Disintegration
10 A Calmaria Depois da Tempestade
Notas iniciais
Haviam se passado 4 messes desde o almoço com Brendon em minha casa, e há 4 messes ele nem sequer passou na minha frente, como havia prometido. Era estranho ter toda essa paz e tranquilidade na escola, não que eu esteja reclamando, mas talvez eu tivesse me acostumado àquela rotina de maus tratos. Não que eu queira que aquela rotina volte, isso nunca! Mas era como se a escola não fosse a ela mesma, calma demais, talvez até demais da conta.
Surpreendentemente as coisas na escola começaram a melhorar pra mim, conseguia me concentrar mais nas aulas e às vezes os professores me elogiavam. Semana passada um garoto chamado Bruno me pediu um lápis emprestado, quase não acreditei quando ele falou... Ok, você deve estar pensando "um lápis? Como alguém fica feliz emprestando um lápis?" Mas quando você é evitado há quase um ano e meio, onde ninguém nem sequer tem coragem de te olhar nos olhos por causa do maior vândalo da escola, que todos morrem de medo e fica na sua cola, é algo muito raro me pedirem alguma coisa, principalmente um lápis!
E por falar no maior vândalo da escola, eu não conseguia reconhecer mais aquele Brendon que me espancava diariamente e que... me... bem, você sabe o que ele fez comigo, ele sequer me olhava cara a cara quando passava na minha frente e as únicas brincadeiras que via ele fazendo era jogando bolinhas de papel ou dando tapas na cabeça dos calouros que se distraiam, sem murros, sem nada humilhante, apenas um garoto normal do ensino médio.
Nesse momento eu estava quase dormindo na aula de geometria espacial, nunca vi um assunto tão chato e complicado assim na minha vida, isso não pode ser de Deus. Ainda bem que essa era a última aula para o intervalo, não aguentaria mais 50 minutos daquele assunto. Finalmente o barulho ensurdecedor do alarme soou por toda a escola ao mesmo tempo que todos os alunos começavam a guardar seus materiais na mochila, sob os protestos do professor, que falava para todos ficarem sentados, pois ele não havia terminado a explicação.
Quando quase todos os alunos já haviam saído da sala, peguei o meu biscoito da mochila e me dirigi ao meu "cantinho", onde eu poderia ter a calma e privacidade que eu ansiava. Deitei-me sobre a grama aparada e fiquei encarando os feixes de luz que passavam além das folhas acima de mim, abri meu biscoito de chocolate e dei uma mordida em uma das "bolachas". Sinceramente, não sei porque chamam isso de bolacha, é biscoito e ponto, aceitem que dói menos.
Escutei passos e galhos sendo esmagados, o que me vez sentar direito no chão e procurar por alguém a minha volta; logo um garoto de pele bronzeada, cabelos tingidos de loiro e olhos negros (que não davam para se distinguir das orbes) veio aproximando-se de mim timidamente. Eu tinha a leve impressão de conhece-lo, mas não era aquele esbarrar no corredor. Fiquei encarando ele enquanto se aproximava timidamente de mim.
— E aí, de boa? Posso sentar aqui? -- ele disse apontando pra minha frente. O garoto me lembrava aqueles surfistas pegadores e eu me perguntava o que ele queria comigo.
— Claro, mais ninguém vem aqui mesmo.
— Eu não sei se você lembra de mim, mas eu queria te pedir desculpas por não ter feito nada aquele dia lá no banheiro...
Só foi ele falar aquilo que uma luzinha se iluminou em minha cabeça; agora eu me lembrava dele, era o menino que estava com Brendon e Patrick no dia que me pegaram no banheiro, antes da maldita viagem para o acampamento. Mas eu não entendia o porque do garoto estar me pedindo desculpas, afinal, não tinha feito nada comigo, a não ser acompanhar os dois.
— Do que você está pedindo desculpas? Não fez nada comigo.
— Exatamente! Eu não fiz nada, estava tão preocupado de me enturmar que acabei não ligando para você.
— E porque exatamente você se importaria comigo? Você nem me conhece , cara. — Acabei me exaltado um pouco, o que fez me parecer ser um pouco grosso, mas por que diabos aquele garoto estava preocupado com aquilo? Sem contar que faz mais de 4 messes... Eu hein, cara estranho.
— Calma aí cara, não precisa me engolir. Eu sei que não te conheço e nada disso, mas eu meio que entendo um pouco pelo o que você tá passando. No meu antigo colégio eu era muito zoado, os caras me batiam quase todo dia e tiravam uma com a minha cara sempre que podiam, eu só queria que esse ano fosse diferente, entende? Aí tentei me juntar com o mais popular da escola, que seria o carinha lá, só que depois que eu vi, na verdade eu não vi, mas fiquei sabendo das coisas que ele fazia com você... — Nesse momento meu coração parou de bater, será que ele sabia o que o Brendon me fez no acampamento? Não, isso é impossível, nem mesmo aquele aprendiz de anticristo teria coragem de espalhar aquilo — Te bater e te humilhar por nada... eu tratei logo de me separar dele, não vou com a cara desses caras assim. Agora eu me juntei com uma galerinha bem massa lá, se quiser eu te apresento e tals, aí eu só queria vir te pedir desculpas por não ter feito nada naquele dia, mas ele parou de te atormentar, não foi? O que aconteceu?
Engoli em seco, aquele cara falava demais e quase não parava para respirar, tirando o sotaque de surfista que ele tinha que me dava nos nervos. Mas ao menos ele estava ali conversando comigo, já era um grande avanço para mim. Estava pronto para responder a ele, mas minha língua travou, afinal, eu não ia falar “Ah ele me estuprou, depois deu uma de são samaritano e parou de me bater, sabe como é né?” eu sequer poderia tocar nesse assunto e era péssimo em inventar mentiras de última hora.
— Ele... er... bem... eu meio que comprei um picolé pra ele e ele parou... er.... não, pera... mas... er... é, é isso aí. — UM PICOLÉ? Como assim um picolé? Parabéns Thomy, você ganhou o premio de pior mentiroso da história da face da Terra!
Ele ficou me encarando com as sobrancelhas franzidas por alguns segundos, até que olhou pra cima e voltou a me olhar.
— Um picolé, cara? Sério isso? Cê não tá tirando uma com a minha cara não?
— E... eu? Claro que não ué, por... por que eu tiraria? — Comecei a suar discretamente e desviei o olhar para o chão. Aonde é que eu estava com a cabeça achando que ele ia cair nessa do picolé? O cara é um maníaco estuprador e não um diabético pra ser comprado com picolés!
— Que genial mano, como eu nunca havia pensando nisso antes? Principalmente se for daqueles picolés caros, como eu sou burro, como eu não havia pensando nisso antes? Putz.
Sem duvidas esse cara era burro, mais muito burro mesmo, pra ter caído nessa... Mas era melhor eu mudar logo de assunto, antes que ele pensasse melhor no que acabou de falar.
— Então... er... qual o seu nome mesmo? — Só agora eu havia me tocado que ele ainda não havia falado o nome dele.
— André, e o seu é Thomy. — Ele deu um sorriso de orelha a orelha, como se fosse um gênio por saber meu nome, mas ok né, pra alguém que caiu na do picolé isso não me surpreende.
— Então André, tinha algum motivo pra te zoarem na sua antiga escola? Se não quiser falar tudo bem... — Eu realmente estava curioso para saber porque alguém como ele, todo surfista, malhado e bonito sofria bullying, era contra todas as leis da natureza!
— De boa, mano. É que no meu primeiro dia lá naquele inferno eu comi a namorada do capitão de futebol da escola e ele ficou sabendo, aí me fodi legal, mas a culpa não é minha se a menina era puta e queria me dar, sabe como é né? Aí acabei saindo de lá por causa do lance todo lá das porradas. — Ele falava tão naturalmente que nem parecia algo tão sério quanto o bullying, parecia mais que ele estava contando uma história engraçada de anos atrás. — E quanto a você? Por que o maninho lá te batia?
— Na verdade não sei ao certo, mas uma vez ele me falou que era pra manter as aparências ou sei lá, nem gosto de lembrar disso, mas deve ser só para manter as aparências mesmo, aquele babaca de uma figa.
— Calma ae mano, não precisa guardar tanto rancor assim do mano lá, fica de boa. Você vai ficar hoje para a gincana que vai ter aqui na escola? Eu vou, vou participar da maratona de corrida. Eu corro muito rápido, cê já me viu correndo? Eu realmente sou muito rápido. — Que matraca aquele cara tinha, mas isso era bom; ao menos estava sendo bom naquele momento, ter alguém para conversar, não era todo dia que eu tinha isso.
— Vou sim, to participando das questões de lógica. Na verdade eu só fiquei com isso por que foi o que sobrou, nem sei se vou conseguir acertar alguma. — Já havia até me esquecido da gincana que ia ter a tarde, todas as turmas participando. Era algo mais esportivo, sem “vencedores”, mas sempre tem aquela turma que se gaba pelas medalhas conquistadas.
Logo o sinal tocou e ambos nos levantamos da grama, acabou que eu nem comi meu biscoito e era proibido comer na sala de aula, então achei melhor oferecer.
— Quer o biscoito? Acabou que nem comi e é proibido levar comida pra sala, então se quiser comer aí antes de jogar fora...
— Valeu mano, tava morto de fome aqui. E até a gincana, vou estar torcendo por você.
— Valeu, também vou estar torcendo por você... qual a sua turma mesmo?
— Sou do terceiro A. Falou ae, to saindo aqui. — Ele disse enquanto mordiscava um biscoito e acenava com a mão, logo saindo do meu campo de visão.
O segundo sinal tocou e resolvi que era melhor eu ir pra sala antes que levasse outra advertência por chegar atrasado em aula.
Tirando a euforia dos alunos, as aulas passaram normalmente, até a hora do almoço — que era o nosso único tempo livre antes que a gincana começasse. Comprei um lanche na cantina e fui pra uma mesa para comer sozinho, mas logo André chegou e me convidou para a mesa dos amigos dele. Eu até tentei negar, mas alem de falador ele era insistente. A galera com quem ele se enturmou era gente boa, e todos tinham aparência de surfistas. Tinha até uma garota lá da minha sala, mas que nunca vi muito interesse em puxar assunto. Eles ficaram conversando até que o tempo acabasse, e eu apenas comentava em alguns assuntos sem em envolver muito, então todos seguiram seus rumos para se preparar parar as competições.
Eu fui ver o a maratona de André e não é que o cara era mesmo rápido? Ganhou a medalha de ouro e com uma diferença enorme entre o segundo finalista. Depois de receber a medalha até pensei em ir parabeniza-lo, mas logo um monte de pessoas se amontoaram em volta dele, principalmente as garotas do 1° ano. E para alguém que era zoado na antiga escola ele estava se dando muito bem na nossa.
Já na minha maratona... Digamos que eu não fui feito para questões de lógica. Eu sempre precisava de mais tempo para decifrar as questões e fazia todos os meus oponentes terem que esperar meu raciocínio, uma vez que menina ficou tão irritada que gritou a resposta para para ver se eu terminava logo o meu tempo e prosseguia com os jogos. E, acredite ou não, eu fiquei com a medalha de bronze. Pois é, também não sei como consegui ganhar ela, mas consegui. E a maior parte da minha turma veio me parabenizar por aquilo, o que me deixou muito surpreso.
Depois de um eterno discurso do diretor Victor para encerrar a gincana, eu finalmente pude ir para casa. Estava a caminho da parada de ônibus e, mesmo toda a escola tendo largado aquela hora, eram pouquíssimos os alunos que pegavam ônibus ou trem. O caminho estava quase deserto, já passava das 18h e a rua era um pouco escura. Eu andava apressado, pois não queria perder o ônibus das 18h15m, mas fui impedido quando braços me puxaram para um beco escuro. Não conseguia ver quem havia me puxado, mas fui derrubado no chão com brutalidade.
— Passa a porra toda aí ô playboy, se não tu morre é aqui e agora. — A voz era grossa e cheia de malicia e, mesmo ele avisando para eu passar tudo, meu corpo gelou, não conseguia me mexer, estava em pânico. — Não em escutou não viadinho? Mandei passar tud...
Ele foi interrompido por uma pancada na cabeça, que o fez cambalear para o lado. Meus olhos foram instintivamente para a pessoa que o havia golpeado, dando de cara com Brendon. Sim, Brendon William, e era só o que me faltava, um assaltante e estuprador comigo em um beco escuro. Só faltava colocar uma plaquinha no meio da rua “Procura-se estripador (OBS: Com experiência)” para a festa ficar completa.
O desconhecido puxou uma faca da cintura e foi pra cima de Brendon, meus olhos se arregalaram, afinal ele poderia morrer... Mas Brendon deu um chute no peito do cara, que o fez recuar, logo dando socos cruzados no rosto do sujeito, fazendo ele derrubar a faca. O loiro já estava pronto para dar mais uma cruzada quando o cara começou a correr em direção a rua com medo de apanhar mais.
Eu estava lá, encolhido no chão, tão indefeso quanto galinhas aos olhos da raposa, mas tudo que eu ouvi foi:
— Você está bem? — A voz era suave e um pouco ofegante, mas ainda assim era calma e passava paz. Olhei bem para Brendon, que estava à minha frente, e pisquei algumas vezes com força, não acreditava que ele realmente estava se importando comigo. Brendon me puxou pelo braço e me fez levantar, mas foi “gentil” ao fazer isso, sem me apertar muito, o que eu não esperava dele. De santo só tem a cara.
— E... estou... Não me toque! — Me afastei o mais rápido que pude assim que saí do choque, não era porque ele havia me salvado de um assaltante que ia ficar me tocando. E porque diabos ele havia me salvado e porque estava ali? Sequer passava por aquela rua quando saia da escola. — O que você estava fazendo por aqui?
— Eu só estava passando e vi um movimento estranho, ai vim dar uma olhada... Você está bem mesmo? Certeza? Não quer que eu te leve para um hospital?
— Tenho certeza... e... Obrigado por me salvar... Não esperava isso vindo de você... Mas não ache que só porque me salvou desse assaltante que eu vou te perdoar pelo o que você fez!
— Eu não falei nada a respeito disso, mas queria falar. Eu quero tentar me explicar, Tom, eu só quero tentar me...
— Cale a boca! Não há explicação para o que você fez, entendeu? Não há! — Senti as lagrimas escorrerem pelo meu rosto, a vontade que eu tinha era de bater nele, mas ao mesmo tempo era grato a ele por ter me salvado. Não sabia se o agradecia de novo ou se o apunhalava com aquela faca eu mesmo.
Willian abaixou a cabeça, fazendo com que a sombra lhe cobrisse o rosto, e fechou as mãos em punhos. Naquele momento achei que ia começar a me bater por ter gritado com ele, mas não, apenas ficou lá, parado, impedindo o caminho daquele beco fedido.
— Eu sei que não há desculpa pelo o que eu fiz, mas... Eu só queria explicar um pouco as coisas, não quero que você ache que eu sou aquele monstro sem coração, mesmo que eu tenha feito aquilo com você... Eu realmente estou arrependido, se você ao menos me desse uma chance... é tudo que eu te peço, Tom, uma chance....
— Thomy para você — falei dando ênfase ao meu nome e enxuguei as lagrimas, a voz dele estava soando abafada, como se ele estivesse chorando ou algo assim — mas era impossível saber, já que ele estava atrás do poste que ofuscava a minha visão do rosto dele. Eu não queria dizer aquilo, eu realmente o odiava, mas tinha algo nele... algo diferente.... — Tu... tudo bem, uma única chance, depois que você se explicar você some da minha vida, ok?
Deu para perceber quando ele sorriu e eu estava certo, ele estava chorando, pois limpou os olhos. Eu realmente não estava reconhecendo aquele Brendon William, como assim o machão badboy da escola estava pedindo desculpas e chorando como um maricas?
— Que tal amanhã à tarde? A gente poderia comer alguma coisa depois da escola ou sei lá, o que você quiser, por minha conta.
— Um lanche depois da escola está ótimo e pode ficar com o seu dinheiro, não preciso da sua caridade. — Dar aquela resposta foi um alimento muito saboroso para o meu ego, afinal não precisava do dinheiro dele para comer alguma coisa depois da escola, era pra isso que servia Heitor.
— Ok então, melhor eu te acompanhar até a parada... você pega ônibus, não é? Se quiser eu posso te dar uma carona no meu carro ou...
— Não precisa se incomodar com nenhuma das opções, eu me viro e a parada está quase ali na esquina — falei enquanto saia do beco, sendo acompanhado por ele. Finalmente eu pude ver seu rosto, os olhos estavam vermelhos e o lábio inferior estava com uma leve marca de mordida, aquele realmente não era o Brendon que um dia eu conheci. — E obrigado mais uma vez por me salvar, eu fico realmente muito grato.
Comecei a andar apresado pela calçada para chegar o mais rápido possível a parada, uma vez olhei pra trás e percebi que ele me seguia mantendo uma certa distancia. Aquele não era mais o Brendon que um dia eu tive a infelicidade de conhecer, aquele era outra pessoa, ao menos era o que eu esperava que fosse. Finalmente eu peguei o meu ônibus e fui para casa, sem tirar tudo o que havia acontecido nos últimos 10 minutos da minha cabeça.
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