Distopia

1 Capítulo 1


Seus cabelos azuis, agora oleosos e desbotados, caiam sobre seu rosto pálido como a lua, que ela mal se lembrava como era. Estava magra como nunca esteve antes e se sentia faminta. Suas mãos e braços estavam em volta do tórax, cobertos pela camisa de força muito suja. Estava do lado oposto da porta da solitária. Era como chamavam seu novo “quarto”. Um nome bem apropriado, já que a unica pessoa que ia até la era alguém que lhe trazia uma porção de comida por dia. Estava escuto e apenas um feixe de luz do corredor entrava pela pequena abertura que havia na porta, que servia para verem quem estava dentro da solitária. A porta era de ferro, um pouco enferrujada e rangia muito ao abrir. Eram raras as vezes em que saia dali, mas sempre que o fazia algo ruim lhe acontecia.

Sabia que logo sua única visita chegaria, e lembrou-se de quando comia comida de verdade e via tantas pessoas que desejaria não ver nenhuma por vários dias.

Sentia falta de sua vida, antes de tudo acontecer, e seu único desejo no momento era conseguir sair daquele lugar. Uma vez até chegou a tentar, mas acabou naquele lugar horrível e sem cor, com apenas uma refeição ao dia e sofrendo constantemente.

Enquanto não conseguia sair, não queria se esquecer de sua antiga vida, e contava sua própria história para as paredes ouvirem. Clarice passou a achar as paredes as melhores ouvintes, e além da história de sua vida fora dali, também contava suas histórias de quando veio para esse hospício e sua vida não se resumia a escuridão e mingau de nada.

A porta fez barulho e ela levantou os olhos naquela direção para conferir quem era a pessoa da vez. Decepcionou-se ao ver que era apenas um funcionário qualquer, gordo e careca. Ele empurrou o prato quase vazio com o mingau de algo que talvez não fosse comestível e soltou sua camisa de força.

-Volto em 20 minutos. – disse ele com uma voz rouca, que ecoou pela sala, e bateu a porta novamente.

A careca do homem era a única coisa que aparecia pelo buraco da porta ao ser fechada, e ela brilhava como se fosse polida todos os dias. Em um dia normal aquilo faria Clarice rir da calvície do homem, mas seu humor já se foi há muito tempo e só uma pessoa conseguia recupera-lo por um curto período de tempo.

Ele voltou algum tempo depois que ela já havia comido, e prendeu-a novamente deixando-a sozinha com seus pensamentos.

-Sei que faz tempo que não conto muitas histórias sobre mim, amigas paredes, e isso está me fazendo esquecer de quem eu era. Então, para que eu não me esqueça e para que não se entediem com minha fraca presença, contarei novamente minha história de como vim parar aqui.