Distantes

2 Capitulo 2 - Filip


Notas iniciais
Espero suas Impressões sobre este personagem... Boa Leitura!!! *capítulo revisado

Ele equilibrava no indicador uma rosquinha coberta de açúcar, que saboreava lentamente, comendo as bordas. Sua postura despojada ao sentar-se na carteira deixava à mostra as duas canetas num dos bolsos traseiro da calça jeans. No bolso do outro lado havia um cartão da confeitaria com o celular da balconista escrito à caneta no verso. 'Ela deve ter idade pra ser minha mãe'– devaneava distante enquanto o professor explicava algumas ligações químicas complicadas demais para merecerem sua atenção. 'Mas e dai ? Dando café de graça saio até com a avó dela...' — mas ao imaginar a cena rapidamente mudou de ideia.

— E então, Sr. Filip ? — foi arrebatado instantaneamente de seu devaneio, e com o susto, quebrou o que restava da rosquinha, deixando os pedaços caírem esfarelando no chão.

— E então? — o professor insistia.

— Desculpe professor, qual foi a pergunta ? — perguntou arrumando a postura na carteira, mas ainda olhando os pedaços do doce no chão.

— Ha rá! Isso quer dizer que o senhor não ouviu uma palavra do que eu disse, não é!? E... Hei! Onde você pensa que vai ?

Antes mesmo do professor terminar a primeira frase, Filip já havia se levantado e se dirigia a porta que dava para o corredor. Se detendo um minuto, com a mão na maçaneta, virou a cabeça na direção do professor e explicou com ar cansado:

— Eu não o ouvi, o senhor vai fazer um discurso, eu vou ser petulante, vai me mandar sair, eu direi que só saio arrastado, o senhor vai chamar um inspetor, ele vai me tirar da sala sem problemas, no corredor vai falar mal do senhor, vamos rir juntos e nos encontraremos de novo na sala do diretor. Ai eu finjo que estou arrependido, o senhor finge que acredita, e eu fico suspenso dois dias...

O professor ficou chocado diante daquela enxurrada de palavras sem sentido, mas assentiu ainda meio confuso.

— Só estou poupando tempo e energia. Agora posso ir?

Ainda de boca aberta, o professor assentiu mais uma vez. Filip passou pela porta tomando a direção da sala do diretor.

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— De novo menino? — aquela voz rouca e cansada da "tia da limpeza" sempre deu algum conforto para Filip — O que foi agora meu filho ? Quebrou o pedal do piano da escola de novo ?

— Que isso dona Lúcia, aquilo foi um acidente...

— Que se repetiu três vezes em dois meses.

Dando de ombros, se sentou em uma das cadeiras que ficavam no corredor esticando os pés por cima de outra, deixando o caminho livre para a vassoura.

— Coincidência, eu acho...- respondeu dando de ombros novamente — aquele piano é muito delicado pra alguém forte como eu. Já dei a sugestão de colocarem uma bateria no lugar, mas ninguém me escuta... E não, não estou aqui pelo piano. É que hoje a aula de química estava insuportável.

— Ai você deu um jeito de ser mandado embora, né?! ... — afirmou a senhora, apoiando o queixo na mão sobre o cabo da vassoura, depois tornando a varrer o chão com um suspiro — Toma jeito menino. Leva a sério a escola. Se não pode acabar assim como eu.

Filipe sorriu e se levantou, depois lhe deu um beijo no rosto, o que pegou e humilde senhora de surpresa. Ela logo se recompôs e olhou fundo nos olhos claros do rapaz.

— É pro seu bem que eu falo meu filho. Tem nada de errado em ser como eu, não. Mas você merece coisa melhor. Você tem essa oportunidade, coisa que eu não tive. E eu sei meu filho, eu sinto que você ainda tem muito pra oferecer pro mundo menino. Eu sinto... — já falara a ultima frase num fio de voz embargada, sufocada na garganta, quase virando choro.

Filip a abraçou delicadamente, beijando sua testa, e com ternura sussurrou:

— Eu sei. Obrigado.

Ele se afastou respirando fundo, virou-se e bateu na porta do diretor e, aguardou ser chamado. Quando entrou a única coisa que conseguia pensar, que conseguia se perguntar é: 'como deve ser, ter uma mãe assim ?'

Notas finais
Espero que tenham gostado. Postarei logo.