Distopia
2 Capitulo 2
Era Janeiro. Estávamos todos felizes e o ano apenas acabara de começar. Minha vida só estaria melhor se meu pai estivesse ali. Ele faleceu no ano retrasado, de ataque cardíaco. Infelizmente ele sofria de vários problemas cardíacos, porém mesmo com todos os protestos da família, ele não se cuidou direito e continuava a fazer tudo o que os médicos – que mamãe praticamente o obrigou a ir – falavam para ele não fazer. Então, o evitável — graças a ele inevitável — ele teve uma taquicardia e logo depois uma parada cardíaca. Não conseguimos reanimá-lo e lá se foi meu pai. Seu nome era Alfonce Babel.
Enfim, aquilo já havia passado, e apesar de sentirmos sua falta, nos sentíamos felizes. Eu tinha acabado de me formar na escola e tinha alguns amigos que eu amava muito. Não tinha namorado algum, não que eu não tivesse alguns pretendentes, mas eu não estava apaixonada por ninguém, e não namoraria alguém por outro motivo que não fosse esse. Curtia minhas tardes com meus dois melhores amigos: Luna e Mike. Nos divertíamos muito conversando, rindo, falando besteiras e comento porcarias. Luna, eu conhecia desde que me lembro. Ela sempre estava junto comigo e eu contava tudo a ela, mesmo que eu sabia que ela não ia gostar ou que ela ia querer me bater, o que muitas vezes aconteceu, já que ela era meio agressiva. Talvez muito. Ela também era muito inteligente e muitas vezes tirava notas mais altas que eu e sempre me ajudava com a escola se eu precisasse.
Mike é um fofo. Eu conto tudo pra ele também, mas o conheci há apenas alguns anos atrás. Ele é um bom conselheiro às vezes, e sempre tenta me animar. Na maioria das vezes ate consegue me animar, mas seus conselhos não são muito bons. Ele e Luna não se davam tão bem quanto eu gostaria, mas são bons amigos também. Ele tinha um cabelo loiro e liso, nem curto e nem longo. Olhos castanhos e estava sempre sorrindo e contando piadas. Luna tinha cabelo enrolado e curto, mais ou menos no ombro. Seus olhos eram quase pretos de tão castanhos, sua boca era fina e tinha orelhas pequenas. Ambos eram mais alto que eu, o que me irritava um pouco, já que faziam piadas sobre minha altura, mas ao mesmo tempo achava engraçada toda essa zoação.
Tudo parecia tão bem, não sei direito como aconteceu para ficar como está hoje. Mas acho que começou numa bela tarde cinza de março. Dia 13. Estava sozinha em casa, tomando um café quente e lendo um livro que havia pegado emprestado com Luna. Lan, meu irmão, entrou pela porta da sala de casa, parecia estressado e agitado e eu estranhei. Endireitei-me, pousando a caneca de café na mesa mais próxima e indo até ele com o livro ainda nas mãos.
–O que houve, L? – perguntei curiosa.
Seus olhos estavam marejados e seu lábio inferior tremia.
–Clarie, eu não sei como te dizer isso... – lágrimas escorriam agora – Eu mesmo não acreditaria se não tivesse visto com meus próprios olhos...
–O que houve? Conta logo! – Exclamei já afoita com tudo aquilo.
–É mamãe... Ela... Ela bateu o carro. Na verdade, um caminhão bateu nela. Foi uma colisão frontal... Eu não sei bem como aconteceu. Ninguém sabe, não havia ninguém na rua e só os viram quando ouviram o barulho. – disse caindo de joelhos no chão e se desfazendo em lagrimas, mas continuou: Não sabem se ela morreu na hora ou se sofreu antes de morrer... Me ligaram do celular dela... Estou arrasado... Não sei o que fazer...
Seus cabelos loiros, quase brancos, como os meus, estavam bagunçados como nunca estiveram antes. Ele abraçava os joelhos e chorava em silêncio, apenas soluçando vez ou outra. Eu não tive reação alguma. Fiquei completamente imóvel segurando o livro com uma mão só e fitando o nada. Pensava em todas as coisas que mamãe fez por nós depois que papai morreu, e quis chorar, mas não consegui. Algo me impedia de chorar. E não chorei. Fiquei calada o resto do dia, meio dormindo meio acordada, remoendo sobre a noticia horrível. Acho que algo dentro de mim não aceitava, e esperava que minha mãe entrasse pela porta a qualquer momento. Mas ela não entrou.
Contei a Mike e Luna e eles ficaram tristes por mim e me desejaram força. Mas eu não me sentia nada forte. Sentia-me flutuando, como se meu corpo estivesse dormente ou como se eu tivesse passado o dia inteiro imersa em água e meu corpo ainda não tivesse acostumado com o ar a minha volta. Parecia estar dormente para qualquer sensação que eu pudesse sentir no momento.
O dia do velório chegou e então tudo me veio à tona. Eu tive um terrível ataque de panico ao ver o corpo morto da minha mãe. Eu berrei a toda garganta e chorei muito, fazendo muito barulho a todo momento, como se todo o estardalhaço que eu estava fazendo fosse acordar a minha mãe. Mas ela continuou pálida e morta. Parecia tão vazia, e realmente estava. Agora era apenas carbono, e eu apenas uma órfã.
Chorei tanto, que meu irmão chamou uma ambulância para me acalmarem. Me sedaram. Não sei como aconteceu, só sei que senti braços me envolvendo, uma picada no pescoço e logo depois tudo sumiu.
Acordei com a visão embaçada. Não sabia onde estava. Tudo era branco e cheirava a limpeza e álcool. Tentei me mover e senti algo no meu braço. Sentei-me na cama em que estava e minha visão voltou ao normal e vi que estava em um hospital. Havia várias outras pessoas sendo atendidas ao redor e deduzi que estava na emergência. Havia uma cortina separando-nos o resto. Não conseguia me lembrar direito do que havia acontecido antes, mas do que me lembrei voltei a chorar.
– Ei, não precisa mais chorar. — olhei para o lado e vi Lan levantando da cadeira que estava do lado da cama. — Você já chorou o suficiente para uma vida.
Ele veio até mim e me abraçou. Passei meu braço livre pelo seu corpo e agarrei sua cintura, apoiando a cabeça em sua barriga. Ele acariciou meus cabelos e eu me senti um pouco melhor.
– Quando vou poder sair daqui? – perguntei ansiosa para me livrar daquela coisa no meu braço.
– Quando a doutora te liberar. Você teve um ataque de pânico e ansiedade, sua pressão baixou, você tava mais branca do que o normal. Fiquei muito preocupado, não pode fazer essas coisas comigo logo agora. – ele disse e sentou na beirada da cama.
Nesse momento a doutora entrou na nossa parte da emergência, com meu laudo na mão e disse:
– Clarice, que bom já acordou. Você parece bem agora. Assim que acabar essa bolsa de soro você pode ir pra casa, ok?
E saiu sem nem ter olhado pra mim direito. Tudo bem, tenho certeza que ela tem mais quinhentos pacientes pra ver.
Assim que a bolsa terminou, eu calcei minha bota e Lan nos levou de volta pra casa. A medica me receitou alguns remédios para a ansiedade para eu tomar, e Lan passou na farmácia e os comprou.
Ainda me sentia péssima e meio grogue por conta do sedativo que usaram em mim, e depois de tomar os remédios fiquei pior ainda. Chorei muito mais depois de deitar na minha cama e dormi mais ainda.
A semana foi toda assim, não conseguia comer mais do que um prato por dia, chorava sempre e parei de ver meus amigos com tanta frequência. Não importava o que eu fazia, tudo parecia sem graça e chato. Lan me levou no medico novamente e eles me deram soro na veia por não conseguir comer e me receitaram alguns anti-depressivos.
Os anti-depressivos me fizeram não ficar acordada por mais que 3h seguidas. Eu parecia mais um zumbi do que uma pessoa. Olheiras roxas surgiram embaixo de meus olhos e eu não me sentia nada bem.
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