Disintegration
12 Irmãos
Notas iniciais
Em choque era a melhor forma de descrever como eu estava. Eu permanecia lá, atrás da porta, ouvindo cada som que saía do quarto, o ranger da cama, os gemidos abafados e as palavras sacanas, e nem assim eu conseguia acreditar no que escutava. Como Gustavo era capaz de fazer aquilo? E ainda mais com Heitor lá em baixo! Que grande filho da... da minha mãe!
Me arrastei de volta para o banheiro e tranquei a porta. Eu realmente precisava de um banho para esfriar a cabeça. Já ia tirando minha roupa novamente quando me lembrei que ainda não havia pego uma toalha e me xinguei mentalmente por ter tirado a roupa. Depois de ter subido ao meu quarto e pego uma toalha, fui tomar meu banho, o que ajudou a relaxar um pouco a tensão do momento.
Era imperdoável o que Gustavo estava fazendo! Que filho da puta. Mas xingá-lo não adiantaria de nada, então decidi fazer a coisa mais sensata possível, falar com o Heitor. Mas só de pensar nisso, meu coração já apertava, era clara a felicidade de Heitor e mesmo não sendo eu a traí-lo, me batia uma angústia de pensar em acabar com a felicidade dele assim. E pior, de uma forma tão humilhante, e na presença da família, sendo traído pela própria família.
Naquele momento, só conseguia sentir raiva de Gustavo, aquele idiota. Saí do banheiro com a toalha enrolada na cintura e subi para o meu quarto, coloquei uma roupa confortável e me deitei na cama. Estava pensando em ficar no meu quarto, isolado da traição e do desastre emocional que estava prestes a ocorrer lá embaixo, mas eu não podia ser esse covarde, ao menos não com o Heitor, ele merecia saber a verdade mesmo que aquilo o destruísse. Me pus de pé e comecei a descer os lances de escada até chegar na sala. Assim que a vi, me deu uma repulsa inimaginável. A Tabata estava sentada no colo de Heitor enquanto o beijava e do outro lado do sofá, Gustavo os olhava em silêncio. Comecei a sentir raiva daqueles dois, raiva não só do ato impuro deles, mas também da existência e covardia que eles conseguiam ter. Finalmente, os dois pararam de se beijar e Heitor olhou para mim preocupado.
— Você tá legal,Tom? Tá com o rosto vermelho. Se não estiver se sentindo bem, eu posso te levar pro hospital.
—Tudo bem, estou ótimo, talvez não melhor que certas pessoas aqui. —Ele me olhou confuso, mas não disse mais nada, voltando a sua atenção para o projeto defeituoso de Sasha Grey sentado no seu colo.
Me sentei ao lado da Katerrine, que mexia no celular distraída demais para perceber a minha áurea assassina. Todos continuaram a conversar e brincar normalmente, apenas eu e Gustavo estávamos sérios ali, ele olhava constantemente para o casal que trocava carícias de amor. Ter que ficar vendo aquelas cenas me deu uma repulsa indescritível, eu tinha que fazer alguma coisa! Não podia deixar que aquilo passasse em branco.
— Gustavo — Primeiro chamei a atenção do ruivo que me olhou sem interesse algum — Achei que você ia ficar lá em cima depois de conversar sobre aquela sua amiga com a Tabata.
Fiz questão de citar a amiga, deixando clara a minha intenção de provocá-lo. Consegui perceber que ele ficou meio desconcertado, mas tentou esconder a verdade com a ignorância que era a marca registrada da sua personalidade.
— Não é da sua conta aonde eu fico ou não, então não enche. — Mesmo tentando falar com firmeza, consegui perceber o nervosismo.
— E por acaso é da conta de Heitor? Ou da Tabata? Quem sabe daquela amiguinha que vocês têm em comum? — Minha voz saiu com tanta raiva que Gustavo ficou de olhos arregalados.
— Fala isso baix... — tentou-me repreender o ruivo, mas foi tarde demais.
—Vocês falaram com a gente? — perguntou Heitor após dar um selinho na namorada.
—Não sei, nós falamos com eles Gustavo? — Ele engoliu em seco sem saber o que fazer. Meu olhar penetrava cada parte dele, desafiando-o e lhe pressionando.
— Ah... Claro que falamos, a gente só tava comentando como vocês fazem um casal bonito e tals... Há quanto tempo vocês começaram a namorar mesmo?
— Acho que a gente já contou isso, faz acho que uns 3 meses e... —Heitor foi interrompido quando o ruivo se levantou e o cortou:
— Ah, legal, termina de contar aí para a mãe, preciso falar com o Thomy. — disse me direcionando o olhar, porém continuei no mesmo lugar. Ele ficou desesperado. —Agora!
Me levantei e o segui até a cozinha. Ele estava agitado, andava de um lado para o outro apressado, as mãos sempre fazendo alguma coisa, começou a suar. Parece que a culpa finalmente começou a corroer o interior dele. Eu sei que até parece que estou gostando de ver isso, bem, de certa forma estou mesmo, mas quem me dera fosse só isso...
— Você não pode contar Thomy. Eles não podem saber do que aconteceu. Meu Deus, se eles descobrissem a mãe me matava!
— Contar o quê? — fiz uma voz inocente que o fez hesitar.
— Espera... você não viu nada do que aconteceu no meu... quarto? — Sua expressão facial se acalmou quase instantâneamente.
— Mas é claro que eu vi seu retardado. Você é um imbecil mesmo, Gustavo! Como você pôde fazer isso? Aqui, com todo mundo na sala? Como você conseguiu fazer isso com Heitor, seu estúpido! — Eu estava muito irritado com meu meio irmão, mas mesmo assim eu entendia a gravidade da situação o que me fez ficar sussurrando para ele. — Mas não se preocupe, eu não vou contar.
— Não vai? — Ele nesse momento deu um sorriso que logo foi desfeito.
— Não, porque é você quem vai. E é bom você contar para ele e logo, ainda hoje para ser mais exato. Afinal você tem colhões, não é? — Não aguentei nem mais olhar para a cara daquela discórdia ambulante e voltei para a sala, pisando duro.
Minha cabeça já tinha coisas demais, escola, Brendon, família, Brendon, coisas sem sentindo, Brendon... e agora me vinha mais essa. Eu daria tudo para não ter visto aquilo, mas de certa forma foi bom eu ter visto aquela cena, afinal, o que não podia era aquilo ter sido passado em branco ou que continuasse acontecendo sem que ninguém soubesse.
Gustavo entrou na sala de cabeça baixa e me encarou choroso. Aquilo não combinava com ele, um homem cheio de músculos e cicatrizes com os olhos transbordando de lágrimas. Não vou negar, senti pena dele, mas isso teria que ter um fim. Ele teria que contar a verdade ou eu mesmo contaria. Heitor saberia dessa verdade por ele ou por mim.
— Heitor, tem como você me acompanhar aqui rapidão, mano? Preciso falar uma coisa aqui contigo. — A voz dele estava meia trêmula, o que não passou despercebido por Heitor que o seguiu para a cozinha.
Quando os dois saíram da sala, Tabata puxou assunto com a Katerrine que estava do meu lado. Em um momento ela olhou para mim e sorriu, mas foi tão natural que eu nem percebi quando disse apenas, batendo os lábios, Puta e por um instante achei que os olhos dela iriam pular para fora das órbitas. Estiquei a cabeça em direção à cozinha e vi Gustavo soluçando em meio a um abraço do Heitor. Ele aceitou melhor do que eu esperava.
Depois de algum tempo, ambos voltaram para a sala e Heitor se sentou ao lado da morena e beijou a sua bochecha. Minha boca parecia que pesava chumbo pois ela parecia pesada demais para ficar fechada. Olhei para Gustavo que estava encolhido no sofá ainda enxugando o rosto.
— O que foi Gustavo? Não é normal te ver chorando. — argumentou Kat enquanto desviava a sua atenção do celular.
— Ah, tá tudo bem, vocês podem não acreditar, mas ele está chorando por eu finalmente ter arrumado alguém que eu ame e que me ame de volta. Por trás dessa carranca tem algum sentimental. — Ele puxou Gustavo para um abraço, o qual não foi correspondido.
Essa foi a gota d’água! Me levantei em um salto e me posicionei na frente de Heitor. Eu queria falar aquilo ali, na frente dela, cara a cara, mas eu não faria isso com meu irmão, não o humilharia assim na frente da própria família. Traição é algo repugnante, algo que só merece desprezo.
— Heitor, preciso falar com você, em particular. — Falei firme vendo Gustavo balançar a cabeça negativamente e me pedindo sem emitir som, para não fazer aquilo. A única coisa que eu pude foi responder-lhe — Seu covarde.
Heitor me seguiu até o segundo andar para que tivéssemos mais privacidade. Minhas mãos estavam suadas e tremendo levemente, parecia que eu havia comido um saco de gelo tão grande… era o frio em minha barriga, eu estava pensando em desistir daquilo, afinal Heitor merecia ser feliz, nem que fosse por algum tempo... Mas que merda eu tô pensando?
— Heitor... eu preciso de contar uma coisa... é que...
— O que foi Tom? Fala logo, você sempre acaba enrolando tanto assim e as às vezes não é nada e...
— A Tabata te traiu. É isso, ela te traiu com o Gustavo quando eu fui tomar banho, eu acabei vendo e eu não sabia o que fazer aí mandei o Gustavo te contar isso só que ele não contou, não sei porque ele não contou, mas deveria ter contado e agora eu tô aqui te contando porque essa é a verdade. Ele não está chorando de felicidade e sim de vergonha. — Soltei tudo de uma vez até ficar sem folego, Heitor me encarava perplexo e imóvel. Mas só se passaram alguns segundos até que o som da tapa ecoou pelo corredor.
Me desequilibrei e cambaleei até a parede, meu rosto queimava com a recente tapa que eu havia levado no rosto e meus olhos estavam arregalados. Ele havia me batido. Heitor, aquele que sempre havia me tratado com carinho tinha acabado de me bater, mas por incrível que pareça eu não conseguia sentir raiva dele, nem sequer remorso, eu só conseguia sentir pena. Afinal, no lugar dele, eu estaria da mesma forma.
— Heitor... — Nem sequer terminei de falar e ele gritou autoritário:
— Vá para o seu quarto agora, Thomy, e só saia amanhã!
— Mas Heitor...
— Agora! — berrou de novo. Ele bufava e tinha o rosto vermelho, os olhos dele estavam quase lacrimejando, mas eu não sabia distinguir se eram de raiva ou tristeza. Abaixei minha cabeça e fui em direção ao meu quarto em silêncio. Eu ainda estava preocupado com Heitor, mas não havia mais nada que eu pudesse fazer.
~. : .~
Senti meu coração latejar ao ouvir aquilo do Tom... achei que ele ficaria feliz por mim, por finalmente ter conseguido levar a Tabata para conhecer a nossa família, para conhecer principalmente a ele, e do nada, ele me vem com essa mentira de que o Gustavo e a Tabi... Que idiota, não acredito que o Tom seria capaz de algo tão absurdo assim só para chamar a atenção. Eu sei que às vezes eu o mimo demais, mas nunca pensei que ele fosse chegar a esse ponto.
Desci a escada massageando a minha mão que ardia por causa da força que usei na tapa, talvez eu tenha exagerado um pouco. Fui para a sala tentando controlar aquele turbilhão de sentimentos dentro de mim. Eu sei que eu nem devia ter batido nele, mas não consegui me controlar, agora que eu finalmente arrumava alguém só para mim, ele me vem com uma brincadeira dessas. Que idiota!
Enxuguei meu rosto que estava úmido pelas lagrimas e desci a escada para ir até a sala. Todos me olhavam pasmos, isso me deixou bastante desconfortável. Tentei colocar um sorriso na cara, mas parecia que nada ia tirar a minha carranca depois do que aconteceu com o Tom.
— O que houve, querido? — perguntou Tabata ao meu lado com um olhar preocupado. Está vendo? Como ela não poderia ser a mulher ideal para mim?
— Está tudo bem, só foi uma mentira idiota que o meu irmão contou. Não achei que ele fosse tão mimado assim.
— Então está tudo bem, se só foi uma mentira, então esqueça isso logo e vamos aproveitar o resto da noite. — sussurrou ela ao meu ouvido com as mãos alisando meus cabelos, como se tivesse medo que do nada eu fosse explodir.
—É mano, relaxa, só foi uma mentira do Tom, nem sei de onde ele tirou essa ideia maluca de eu ter um caso com a sua namorada. Já pensou? Ele deve ter levado alguma porrada na cabeça e ficou meio biruta. — falou Gustavo enquanto relaxava os músculos e se esparramava na cadeira.
E em um estralar de dedos, minha raiva sumiu, olhei para Gustavo na cadeira e olhei para a mulher ao meu lado. Não poderia ser!
— Gustavo, como diabos você sabe o que o Thomy me contou? Você nem estava lá para ter ouvido. — Eu juro que era como se eu escutasse o coração do meu irmão acelerar, seus músculos voltaram a ficar rígidos de novo e ele começou a olhar para os cantos. — Me responde, Gustavo, como você sabe?
— Eu... er... eu passei na cozinha para beber água e acabei ouvindo o que ele falava pô, relaxa. — Senti meus ombros perderem metade do peso. Como eu fui desconfiar disso? Meu Deus, eu devo estar trabalhando muito e preciso dormir mais, só pode. E essa sensação de alívio se quebrou quando a voz de Katerrine se fez presente.
— Você não foi não, ficaste aí quase chorando para a Tabata. Só não sei o porquê de tanto choro. — Se de uma coisa eu tinha certeza sobre essa minha meia irmã, é que ela adora ver o circo pegar fogo. E falando em fogo, meu olhar voltou a encarar as orbes azuis do ruivo, eu me aproximava aos poucos deles. Tabata se agarrou ao meu braço falando coisas que eu sequer ouvia.
Aquilo não poderia estar acontecendo, não é? Era impossível. Não, tinha que haver alguma explicação, não havia sequer a possibilidade daquilo estar acontecendo comigo, certo? Ou será que é só a minha vida de merda me pregando mais uma peça?
—Me responde merda, como você sabe o que o Tom falou para mim?
— Calma amor, foi só uma brincadeira, ele nã... — Nem deixei ela terminar a frase e a joguei no sofá.
— Ele... ele... ele me contou que ia tirar uma com a sua cara quando ele me chamou antes, foi tudo uma brincadeira. — Ele soltou um riso forçado, mas que não afetou em nada na péssima mentira dele.
— Foi você quem o chamou. Só vou dar mais uma chance, Gustavo, como diabos você sabe disso? — Já havia chegado ao cúmulo da ira. Estava a ponto de entrar em uma briga com ele, mesmo sabendo que eu ia perder, mas não importa, não se eu conseguir acertar ao menos um murro naquela cara de bebê chorão.
Ele do nada estufou o peito e adquiriu uma postura mais firme, como se quisesse me intimidar. Aquilo poderia até funcionar em nossas outras brigas, mas nessa não. Já estava pronto para dar o primeiro murro quando o grito da minha mãe cortou o silencio da sala.
— Que porra tá acontecendo aqui? Se forem sair nos tapas, vão para rua, não quero ter que limpar sangue de nenhum dos dois do chão ou vendo vocês quebrarem meus móveis. Vamos lá, podem começar a abaixar o fogo de vocês e me contem que bosta tá acontecendo aqui na minha casa.
Todos na sala pareceram se acalmar, eu não queria falar aquilo em voz alta, mas não daria nem a chance daquele palito de fósforo drogado tentar se explicar.
— Eu acho que o Gustavo trepou com a Tabata, aqui, hoje... — A vergonha impregnava a minha alma, nunca me senti tão humilhado na minha vida como agora. Olhei para a minha mão e só consegui pensar no Thomy, ele ao menos tentou me avisar, e tudo o que eu fiz foi bater nele e o achar um idiota mimado, que porra Heitor, como você consegue ser tão idiota? E quando eu menos esperava, sinto as lágrimas descerem pelo meu rosto, mas eu as limpava antes que começassem os soluços.
— Mas que porra é essa, Gustavo? Isso é verdade? — Ela praticamente gritou ao pé do ouvido dele. Minha mãe adorava gritar quando ela queria bater na gente, e por incrível que pareça, sempre que ela gritava, sabia se nós estavamos mentindo ou não, ela até parecia alguma maga ou sei lá.
— Não foi bem assim, é que a gente estava conversando e...
— E é um caralho, tu comeu ou não, essa jurássica?
— Mãe...
— Você comeu ou não comeu? Nada de mãe, é sim ou não. E nem me vem com essa de que foi acidente que ela não tropeçou e caiu sentada em cima do teu pau.
— Tá, eu transei com ela, mas foi ela quem insistiu. Heitor devia saber dos riscos de namorar uma ex-prostituta.
— Uma o quê? — Eu e minha mãe perguntamos em uníssono. — Ela nunca me falou que era uma prostituta.
— Bem gente, desculpa qualquer coisa, mas já tá na hora de eu ir, então até mais, foi um prazer conhecer vocês e... Ai! — Ela soltou um grito quando minha mãe enrolou os cabelos dela na mão e começou a sacudi-la como se fosse uma boneca de pano.
— Tu vai, mas vai embaixo de porrada. Aí, na próxima vez que tu pensar em se aproximar de uns dos meus filhos, tu pensa duas vezes. — Ela começou a dar tapas e a puxar realmente com força o cabelo dela. Eu tentei impedir, não havia motivos para violência ali, mesmo eu ainda querendo dar uns murros no Gustavo, mas minha mãe falou que se eu a atrapalhasse, quem iria apanhar era eu e Tabata.
Logo a Tabata foi jogada no meio da rua e logo após, as suas coisas a acompanharam. Ela começou a xingar a minha mãe que ainda pensava se dava mais ou se já pegava o facão.
—Vai ver se eu tô na esquina, piriguete , na verdade, nem vai, porque eu aposto que se tu for, tu arruma um programa antes mesmo de chegar na esquina. — Ela bateu a porta com toda a força e entrou dentro de casa encarando a mim e a Gustavo que estávamos perplexos.—Heitor, você vai subir e tomar um banho, depois vá dormir e amanhã a gente fala sobre isso, e quanto a você, Gustavo — Ela falou de uma forma que me deu até calafrios—É melhor ir dormir, porque fique sabendo que seus bons dias nessa casa acabaram. Agora desapareçam os dois da minha frente.
Eu sequer ouvi mais uma palavra, dei meia volta e fui apressado para o banheiro tomar uma ducha quente. Foi apenas fechar a porta que as lágrimas começaram a cair em abundância. Ótimo, até o meu primeiro amor foi motivo de piadas para os outros. Que merda! Como alguém consegue ser tão azarado na vida quanto eu? Acho meio impossível.
Depois de longos minutos no banheiro, desliguei o chuveiro e fui me enxugar. Ótimo, claro que iria estar sem toalhas. Mas que se foda. Abri o banheiro e saí andando pelado mesmo até o meu quarto, estavam todos nos seus quartos a essa hora mesmo... todos.... Tom!
Entrei no meu quarto, coloquei uma samba canção e peguei o meu travesseiro e um lençol e me dirigi ao terceiro andar da casa. Bati de leve na porta e entrei. Thomy estava lá encolhidinho na cama. Já devia estar dormindo, ou fingindo dormir. Eu sempre amei o Tom, desde o momento em que eu o vi, sempre senti a necessidade de protegê-lo do mundo, e até nisso eu falhei. Quantas vezes eu queria que todos aqueles hematomas e fraturas tivessem sido em mim só para poder ver ele sorrir... Eu sempre vou amá-lo, porque de todos os meus cinco irmãos, ele é o único que eu considero como meu irmão caçula.
Deitei ao seu lado na cama mesmo ficando meio apertado. E nisso acabei o acordando. Ele se virou para mim e me abraçou, como se ele tentasse me transferir segurança e conforto com aquele abraço. E eu não pude não retribuir, o abracei da mesma forma calorosa e protetora, talvez até mais. Me afastei um pouco dele e analisei o seu rosto. Graças à sua pele branca até os mais simples hematomas podem deixar marcas bem feias, e o tapa que lhe dei, não ficava atrás, estava com uma coloração meia roxeada. Meu coração se apertou com aquilo, saber que fui eu quem o machucou quando ele apenas estava tentando me avisar.
— Me perdoe, Tom... Eu... eu não queria ter... — Os soluços foram inevitáveis, mas ele me abraçou até que eles parassem.
— Não há nada que deva lhe perdoar, Heitor, não o culpo por isto, já levei coisas muito piores e você ficou ao meu lado, não ache que eu fosse te deixar só por causa de uma tapinha dessas. Aliás, você bate feito menina. — Ele sorriu mesmo com uma piada que não deveria ter graça como aquela, não consegui negar o sorriso que se formou nos meus lábios.
Eu não programei o que havia acabado de fazer, meus lábios simplesmente se colaram nos dele em um beijo apenas de roçar. Não era algo sexual ou luxuoso, era mais como um gesto de conforto. Mas não vou negar que os lábios do Tom eram bons, eram macios e desajeitados, estavam úmidos, fazendo com que nossos lábios se movessem com mais facilidade, deixando aquele simples roçar ainda mais aconchegante e com gostinho de não querer parar, mas por fim, eu me separei dele. Era estranho e ao mesmo tempo bom, nunca havia beijado algum homem antes, já tive uma queda por um amigo meu, mas isso foi na 6ª série e sequer chegou perto de acontecer, e agora eu acabei de beijar meu meio irmão... Eu deveria me sentir culpado ou algo assim, mas o único sentimento que prenchia meu peito era o conforto de ter meu irmão ali comigo. Conseguia ver as orbes azuladas meias assustadas e ao mesmo tempo surpresas.
— Até que você beija bem para alguém tímido como você, sabia? — Eu o vi corar e esconder o rosto no travesseiro enquanto os seus xingamentos eram abafados pelo travesseiro . — Agora vamos dormir, que amanhã promete. — sussurrei-lhe antes de abraçá-lo e orar para que um dia, eu e ele tivéssemos as nossas vidas, com as nossas mulheres e filhos, e que tudo isso tenha sido apenas uma página passada em meio a tantas outras que estão por vir.
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