Disintegration
8 Ódio
Notas iniciais
Desci apressado do ônibus escolar quando o mesmo parou na frente da minha casa, já era fim de domingo e o céu começava a escurecer. Meu corpo ainda estava todo dolorido, mesmo eu tendo dormido a tarde inteira, pois passei a manhã chorando com a cabeça enterrada no travesseiro e com os meus olhos inchados pelo choro.
Entrei pela porta sem me dar ao luxo de bater antes. Na sala estavam todos presentes, menos Katerrine, mas não dei importância a isso e subi direto para o meu quarto, ignorando as perguntas insistentes de Heitor e respondendo que estava cansado.
Subi os lances de escada até chegar ao meu quarto, acabei por deitar-me na cama de roupa mesmo, pois fiquei receoso de alguém entrar no quarto enquanto eu estivesse dormindo e ver alguma marca. Mais lágrimas ameaçaram cair ao me lembrar das várias marcas e manchas espalhadas pelo meu corpo, mas o cansaço foi mais forte, me levando ao mundo dos sonhos ou, como é o caso, pesadelos.
E o pesadelo que eu tive foi o mesmo que atormenta os meus pensamentos a cada segundo do dia. As palavras, os toques, as dores, tudo! Tudo ainda estava tão real em meus pensamentos que as vezes eu achava que tudo aquilo estava acontecendo naquele exato momento.
Acordei em um pulo no meio da madrugada, minha testa estava ensopada de suor frio, minha respiração acelerada e meus braços e pernas tremiam. Será que eu não vou conseguir ter mais paz? Nem que seja apenas um pouco de paz, ao menos para conseguir dormir uma noite de sono descente.
Me sentei desajeitado na cama e tentei controlar a respiração. O meu peito começou a doer com todos aqueles sentimentos e pensamentos, a sensação de estar sujo, usado... Aquela dor era sem duvidas pior do que a dor carnal, não havia como tomar algum remédio ou até mesmo amputar se fosse preciso, ela estaria lá você querendo ou não.
A tristeza começou a se transformar em algo mais selvagem, algo mais primitivo, ódio, sim, era isso o que eu sentia. Eu sentia ódio de Brendon Willian, o bastardo que ousou me violar, se eu pudesse ele já estaria morto desde a primeira vez que olhei para ele, aquele... aquele... ainda nem inventaram algum xingamento que o definesse por completo, mas anticristo é o que chega mais perto.
Me levantei da cama e fui até o guarda-roupa, arranquei uma das gavetas e de lá e peguei a carteira de cigarro quase vazia, a amassei em minha mão sem hesitarAinda me lembro do dia em que comecei a fumar, e ainda mais do motivo, foi mais ou menos há uns 2 anos. Eu havia visto uns garotos da minha sala fumando atrás da escola, no começo fiquei chocado com aquilo, afinal eu era o “Thomy pateta” de toda a escola, não era para menos. Pensei naquela cena por dias, até que comprei uma carteira para mim. No primeiro cigarro só faltei tossir meus pulmões para fora do peito, mas com o tempo me acostumei a toda a fumaça. Talvez eu nunca tenha realmente aproveitado a sensação que a droga dava, talvez eu só não queria ser mais o Thomy pateta... Mas no fim é isso que eu sou e sempre serei, o Thomy pateta.
Joguei a bola que estava na minha mão em cima do telhado do vizinho, ele nunca ia lá então não teria como ele descobrir que fui eu. Logo voltei a me deitar na cama e me abraçar ao lençol ensopado de suor. Não consegui dormir pelo resto da madrugada e logo o sol se ergueu, iluminando cada canto de cada rua daquela região.
Não tinha mais noção do tempo que se passava, apenas ficava deitado na cama encarando o teto do quarto. A hora de me arrumar se passou como as tantas outras, não mexi sequer um músculo, não tinha motivos para tal. Nunca mais voltarei àquele colégio, se eu puder nunca sairei do quarto.
Não demorou mais de meia hora para que minha mãe adentrasse no quarto exigindo explicações do meu atraso, apenas falei que eu não estava me sentindo bem e que não iria para escola naquele dia. Ela começou a dar petiques, mas apenas me virei na cama mostrando que não me importava com nenhuma palavra que ela falava, ela desistiu e saiu do quarto pisando duro.
Logo Heitor subiu e se sentou na beirada da minha cama perguntando como eu estava, respondi que não me sentia muito bem, não estava com saco pra ficar de papo com Heitor, mesmo que as intenções dele fosse as melhores. Por fim ele falou que tudo bem de eu faltar aquele dia e que eu devia comer alguma coisa na manhã, e terminou revelando que iria almoçar em casa hoje.
E passei a manhã como passei a madrugada, deitado na cama olhando para cima, pensando e sentindo tudo o que ocorrera comigo nos últimos dias, deixando claro para mim mesmo todo o fracasso que eu era. E no final da manhã acabei nem comendo nada.
Quando Heitor chegou à tarde em casa, subiu para ver como eu estava, me reprendeu por não ter comido nada a manhã inteira e logo desceu prometendo que quando a comida estivesse pronta ele me chamaria. Alguns minutos se passaram até que Heitor retornou ao meu quarto com um sorriso de orelha a orelha no rosto.
— O almoço está pronto, pode se arrumar para descer... E o seu amigo está aqui, ele falou que ai almoçar aqui também, você bem que poderia ter avisado que ele viria para prepararmos mais comida, mas tudo bem.
— A... amigo? — Estava surpreso com aquilo, eu não tinha amigos, e com certeza ninguém notaria a minha falta na escola ou em qualquer outro lugar.
— Sim, sim. Ele parece bem preocupado por você ter faltado hoje, é um alto e loiro... Qual é mesmo mo nome dele? Ha, lembrei! Brendon, é isso mesmo, Brendon Willian, ele já está te esperando lá em baixo, não demore.
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