Notas iniciais
Tive que dividir em partes por que senão ia ficar ginorme, gente, serião! Tenho dó, ninguém consegue ler um capítulo tão grande sem que um pedaço da sua alma saia.

E primeiro veio a quentura

Dias de sol e céu azul com teus olhos de granizo

Calor sufocante dos beijos do demônio terno

Parecia meu mais perfeito paraíso

Mal sabia eu que era apenas o começo do meu inferno

Diana abaixou a janela do carro, aproveitando a brisa no rosto. Camille ria a seu lado, uma das mãos no volante, a outra segurando um pequeno cantil metálico. Diana adorava como a maneira que ela sorria, com a língua tocando a ponta do canino. Camille parecia livre e selvagem, e era tudo que amava nela.

― Aqui ― Camille falou com a voz rouca enquanto estendia o cantil. ― Vai te manter quente.

― Prefiro contar com você para isso ― Diana flertou, mas pegou o cantil mesmo assim, tomando um gole do uísque vagabundo.

Camille sorriu e estendeu a mão, agora livre, para acariciar a perna de Diana. Seu polegar fez círculos que fizeram Diana se arrepiar deliciosamente.

― Quanto mais vai demorar? ― Diana perguntou, olhando preocupada para o relógio.

― Eu ainda não me acostumei com o fato que a minha namorada de dezoito anos tem um toque de recolher ― Camille zombou, e voltou sua mão para o volante.

Diana mordeu o lábio inferior. Às vezes se sentia de fato infantil perto de Mille, mas não podia evitar.

― Minha entrevista na universidade é amanhã ― lembrou. ― Eu deveria ter uma boa noite de sono antes, mas você fez o maior drama e eu fiz um esforço pra estar com você. Você ― tocou com o indicador na têmpora de Camille antes de continuar ― podia fazer um esforço e me levar mais cedo pra casa.

― Eu estou fazendo isso por você, ok? Durante semanas você tem se estressado por causa disso. Por que não pode só relaxar e aproveitar? ― Camille fechou a cara, e Diana se arrependeu de ter falado.

― Desculpa, amor. Eu estou nervosa com a entrevista, só isso.

Camille continuou em silêncio, e Diana não o quebrou. Não sabia o que fazer para que voltassem ao bom clima de antes.

—x-

A música estava alta a ponto de estourar os tímpanos de qualquer um, mas ninguém ali parecia realmente se importar. Diana estava sentada em um sofá, observando a multidão dançando no salão a sua frente. Sentiu que alguém sentava ao seu lado, e pelo perfume, tinha a impressão que era Camille. Ainda assim, não desviou o olhar dos corpos dançantes, mesmo quando seu pescoço foi beijado e uma onda de arrepios percorreu seus braços.

― Tem um quarto lá em cima ― Mille sussurrou contra sua orelha. ― Um amigo meu me emprestou a chave. ― Mordiscou o lóbulo da orelha de Diana e acariciou sua perna. ― Por que não vamos procurar um pouco de privacidade? ― Segurou o rosto da namorada e a fez se virar. ― Além do mais ― a beijou brevemente ― eu consegui algo que vai te deixar bem relaxada.

Diana riu, claramente intoxicada.

― Eu já estou bêbada, Mille. Também quer me deixar chapada?

― Oh, querida, eu quero deixar você louca!

E as duas riram enquanto entre beijos se dirigiram a parte de trás do bar, onde tinha uma escada que levava ao andar de cima. Não havia muito lá, além de depósitos e um quartinho, que foi onde as duas entraram aos tropeços. Diana se dirigiu imediatamente ao colchonete esticado no chão.

― Diana... ― Camille cantarolou.

― Nem vem, eu não fumo. ― Diana se espreguiçou, espalhando seu cabelo castanho pelo colchão. ― E eu estou com muito sono para discutir agora.

― Você parece uma criança ― Mille zombou. ― Nunca vi alguém ficar bêbada tão rápido.

― Eu não estou tão bêbada assim. Eu estou com sono e prefiro passar os últimos minutos que tenho antes de viajar pro mundo dos sonhos fazendo algo que com certeza não é fumar um baseado.

Camille gargalhou antes de se juntar a ela no colchonete.

—x-

A cabeça de Diana estava pesando 3 toneladas quando o som estridente de seu celular. Se levantou com esforço, parcialmente por que suas pernas estavam enroscadas a de Camille, que a abraçava firmemente enquanto dormia. O celular parou de tocar, mas o fato de a chamada perdida ser da sua mãe e o relógio exibir que já eram quase sete da manhã, varreram todo o sono que ainda sentia. Até os efeitos da ressaca pareciam secundários.

― Mille, acorda! ― Sacudiu Camille bruscamente. ― Eu estou a um passo de ficar terrivelmente atrasada!

― Hum... ― Camille gemeu, virando para o outro lado. ― Quem se importa?

― Eu! ― Diana quase gritou de frustração.

Ainda tentou acordar Camille por alguns minutos, mas logo viu que não tinha mais tempo para desperdiçar. Pegou as chaves do carro e correu até a escada. Irrompeu pela porta e parou apenas para pedir ao barman ― que era amigo de Camille ― que avisasse que tinha que correr para sua entrevista, mas que viria buscar Mille assim que terminasse.

Não queria nem imaginar a bronca que receberia dos pais. Pisou no acelerador, sabendo que tinha pouco mais de uma hora para chegar em casa, se trocar e ir para o campus da universidade. Seus pais tinham sido firmemente contra ela sair a noite com a namorada. Diana estava com sérios problemas.

—x-

Por sorte, Diana não era a primeira na lista, então quando chegou, com uns bons vinte minutos de atraso, nenhum estrago irreparável havia sido feito. Reconheceu duas pessoas que estudavam na mesma escola que ela.

Passou direto pelo garoto que ela tinha certeza que tinha explodido o laboratório de química no ano anterior e sentou-se perto da garota. As duas tinham aula de espanhol juntas, mas nunca tinham se falado até aquela primeira troca de ‘oi’s aliviados, típico de pessoas que estão em uma situação estranha e são gratas a qualquer um que seja familiar.

― Você é Diana, certo? ― a garota falou com um sorriso. ― Eu sou July.

― Eu sei, você é do clube de jornalismo, certo? ― Recebeu um acenar afirmativo como resposta. ― É o seu curso? Jornalismo, quero dizer.

― Se eu sobreviver ao ataque de nervos que estou prestes a ter, e a essa entrevista, com certeza. ― July sorriu, colocando um de seus cachos atrás da orelha. ― E você?

― Arquitetura. ― Diana sorriu de volta.

Estava prestes a falar mais alguma coisa quando o celular de July vibrou em seu colo.

― Desculpa ― July falou constrangida antes de atender aos sussurros.

Diana sem querer, ou talvez querendo um pouco, deixou seus olhos vagarem pela pele morena de July, parando por um momento nas covinhas nos cantos da boca dela quando esta sorria. Ela era linda, e até mesmo tinha várias sardas ao redor do nariz, pouco discerníveis para quem não estivesse prestando atenção. E aí Diana se perguntou por que diabos ela estava prestando atenção.

― Era a minha mãe ― July explicou, colocando o celular na bolsa. ― Ela pegou o plantão da noite e não me viu antes de eu vir pra cá e me ligou para desejar boa sorte. Ela é enfermeira.

― Isso é legal ― Diana se remexeu, desconfortável. ― A minha só gritou comigo sobre o quão atrasada eu ia chegar.

― Não é sua culpa se o trânsito dessa cidade é caótico.

― Bom, eu dormi demais, então ela meio que tem razão nessa ― Diana riu.

Trocaram amenidades até que July ― que tinha o sobrenome Danvers ― foi chamada para a entrevista, e Diana ficou novamente sozinha para entrar em pânico. Tirou seu celular da bolsa para passar o tempo em algum jogo idiota, mas parou ao ver as chamadas perdidas e mensagens de Camille. Suspirou frustrada ao ver que as mensagens eram no geral perguntando sobre o carro, mas se deu por satisfeita ao ver que Mille perguntou se ela estava bem.

Minutos depois July saiu da sala de reuniões com um sorriso no rosto, e Diana se alegrou ao ver que ela tinha tido uma boa entrevista.

― Vejo que se saiu bem ― comentou, sorrindo.

― Eu acho que sim. ― July praticamente saltitava. ― Sabe, parte da nossa turma vai se reunir hoje naquela boate perto da escola para comemorar as cartas de aceitação. Bom, pelo menos esse é o motivo oficial. A maioria vai apenas pela farra.

― Eu ouvi falar, mas... eu não sei. ― Preferiu não comentar que havia quilos de base e pó compacto no seu rosto escondendo os efeitos da ressaca da noite anterior. ― Acho que minha namorada não vai querer ir. Ela é um pouco mais velha e não gosta de sair com esse tipo de galera.

― Então vá sem ela. ― July fez um gesto de pouco caso e Diana não pode deixar de notar que ela não reagiu de maneira alguma a palavra ‘namorada’. ― Estamos finalmente nos livrando do ensino médio. Você precisa vir festejar com a gente. É a única festa que vamos ter sem ter a maldita nostalgia de fim de ano, já que o ano letivo ainda não acabou. E ainda tem a festa de formatura.

― Eu vou tentar ir. ― Diana evitou se comprometer.

― Te vejo lá. Não deixe sua namorada acabar com sua vida social. Você já vai ter a universidade pra fazer isso. ― July acenou se despedindo enquanto Diana ria.

Depois disso, mesmo estando sozinha, não foi tão difícil esperar por sua entrevista.

—x-

― Você totalmente roubou meu carro. ― Foram as primeiras palavras que saíram da boca de Camille quando Diana entrou no bar, pouco depois de uma da tarde.

― Sim, Mille, minha entrevista foi ótima, obrigada por perguntar. ― Diana ironizou, mas se curvou para beijar a namorada de leve nos lábios. ― Quer ir pra casa ou pegar algo pra comer?

― Que tal ambos? Passamos em um drive-thru e depois vamos lá pra casa.

― Claro. ― Diana esperou Camille se levantar e as duas voltaram para o carro. Devolveu as chaves para Mille e deixou que ela assumisse o volante antes de voltar a falar. ― Encontrei uma das minhas colegas de turma na sala de espera. Ela me chamou pra ir pra festa que a nossa turma está fazendo perto da escola.

― Festinha de fim de ensino médio. ― Camille revirou os olhos. ― Um monte de adolescente juntos tomando cerveja barata e aí alguém vai levar orégano para os nerds enrolarem em um pedaço de papel e fingirem que estão curtindo uma viagem.

― Por que você sempre diz coisas assim? ― Diana cruzou os braços.

― Porque são verdade. ― Camille riu. ― Qual é, vai me dizer que tem vontade de ir numa festa assim?

― Eu sinto falta de sair com os meus amigos ― Diana desabafou, suspirando frustrada.

― Você fica com eles todo dia na escola, Diana, não faz drama. ― Mille fez um gesto de pouco caso.

― Não é a mesma coisa ― resmungou, olhando para a frente, observando o trânsito. ― A gente sai com seus amigos todo o tempo. Por que nunca saímos com os meus?

― Eu não saio com criança ― Camille falou em um tom que em qualquer outro dia teria encerrado a discussão, mas Diana não recuou dessa vez.

― Eles têm a mesma idade que eu.

― Você é diferente, querida ― Mille falou em um tom suave. Tentou acariciar o rosto de Diana, mas foi afastada por um safanão. ― E você está sendo incrivelmente difícil hoje. Não só hoje, mas como nos últimos dias. Achei que depois dessa maldita entrevista você voltaria ao normal.

― É. Obrigada pelo apoio, aliás ― Diana ironizou, de mau-humor. ― Quer saber, eu vou pra casa. Eu não quero passar o dia brigando com você. Eu vou dormir e a noite eu vou sair com os meus amigos. Se você quiser aparecer, apareça.

― E se eu não quiser? ― Camille não estava nem um pouco disposta a ceder.

― Então você pode ir pro inferno. ― Diana pegou sua bolsa e saiu do carro, batendo a porta com força.

Notas finais
Yep, a poesia é de minha autoria. Contém referências ao livro A Divina Comédia. H E L P Próximo capítulo amanhã, meio-dia!