Disintegration
13 Tubo Vermelho?
Notas iniciais
Já havia se passado duas semanas depois de toda aquela confusão com Tabata, e consequentemente o meu beijo com o Heitor. O mais estranho é que não foi estranho, foi como se aquele beijo fosse como um abraço ou algo assim, não conseguia ver aquilo como algo romântico, principalmente vindo de Heitor. Não vou negar que a gente se estranhou no outro dia, mas foi coisa de momento, logo voltamos a nossa rotina, talvez até tenhamos ficado mais unidos...
E quanto ao Gustavo, bem, vamos dizer que a vida dele tomou um novo rumo dentro de casa. Minha mãe obriga-o a fazer todo o trabalho doméstico e o proibiu de sair para qualquer lugar em que ela não estivesse junto. Não preciso nem comentar que isso o destruiu, não de uma forma literária, mas você deve ter entendido.
A minha vida acadêmica tem melhorado nas últimas semanas, minhas notas aumentaram, pouco, mas aumentaram. Estou realmente começando a ficar íntimo do André, mesmo com o jeito tão oposto quanto ao meu é legal ter a companhia dele, e quanto ao Brendon... bem, vamos dizer que estamos indo devagar, talvez devagar demais. Eu ainda sinto raiva dele, ok? Eu sei que eu já desejei inúmeras vezes a morte dele, mas nos últimos tempos eu venho conhecendo uma pessoa totalmente diferente, ele é inteligente, esperto, de certa forma divertido e um pouco, só um pouquinho mesmo de charmoso.
Estaria tudo indo muito bem se ele não me tratasse como se eu fosse de vidro, ou como se eu tivesse alguma doença contagiosa. Sempre fica se contendo comigo, até mesmo em um mísero aperto de mãos ele faz como se fosse arrancar minha mão com qualquer movimento brusco. Isso estava me irritando, muito. Me sentia como alguém indefeso , frágil, e isso para mim era uma das piores sensações que alguém pode sentir.
Finalmente o alarme havia tocado para o intervalo, a aula de química era uma aula a qual eu não fazia a menor questão de que existisse. Não sei para que diabos vou precisar saber de carbonos. Saí passando direto pelas pessoas e grupinhos que se formavam pela extensão dos corredores, fui até o “meu cantinho” que era aonde normalmente eu e André passávamos um tempo juntos na escola quando ele não queria ficar com os outros amigos deles. A maioria dos amigos devem ficar com ciúmes quando tem que dividir um amigo com outros, não vejo o porquê disso, afinal, não podemos viver a vida comendo da mesma fruta, ou sei lá, alguma filosofagem assim.
Não tardou e André chegou por meio dos arbustos. Ele tinha começado a ficar popular pela escola, entrou para o time de futebol e tudo o mais. Ainda me questiono o porquê de todo “popular” da escola agora está querendo se tornar meu amigo.
– Eae cara, tudo de boa?
–Tudo bem, eu acho... e com você?
–Tô beleza, sei lá, tô no tédio, tas ligado?
–Você não tem ideia de como eu tô ligado nisso.
– Ah sei lá, quer fazer alguma coisa hoje à tarde?
–Como o quê, por exemplo?
– Hum... Você podia passar lá em casa passar a tarde, minha mãe vai tá no trabalho e o meu pai teve que viajar a trabalho. Vamos ter a casa só pra gente. Vai ser massa, mano. – dizia com um sorriso sonhador que me fez duvidar do que ele realmente tinha em mente para essa tarde.
– Vou ver com minha mãe quando chegar em casa, não sei se ela vai deixar...
–Se quiser eu posso ir com você até a sua casa e peço pra sua mãe.
– Não precisa, eu me viro lá sozinho... Mas como eu vou saber aonde é a sua casa?
–Relaxa que é fácil, depois eu te explico, beleza?
E assim as conversas foram seguindo até que o alarme tocou e todos voltaram para as suas salas. A ideia de eu ir na casa do André era interessante, nunca tive muitos amigos e da última vez que fui para a casa de algum amigo sem ser para trabalho ou alguma coisa assim, eu tinha 9 anos.
~-|-~
E lá estava eu no ponto de encontro marcado por André para a gente se encontrar e ir até a casa dele juntos. Não sei porquê, mas estou bom [com] um tornado de borboletas carnívoras me devorando de dentro para fora. Eu sei que é só uma tarde entre amigos, não vai ter nada demais e mesmo assim estou quase tremendo de tão ansioso e nervoso.
Não demorou para André chegar com todo aquele estilo de jovem surfista. Ainda me pergunto como ele foi ficar amigo de alguém feito eu, temos praticamente nada haver [a ver] , mas afinal qual seria a graça de ser amigo de si mesmo? Gostar das mesmas coisas, pensar as mesmas coisas, fazer sempre as mesmas coisas... Isso sem duvidas seria algo bem tedioso.
Não andamos muito para chegar na casa dele, ficava só a alguns quarteirões do ponto de encontro, mas sem duvidas eu me perderia se tentasse ir sozinho. A casa dele não era grande, mas nem por isso era menos confortável, o que faltava em tamanho havia em decoração, vários jarros, quadros e arranjos de flores artificiais se espalhavam pela casa. A maioria dos móveis eram feitos de madeira ou de tons marrons escuros, dando uma inexplicável sensação de conforto e aconchego.
– Pode entrar, não tem que ficar todo acanhado não. Vem, vou-te mostrar meu quarto. – Ele me guiou até um dos poucos corredores da casa parando em frente a uma porta com o nome André feito por papel azul. – Por que tá me encarando com essa cara? Eu tenho isso na porta desde que eu era guri, o cacete que eu vou tirar.
Ele falava com tanta firmeza que nem parecia que ele falava de um pedaço bobo de papel, que só para constar é muito infantil, principalmente para alguém como André. Enfim, o quarto dele era bem parecido de como eu já esperava. Era meio bagunçado e com posters de ondas e surfistas pelas paredes, inclusive algumas medalhas de campeão de corridas. Havia uma prancha pendurada na parede, era branca com detalhes azuis, tinha a aparência desgastada porém bem conservada. O que me intrigou já que não haviam praias por perto da cidade e as poucas que tinham, não faziam muitas ondas.
– Por que a prancha? – Perguntei curioso enquanto a observava mais de perto. Não sei porque ela me chamou tanta atenção, acho que é porque nunca havia visto uma antes.
– Ah... Isso. – falou com a voz carregada de sentimento, enquanto se aproximava de mim.—Eu acho que nunca te disse, mas eu surfava quando era guri. Cara, era muito doido, eu acordava de madrugada e ficava surfando até de noite, tipo, não que eu não saísse pra comer e descansar e pá, mas era muito irado. Só que teve um dia que eu bebi umas cachaça triste com uns mano e quando fui surfar perdi o equilíbrio perto das pedras e caí por cima do braço, aí teve toda uma treta com os músculos, e os nervos dos músculos e não consigo mais mexer o braço como antes, aí como não dava pra surfar, comecei a correr. Pra mim o que importa é ter algo que importe.
– Nossa, isso foi profundo... eu acho...
–Ah, sei lá, acho que vi isso em algum lugar – E começou a rir, logo indo se jogar na cama. Eu achei a história dele triste, o surf parecia ser algo que ele realmente valorizava, mas se nem ele se dói pelo passado que é dele, não tenho motivos para fazer isso também. – Então... quer comer alguma coisa? Tem pipoca de micro-ondas e miojo.
– Precisa não, já comi antes de sair de casa, mas valeu. – Estava me sentindo meio deslocado ali, não sabia o que fazer. Deveria sentar? Devia ter aceitado alguma coisa? Meu deus, o que eu estou fazendo aqui?
Eu sei que parecia ser só paranóia minha, mas era a verdade, eu realmente estava prestes a explodir ali. Eu sei que o André é um cara legal e meu amigo, e era exatamente por isso que eu não podia estragar minha amizade com ele. Então sim, eu estava me cagando até por quantas vezes eu respiro.
– Ah, ok, mas vou fazer uma pipoca pra mim, tô morto de fome aqui , cara. – E então se retirou do quarto me deixando sozinho no cômodo. Comecei a reparar nos detalhes, nas fotografias de quando ele era pequeno, das fotos dele com prováveis antigos amigos, ele se beijando com uma menina em uma das fotos enquanto ambos sorriam, os poucos livros espalhados pelo quarto e que eu nunca tinha ouvido falar. Foi nesse momento que eu me toquei que mesmo sendo amigo do André eu não conhecia nada do passado dele, só conhecia o superficial.
Não tardou e ele voltar para o quarto com os saco de pipoca na mão. Me ofereceu mais uma vez e eu recusei, eu realmente não estava com fome. Ele se jogou novamente na cama e começou a puxar assuntos, quando eu encontrava alguma brecha eu perguntava sobre o passado dele e ele sequer percebia e acabava entrando em outro assunto. E assim a tarde foi passando, com muita conversa, pipoca e revelações, ao menos para mim.
– Eita que sede do demônio, essas pipocas têm muito sal. Vou beber água. Já que o pc tá ligado coloca aí no redtube pra descontrair. – Nem deu tempo de eu falar nada e ele já havia saído do quarto. Mas o que diabos era redtube? Cubo vermelho?
Fui no google e digitei o nome estrangeiro, e cliquei na primeira opção sem nem mesmo ler a descrição. Meu queijo bateu no inferno e voltou quando as imagens dos vídeos começaram a carregar. Aquilo era um site pornô! E tinha pornô! Explicito! Logo André chegou e se sentou na cadeira ao meu lado.
– Opa, tem vídeos novos. Coloca nesse aqui, parece ser legal. – Não consegui clicar no vídeo, ficava olhando da tela do computador para o rosto de André, eu estava incrédulo. – O que é? Parece que você nunca viu um pornô na vida. – Ele deu uma gargalhada e pegou o mouse da minha mão clicando no vídeo.
Depois dos cinco minutos de vídeo, meus olhos já estavam vidrados nele .
– Co..como ela consegue fazer isso com a perna? – Perguntei sem tirar os olhos da tela.
–Só ela, Deus e esse cara sabem. Nunca tinha visto isso... Que foda!
Senti o meu corpo dar certas reações, o que me fez ficar vermelho de vergonha, se Andre me visse assim... não queria nem saber... Apesar, de que ele não estava muito diferente de mim. Não consegui evitar um sorriso, de certa forma aquilo era um laço de amizade, um bem pervertido pelo visto, mas mesmo assim, aquilo não deixava de ser um momento importante da nossa amizade, ao menos para mim, né?
E assim a as horas se passaram até que o céu escureceu e eu tive que voltar para casa. Nunca fiquei tão feliz assim na minha vida, mas não era uma felicidade que contagiasse, que me fizesse sair por aí sorrindo e gritando aos quatro ventos, era uma felicidade silenciosa, sorrateira e acima aconchegante. Uma felicidade de saber que eu não precisava de tudo mais ficar sozinho.
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