Distopia
3 Capitulo 3
Clarice não tinha noção de tempo. Não fazia ideia que horas eram naquele momento. Se era dia ou noite. Quantas horas dormiu. Quanto tempo levava para comer. A que horas traziam sua comida.
Sentia saudades de olhar pro céu. Nunca percebeu o quanto gostava dele até não poder mais vê-lo. Mas lembrava de que ficava longos minutos observando-o. Vendo as nuvens se moverem com o vento, as estrelas aparecendo aos poucos, o sol se pondo. Sentia falta das cores. Mas agora as únicas cores que via eram branco, cinza, preto e o azul desbotado do seu cabelo. Algumas vezes o castanho, que passou a ser sua cor preferida.
A porta rangeu novamente e a tirou de seus pensamentos. Não sabia dizer se no mesmo dia ou no seguinte, mas após várias horas passadas desde a última vez que foi aberta. Sua cabeça virou-se ansiosa para ver quem era. E era ele. Ryu. A única pessoa do mundo que ainda importava para ela. Ela deu o mais tímido dos sorrisos, pois não se lembrava direito como o fazer. Ele sorriu bastante, sem conseguir esconder o alívio que tinha por estar com ela. Ryu fechou a porta rangente novamente e foi ao seu encontro. Clarisse ficou de joelhos e ele a abraçou por cima da camisa de força. Ela pode sentir o cheiro de limpeza e álcool em suas roupas. Sabia que ele não sentia um cheiro agradável, mas ele inspirou fundo mesmo assim e isso a fez sorrir novamente por algum motivo. Alguns minutos depois ele afrouxou um pouco o abraço, mas sem sair de perto dela, e desatou o nó que a prendia. Ela soltou um suspiro de alívio e a vontade de chorar veio novamente. Dessa vez porque finalmente o encontrou depois de tanto tempo. Não fazia ideia de quanto tempo fazia, mas foi tampo o bastante para deixar saudades. Também passou seus braços formigando em volta do corpo de Ryu e eles ficaram ali por alguns bons minutos, apenas sentindo um a presença do outro e ouvindo as batidas aceleradas de seus corações.
Afastaram-se finalmente e se encararam nos olhos. Finalmente Clarisse pode ver sua cor preferida novamente. O castanho dos olhos de Ryu não era muito claro, mas também não era tão escuro a ponto de esconder sua pupila. Era perfeitamente castanho. Às vezes pareciam vermelhos, mas era raro que acontecesse.
Ele aproximou seu rosto corado do de Clarice e encostou seus lábios nos lábios ressecados e quebradiços dela. O beijo não durou mais que alguns segundos, mas era o suficiente para que ela sentisse que não estava tão sozinha assim.
Ele puxou o prato de Clarice do chão e tirou algo do bolso e começou a despejar dentro do prato. Ela logo viu que era sal e riu.
— Pelo menos um pouco de gosto nesse mingau de nada. – disse rindo e ele também riu.
— Se se comportar vai ganhar um presente. – disse Ryu com suspense.
— Espero que seja mais comida. – brincou ela.
Eles riram novamente e Ryu deu a comida dela na boca. Ele era o único que a lembrava que ainda haviam pessoas boas no mundo e que se ela saísse dali tudo poderia voltar a ser como quando sua mãe ainda era viva.
Dessa vez a comida teve gosto de papelão com sal, o que comparado as outras vezes não era tão ruim assim. Quando ela terminou, ele tirou dois quadradinhos de chocolate embrulhados com papel alumínio e deu a ela. Ela partiu no meio e dividiu com ele o chocolate.
Continuaram conversando por um tempo, mas ambos sabiam que se Ryu se demorasse e fosse pego conversando com ela, eles nunca mais se veriam e Clarice poderia ser punida novamente.
Ele beijou timidamente antes de partir e prender sua camisa o mais frouxo possível.
—Boa noite, Clarisse.
—Boa noite, Ryu.
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