Distantes
1 Capítulo 1 - Samantha
Notas iniciais
Ela trocava seu peso de uma perna para a outra, na frente do fogão, enquanto apertava o pão dormido na frigideira quente. 'Ainda bem que tem café', pensava. Seus olhos deslizavam com precisão por cada canto da cozinha enquanto seus devaneios a separavam do mundo real. Lembrou que sempre tinha café e que essa era uma das poucas coisas que, em geral, não faltava na despensa praticamente abandonada da família Vallery. E bebida, claro. Nunca faltava bebida alcoólica naquela casa.
Filip provavelmente estava filando o café da manhã na casa de alguma garota, apaixonada e iludida, que como todas as outras, devia se achar especial e exclusiva, com certeza. Samantha e o irmão gêmeo deveriam ser muito parecidos fisicamente, com seus cabelos castanho claro levemente cacheados e bonitos olhos verdes. Mas as semelhanças paravam por aí. Ele era bronzeado e atlético por praticar muito esporte e ir à praia. Ela, mais pálida e magra, e preferia passar seu tempo na biblioteca ou ficar em casa — bem, não exatamente em casa. Só não gostava de circular pela cidade à toa. 'Pra quê? Correr o risco de encontrar com ela naquelas condições? Não mesmo! Tenho muito amor à minha sanidade...'– e depois de buscar todas as desculpas possíveis e impossíveis para não sair da sua zona segura, buscava algo pra ler.
Despertou assustada de seu devaneio quando queimou o indicador na frigideira. Pôs o dedo na boca e olhou o relógio na barriga do pinguim de gesso encima da geladeira. Faltava meia hora. Ia andando para o colégio que não ficava longe dali, mas gostava de caminhar lentamente, sem pressa. Pegou o pão torrado e sem recheio com um guardanapo, evitando esbarrar o tecido no dedo queimado. Virou a garrafa térmica sobre um copo descartável até a metade ser preenchida pelo café que, na verdade, estava frio. Jogou a mochila preparada na noite anterior, sobre o ombro direito e, saiu sem trancar a porta.
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'Ho não'. Ao virar a esquina, Samantha rapidamente identifica um grupinho adolescente reunido próximo à entrada da garagem da escola. 'Elas não desistem!'
Victoria, Sofia, Valentina e Ana Clara, constituiam aquela típica panelinha de colégio das garotas populares. Ricas, influentes, bonitas, espertas, fúteis e supeficiais. Garotas que quando punham uma coisa na cabeça, dificilmente desistiam. A pior delas, a líder e cabeça das patricinhas era Victoria. Parente de grandes empresários americanos, era a que tinha mais dinheiro e os mais influentes contatos. E era também, terrivelmente, a mais arrogante. E naquele ano tinha escolhido Samantha como alvo. Ela não era, na verdade, de perseguir ou humilhar as pessoas. Mas era caprichosa e agia como se aquela escola fosse seu pequeno reinado, embora, na verdade, odiasse aquele lugar.
Os gêmeos estudavam naquela escola cara, que levava o nome de uma igreja, porque tinham bolsa integral. A mensalidade era tão alta que poderiam pagar todas as contas de um ano com o valor de um único bimestre. Precisavam constantemente de doações de material didático e uniformes, pois tudo naquela escola era exclusivo. Do caderno às meias do uniforme com o brasão da escola bordado na lateral. E mesmo com suas notas altas — que ela conquistava com muito esforço, enquanto ele colava das meninas mais inteligentes que não resistiam ao seu charme e tremenda cara de pau. — eles não conseguiriam manter a bolsa. Exceto pelo seu constante estado de 'vulnerabilidade social'.
"Pobrezinhos" — ela ouviu comentarem uma vez, na sala do diretor, enquanto aguardava chamarem a Assistente Social depois de mais uma briga do seu irmão — "...não fosse pela nossa caridade o que seria desses pobres irmãos ? Temos de ser complascentes, eles não tem uma boa referência em casa, sabem. Com o abandono do pai e sendo a mãe alcoólatra...".
'Peguem sua caridade e enfiem no...'
— Olha a sumida aí. — Victoria interrompe seus pensamentos com sua voz melosa.
— Fiquei sentida com sua ausência na minha festa. — falava a garota com voz afetada, fazendo beicinho e enrolando uma mecha de cabelo nos dedos. Tão cliché que provocava náusea em Samantha.
— Desculpa Vic — respondeu imitando a entonação afetada da falsa loira — sabe que ando ocupada? Tenho me preparado pro vestibular, estudando o dobro pras provas bimestrais e...
— Olha aqui — foi interrompida por uma fala muito mais fria e cortante da patricinha — minha paciência tem limites. Já disse que sua facilidade com biologia e habilidade no laboratório me interessam, e você até que ficaria bonitinha se eu desse um jeitinho nesse seu cabelinho ressecado. A proposta de andar com a gente ainda esta de pé. Mas por tempo limitado. E você, florzinha, como bolsista não pode negar que essa é uma oportunidade única. Estou te oferecendo vida social de verdade. Visibilidade. E não isso aí que você tem sido nos últimos anos de escola. Estamos no terceiro ano, essa é a oportunidade que você tem de sair por cima, lindinha. Exatamente o contrário dessa ninguém que está na minha frente agorinha mesmo. Então aproveita enquanto eu tô boazinha e decide logo.
A frequência com que a loira usava o diminutivo deixava Samantha inquieta. Engolindo em seco, ela enfia as mãos nos bolsos da calça gasta do uniforme, que devia ser pelo menos dois números maior que ela e responde: — Pode deixar — encolhendo os ombros, torcia para acabarem logo com aquele assunto — vou pensar com carinho.
Parece que foi suficiente. Logo que ouviu isso, Victoria girou sobre os saltinhos, que claramente não faziam parte do uniforme, e praticamente marchou na direção do portão social do colégio, seguida de perto pelas outras bonequinhas. 'AFF...' Foi o que Samantha conseguiu pensar antes de também se dirigir ao portão de entrada para mais um longo, longo dia.
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