Disintegration
2 Pesadelo
Notas iniciais
Fui acordado do meu sono por alguém me balançando não muito paciente com a minha relutância em acorda.
Finalmente abri os olhos, e a claridade do quarto me cegou por alguns segundos. Depois de pisca algumas vezes comecei a me adaptar a claridade, consegui distingui um vulto de pele morena, trajando uma camisa branca social abotoada ate o último botão e calça social.
Forcei um pouco mais a visão e foquei em Heitor com uma expressão impaciente no rosto.
—Bom dia Tom, como você ta se sentindo? — Perguntou ele com uma voz monotoma. Não havia preocupação, muito menos curiosidade ou afeto, apenas monotonia .
— Bem, apenas um pouco dolorido... E cego também. Apague essa luz — Tampei os olhos com as mãos, mesmo adaptado com a claridade, toda aquela luz esbranquiçada começava a me incomodar. Os meus óculos também ajudavam nisso, tenho a visão um pouco sensível a claridade.
Ele soltou um curto riso pelo nariz, e voltou o seu olhar para o relógio de pulso — Olha, desculpa mas não posso ficar mais, mas ninguém vai fazer a minha papelada dês ó porque acordou de bom humor. — Resmungou enquanto me dava um beijo na testa.
—Já falei que você trabalha muito?
—Já, e eu já respondi que as contas não vão se pagar sozinhas. — Acabei bufando. Ele sempre se mata de trabalhar, e no final todo o salário dele vai para as contas da casa que deveria ser nossa mãe à pagar.
—A noite eu volto para dormi aqui. E trago pizza — Ele sussurrou a ultima frase e me deu uma piscadela. Acabei por rir, ele era o único que me fazia rir com besteiras iguais a essa.
— Mas você sabe que não pode trazer pizza para cá .
—Então vamos esperar que ninguém descubra.
Ele me deu um sorriso e saiu do quarto quase correndo, me deixando sozinho no mesmo. Sinceramente, acho que Heitor é o meu irmão favorito, talvez porque ele seja o único a tentar se importa comigo...
~
—Então... Eles te espancaram até você perde a consciência por nada? — Perguntou a Dra. Beatriz me lançando um olhar desconfiado.
—Pela décima vez, É. Eu não fiz absolutamente nada. — já estava me irritando com aquela médica, se existe uma coisa que eu odeio são pessoas que ficam repetindo coisas como se eu fosse burro demais para entender de primeira, e pessoas que não acreditam em mim. E ela estava conseguindo ser as duas coisas.
—Olha que saber? Esses caras me batem desde do ano passado, e que mesmo saber o por que? Pelo fato de eu morar em um bairro de classe baixa com a minha mãe e meus 4 irmãos que nem são por parte de pai, e por eu frequentar uma das melhores escolas do estado, que o filho da puta do meu pai rico paga, e que eu só o vi uma única vez na vida apenas para descobri que ele também me rejeita e... — parei para retomar o fôlego porque falei tudo de uma única fez — E é por isso que eles me batem todo maldito dia, porque ninguém se importa e se alguém se importa esta demonstrando isso muito mal. Eles são como Nazistas personalizados de carro esporte e Iphone. Agora pode para de encher o caralho do meu saco agora?
Ela arregalou os olhos, parecia surpresa e chocada ao mesmo tempo com o meu pequeno desabafo, mas que saber? Que se foda sa vadia, ele enche meu saco ate eu fica vermelho de raiva. E quando eu fico com raiva não paro de falar ou pensar, e começo a chingar a puta que pariu e.... Calma Thomy. Calma...
Ela me fez mais algumas perguntas, e disse que eu ficaria essa noite para observação e saiu me deixando sozinho no quarto ainda com pensamentos nada gentis a seu respeito.
Passei algumas horas tediosas no meu quarto até a enfermeira entrar no quarto com uma bandeja de comida hospitalar, mal vi a comida e minha barriga começou a roncar, só então lembrei que não comia nada dês de ontem.
A enfermeira deu um curto ‘’bom dia’’e serviu a refeição já saindo em seguida. A comida era sem gosto, mas estava com tanta fome que devorei tudo em apenas alguns minutos.
Estava de novo sozinho no quarto. Meu corpo ainda doía em algumas partes quando eu me movia bruscamente, e a minha mente cansada. Cansaço, é, essa era a palavra que definia a minha vida atualmente. Minha mente estava cansada, meu corpo estava cansado de ser assediado esse jeito, minha rotina estava cansada de ser tão monotoma, a minha solidão já estava cansada da minha timidez, meu orgulho estava cansado de eu ser tão fraco, eu estava cansado de estar tão casado da minha própria vida.
Talvez se eu não fosse tão antissocial eu faria alguns amigos, teria uma namorada, iria para festas de pessoas normais, não seria tão violentado na escola, não teria tantos problemas na família. Mas acho que isso iria contra mim mesmo, eu gosto de estar sozinho, gosto de mergulha nos meus pensamentos sem que ninguém soube-se dos mundos que eu crio em minha mente, sem ninguém que me machuca-se sem que eu quisesse. E até porque eu me acostumei com a solidão, afinal ela não é de todo ruim. Para mim ela é como um soldado, que enquanto te perfura com a espada usa o escudo para te proteger do que vem de fora. E eu sinceramente prefiro a espada...
E do nada minha mente se transformou nesse conflito. Por que eu sempre fui tão conformado com tudo? Desde pequeno eu sempre ficava com a pior das opções, sempre me sobrava os brinquedos quebrado do Gus, e a maioria das minhas roupas eram as que não cabiam mais nos mais velhos. E eu sempre me conformei com isso, nunca ‘’chorei’’ por nada; sempre que eu queria alguma coisa pedia uma única vez e quando a resposta era não simplesmente esquecia a minha vontade.
Quando entrei no colégio Verdadeira Vera Cruz tive exatos uma semana para a minha vida se transforma nesse tormento. Quando Brendon e seus capangas me perceberam nos corredores da escola, tudo começou com piadinhas sem graça e perguntas idiotas para me envergonha, mas depois que descobriram que eu não era da alta sociedade ou algo assim e morava em um bairro pobre as agressões físicas começaram.
Acho que aquilo foi a única coisa que me fez choramingar e implorar para sair da escola, mas depois de toda a confusão que me levou ate ali eu sabia que a minha chance de sair daquele inferno era nula.
Falei com professores, coordenadores e até mesmo o diretor, Sr. Victor, que apenas falou que lamentavam muito e tomariam providencias, as quais nunca vieram...
Ouvi passos e abri os olhos rapidamente, havia caído em um ‘’transe’’, era quando eu ficava muito tempo viajando em pensamentos (o que eram bem frequentes) .
Alguém bateu na porta e mandei que entra-se. Um homem de 50 e poucos anos entrou no quarto; tinha cabelos pretos penteados para trás, olhos castanhos profundos e amistosos , pele bronzeada, e trajava um terno negro impecavelmente liso, sem um único amassado. Victor Bunforge, diretor da Verdadeira Vera Cruz.
Ele começou a vim em minha direção com um sorriso de quem quer fazer amizade, nada que eu já não tenha visto as outras 11 vezes em que ele veio me pedir as suas ‘’mais sinceras desculpas ‘’ pelo ‘’inconveniente ’’ que ocorrera dentro da sua escola.
—Hey garotão! Como está se sentindo?
—Acho que melhor impossível.— Falei com um tom de ironia, mesmo sem jeito já que ironia não é algo muito comum nos meus diálogos
Ele deu um sorriso torto e sem graça e começou a olhar os detalhes do quarto enquanto mexia no seu relógio de pulso, mostrando o quanto nervoso estava. Eu sempre soube que ele tinha medo que a minha família processasse a escola ou que alguma informação sobre os acidentes vazasse para a mídia e mancha-se o nome da Verdadeira Vera Cruz... Pensando melhor por que a gente nunca fez algo do tipo?
Ele tirou alguma coisa do bolso e estendeu para mim, um porta óculos azul. — Bem isso é o mínimo que poderíamos fazer.
Dentro havia um óculos idêntico ao antigo que me pertencia (mas sem as emendas improvisadas de cola e fita adesiva). O coloquei e a minha vista começou a ganhar foco nas coisas, deixando de lado o borrão de antes, as paredes brancas do quarto pareciam ainda mais brancas, a vista da janela dava para a cidade mostrando os prédios e casas que por dizer era uma vista bela, e havia uma mesinha de centro com um jarro de flores amarelas no canto da parede.
— Muito melhor... — Acabei murmurando sem notar. Victor soltou uma risada um pouco forçada fazendo que eu volta-se o meu olhar para ele novamente.— O... obrigado.
— Não precisa agradecer, como eu disse é o mínimo que nós podemos fazer.
Ele continuou no quarto por mais alguns minutos conversando sobre noticias populares e se eu estava gostando da escola esse ano, mesmo que eu só tenha ido um dia. Como o esperado ele praticamente não tocou no ‘’incidente’’ que me levou até aquela cama, ele sabia que eu não faria nada contra a escola pois sou de menor, e se houve-se alguma queixa por parte da minha mãe ele provavelmente a subornaria, como das outras três vezes em que ela ameaçou dar queixa. Por fim Ele disse que tinha assuntos para resolver e se despediu com um aperto de mãos.
O dia passou rápido e logo deixava o azul claro para dar o lugar ao alaranjado da tarde. Pessoas corriam para um lado e para o outro para não perde o programa de TV preferido motoristas impacientes buzinavam em meio dos engarrafamentos matinais.
Uma enfermeira de pele morena a qual eu não sabia o nome entrou no quarto alegando que me daria uns comprimidos que me deixariam sonolentos, apenas assenti e os tomei. Eu não tenho essa frescura de querer saber para que serve os comprimidos, se eles estavam me dando era para eu tomar.
O relógio marcava 8:30 e nada de Heitor... Ele larga de 7:00 em ponto, mas ele sai praticamente todos os dias de 8:00 pelos trabalhos extras que ele arruma por lá. É! Deve ser por isso a demora, ele deve estar fazendo hora extra...
Depois de 10 minutos esperando, o sedativo das capsulas começaram a fazer efeito e meus olhos começaram a pesar, e eu precisava de certo esforço para que eu os mantive-se abertos, e aquela cama quentinha e travesseiro macio não ajudava em absolutamente nada.
Já estava começando a me preocupar com Heitor. Aonde diabos ele estava? Será que ele Foi assaltado? Assassinado? Minha mente paranoica começou a me dar opções bem criativas de coisas que poderiam estar acontecendo com ele nesse momento. Por fim achei melhor dormi, poderia muito bem vê o que aconteceu com ele amanhã.
Me aconcheguei mais na cama macia e finalmente me deixei levar pelo sono.
...
Eu estava sentado em uma espécie de palco redondo de pedra, estava encolhido e abraçando as minhas pernas. Só então percebi as correntes nos meus pulsos, tornozelos e garganta, cada corrente descia por um buraco diferente no ’’palco’’ e elas pareciam ser puxadas para que eu não consegui-se me mexer. Apenas o circulo rochoso em que eu estava tinha iluminação, o resto era puro silencio e escuridão.
Uma explosão de luz me cegou por alguns segundos até que revelasse a minha volta, havia uma espécie de arena como o Coliseu só que todo fechado. Tinha muros de cerca de 6 metros mais ou menos, também havia varias fileiras de pedras onde centenas de pessoas estavam sentadas com uma expressão indiferente no rosto me encarando. Logo comecei a reconhecer alguns rostos e... Espera! Eram todos da minha escola. Todos os alunos do Verdadeira Vera Cruz estavam ali, todos vestidos com túnicas brancas.
Em um ponto especifico, as cadeiras davam lugar a uma espécie de varanda privilegiada, ela vinha um pouco mais a frente da arena e tinha um trono dourado com estofado vermelho, como aqueles tronos dos reis em filmes medievais. Nele se encontrava um louro de olhos verdes e toga negra. Brendon.
—Deixem-no como ele realmente é. — A voz rouca Do William ecoou por todo coliseu mesmo que os seus lábios tenham se mexido em palavras mudas.
Após poucos segundos uma chuva de legumes apodrecidos, pedras, garrafas de vidro, alguns animais mortos e... acho que aquilo que bateu na minha cabeça era uma garrafa de Dolly guaraná, foram lançados em mim .
Algumas garrafas se quebravam perto de mim lançando cacos de vidro e m meu corpo, coisas podres me acertavam em cheio fazendo com que a sensação e o cheiro me fizessem querer vomitar, as pedras batiam em meu rosto fazendo inúmeros cortes e machucados, e algumas partes do meu corpo parecia melada de sangue, mas não o meu...
Havia pilhas de coisas podres a minha volta, o cheiro era insuportável, senti ânsia de vomito mas nada saia, era como se minha garganta estivesse fechada e o que quisesse sair estava preso ali.
A multidão de adolescentes ora ria, ora vaiava. Meus olhos já estavam marejados derramando algumas lagrimas mesmo contra a minha vontade. Podia aguentar uma quantia assustadora de dor para alguém de aparência tão frágil quanto a minha , (parece que desde de pequeno eu tinha uma placa na minha testa escrita ‘’SACO DE PANCADA PUBLICO. APROVEITE’’) mas quando se tratava de humilhação... Eu simplesmente não sabia o que fazer. Chorava? Corria? Me escondia? Pra mim uma pessoa humilhar outra é o ato de mais covardia que alguém poderia cometer... Era desumano.
— Você não vê Thomy? Mós só queremos lhe ajudar. Te limpar da podridão que você é. Veja Thomy — Urrou levantando a voz bruscamente — Veja que somos nós que estamos lhe purificando.
Nesse momento Patrick entrou por uma porta que não estava ali antes, com uma mangueira de bombeiro em mãos. Ele a ligou e a torrente de água atingiu-me no peito tirando todo o ar dos mesmos, a água estava extremamente gelada, mais parecia milhares de alfinetes de gelo se estraçalhando em meu peito. Comecei a engoli água, muito água, não conseguia puxar mais ar para os pulmões e meu peito parecia estar em carne viva quando o super jato de água cessou.
Tosi bastante água e recuperei o fôlego. Olhei a multidão a me encarar e abaixei o olhar para o chão, não conseguia encarar todas aquelas pessoas, os seus olhares pareciam pesar em meus ombros.
Olhei para a varanda com um trono vazio, e quando voltei meu olhar para baixo, me assustei com o par de olhos verdes me encarando tão pertos assim dos meus.Conseguia sentir a sua respiração, e os seus olhos me analisando, como se estudasse a minha mente ou as minhas lembranças, não sei, isso é só um sonho, eles nunca fazem sentido pra mim, mas eu nunca gosto deles...
— Como você consegue Thomy? Como consegue olhar pra essa sua cara de cachorrinho abandonado todo santo dia? Sempre pelos cantos esperando que alguém sinta pena de você, tão patético, você me da nojo. Como você consegue Thomy? Como consegue? Como? — Ele gritava comigo enquanto eu tentava me encolher ao maximo que as correntes me permitiram, até que algo me fez tremer não de frio pela água mas sim de medo, uma voz rouca e fraca, uma voz já esquecida na minha consciência, a voz que para mim, seria a voz do demônio mais banal do inferno.— COMO VOCÊ CONSEGUE THOMY? — Urrou tão alto que as paredes estremeceram e as luzes se apagaram.
Acordei assustado e ofegante, meu corpo ensopado de suor frio, minhas mãos e pernas tremendo. Aquela voz... Não podia ser aquela voz.... Aquela pessoa... Droga n ao pense nele Thomy, não pense por favor não pense... Só não pense.
Ainda tremia e não consegui pregar os olhos até muitas horas depois, só depois que a luz do sol invadiu o guardo e me vi seguro daqueles pensamentos.
Fale com o autor