fez uma curva sinistra pra um lado, fazendo o motorista quase perder o controle.

— George vai pra lá! — ele apontou para a esquerda, correndo para o lado oposto.

— Mas e você?

— Eles vão vir atrás de mim! Faça o que eu digo que tudo dará certo! — ele berrou, depois sumiu entre as árvores.

Eu fiz o que ele disse, quase pensei em voltar quando ouvi o carro seguindo atrás dele, mas me convenci de que aquele homem era muito mais capaz de enfrentá-los do que eu e o obedeci. Consegui chegar à avenida em poucos minutos, mas não sabia o que fazer em seguida.

— Sabe, vocês são muito fáceis de rastrear e são muito previsíveis — eu gelei ao ouvir a voz daquela mulher.

Virei lentamente acreditando que talvez pudesse acordar de um pesadelo.

— Vou ser justa com você — quando eu me virei de frente para ela, a mulher ergueu o fuzil e o jogou no meio das árvores. — Agora tire esse seu facão! Quero um pouco de diversão — ela falou suavemente, tirando a espada da bainha com a mão esquerda.

Helsin correu entre as árvores desesperado, ainda mais depois de perceber que o carro com o fuzil estava bem perto. Quando ele pôde ver um barracão à margem de um rio quase sentiu alívio, mas logo depois de sair para a orla, o jipe também desembocou do meio das árvores.

Ele correu sentindo as balas passando por todos os lados. Uma bala atingiu seu flanco esquerdo e ele atirou-se dentro da pequena casa. Seus inimigos balearam a casinha, quando ele chutou a porta, pedaços de madeira voaram pra todos os lados e a poeira levantou. Com as mãos protegendo a cabeça Helsin viu um zumbi cair ao seu lado.

Rastejando até uma janela ele levantou a escopeta junto ao peito. Seu tríceps esquerdo sangrava, ele tirou uma de pano de uma mesa próxima e amarrou onde a bala pegou de raspão arrancando um pedaço de carne. Eles cessaram os tiros. O homem espiou por um dos buracos de bala e viu o carro parado de frente para o barraco detonado. Se perguntou se seria possível acertar o tanque de gasolina daquele ângulo e depois convenceu-se de que tudo era possível.

Dando mais uma olhada ele pôde ver o atirador recarregando a metralhadora, então teve uma ideia que lhe pareceu boa.

Quando o cara pôs a arma na posição, Helsin ergueu-se e, abrindo a janela de uma vez, acertou sua cabeça quando ele apertou o gatilho. Depois atirou no suporte da arma fazendo ela atirar pra baixo. Surgiu uma faísca, que virou uma chama e em seguida o carro explodiu. Imaginando que o motorista podia estar vivo ele guardou a escopeta e tirou as pistolas. Saiu da casa agachado, mirando as proximidades do carro.

De repente tiros começaram a vir em sua direção. O sobrevivente carregava uma SMG e atirava deitado próximo dos destroços em chamas. Ele parou, talvez estivesse recarregando, Helsin arrodeou a barraca e seguiu até atrás do carro destruído. Ele viu seu adversário se levantando e segurou bainha da espada.

Aproximando-se por trás do homem, deixou que esse erguesse a semiautomática e com um movimento decepou sua mão. Dando dois segundos para o homem gritar ele recuou a espada e depois a afundou em seu estômago.

Helsin ficou encarando o corpo do homem sem uma das mãos se contorcer no chão enquanto limpava a espada. Seu olhar parecia triste e vazio, como se sentisse culpa, em seguida lembrou-se de mim e que eu talvez estivesse correndo perigo.

Nossas lâminas chocaram-se no ar produzindo faíscas. Eu lutava com a ferocidade de um animal, no entanto minha adversária tinha muito mais prática e continha meus golpes com facilidade, além de tentar por vezes arrancar minha cabeça. Todavia meu pescoço era uma área que eu tinha experiência em proteger e até o momento estava conseguindo evitar que ela o cortasse.

Mas eu estava ficando cansado e ela parecia se divertir com isso, eu teria que acabar com isso logo. Ela avançou de um modo que me lembrou esgrima e desceu a espada sobre mim, de alguma forma eu consegui aparar e empurrei para um lado. Dei um chute na altura do peito dela, mas ela foi capaz de segurar. Era minha perna contra o braço dela e nós dois empurramos.

Depois de tanto caminhar minhas pernas ficaram fortes. Eu consegui empurrá-la pra trás que deu um golpe com a espada me desequilibrando. Consegui manter a postura e levei a mão ao revólver. Ela era muito ágil e, dando uma cambalhota para trás, ela já estava de pé.

Tentei ser mais rápido do que ela, sacando e disparando o mais rápido que pude. Mas ela desviou mergulhando para o lado.

— Trapaceiro! — ela gritou comm ódio do chão. — Eu fui justa com você! Justa!

Eu atirei mais duas vezes e ela se desviou saltando para trás como uma raposa. Nessa hora eu tive medo, fiquei em pânico pensando se aquela mulher seria real. Então ela veio correndo em minha direção, seus olhos queimavam em fúria e eu permanecia parado, em choque.

Sua espada cortou o ar como um relâmpago, abrindo uma fenda na minha mão esquerda e fazendo a arma voar da minha mão.

— Não! — gritei, em jogando pra trás quando ela tentou arrancar minha cabeça novamente.

Quando eu caí ela desceu a ponta da espada para me furar e eu me empurrei para trás. A katana furou o solo e ela me atacou com a outra espada, eu bloqueei com o facão e girei para um lado. Me ergui e corri procurando meu revólver. Então vi alguns zumbis se aproximando, talvez procurando pelo som das balas, percebi que talvez eles fossem minha salvação.

A mulher correu atrás de mim e eu passei pelos zumbis que tentaram me agarrar. Olhei para trás na esperança de que eles ao menos atrasassem ela. Fiquei decepcionado ao vê-la cortá-los como se fossem pudim. Três zumbis sem cabeça caíram aos seus pés.

Encontrei minha arma próxima a um zumbi que parecia ter sido um universitário, com uma camisa social de manga comprida, calças justas e óculos pendendo no rosto. Ele estava se aproximando, eu me joguei com as pernas pra frente sobre a arma e quando ele se atirou sobre mim eu enfiei o facão no seu cérebro, empurrando-o para o lado com pedaços do seu cérebro saltando pra fora.

Eu levantei o mais rápido que pude, estava exausto e a branquela psicótica vinha correndo novamente para me matar. Ergui o revólver com a mão ensanguentada e ela colocou o último zumbi na sua frente quando eu atirei. Eu segui atirando, minha mira era péssima com a esquerda e ela conseguiu se desviar de todas as balas.

A arma estalou.

— Acabou as balas é? — ela perguntou com uma gargalhada débil. — Porque você não recarrega com as que têm aí, hein? Acha que não consegue? Tudo bem eu te dou um tempo.

Ela pôs as espadas de ponta para o chão e se apoiou como se fossem bengalas.

— Vamos, vá em frente! Recarregue! Quero diversão.

Ela lambia os lábios impudicamente, me provocando. Eu sentia cada vez mais asco dela e resolvi ressaltar meu orgulho pelo menos uma vez, guardei a arma.

— Está louco? Quer morrer mais fácil? — ela perguntou, como eu não respondesse, ela prosseguiu. — Tudo bem então, já que você trapaceou contra mim, me sinto no direito de arrancar sua cabeça com uma tesoura.

Ela arrancou as katanas do asfalto e girou-as nas mãos erguendo-as em minha direção.

— Apenas morra!

Ela correu até mim e desceu a primeira espada sobre minha cabeça, eu bloqueei com o facão na mão direita, então ela enfiou a outra katana no lado esquerdo da minha barriga, abaixo das minhas costelas.

Ela gargalhou.

— Seu tolo! Achou que ia conseguir se defender apenas com esse facãozinho?

— Não. Foi proposital, esse era o único jeito — eu sorri, ergui a arma e apontei para a cabeça dela.

— Como assim? Você ainda tinha balas?

— Sabia que não ia conseguir acertar você de longe, então desengatilhei e fingi estar sem munição. Esta é minha última bala, adeus.

Eu coloquei a arma na testa dela e atirei para que ela não pudesse voltar como um bicho. Por um momento a face horrorizada dela ficou na minha mente, então nós dois caímos para trás e enquanto eu caía eu tive um estranho vislumbre, como uma revelação.

Uma garota patricinha arrumava seus cabelos negros com mechas vermelhas. Sua mãe aparecia e dizia algo, as duas sorriam. Depois elas duas apareciam em uma mesa de jantar e um homem que poderia ser seu pai também estava lá, além de um garotinho com o nariz e as bochechas iguais as dela, deveria ser seu irmão. Todos riam e conversavam enquanto comiam, parecia perfeito. Depois de um segundo todos viraram zumbis, então os sorrisos se transformaram em rostos mortos, enrugados, cinzentos e sujos de sangue.

Os sonhos haviam acabado, a felicidade havia acabado, estavam todos mortos. Ela não iria mais para a faculdade, seu namorado provavelmente também estava morto, não havia mais casa, nem cabelo para pentear, nem conversar com as amigas, nem sair, ir ao shopping, aos shows. A vida estava acabada, não havia mais motivo para lutar.

Lembrou-se dos meses que tinha investido no treinamento de esgrima e das espadas que sabia haver no escritório do seu pai. Encontrou alguns amigos novos com a mesma loucura, o sentido da sua vida agora era caçar aquelas criaturas do demônio que haviam matado as pessoas que amava. Colecionar ossos dos zumbis que matava expulsava o medo de sua vida, a impedia de sentir nojo daquelas coisas e ter coragem de matá-las, de arrancar suas cabeças. Assim ela prosseguiu matando aqueles que já a haviam matado e continuavam a matá-la pouco a pouco.

Eu caí de costas, deixei o facão voar para longe da minha mão. Ainda sentia a espada presa no meu corpo, impedindo que meu sangue jorrasse. Vi uma sombra se aproximar, ela gritava e chorava, chamava meu nome e eu não pude responder, tudo em seguida foi escuridão.