Distopia
4 Capitulo 4
Estava deitada, levemente dopada de remédios e refletindo sobre quanto tempo não via meus amigos. Eu sentia saudades deles. Não tinha noticia deles há um tempo.
Fui até o celular e falei com Luna para me fazer companhia no cabeleireiro e ela aceitou, dizendo que precisava me contar várias coisas e que seria o momento perfeito.
Não avisei meu irmão que ia sair, porque eles estava trabalhando e não queria atrapalhar, mas no fundo eu sabia que isso não era uma boa ideia e que ele provavelmente se zangaria comigo.
Peguei o cartão que minha mãe me deu um dia dizendo que era apenas para emergências e sai.
Isso não era bem uma emergência, mas dizem que depois de uma grande perda as pessoas precisam mudar o visual, e eu iria fazer exatamente isso.
No salão, eu e Luna conversamos bastante enquanto mãos iam e vinham em meus cabelos. Eu mais ouvi do que falei e sorri com as histórias que Luna me contou sobre o que ia fazer agora que havíamos terminado o ensino médio. Depois que acabamos, passamos em um lugar para comermos. Algum tempo depois que estávamos lá resolvemos ligar para Mike e alguns outros amigos nossos para ir pra lá também.
Quando eles chegaram tudo ficou mais animado e divertido e acabamos saindo de lá e andamos pelas ruas, sempre rindo e conversando alto. Todos elogiaram meu novo cabelo azul e, felizmente, ninguém comentou sobre minha mãe ou sobre o havia acontecido no velório.
Quando cheguei em casa já era um pouco tarde, e ao entrar pela porta e tranca-la, vi Lan sentado no sofá imovel.
—Onde estava? – perguntou ele sem virar a cabeça, assim que entrei em casa.
—Saí com Luna e uns amigos. – disse atravessando a sala da entrada e indo em direção ao corredor que dava par os quartos.
Quando passei pelo sofá em que Lan estava ele soltou uma exclamação e levantou-se do sofá. Quando ouvi a exclamação meu instinto foi parar onde eu estava e olhar para ele para saber o que estava acontecendo. Ele veio até mim e agarrou meu cabelo com força. Tentei me livrar de suas mãos, estava assustada com sua reação e meus olhos estavam marejados pela dor.
—Você está ficando louco? – gritei desesperada.
—Você é que esta ficando louca! Sai sem avisar, gasta um dinheiro pra emergência pra fazer essa porcaria no cabelo, chega tarde e não da nenhuma explicação! Você não ache que só porque mamãe morreu você vai poder fazer tudo o que quer!
Enquanto ele falava me arrastava até meu quarto segurando meu cabelo. Eu tentava não gritar de dor, mas era difícil. Quando ele disse a última frase chegamos no meu quarto e ele me jogou em cima da minha cama.
Eu fitei seus olhos cinza, como os meus, com toda a raiva que eu estava dele naquele momento.
—Não aja como se fosse meu pai, porque você não é! Está tão perdido quanto eu, se não mais! Então apenas pare de tentar fazer um papel que não é o seu! Não precisa jogar na minha cara que minha mãe morreu e eu não estou sabendo lidar direito com isso, ok? Eu não pedi pra nada disso acontecer! Não me culpe por querer mudar um pouco, a gente se parecia tanto e eu não aguentava mais me olhar no espelho e ver minha mãe morta me encarando de volta! – gritei de volta, deixando que as lágrimas escorressem por meu rosto.
Dava para ver em seu rosto corado de raiva que ele não sabia o que falar. Ele abriu a boca uma ou duas vezes, mas nada disse. Por fim, virou as costas e bateu a porta.
Do corredor la fora ele gritou:
— Continue saindo sem avisar e fazer coisas idiotas sem me consultar antes que você vai se arrepender.
“Estou morrendo de medo.” Pensei, revirando os olhos e indo logo dormir.
No dia seguinte eu já havia me esquecido do que Lan tinha dito e sai de casa novamente. Tinha decido a partir do momento em que Lan decidiu bancar o pai protetor que não queria mais ser a coitadinha que acabou de perder a mãe e ficava o dia todo chorando no escuro do quarto ouvindo Evanescence.
Já fazia pouco mais de um mês agora, acho que já está bom de luto e remédios anti-depressivos.
Saia no final da tarde e só voltava de manhã, ou no outro dia. Bebia com meus amigos, saia com pessoas que eu não fazia ideia quem eram, mas pelo menos todo o barulho da rua e da música alta dos lugares em que eu ia, da multidão bêbada e chapada e do calor dos corpos me tocando me faziam não pensar na dor que eu estava sentindo pela falta da minha mãe.
Lan resolveu ignorar isso por enquanto e eu achava isso ótimo, assim sobrava mais tempo pra eu ficar bêbada.
Ficava com qualquer pessoa que aparecia na minha frente, algumas vezes até fazia sexo com elas, mas eu nunca consegui sentir mais do que desejo sexual por aquelas pessoas. Nem sabia se era eu ou a bebida querendo-as. Eu só queria preencher de alguma forma aquele vazio que eu sentia quando estava sóbria.
Um dia, na volta de uma festa, cheguei em casa e estava sentada nua embaixo do chuveiro ligado. Lágrimas escorriam de meus olhos, mas a água não deixava que elas aparecessem. Após várias doses de bebidas, estava beijando uma garota, mas de repente tive uma epifania e larguei-a no meio de tudo e sai andando pele local em que eu estava e andei até em casa, não me importando com as pessoas que me deviam carona. O caminho todo vim pensando o que eu estava fazendo com a minha vida nesses meses em que só sai.
Eu estava com quase 19 anos agora, desempregada, não estudava mais, só saia e bebia, gastando o dinheiro que minha mãe me deixou e o dinheiro do meu irmão. Me tornei uma das coisas que eu mais evitava e odiava: uma bêbada.
Me sentia tão mal que queria que alguém me desse uma surra. Pensando nisso, abracei a mim mesma e com as minhas unhas, que estavam grandes e pontudas, arranhei minhas costas nuas com toda a força. Os arranhões arderam, mas eu arranhei de novo e de novo, até que endireitei os braços, pousando a mão nas coxas e vi o sangue entre minhas unhas e em meus dedos. A água que escorria agora até o ralo era avermelhada e eu chorei ainda mais, me sentindo um pouco melhor por ter me “punido” de alguma forma por ser apenas um encosto e um peso morto no mundo.
Após lavar as costas sequei o cabelo e o corpo com uma toalha e deitei na minha cama totalmente nua e de bruços para não ferir mais os arranhões, que agora doíam bastante.
No dia seguinte sou acordada do nada por Lan gritando comigo. Não entendo nada de início por ter acabado de acordar e meu primeiro reflexo é cobrir meu corpo nu com a coberta. Ele puxa a coberta de mim e deixa minhas costas a mostra novamente e dessa vez eu entendo o que ele diz.
— Além de estar saindo praticamente todos os dias e se embebedando com gente que você nem conhece e gastando o meu dinheiro, você também fica se machucando? Então pois bem, não me sinto nem um pouco mal de te mandar pra esse lugar.
Fiquei muito confusa e assustada. Que lugar? Do que ele estava falando?
—Do que você ta falando? – perguntei, temendo a resposta.
—Você está fora de controle, Clarice! Eu te avisei que você se arrependeria se não me ouvisse, e agora você vai sair dessa casa e vai pra bem longe! – disse saindo do quarto e me deixando mais confusa ainda.
Me levantei e vesti a primeira roupa que eu encontrei jogada no quarto e sai a procura de Lan. Ele estava na sala e não estava sozinho. Conversava com um homem alto e de cabelos ruivos, pálido como papel e com uma cara de perverso. Ele conversava com meu irmão com um sorrisinho de canto de boca, como se estivesse se divertindo muito com tudo o que estava para acontecer. Ele estava rodeado de dois outros homens tão altos quanto ele, porém muito mais fortes, pareciam seguranças, mas os 3 usavam uma roupa parecida com que pessoas que trabalham em hospitais usam.
Quando entrei no quarto, o homem ruivo me fitou com aquele sorriso e eu me arrepiei os pés a cabeça e parei de andar. Lan virou-se em minha direção também e logo todos os 4 estavam me encarando.
—O que está acontecendo, Lan? – perguntei, recuando um passo, sem conseguir disfarçar meu medo de toda aquela situação.
—Você vai embora, eu já disse. – respondeu impaciente.
—Mas pra onde você vai me mandar?
Lan abriu a boca para responder, mas o homem ruivo se adiantou.
—Você precisa de ajuda, Clarice. Está incontrolável desde sua mãe morreu e nós vamos te ajudar com isso. – ele esfregava as palmas das mãos enquanto falava e se aproximou um passo.
—Você vai me internar? – me surpreendi.
—Sim, chamei esses senhores até aqui para que te levem até um hospital psiquiátrico para casos perdidos, como o seu. Ele fica do outro lado do país. – Lan disse tudo calmamente, como se achasse tudo aquilo uma ótima ideia.
—Ah, e com hospital psiquiátrico você quer dizer hospício, né?
Ele não respondeu, só desviou o olhar para seus sapatos pretos.
Lágrimas escorreram por meu rosto novamente e eu me encolhi no chão pensando como meu próprio irmão pode me jogar em um hospício isolado do resto do mundo, do outro lado do país.
Os homens maiores me agarraram e me levantaram, me levando pra fora da casa.
—Foi um prazer fazer negócio com você. Nunca mais vai ter que se preocupar com ela! – ouvi o homem ruivo falar para meu irmão, antes que ele fechasse a porta.
Resolvi abrir os olhos em meio das lágrimas e vi um carro preto e longo parado rente a calçada. Luna estava do outro lado da rua me encarando horrorizada e eu nada pude fazer.
Os homens me colocaram no banco de trás do carro e eu fiquei no meio dos dois. Um motorista esperava por nós dentro do carro e o homem ruivo sentou no bando da frente.
—Meu nome é Lúcius. Sou coordenador do “hospital psiquiátrico” e, já que a dona nunca aparece, eu que mando em tudo lá dentro. – começou ele assim que o carro entrou em movimento. — Não precisa se preocupar quando for para St. Laura, a não ser que você seja o tipo encrenqueira. Temos uma punição especial para as pessoas que arranjam problemas. Mas algumas nem acham tão ruim assim.
Ele sorriu quando disse a última frase e encarou meus olhos cinza com os dele verde veneno pelo retrovisor. Um calafrio me subiu a espinha e eu engoli a saliva que estava na minha boca.
Lúcius me dava arrepius só de olhar. Eu tinha 1001 perguntas para fazer sobre o St. Laura, mas eu não tinha coragem de fazê-las a um homem que exalava maldade.
A viagem durou muito tempo. Não sei ao certo quanto, mas nós paramos algumas vezes para comer e ir ao banheiro e quando chegamos já estava bem escuro e as estrelas brilhavam no céu. Era uma noite linda, mas não para mim.
Com a noite clara deu para ver o prédio muito bem. Devia ter uns 10 andares e não era tão largo quanto alto. Era cercado por um grades de metal finas e com pouco espaço entre uma e outra e não eram tão altas, deviam ter uns dois metros, no máximo. Um grande portão se encontrava de frente para o edifício e ao lado uma porta normal.
O motorista usou um controle pequeno para abrir o portão maior e estacionou o carro bem na frente da porta do prédio.
Olhei em volta e havia um pequeno pátio na frente, mas parecia haver mais espaço na parte de trás do prédio. Entramos, com os seguranças logo atras de mim e Lúcius na frente. O motorista continuou no carro e não sei se foi embora depois que entramos, mas eu nunca mais o vi depois daquele dia.
Dentro, era tudo branco. Estava gelado e eu quase não usava roupa alguma, o que me fez ficar arrepiada. Me arrependi de ter vestido apenas um short bem curto e uma blusa de mangas longas muito fina e colada ao corpo e eu estava descalça. Me sentia constrangida no meio de tantos homens e com tão pouca roupa.
Lúcius foi até um tipo de guichê, que ficava no canto direito do hall de entrada. Ele era coberto por um vidro e tinha apenas alguns buracos perto do rosto da mulher que estava do outro lado para que ela pudesse ser ouvida e uma abertura não muito grande na parte inferior do vidro. Atrás da mulher havia uma sala mal iluminada com varias prateleiras. Lúcius disse algo perto dos buracos e ela foi até aquela parte e voltou com algumas peças de roupa branca, um lençol, papel higiênico e chinelas e entregou a Lúcius pela abertura de baixo. Ele pegou as coisas e as entregou a mim.
Haviam dois homens, um de cada lado, parados onde ficava o elevador e estavam armados. Tentei imaginar que aquilo era normal e entrei no elevador, dessa vez só com Lúcius. Ele apertou o número 7 e ficou parado atrás de mim, o que me deixou ainda menos confortável. Reparei que havia “-1” como opção de andar e me surpreendi por haver um andar subterrâneo naquele prédio.
O elevador subia devagar e rangia muito.
—Minha sala e dormitório ficam no último andar. – disse Lúcius, revelando que estava muito mais próximo de mim do que eu imaginava. Eu podia sentir sua respiração roçar o topo de minha cabeça agora. – Vou pedir para que faça algumas visitas a mim, de vez em quando, você é bem bonita.
Dizendo isso, passou a mão em minha bunda e eu estremeci de medo e entendi o recado e só balancei a cabeça para cima e para baixo, com medo de que se eu falasse algo ele me machucasse.
Finalmente o elevador parou no andar 7 e eu pude sair de tão perto de Lúcius. Nesse andar havia um corredor logo de frente para a porta do elevador e mais dois de cada lado desse.
Lúcius entrou no primeiro deles da esquerda para a direita e foi direto para a ultima porta, que tinha o número 707 gravado em uma fonte preta. Ele abriu a porta e revelou um comodo com uma cama em uma das paredes; um vaso, uma pia e um espelho sujo na outra; e uma caixa de madeira parecida com um baú que perdeu a parte de cima encostado em um canto, onde as paredes cinzas se encontravam. O quarto não possuía janelas e era bem mal iluminado.
—Esse é seu quarto. As refeições são servidas ás 8 da manhã, meio dia e 7 da noite. Um alarme toca quando é a hora. Há guardas e funcionários em toda parte, então não tente nenhuma gracinha. O refeitório fica no terceiro andar e alguém vai trazer suas medicações todo dia na mesma hora. Se não toma-las os funcionários vão manda-la para minha sala para que tenhamos uma conversinha.
Eu logo vi que não queria ter conversinha nenhuma. Logo depois de dizer isso ele bateu na minha bunda para que eu entrasse no quarto e trancou a porta quando eu entrei.
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