Diz pra Mim
22 Castigo
Notas iniciais
Dois ninjas a escoltaram até seus aposentos, no qual Mikoto e um trio de criadas a aguardavam. Soube então, que havia chego a hora. Mesmo com o caos instaurado no distrito, o plano tinha que continuar. A culpa agora pesava em sua consciência por contribuir com a tirania do Uchiha. Pesava-lhe sobretudo, por Sasori, o qual ela enganara cegamente e Sasuke, que jazia preso em uma das celas dos calabouços, sem saber qual fim o aguardava.
No entanto, Sakura não havia sido apenas uma gueixa em tudo isso. Sua face não se tornara apenas uma máscara de ilusões e mentiras. Ela também aprendera a ser uma guerreira. Sua lâmina era nesse estágio, uma extensão de seus braços, tanto quanto o leque deveria ser. E, naquele instante enquanto era preparada e embelezada para o maior espetáculo de sua vida, prometera á si mesma que Sasori não se machucaria, ao menos fisicamente, pois a ferida que a verdade deixaria seria inevitável, e também, que faria mesmo o que lhe fosse impossível, para tirar Sasuke de sua prisão.
Mikoto também tinha o desespero e a preocupação estampados em sua face. Graças aos anos de convivência e por tê-la como uma mãe, Sakura era capaz de compreender em palavras, o que os olhos negros da mais velha transmitiam, para ela, agora já não importava a vingança, a recuperação da glória Uchiha ou do conforto que sempre possuíra, nesse instante a morena apenas desejava o bem de seus filhos, seu marido e o fim do terrível homem com o qual era forçada a conviver.
Sakura assentiu para a Uchiha, que retribuiu o gesto como uma gentileza. Após toda a arrumação, ambas foram conduzidas até a saída do distrito. O fogo havia cessado, mas os vestígios da destruição estavam por toda parte, principalmente nos olhares dos poucos moradores que não estavam refugiados ou temerosos de mais sobre serem as próximas vítimas. “Aquilo não podia continuar” — a rosada repetia insistentemente em pensamento.
Madara já as aguardava. Apesar do sumiço de sua fonte de poder, a confiança em seus traços era palpável. Em seu rico traje de samurai banhado á ouro, notava-se a figura de um vencedor. Ao seu redor, três dezenas de ninjas o zelavam, porém obviamente sabia-se que existiam muitas outras dezena deles..
– É chegada a hora de mostrar seu talento bela flor, embora a atuação mais grandiosa dessa noite não seja a sua. –disse esbanjando confiança, e o modo como a chamou fez Sakura sentir ainda mais repúdio. – Venha conosco minha querida Mikoto, lhe darei um lugar especial para que assista ao espetáculo.
– Eu jamais perderia a noite de estreia de Sakura. –rebateu secamente.
Sakura seguiu á frente á bordo de uma jirinkisha*, já que não deveria ser vista junto dos Uchiha. Ao chegar, descera com facilidade devida á prática adquirida. Seu quimono era longo, num tom vermelho escuro, quase vinho. As bordas eram douradas, assim como as estampas ocidentais formadas por sua extensão. Apenas a parte superior de seus cabelos estavam presos á delicados adornos, o resto caia solto até o meio de suas costas.
A música já se fazia presente, enquanto maikos faziam sua apresentação típica, a entrada para o show principal. Entrara pelos fundos do teatro principal da cidade, trazendo a lâmina que ganhara de Sasuke embainhada em sua perna esquerda, na qual havia uma fenda no traje. Esperava não ter de usá-la naquela noite.
...
O vento gélido adentrava pelos corredores dos calabouços. Era como uma presença fantasmagórica pairando pelo ambiente, assim como aqueles seres feitos de sombras que seguiam Madara. Sasuke bateu o punho contra a parede de sua cela. Eles nem mesmo tinham um plano para deter Madara, porém sabia que não podia ficar ali parado enquanto o tio avançava em seu plano.
– De nada adianta, não vai conseguir quebrar esses muros. –a voz tão conhecida se manifestou.
Apesar da pouca iluminação, Sasuke conseguiu perceber de onde a voz viera, localizando na cela á sua esquerda, a presença de Fugaku.
– Acredito que tenha tentado fazer isso muitas vezes. –rebateu.
– Não sou tolo como você. O que aquele monstro fez ao meu filho? –indagou rigidamente.
– Itachi está bem e seguro. Não sabia que Madara conhecia a magia negra.
– Do que está falando?
– Aqueles ninjas que nos vigiam foram invocados por ele. Encontramos o pergaminho do feitiço, mas ainda não sabemos como desfazê-lo.
– Quer dizer então que as maluquices de Itachi tinham fundamento... Madara sempre acreditou nessas crendices, deve ter conhecido esse tipo de ritual em suas expedições por outras colônias. –Fugaku disse processando as informações recentes. – Parece que nem mesmo seu tio confia em você. E agora quem cuidará de Mikoto?
– Não subestime minha okaa-san, além disso... Isso logo vai acabar. –suspirou recostado á parede que antes havia golpeado.
– É bom que tenha razão, traidor.
O caçula não abalou-se pela forma com que o pai o tratou, tão pouco voltou a reparar no frio que percorria o recinto. Seus pensamentos agora pairavam preocupados sobre o irmão e certa gueixa de cabelos róseos.
...
Algumas lamparinas foram apagadas, á frente ao palco a maior plateia que já tivera na vida a aguardava. Era impressionante como Sakura, a camponesa órfã agora era reconhecida por toda a cidade, admirada pelos cavalheiros e invejada pelas damas.
Ela adentrou serena por detrás das cortinas e o silêncio logo se fez constante. Não parou muito para reparar nos olhos que a assistiam, mas logo na primeira fileira, foi inevitável não perceber a presença de certo ruivo de olhos castanhos.
Junto de Mikoto, havia pensado no que diferenciaria àquela apresentação, afinal mesmo ainda fazendo parte de um plano cheio de segundas intenções, ainda se tratava de sua estreia como gueixa. Foram dias procurando o que fazer, quando a rosada notara que a resposta sempre estivera na sua frente, mais precisamente escondida em seus trajes. O espanto foi geral quando a bela cerejeira retirou uma katana da bainha em sua perna.
Sakura a girou entorno do dedo indicador pelo cabo, assim como fazia com os leques. Em seguida jogou-a para cima, no exato momento em que a música instrumental se acentuara. O objeto rodopiou no alto e caiu perfeitamente em sua mão direita. Então, brandiu-a lenta e ritmadamente, quase como se guerreasse contra uma ameaça invisível, enquanto suas longas madeixas rosadas acompanhavam o movimento, dando mais graça á sua arte. Tentou ainda outras façanhas, a maior parte havia aprendido com Sasuke em seu treinamento, porém realizadas por ela, tinham ar de dança, a dança de um samurai. Terminou seu número deslizando sobre a perna esquerda, que ficou á mostra graças a fenda no quimono, a katana empunhada sobre a cabeça e as feições tão delicadas quanto a árvore que lhe dera seu nome. As cortinas se moveram e antes que fechassem totalmente, Sakura pôde ver o homem vestido de ouro sorrir sadicamente.
…
Ouviu passos apressados ecoando pelo corredor do calabouço, apesar disso, não moveu-se um segundo sequer, apenas voltou a cabeça para a entrada quando seu amigo loiro apareceu.
– Teme! Vou tirá-lo daqui, o distrito está abandonado, Madara moveu todo seu exército para o teatro da cidade. –só então o loiro interrompeu sua agitação e recordou-se olhando para a fechadura da cela que não tinha a chave do local.
– Vai me dizer que não tens a chave contigo. –Sasuke presumiu entediado.
– Ah... Só um momento, por favor. –então Naruto afastou-se, encontrando uma tora de madeira que era usada para aquecer a área destinada ao guarda nas noites mais frias. Colocou-a frente de seu corpo e correu gritando rumo á porta, Sasuke afastou-se e por sorte, o plano do Uzumaki dera certo.
– Pensei que voltaria com a chave reserva dobe.
– Foi o melhor que pude fazer, seu ingrato. –retrucou fingindo-se magoado.
Sasuke caminhou até a cela ao lado e concluiu:
– Penso que não irá querer perder o fim de Madara.
...
Desceu rapidamente pelos fundos do palco, tinha de agir o quanto antes para livrar a pele de Sasori. Desviou das pessoas que a cercavam, a maior parte homens, e encontrou-o ao lado de sua mãe. Tinha de admitir que mesmo com o decorrer dos anos, ela continuava tão deslumbrante quanto se lembrava, das poucas vezes que a vira em sua infância
– Então é dessa gueixa que tanto falava filho? –indagou com certo desdém.
– Sim, okaa-san. Essa é Sakura. Esteves ainda mais magnifica essa noite, pensava ser incapaz desta proeza, mas certamente me enganei. –Sasori trajava sua armadura Akatsuki.
– Diga-me, quem é a mentora da gueixa que se denomina uma cerejeira? –a mais velha tornou á falar.
– Não vivemos na capital da província. –respondeu diretamente.
– Estranho... Pareces-me muito familiar.
Desprezando o incomodo crescente que Konan a causava, Sakura voltou-se novamente para Sasori, agora era o momento, e a mesma estava disposta a contar-lhe toda a verdade:
– Sasori–sama, não temos tempo a perder. Quero que saiba que sinto muito por tudo o que lhe fiz, mas jamais tive a intenção de machucá-lo. –nesse instante, Nagato aproximava-se de sua esposa.
– Não entendo Sakura, o que quer dizer? –perguntou confuso.
– Foi parte de um plano e eu também. Sei que kami há de me castigar por meu pecado, mas agora tens de sair daqui junto de sua família.
– O que essa garota está querendo dizer afinal? –Nagato questionou.
A rosada ia abrir a boca novamente, quando viu vultos negros moverem-se pelo salão, em seguida os gritos começaram. Algo apertou em seu peito com a sensação de que era tarde de mais.
– É chegada sua hora caro Akasuna, quero que sinta o medo se espalhar por suas veias enquanto assiste seus homens serem massacrados! –Madara exclamou atrás de seu rival, que quando deu por si, encontrava-se cercado por dezenas de mascarados de negro.
– É tarde de mais... –a Haruno lamentou-se.
– Sakura? O que está acontecendo?
– Não seja ingênuo rapaz. Vê esta bela flor de cabelos róseos? Ela não foi nada menos do que uma atriz, a protagonizar um papel que originalmente foi encenado por sua okaa-san. –o Uchiha respondeu em voz alta enquanto seus homens aterrorizavam os convidados, expulsando os que saiam de bom grado, e ferindo sem dó os que se mostravam mais relutantes.
– Ele diz a verdade? –o ruivo encarou-a incrédulo.
– Hai. –consentiu de cabeça baixa.
– Então os olhares, os gestos... Nada nunca foi real.
– Ora seu maldito! Acha mesmo que irá me vencer com essas aberrações? –Nagato brandiu, tirando sua katana da bainha. O barulho de ferro pesado aumentava, conforme seus samurais adentravam o recinto.
– Já estás derrotado. –sorriu sacando uma arma diferente, se tratava de uma corrente com uma foice em cada uma de suas extremidades.
– Sakura! –Mikoto correu na direção de sua pupila.
– Estás bem Mikoto-sama? –indagou preocupada.
– Sim querida, temos de sair daqui.
– Agora sei de onde tirastes a péssima atuação. –Konan declarou. – Sua desgraçada! –gritou, porém sua única resposta foi um estalo em seu belo rosto.
– Não queira ser a vitima agora, esqueceste o que causou ao meu clã? Á minha família? –a morena alegou firmemente.
– Parem já com isso, temos de encontrar um lugar seguro. –Sakura interrompeu a tensão entre as duas mais velhas. – Sasori–sama! –a rosada chamou ao vê-lo correr em direção aos inimigos.
– Trouxe minha família até aqui, não posso abandoná-los agora. –rebateu heroicamente, fazendo o peso no peito da gueixa aumentar ainda mais.
– Filho! –a mulher de cabelos azulados gritou, mas o mesmo já se encontrava entre a batalha.
– Venham, há uma saída aos fundos. –Sakura orientou-as, porém Konan pareceu não escutá-la.
– Não adiantará de nada ficar aqui, precisamos contatar o Imperador o quanto antes sua estúpida. –a Uchiha puxou-a pelo braço.
Sakura mostrou-as o caminho e permitiu que passassem, Konan parecia em choque, mas Mikoto continuava a apoiá-la. Quando ia passar pela saída, no entanto, a rosada apreensiva, retornou pelo caminho de onde viera. Sacou da bainha em sua perna a katana, assumindo dessa vez, não sua postura artística, mas sim a de uma lutadora.
Apesar de não saber os pontos fracos ou nem se podiam ser mortos, passou a golpear os ninjas que encontrava pela frente. Naquela noite, os via como os covardes que atacaram sua aldeia, quando era apenas uma garotinha e mataram cruelmente seus pais. Sakura libertara dentro de si, a fúria que nem mesmo conhecia ter.
Dentre as sombras escuras e samurais que se enfrentaram, a Haruno teve uma grande e desagradável surpresa. Presenciara o exato momento em que uma dupla de ninjas segurava certo samurai ruivo, enquanto um terceiro o apunhalava bem no centro do peito, já livre da armadura que o protegia, arrancada pelos inimigos, em seguida abandonaram seu corpo imóvel no chão e afastaram-se buscando novas vítimas.
– Sasori-sama! –exclamou correndo para ele.
Pegou-o nos braços, deitando-o em suas pernas. O sangue de sua ferida manchou o quimono da gueixa, mas ela não se importava. Sakura naquele momento era simplesmente a Sakura, uma moça sensível e arrependida que acabara de ver alguém que apreciava muito decair á sua frente.
– Sa...ku...ra. –conseguiu sussurrar cuspindo sangue.
– Não diga nada. –o pranto descia por sua face. – É minha culpa, nada disso teria acontecido se não tivesse participado. –o ruivo apenas fez uma expressão que se parecia um sorriso, e pôs-se a continuar, mesmo com tamanha dificuldade:
– Ashiteru... Sakura... –seus olhos castanhos fixaram-se no vazio.
– Não! –gritou aos prantos, abraçando o corpo em seus braços.
– Mas o que... Sasori! –outra voz feminina manifestou-se e em meio aos combates que aconteciam, Konan correu em direção ao corpo do filho. – Meu querido... O que foi que você fez?! Meu jovem filho tão cheio de vigor e vida... –pegou-o dos braços da rosada.
Sakura ergueu-se totalmente descompensada. Sentia-se frágil e indefesa, incapaz perante a violência que havia ao seu redor. Por que as pessoas tinham de ser tão cruéis? Embora sentia a si mesma corrompida. Caminhou para trás e sentiu esbarrar em alguém pelas costas, ao virar rapidamente notara a presença de um dos ninjas, apontando uma adaga em sua direção.
Por mais que fosse capaz de se defender, Sakura não reagiu. Temia que a hora de seu castigo havia chego e o aceitaria de bom grado. Fechou os olhos, esperando a punhalada, mas ela não chegou como se a eternidade pré-morte dominasse o momento.
Somente quando ouviu o barulho de um corpo que não era o seu caindo no chão, foi que voltou a abrir os olhos esmeraldinos. Deparou-se então com seu salvador... Mais uma vez, era Sasuke quem lhe trazia de volta á vida.
...
Fale com o autor