Dinossauro 4: A Terra Bola de Neve
4 Ato III
A ventania do lado de fora ainda rugia, mas ali dentro tudo parecia… abafado. O grupo se deslocou para dentro de uma caverna. Era o caminho que Alain estava percorrendo, o único que seria grande o suficiente para levar dinossauros por ele.
Não houve muita relutância.
Um silêncio pesado e frio, que se prendia aos ossos pegou neles, havia ficado muito frio. O grupo avançava devagar, seus passos ecoando entre pilares de gelo e rochas translúcidas que pingavam em intervalos irregulares.
Os icebergs haviam ficado para trás.
Ninguém sabia como lidar com a surpresa repentina da perda de um parente — para os filhos de Aladar.
Riran caminhava entre Tomor e Suri, mas estava ali apenas em corpo. Seus olhos estavam fixos no nada e semicerrados. Não parecia haver realmente alguém indo na frente, além do aglomerado grupo de irmãos e irmãs que era aquele bando. Não havia mais firmeza, nem foco. Também havia ausência naquele instante.
Alain mantinha-se próximo, igualmente calado, a respiração instável — lutando para não olhar para trás. Suri tremia mais de tristeza do que do gelo.
A caverna era imensa, tendo um interior parecido com um santuário ou templo de gelo, com paredes azuis que refletiam os pequenos temores de luz do lado de fora. O ar parecia um ppuco preso.
Foi quando Cody falou.
E claro, falou alto.
Cody: Isso é caminho!?
Ele estreitou os olhos, com a voz ecoando pela caverna inteira.
Cody: Como é que vamos chegar ao tal Reator assim?
Perguntou ele, tremendo de frio. As patas gelavam, as escamas ficavam rígidas, eles estavam começando a ficar sem calor de fato
Penta riu, zombeteiro.
Penta: Eu disse. Mimados demais por Aladar e Neera.
Ele chegou próximo do irmão de sangue e falou isso, falando com ruindade proposital. Aladino olhou feio para seu irmão mais velho.
Morah, que seguia alguns metros atrás, inclinou a cabeça com um sorriso enviesado.
Morah: Eu até entendo. A perda de uma irmã… isso destrói qualquer um.
Ela olhou para Riran, que não reagiu.
Aladino: Não tem como seguir alguém que não consegue nem seguir o próprio passo.
Aladino falou, cerrando os dentes, depois de mandar uma direta indireta para Morah. Os mais velhos reviraram os olhos com as provocações adolescentes.
Irani: Para de falar como se entendesse algo da nossa família, Morah.
Falou de longe.
Morah: Ah, por favor...
Ela revirou os olhos.
Morah: Se você fosse um líder de verdade...
Ela murmurou, falando praticamente entre os dentes.
Guara, mais atrás, observava tudo com calma. Sem se intrometer. Apenas plantando o olhar entre uns e outros, medindo forças e memórias.
Tomor finalmente se virou — apenas o suficiente para encará-los. Ele nunca levantava a voz. Não precisava. Seu tamanho e sua presença eram um aviso silencioso.
O olhar de comandante se espalhou pela caverna como um trovão abafado.
Cody ainda tentou dizer algo, mas a expressão de Tomor — aquela mistura de dor e fúria contida — o fez recuar com um resmungo.
O grupo seguiu.
Mas a caverna parecia perceber a tensão. As paredes rangiam. As pedras tilintavam como sinos finos.
Morah se aproximou propositalmente de Riran.
Morah: Nada disso foi culpa sua, realmente.
Riran não reagiu, mesmo que ela tenha se aproximado.
Morah: Tá, isso tudo vai passar uma hora. Iremos ver como vai evoluir o olhar de todos sobre isso, Riran... vários iguanodontes mandando... ou se vão querer apenas um que fale pelos demais.
Tomor viu Morah na frente e quis que ela voltasse para trás. Ele avançou rápido, na intenção de fazer Morah voltar lá para trás, mas foi em um passo tão rápido que o gelo debaixo dele se partiu em três fissuras.
Morah recuou, ainda com o sorriso nos lábios, mas os olhos arregalados.
Aladino girou o corpo, impulsivo, pronto para encarar Morah — mas o teto da caverna respondeu antes dele.
CRACK
Um estalo seco, profundo, ressoou por todo o teto de gelo.
Uma enorme estaca caiu atrás dele e vibrou o chão.
As estalactites começaram a vibrar.
Guara sorriu discretamente.
Guara: Cuidado com o volume. A caverna ouve tudo!
Flia: Vamos sair daqui!
Ela gritou e alçou voo.
CRACK-CRACK-CRACK
A parte central do teto se partiu.
Tomor: CORRAM!
Rugiu ele.
Em segundos, gelo despencou do teto como lanças cristalinas. Suri se agarrou a Riran. Aladino puxou Riran pelo pescoço instintivamente para frente, com uma cabeçada — mesmo com ela sem reagir — enquanto Tomor se empurrava os irmãos para tomarem frente e correrem também.
Foi uma debandada dentro da caverna. Estacas caíram aos montes, como se fosse um soterramento.
Penta deslizou para longe, Cody escorregou em um bloco e Morah teve que saltar desesperadamente para não ser esmagada.
Guara se posicionou como se fosse ajudar… mas calculou cada movimento, observando quem ficava vulnerável.
O chão tremeu de novo.
Mais um estalo.
Uma chuva de estalactites veio como flechas.
Riran, mesmo em choque, murmurou um nome:
Riran:…Konie...
E congelou completamente quando um bloco enorme caiu bem diante dela.
Tomor a empurrou com violência com uma cabeçada — salvando sua vida pela segunda vez.
O grupo só conseguiu parar quando alcançou uma abertura mais larga, onde o teto não parecia prestes a ruir. Era céu aberto e já estava escuro.
Ofegantes.
Tremendo.
Alguns feridos.
Outros sujos de gelo e poeira.
Riran sentou-se, apoiada no irmão, respirando como se tivesse corrido quilômetros. Foi súbito, um momento atrás do outro.
Morah, tossindo, levantou-se com dificuldade.
Todos estavam bem, mas com algumas exceções. Faltavam alguns. Cody e Penta sumiram.
Zini: Ué? Onde estão os pequeno grandes da Neera?
Ele olhou ao redor. Riran e Aladino se olharam e foram até a abertura da caverna, onde viram em meio às estalactites caídas, sangue vermelho jorrado de 5 que se perderam naquele acidente.
Zini: Eita...
Corpos de iguanodontes mortos. Riran e Aladino arregalaram os olhos. Um choque frio subiu até a espinha dos familiares que viram aquilo, seus irmãos empalados e mortos.
Riran chorou e buscou o consolo do irmão depois do acontecido. A família havia perdido muito em um único dia, primeiro a irmã mais nova, depois os dois irmãos mais velhos.
O Eden estava em uma das suas raras manhãs tranquilas. A brisa leve passava entre as grandes folhas e os jovens dinossauros brincavam na clareira como se nada no mundo pudesse ameaçá-los.
Zini Jr corria atrás de Yar, enquanto Natasha tentava se equilibrar em um tronco caído. Lívia ria da cena, dando tapas brincalhões no rabo deles. Maverick apenas observava, como sempre fazendo o vigilante, mas sem perder a graça da brincadeira.
Eema estava mais afastada, conversando com Neera enquanto mordiscava um ramo de folhas frescas. Ela estava pensativa.
Eema: Sabe, Neera… tenho pensado muito nos meus filhotes. No que aconteceu… naquele dia. Parece que quanto mais velha fico, mais tudo vem na memória.
Neera: Eu sei, minha amiga. Às vezes, quando olho para Riran… penso que não suportaria perder ninguém assim.
Eema suspirou fundo, observando Nattasha brincar com o filho como se fosse filha dela própria, com seu neto.
Mas antes que pudesse continuar, um estalo seco ecoou pelo chão. Ambas olharam para baixo.
Uma trilha de rachaduras finas se espalhava como veias ardentes sob o solo.
Eema:… Isso não é bom.
No mesmo instante, o chão brilhou em vermelho vivo, uma luz que pulsava como sangue quente subindo. O calor subiu brusco — suficiente para fazer as folhas próximas murcharem instantaneamente.
Era fogo. Era lava.
Neera: ALADAR!!
Ela gritou e correu a procura dele. O solo se rompeu. Lava começou a brotar como uma fonte do próprio centro da Terra.
Uma árvore ao lado incendiou em segundos.
Os jovens pararam de brincar, apavorados.
Nattasha: O chão tá quente!
Maverick: Venham comigo! AGORA!
Ele pega Yar e Lívia pela nuca e os arrasta para o caminho mais distante do fogo, tendo dificuldade de levar uma humana junto. Mas Natasha e Zininho ficam mais perto das chamas, indecisos, sem saber para onde pular, sem saber para onde correr.
O fogo se espalha. Troncos caem. As chamas viram paredes.
Eema tenta se aproximar deles, mas o calor é absurdo.
Eema: Natasha! Zininho! Venham! Venham com a vovó!
Rugiu ela. Mas a lava avança como um rio espesso, cercando Eema e aproximando-se dos pequenos.
Baylene surge correndo, desesperada, derrubando árvores no caminho como se fossem gravetos.
Baylene: SAIAM DO CAMINHO!
Ela chega, abaixa o pescoço quase até o solo e cria um túnel com o próprio corpo, porém limitado, eles iam ter que pular.
Baylene: NATASHA! ZINI! PULEM!
Natasha hesita em pular — então Eema dá um empurrão neles com todas as forças que tem, como se fosse uma chifrada no ar, jogando os dois literalmente na direção de Baylene.
Eles se encaixam sob o pescoço da velha braquio. Nat se segurou com as mãos e segurou o filho com uma das patas traseiras. Ela os ergue e os protege.
Aladar e Neera aparecem correndo pela borda da clareira, descendo a ladeira com velocidade pouco segura.
Aladar: EEMA!
A lava já forma um círculo ao redor dela, o chão está tão quente que a pele das pernas de Eema começa a fumar.
Ela tenta pular — mas recua com um grito.
Eema: Eu… não consigo respirar! Quente...
A fumaça densa consome o oxigênio ao redor. A cada segundo, Eema inspira menos ar e mais calor e fumaça.
Maverick tenta avançar para ela.
Maverick: EU VOU BUSCAR ELA! EU CONSIGO—
Mas ele é obrigado a recuar — o calor derrete a ponta das folhas sob seus pés.
Baylene, vendo a amiga cercada, ruge com força e tenta derrubar uma árvore enorme com o corpo.
Ela empurra com todo o peso — um rugido gutural, desesperado.
A segunda árvore cai, mas ao tentar avançar por cima dela, Baylene pisa muito perto da lava e parte a árvore em dois com seu peso.
CRÁÁÁS
O barulho da queimadura é AUDÍVEL.
Baylene: OOOOOOOORRRRHH!!
Rugiu estrondosamente.
Ela arrasta a perna para trás, a pele carbonizando e quase cai.
Aladar tenta avançar, mas Neera a segura.
Aladar: SOLTA! Eu posso salvar ela!
Neera: Se você entrar aí, eu perco você também!
No centro do círculo de lava, Eema cambaleia. Sua respiração é curta, dolorosa. O calor já a envolve como um manto mortal.
Ela olha para Baylene… depois para Aladar e Neera. E sorri. Um sorriso sofrido, mas de paz.
Eema: Se... Cuidem!
TOOOOOOZZZZZZZZZ
A lava a toca. O vapor sobe num estrondo úmido.
Todo o Eden parece prender o fôlego.
Eles combateram o fogo usando água, como Lívia havia sugerido antes para prevenção e controle do fogo.
Eles se aproximaram de onde Eema estava. Estava tudo chamuscado, preto de carbono. Aladar olhava triste, para aquela situação impensável, era indescritível a sensação.
O som do seu rugido ecoou pelas paredes da caverna do santuário subterrâneo.
Aladar: NÃÃÃÃÃÃOOOO!
Os jovens haviam caminhado horas até encontrarem um sistema de cavernas quentes, onde o calor natural das rochas os protegia do frio cortante vindo do lado de fora. Lá dentro, era abafado, seco e desconfortável mas era o único abrigo. O vento que soprava pela abertura trazia apenas o som da tempestade de neve lá fora, contrastando com o calor sufocante da gruta.
Eles estavam exaustos.
Física e mentalmente.
Perdas recentes, brigas, acusações veladas e diretas… e uma liderança fragmentada que deixava a maioria deles inquietos. Guara afastou-se do grupo, posicionando-se perto da entrada estreita da caverna. O vento frio açoitou sua pele quando ele inclinou a cabeça para fora, observando a escuridão da montanha.
Riran notou a ausência dele. Mesmo abatida, com o olhar opaco pela dor que ainda carregava, ela seguiu até ele, devagar, quase arrastando o peso da própria culpa. Estava suave, mas incerta.
Riran: Guara… o que está pensando?
Ele demorou a responder, olhando o vento carregando flocos congelados para longe, como vidas que escapam da mão.
Guara: … Nas vidas perdidas. Fico me perguntando se tudo isso… se essa viagem… vai valer a pena.
Riran sentiu o peito apertar. Queria dizer algo — qualquer coisa — mas suas palavras ficaram presas e ela olhou incomodada para frente.
Ela pensava exatamente o mesmo. E, ao mesmo tempo, achava que tudo era culpa dela.
Riran: Também penso nisso...
Mas ela não conseguiu continuar. O silêncio entre eles era denso e quente como o ar da caverna.
A voz de Morah quebrou o breve momento entre os dois.
Ela se aproximava acompanhada de um grupo de adolescentes — todos com a mesma postura arrogante e cansada, claramente apinhando-se atrás dela como se fosse a líder natural.
Morah: Eles concordam comigo. A gente precisa de uma liderança de verdade. Uma forte, somente.
Alguns dos que a seguiam assentiram, outros apenas evitaram encarar Riran.
Aladino, que estava do outro lado da caverna, ergueu a cabeça imediatamente. Ele veio caminhando rápido, claramente indignado.
Aladino: Não concordo com isso. E tenho certeza que a Riran também não.
Tomor se aproximou logo atrás, rangendo dentes.
Tomor: Sai daqui, Morah. Você só sabe falar besteira.
Ele falou ríspido.
Ela apenas sorriu, aquele sorriso fino que sempre guardava quando estava satisfeita consigo mesma. Ela ficou de frente e olhou direto para Riran.
Morah: Então vamos resolver como sempre fizemos na Manada. Eu desafio Riran. Um duelo pela liderança. Só ela e eu!!
O grupo murmurou, animado e assustado ao mesmo tempo. O nome de Kron ecoou entre eles como uma sombra histórica.
Morah: Aladar e Kron lutaram dessa forma... isso não é novidade.
A menção fez alguns jovens arregalarem os olhos. Outros pareciam quase excitados pela ideia.
Guara respirou fundo, aproximando-se um pouco mais do grupo.
Guara: Mesmo que vocês quisessem lutar…
Ele olhou ao redor.
Guara: … a caverna é estreita demais. Mal dá pra virar o corpo. Não tem como duelar aqui.
Houve um frissom entre os jovens, um burburinho nervoso.
Morah: Então a gente sai.
Riran fechou os olhos por um instante. Ela estava cansada — da culpa, da pressão, da voz de Morah. Estava exausta de se punir internamente e ouvir as críticas externas. Afinal… uma parte dela queria acabar com aquilo tudo de uma vez. Quando abriu os olhos, sua expressão estava decidida.
Riran: Chega. Se um duelo é o que você quer… eu aceito.
O grupo explodiu em reações — alguns chocados, outros animados, outros assustados.
Morah ergueu o queixo, triunfante.
Riran: Mas Guara está certo. Aqui não. Vamos achar um terreno aberto.
E quando encontrarmos… resolvemos isso.
Morah assentiu imediatamente.
Morah: Ótimo. Então nos vemos lá fora!
Ela virou as costas e se afastou, seu grupo a seguindo de maneira quase ensaiada.
Riran ficou onde estava, sentindo o peso do momento cair sobre seus ombros como pedras. Guara observou-a por alguns segundos, depois desviou o olhar.
A manhã amanheceu branca. A tempestade de neve rugia entre as rochas como um animal vivo, soprando rajadas que entravam na caverna e faziam cristais de gelo rodopiarem pelo chão. Era impossível ver mais do que alguns metros lá fora.
Os jovens acordaram cansados, mal recuperados das brigas e do cansaço anterior.
Alain foi o primeiro a olhar para a abertura da caverna. Ele franziu o cenho ao ver a intensidade da neve.
Alain: Isso não é só uma tempestade… É uma nevasca. E precisamos ter muito cuidado daqui pra frente.
Alguns adolescentes se aproximaram, intrigados.
Suri: Mas por quê? É só neve.
Ele ficou professoral e firme.
Alain: Neve acumulada nas encostas… Se a gente fizer muito barulho, movimentar o chão ou provocar ecos fortes, isso pode soltar tudo de uma vez. Isso se chama avalanche. É quando toneladas de neve descem de repente da montanha e…
Ele deu uma pausa.
Alain: … ninguém escapa.
O silêncio caiu por alguns segundos. Mesmo os mais arrogantes engoliram seco.
Suri: Então a gente precisa ficar… quieto.
Alain: Quietos e atentos. E, acima de tudo: juntos.
Riran assentiu, tentando manter o foco — embora a culpa e o luto ainda a deixassem distante.
Enquanto o grupo se preparava para seguir, Morah mantinha os olhos semicerrados, analisando Riran como um predador paciente, faltando nela apenas olhos de fenda de um raptor para realmente parecer um predador carniceiro.
Ela caminhava devagar, quase deslizando na neve, aproximando-se o suficiente para que Riran a ouvisse, mas não o grupo todo.
Morah: Espero que você pelo menos consiga ficar em pé hoje… Ou vai congelar de novo?
Riran ignorou — ou tentou. Seu maxilar apertou.
Morah deu uma risadinha curta.
Morah: Se não consegue nem olhar pro caminho direito, como vai olhar para a própria derrota?
Aladino ouviu e deu dois passos à frente.
Aladino: Morah, para de—
Morah: Ou está com medo que a maninha perca?
Ela assentiu. Tomor rosnou, aproximando-se com o corpo tenso.
Tomor: Eu já falei que você fala demais.
Morah ergueu o queixo, desafiante.
Morah: E eu já falei que eu não tenho medo nenhum de vocês.
Ela então olhou para todos ao redor — os jovens exaustos, tensos, irritados, ansiosos por uma direção.
Morah: Chega de conversa. Chega de indecisão. A gente precisa saber quem manda. Agora!
Houve murmurinho.
Olhares cruzados.
Corações acelerados.
A nevasca rugia lá fora, mas dentro da caverna o silêncio ficou mais perigoso.
Riran respirou profundamente — o ar gelado queimando suas narinas.
Ela deu um passo à frente.
Riran: Se é isso que todos querem… Então vamos resolver.
Guara, que observava de perto, apenas fechou os olhos por um instante — não dizendo nada. Não ajudando. Não impedindo. Os adolescentes começaram a se afastar, abrindo um grande círculo na parte mais ampla da caverna. Mesmo apertado, era o melhor espaço que tinham.
Suri, ainda abalada, olhava com preocupação, mas não ousou interferir — essa era uma decisão que, culturalmente, só cabia às duas envolvidas.
A nevasca fazia a caverna tremer levemente com o vento, como se a montanha inteira estivesse prendendo a respiração.
Morah caminhou para o centro do espaço. Riran fez o mesmo.
Elas ficaram frente a frente. Silêncio absoluto.
Alain engoliu seco, percebendo o nível de tensão.
Alain: Só… não façam barulho demais.
Mas ninguém respondeu.
Todos esperavam.
Era o início do duelo.
Um vento fraco bate e fica um pouco mais forte, mas depois ele enfraquece. Morah parte para cima de Riran com a intenção de descer um golpe esmagador nela, de cima para baixo, mas não sabia se iria descer um golpe com as esporas das patas da frente ou com o corpo. Essa indecisão facilitou para que Riran desviasse correndo para frente com todo o seu corpo, sem a necessidade de pular ou se jogar para o chão. Morah girou dando uma caudada, atingindo a lateral da perna de Riran, não a empurrou, mas causou dano suficiente para arder como se tivesse sido uma chicotada. Riran olhou para Morah depois do golpe e viu o sorriso no rosto dela, ambas andaram pelo caminho circular da beirada da roda e foram de encontro, de frente uma para a outra, Morah correu e bateu de frente em Riran com uma cabeçada, Riran se ergueu e tentou dar o mesmo primeiro golpe que Morah tentou aplicar em Riran, até que conseguiu tirar ela um pouco de seu centro de gravidade, mas Morah a empurrou para trás com seu corpo e a desceu para o chão. Riran havia caído de frente depois de ficar de pé. Morah tenta acertar os olhos de Riran com as esporas de sua pata frontal, com dois golpes seguidos, porém Riran desvia facilmente para trás com um pulinho.
Morah: Droga, esse realmente não foi o melhor golpe!
Ela leva uma caudada na cara, praticamente na boca.
Morah: Ah! EI!
Ela olhou, irritada com o golpe. Ela toma outro pequeno "slap" da cauda de Riran. Não era um golpe carregado, nem pesado, mas era o suficiente para causar uma ardência.
Riran: Você realmente devia calar mais essa sua boca.
Fala numa espécie de brincadeira misturada com seriedade. Ela tenta dar outra, mas Morah de abaixa e Riran acertar a cara de 3 iguanodontes ali na lateral da roda, que era seguidores de Morah.
???: EI!
O trio empurrou Riran com força depois dela ter violado uma das regras principais. Já ali seria o suficiente para ela ser desclassificada do desafio pela liderança. Ela capotou para o lado com o empurrão de 3 iguanodontes ao mesmo tempo a seu corpo, caindo para o chão da neve e rolando para o lado. Morah correu até a frente dela, girou e lhe deu uma caudada atravessada no rosto.
Riran: OOOH!
Virou a cara com tudo para o lado, com o golpe. Riran quase desmaiou. Ela tentou se levantar, mas Morah que deu uma cabeçada fraca, acima da perna esquerda, a fazendo cair para o lado novamente.
Suri tentou pular para ir ajudar a prima, mas Zini a segurou pelos braços e Alain entrou na frente.
Zini: O que acha que está fazendo!?
Suri: E-Eu preciso... preciso ajudar ELA!
Ela tentou se forçar pata frente e estava quase escapando das forças de Zini.
Alain: Não pode ajudar ela assim, Suri!
Ele abriu os braços, impedindo que ela passasse, caso conseguisse se libertar de Zini, que estava quase acontecendo.
Suri: Por que não!? Olha o que fizeram com ela!
Zini: Ela os atingiu...
Flia: Ela acabou atingindo outros dinossauros, que são fiéis a ela. Isso é proibido dentro da cultura dos iguanodontes e da cultura da nossa manada.
Ela afirmou.
Suri: M-Mas... e na época do Kron!?
Vocês ajudaram o Aladar a vencer ele!
Ele fez toda a força do mundo para frente e conseguiu se livrar dos braços de Zini. Ele foi pulando, Alain tentou pegar ele com as mãos.
Alain: Vem cá, vem!
Suri se pendura em sua perna e passa pela lateral do seu corpo e pula no chão. Ele correu de quatro e pegou uma pedra no chão, com a intenção de atirar ela em Riran, mas foi impedido novamente. Alain atirou com seu chicote em seu braço, onde a ponta segurou firme. Alain puxou para trás e o impediu.
Riran apanha e é derrubada várias vezes.
Riran: AGH! OHHH!
Flia: Foi por uma necessidade maior. Kron estava disposto a sacrificar a Manada para cruzar o antigo caminho que pegavam para viajar até a Área dos Ninhos. Naquela época, ele já não existia mais!
Ela solta um rugido ameaçador na cara de Morah. Inútil. Morah dá outro giro e caudada em sua cara. Riran fica com estresse físico severo depois do golpe perto do olho e cai com a cabeça para cima, ao chão, perdendo força nas pernas da frente. O golpe foi forte o suficiente para causar um pequeno nocaute e desmaio nela.
Alain: É, olha que esses outros dinossauros concordam com Morah.
Ele assentiu um pouco. Suri desistiu e começou a chorar.
Alain: Acho que não importa muito quem vai liderar. Desde que nós estejamos aqui, falando pelo Aladar e guiando até o Reator, esta tudo bem.
Ele puxou o chicote de volta para sua cintura e liberou Suri.
Zini: É... é só um aquecimento mesmo... para os jovens... como você, Aladar e Neera disseram...
Ele desdenhou forte no tom quando disse para Alain, depois das mortes que tiveram no grupo. Flia seguiu Zini.
Os iguanodontes se juntaram a Morah, principalmente seus seguidores e todos rugiram em coro.
Somente os irmãos, filhos de Aladar, que não se uniram em rugidos de comemoração. Suri pulou até Riran, que estava machucada. Ela se levantou com dificuldade.
Alain respirou fundo, tendo aceito a decisão fria de Aladar de enviar todos eles para fora do lar, para treinar eles. Ele se reuniu com os demais.
Agora a líder era Morah.
Era possível ver um brilho verde no horizonte, como se fosse um brilho extraterrestre. Era parecido com uma chama, até meio azulado.
Alain caminhou um pouco naquela direção enquanto os rugidos continuaram. Somente ele notou até então.
Zini e Flia viram que Alain não estava junto dos irmãos e foram procurar por ele, eles se aproximaram dele devagar.
Zini: Nossa, parece que alguém acendeu uma fogueira.
Alain: Essa é a potência da minha espécie.
Ele respirou fundo.
Alain: Aquele é o Reator.
Ele apontou com a cabeça e pôs as mãos na cintura.
Flia: Ainda está muito longe?
Alain: Creio que alguns dias daqui, se considerarmos as nevascas.
O trio retornou para os adolescentes e os avisou sobre o Reator e onde ele estava. Era só eles seguir a fumaça. A jornada estava na metade e ainda havia chão.
Contudo, apesar do forte nublado que fez. Uma nova ventania se aproximou e bateu forte naquela altura. Uma nova nevasca havia acabado de se formar.
Foi muito forte para todos que ali estavam. A comemoração deles cessou imediatamente. Não houve tempo para pensar ou planejar como agir numa hora dessas, mas todos ficaram unidos e formaram como se fosse um monte, para manter o calor de seus corpos, inclusive os irmãos de Riran. Porém, não deu para Riran e os outros se proteger com eficiência, o vento bateu forte e neve começou a atingir Riran, Alain, Suri, Zini e Flia. Aladino estava tentando alcança-los, mas Ariel o manteve no lugar e ficou em sua frente.
Ariel: Você não vai conseguir!
Aladino: Eles estão expostos!
Aladino soltou um pequeno rugido. Tudo ficou branco na sua frente, não conseguindo nem enxergar a um palmo de distância. A neve caiu com o vento, como uma avalanche voadora e o chão cedeu abaixo dos personagens, separando Riran e os guias do grupo do restante dos adolescentes. O chão cedeu de fato
A neve se partiu e todos caíram. Não tinha como Flia voar com segurança, o vento estava muito forte.
Riran: Aaaaaah!
Alain: Não!
Zini: Lá vamos nós!
Suri: AAAAAAAH!
Aladino: Riraaaaaaaaaan!
Tudo ficou branco do ponto de vista dele. A voz de Riran foi sumindo rapidamente e dava a impressão de queda. Ele temeu muito pela sua irmã, sentiu uma pressão bem forte nas pernas, como se ficasse sem chão, mas seus irmãos o mantiveram perto e seguro.
Riran ficou em pé em cima do gelo deslizando montanha abaixo. Era como um surf na neve, porém bem gigante.
Alain: Caramba!
Ele se segurou em Riran. Suri e Zini ficaram em cima dela. Flia abriu as asas e o vento acabou levando ela para outro lugar.
Zini: Flia!
Ela sumiu no branco da tempestade. O gelo foi lançado e bateu em rochas e diferentes inclinidades da montanha, ele ainda tinha consistência e estava firme com as batidas e raspadas na rocha. O gelo enorme em que estavam caiu com tudo em direção ao mar, como se tivessem sido lançado. Eles caíram de uma altura de por volta de 15 ou 20 metros.
Alain: Mantém as pernas bem firmes, Riran!
Disse firme para ela. Ela o fez. Suri ficou disperso. Zini o manteve próximo e firme. Alain quase caiu para fora durante a queda. O gelo se partiu ao meio quando bateu na água e Riran viu a água tomar conta. Ela nadou para cima e em linha reta. Zini e Suri quase não sabiam nadar, então afundaram juntos, mas foram erguidos pelo ser humano.
Zini: Riran...
Ela não tinha visto que eles não haviam se segurado depois que Riran mergulhou. Os 3 subiram nela.
Riran: Ergh....
Ela nadou rápido até a margem. Seu corpo estava muito gélido e ficado mais frio a cada minuto. Ela subiu rápido na margem, não havia muita neve ali. Na mesma hora que ela estava saindo da agua, os 3 resolveram sair de cima dela rápido e procurar se aquecer. Riran começou a andar e correr de um sentido a outro, ela sentia tudo congelando e formigando.
Zini: Hora de testar algumas modalidades de treino!
Ele fez polichinelo, espacate e algumas flexões.
Suri fez uma cara torta e apenas pulou um pouco para esquentar, sendo suficiente, mas nem tanto.
Riran: Não para, não. Continua!
Disse ela, passando por eles. Alain tentou fazer o mesmo, mas sentia realmente um gelo que dava choque, então optou por abrir sua mochila, tirar alguns tecidos, rasgar eles na faca e fazer uma fogueira ali mesmo. Isso demorou. Até lá, Riran já estava aquecida, apenas Suri sentia um pouco ainda de frio.
Não importava mais se todos iriam se aquecer fazendo movimentos rápidos e repetidos. Eles aproveitaram o recurso proveniente da fogueira e lá se aqueceram. O dia ainda estava só começando e Riran já pensava em uma forma ou plano de se reencontrar com o grupo. Flia desceu dos céus e se juntou a eles no fogo.
Zini: Eles viram a fumaça desse seu artefato, Alain.
Ele passou com força a mão nas laterais dos braços.
Zini: Eles vão naquela direção.
Riran: Espero que sim.
Disse, mas sem muita vontade, ela não pensava que realmente iriam seguir aquele caminho.
Alain: Não temos outro caminho que realmente dê para nós encontrarmos, além do próprio local do Reator.
Ele levantou-se.
Suri: E se você fosse e guiasse eles, com a ajuda da Flia?
Alain: Como vocês iriam saber o caminho até lá?
Zini: A Flia pode voar. Você pode falar para ela e ela transmite a mensagem para os outros iguanodontes.
Alain pensou e olhou para a margem daquela praia.
Alain: Sim. Acho que dá... mas a Flia tem que pegar tim-tim por tim-tim. Se bem que, também não teria maneira melhor de aconselhar eles...
Suri: Flia, dá para você voar até lá em cima?
Flia: O vento deve colaborar, agora.
Riran: Vai lá, explica a nossa situação e como iremos fazer a partir de agora e reporta se estão todos bem. Eles ainda precisam de alguém que os guie.
Flia foi lá para cima. Alçou vôo. O bando tinha acabado de se diluir um pouco na paisagem montanhosa, depois de tomar uma surpresa da ventania alguns minutos antes.
Os irmãos foram até Flia. Aladino correu na frente dos outros irmãos. Flia explicou a situação para Aladino, este por sua vez foi falar com Morah, assim estando todos a par da situação e prontos, mais uma vez, para seguir viagem.
O bando seguiu a viagem para fora do pico das montanhas, descendo em direção a grande formação de nuvens negras no horizonte. Aparentemente, já era metade do caminho até lá.
O vale se abria de forma abrupta, como se a própria montanha tivesse sendo rasgada ao meio conforme andavam e o formato branco do gelo ia se revelando. Ali, gigantescas geleiras haviam colidido umas com as outras em tempos diferentes, empurradas por eras de gelo, terremotos e correntes maritimas antigas. Agora, jaziam encalhadas, empilhadas, inclinadas e quebradas, formando um cenário que lembrava uma cidade, com vários picos e colinas de gelo.
Blocos colossais erguiam-se como prédios tombados, alguns apoiados uns nos outros em ângulos impossíveis, outros partidos ao meio, com rachaduras profundas que rangiam constantemente. O vento passava por entre aquelas estruturas de gelo, uivando como se percorresse ruas estreitas e corredores abandonados. Talvez um local perfeito para eles passarem e aproveitarem, mas talvez um local de sombras e morte.
Entre os blocos, havia bolsões de água abaixo, imóveis na superfície, mas vivos por baixo, água profunda e gelada, conectada a canais invisíveis que levavam até o mar interno. Sombras longas deslizavam sob o gelo, grandes demais para serem peixes comuns. O som era abafado, um arrastar distante, quase como respiração. O chão não era firme. Era um mosaico traiçoeiro de gelo polido, neve endurecida e placas ocas que rangiam a cada passo.
Era um lugar que não havia sido feito para vivos.
Poucas eram as conversas e comentários sobre o lugar, no entanto. Estava óbvio que movimentos súbitos ou correria poderia tornar o ambiente muito instável.
Os jovens avançavam em fila irregular, cada um medindo os próprios passos. O frio voltava a morder, misturado à umidade que subia dos bolsões de água.
Riran e os guias estavam mais ou menos na mesma reta, mais para o litoral, estudando o caminho com cuidado, analisando passagens estreitas entre os blocos que também estavam na sua frente.
Morah estava mais ou menos bem centralizada entre os seus seguidores, logo na frente de toda a manada, pensando se seria melhor ela ficar a frente de todos ou ali mesmo, mas sua cabeça a levava a pensar mais no lugar. Ela ergueu a cabeça e olhou para o grupo, todos seguiam atrás dela e dos seguidores fiéis, porém os irmãos de Riran seguiam um pouco deslocados para à direita e para trás dos fiéis, quase como se fossem uma parte satélite do grupo, por serem mais fiéis a Riran e aos valores do pai. Guara estava mais entre os fiéis.
Aladino andava logo na frente de seus irmãos, sendo a sua cabeça e falando por eles na ausência de Riran. O peito estava inflado, cabeça erguida, postura rígida e fingida, mas olhar rápido demais.
Tomor era grande e silencioso, mas Aladino se destacava mais dele. Tomor encarava alguns dos fieis, desconfiado.
A maioria dos irmãos eram semelhantes a Aladar e Neera, no seu melhor.
Alain, Zini e Flia estavam analisando um possível caminho lateral entre duas geleiras partidas, tentando evitar os bolsões de água no meio do caminho de Riran.
Um estalo seco ecoou do lado da líder. Uma pequena placa de gelo cedeu sob o peso de um dos jovens mais novos. Ele oaralisou. Aladino viu de longe conversas acontecendo naquela direção, mas nada que ele pudesse ouvir, ele viu então Morah pisando na frente dele, ele recuou e ela se virou para a Manada.
Morah: Ninguém se mexe. Quem correr ou fizer movimentos bruscos, morre. O gelo está fino daqui para frente.
Ela apontou com a cabeça para o gelo fino, para a surpresa de Aladino, que a vou sendo gentil e conversando com os demais. Ela pisou com gentileza no gelo e foi andando aos poucos em frente, com os demais indo atrás e bem aos poucos, sem correr e sem pisar falso, o gelo rachou um pouco conforme foram passando, mas o resultado dessa prática foi melhor que dá última vez, no lago congelado há quilômetros lá atrás.
Ariel viu algo atrás de seus irmãos. Uma figura batendo cauda e nadadeiras, um animal marinho imenso havia entrado naquele bolsão de água. Não demorou muito para Morah perceber lá do outro lado do bando.
Morah: Pessoal, acelerem um pouco!
Eles apertaram o passo aos poucos, mas não o suficiente para realmente conseguir passar com segurança e evitar que a criatura os alcançasse. Morah viu os irmãos lá atrás e deu um rugido de alerta de predador para os irmãos, cuja metade já estava começando a passar pelo gelo fino e levemente craqueado.
Tomor: Acho que vamos ter que pensar em alguma coisa.
Aladino olhou para um dos blocos enormes de gelo e foi pensando com cuidado, mas uma certa ansiedade tomou conta de seu corpo e ele correu com tudo para a direita. Tomor, Morah e Guara perceberam isso. Ele olhou para o gelo enorme e se ergueu sob duas pernas.
Aladino: Hora do ataque especial, de NOVO!
Ele gritou e bateu com as duas pernas no gelo, usando todo seu peso, com a intenção de quebrar ele. O gelo cedeu para o outro lado, não se despedaçando ou quebrando, mas sendo empurrado, bem na direção do vale em que o gelo flutuava, onde estava fino e grosso em diferentes porções.
Irani: Aladino, sai daí!
Ele disse para seu irmão voltar e Aladino começou a correr. O gelo bateu contra a superfície e rachaduras se formaram e alguns pontos começaram a se quebrar quase que instantaneamente, abrindo inclusive espaço para a criatura poder se mostrar. Morah pulou para cima de uma pedra bem grossa.
Morah: Continuem observando e ajudando os outros a seguirem.
Ela disse para alguns de seus fieis e ficou de olho na metade dos irmãos que estava ficando para trás, que eram Tomor, Concrete e Aladino.
Morah: Andem, seus imprestáveis!
Ela ficou irritada de tanto ficar esperando Aladino correr de volta. Ela ficou de olho no animal e viu que se tratava do Kronossauro de antes, ele conseguiu encontrar um jeito de entrar ali e persegui-los.
Morah: ANDEM LOGO, NÃO FIQUEM AÍ PARADOS!
Reclamou ela.
Concrete: Vê se espera, nosso irmão está tentando ajudar!
Ele respondeu ela.
Morah: Se mostrando, como sempre!?
Aladino: Pera!
O Kronossauro avançou nadando na direção dele, Aladino pisou no gelo fino em que os demais estavam atravessando com cuidado e isso rachou ainda mais o gelo. Tomor viu isso, olhou para o gelo rachado e depois olhou irritado para seu irmão mais velho, sem dizer mais nada. Aladino deu um sorriso envergonhado para ele.
Aladino: Vamos nessa!
Ele começou a correr. Os três irmãos foram correndo um do lado do outro, com o animal marinho pulando para fora tentando abocanhá-los. Morah olhou ao redor, tentando encontrar uma forma de atingir a criatura, mas não tinha nada que podia fazer, até que pensou em um movimento arriscado. Ela pisou no gelo e ele começou a rachar, ela fez alguns movimentos, rachando ele ainda mais, pulou e voltou para a rocha em que estava.
Os três irmãos avançaram lado a lado entre os pedaços de gelo se formando, escorregando, tropeçando, com a água negra se abrindo atrás deles. O Kronossauro começou a nadar em linha reta e abriu a boca enorme, capaz de engolir dois iguanodontes jovens de uma só vez.
Morah desceu e correu até o próximo rochedo alto, enquanto o restante da manada continuava correndo e tentando cruzar o vale.
Geleiras inclinadas, placas finas, rachaduras que serpenteavam sob a neve compactada, a água presa, pressionada por toneladas de gelo, tudo estava sendo atingido pelo craquear do gelo fino.
Morah pisou no gelo e ele começou a rachar. Um estalo seco. Depois outro. Ela deu mais dois passos, pesados, precisos, fazendo a fissura se espalhar como veias abertas. A placa afundou alguns centímetros, rangendo alto demais. Ela saltou para trás, voltando para a rocha firme.
O som ecoou.Tomor foi correndo para a lateral, se separando dos irmãos e parou. Ele virou a cabeça, confuso, tentando entender por que Morah estava ali, tão calma.
O Kronossauro mudou de direção.
Não foi um movimento brusco — foi instinto. O peso deslocou a água e a criatura mergulhou sob a placa fragilizada, avançando direto para o ponto mais instável.
Morah: O gelo vai ceder.
Tomor olhou ao redor, mas ainda não estava entendendo o que ela estava tentando fazer. Sentiu sob as patas a vibração da água se movendo. O gelo rangia, se abrindo em linhas irregulares.
Morah: Se alguém ficar no lugar, irá cair junto!
Ela falou para que todos ouvissem e voltou a correr, indo para a próxima rocha mais alta.
Viu Aladino estava sendo empurrado por Concrete, quase caindo.
Aladino: O Tomor!
Concrete: Anda, Aladino!
Tomor estava preso, Morah conseguiu passar correndo, mas agora o gelo já estava cedendo e o Kronossauro avançava cada vez mais, ali seria um local de água fria em poucos instantes. Morah deixou para lá a idéia de subir em outra pedra e correu com tudo até os seus fieis.
Tomor avançou. Correu em linha reta, pesado, fazendo questão de bater as patas com força suficiente para chamar atenção, uma vez que precisou proteger os irmãos mais para trás. O Kronossauro emergiu com violência, a cabeça rompendo a superfície, as mandíbulas estalando a poucos metros de Aladino, mas a criatura se virou, vendo Tomor correndo e o julgando ser uma presa mais fácil. Aladino e Concrete subiram um rochedo, ficando acima do gelo.
Tomor saltou para a placa mais frágil. O gelo cedeu com um estalo profundo, um som grave, como uma montanha quebrando por dentro. A água subiu violentamente e o Kronossauro investiu de baixo para cima, abrindo a boca para abocanhá-lo.
Tomor: AAAAAAAAAAAAAAAAAAAA-
Foi aí que Morah se moveu.
Ela correu lateralmente, pisando em uma sequência de placas já trincadas, cada passo ampliando a falha estrutural, todas elas estavam ao redor de um bloco de gelo do tamanho do que Aladino havia derrubado. O peso do gelo tombado, somado ao colapso provocado, foi o suficiente para ceder o bloco em uma direção.
O bloco começou a cair na direção do Kronossauro, rochas de cima do bloco caíram, como em um desabamento, quebrando o gelo ao redor de Tomor.
Concrete: TOMOR!
Aladino: IRMÃO!
Tomor rugiu. Aladino e Concrete, que estavam cansados da corrida e pararam para ficar um pouco deitados, ficaram olhando Tomor, esperando ele sair de lá. Tomor foi iluminado pela luz do Sol, que se abrira e finalizava o céu nublado. Tomor sorriu para eles, com paz na expressão.
TUUMMM
A placa inteira ao redor de Tomor foi atingida em cheia pelo paredão branco do rochedo. Gelo e rochas caíram com tudo e a cabeça da criatura foi atingida com tudo por uma quantidade imensa de peso. Água fria foi lançada para todas as direções, dando um banho frio em alguns iguanodontes.
Aladino: NÃÃÃÃO...
Ele gritou, ficando triste e chorando. Ele recuou a cabeça para o lado, para seu irmão mais novo.
Morah observou em pé sobre a rocha, intacta.
O Kronossauro não voltou à superfície. Não houve marca de sangue na água, nem havia sinal de nenhum dos dois. Morah pisou no bloco de gelo enorme que fez tombar e cruzou ele andando, olhando de vez em quando para baixo e checando, mas ela terminou e pulou para a placa de gelo sólida e íntegra, onde estavam seus fieis e os outros irmãos.
Guara observou ela, olhou para ela e não falou nada, ele ficou quieto. Ele se lembra de ter visto Morah pulando de pedra em pedra, se lembra de tê-la visto rachando o gelo de propósito e usando os três irmãos para atrair o Kronossauro para uma cilada. Isso foi uma estratégia calculada.
Morah ergueu a cabeça e inflou o peito, como Aladino sempre fazia.
Morah: Vamos seguir em frente. Vamos dar a volta, para nos encontrarmos com Aladino e os outros irmãos que se desprenderam do grupo. Eles ficaram para trás.
Guara ficou olhando. Ninguém havia visto Tomor, apenas ele e os outros dois irmãos, e ela é claro. Ela nem mencionou Tomor. Sua comemoração foi silenciosa e cheia de orgulho de si mesma.
Concrete consolou seu irmão, encostando sua cabeça na dele. Aladino não conseguiu nem olhar para o bloco de gelo, onde jazia um monstro, mas também seu querido irmão que estava disposto a proteger ele, a irmã na liderança e os demais irmãos a qualquer custo.
Morah continuou andando, mantendo sua altivez e liderança. Ela foi na frente de todos dessa vez e deu a volta para buscar a dupla.
O tombo do bloco remodelou um pouco a paisagem do lado de fora daquele vale de gelo. Riran e os outros acabaram vendo blocos e gelo se mexerem para as laterais e deslizar para o oceano frio e gelado no meio do caminho em que estavam. Era um local instável, mas eles conseguiram passar ele de boa.
Quando Flia voou até o grupo, para ver como eles estavam e recebeu a notícia de que Tomor havia morrido, mas junto com o Kronossauro que levou sua irmã, Konie, ela não disse nada e apenas ficou quieta, deixando que Flia levasse mensagens entre os grupos à vontade.
Naquele fim de tarde, Riran olhou um pouco triste para o horizonte com o por-do-Sol. Na água, ictiossauros e um Leupleurodon saiam da água e retornavam às profundezas, revelando o dinâmico ecossistema marinho em que eles estavam inseridos, perigoso, frio, mortal e acima de tudo, silencioso.
Riran retornou para o grupo, para os amigos de seus pais, que estavam se preparando para dormir e ergueu a cabeça.
Riran: Precisamos fazer alguma coisa.
Ela falou em voz baixa.
Suri: Hmmm?
Ela estava quase cochilando.
Riran: Precisamos fazer alguma coisa!
Ela falou alto e todos se viraram para ela.
Riran: Vocês acham que Morah vai ser realmente uma boa líder?
Ela perguntou a eles.
Flia: Para eles... talvez ela deva significar alguma coisa agora. Tomor morreu, sim... mas o Kronossauro também morreu.
Riran: Não entendi. Meu irmão foi quem matou esse dinossauro aquático.
Alain: Eles... não são dinossauros-
Todos olharam chatos para Alain e ele ficou quieto, revirando os olhos.
Riran: Isso não dá nenhuma moral para Morah, até mesmo não dá moral positiva. Estou querendo dizer que ela não vai ligar se meus irmãos morrerem.
Ela afirmou.
Riran: Eu preciso desafiar ela de novo, se eu quiser assumir a liderança e fazer o que é certo.
Zini: Mas ninguém confia que você consegue liderar sozinha. Você é muito... indecisa para eles, Riran.
Riran: Eu só preciso da ajuda de uma única pessoa...
Ela pensou em Aladino, mesmo contando com a ajuda deles, ela estaria disposta a retomar o comando.
Alain: Acho que isso é mais algo entre você e seu irmão. A cultura da Manada e coisas que o Aladar assume, são coisas que o Aladar assume...
Ele foi preparando seu lugar para dormir. Riran estava decidida. Ela se virou para o horizonte e respirou fundo, desejando que o outro lado estivesse bem.
Da mesma forma que ela observava o por-do-sol, Morah observou o nascer da Lua umas duas horas depois do anoitecer e caminhou até alguns de seus fiéis. Ela deu um empurrão com sua cabeça em um deles. Ele ergueu a cabeça e soltou um rugido para todos acordar. Morah iria fazer eles se mover de madrugada, dessa vez.
Guara olhou para Morah com frieza e raiva, mas seu coração acalmou, se lembrando que Riran estava segura, seu coração se aquietou e ficou quente, era hora de caminhar.
O vento não vinha em rajadas, vinha em muralhas. A neve era lançada lateralmente, cortante, transformando o horizonte em um vazio branco contínuo, com a luz de algumas estrelas brilhando logo no horizonte. O chão alternava entre gelo duro como rocha e mantos de neve fofa que afundavam sob as patas, drenando força a cada passo. Não havia referências. Não havia céu. Apenas o som. Todos eram obrigados a seguir de cabeça baixa, praticamente se curvando para a nevasca.
Era o mesmo para o lado de Riran e dos guias. Flia nem voava, ela seguia a pata, atrás de Riran, que servia como um escudo contra o vento.
Morah seguia à frente. Sua silhueta surgia e desaparecia entre as cortinas de neve, sempre alguns metros adiante, firme e constante. A cada poucos instantes, ela soltava um rugido curto, grave, repetitivo, não um chamado de conforto, mas um sinal de posição.
Aqui.
Continuem.
Não parem.
Era o significado dos rugidos. Aladino mantinha os irmãos próximos, quase colados uns aos outros.
Aladino: Sigam o rugido.
Mesmo assim, o grupo se desfazia e se refazia o tempo todo. Uma rajada mais forte separava dois. Um tropeço atrasava outro. Em alguns momentos, Morah desaparecia por tempo demais. Então vinha o rugido novamente.
Curto.
Controlado.
Irritante.
Dois dias haviam se passado desde que Morah simplesmente partira. Sem aviso. Sem deixar alguém para trás… exceto quem ela quis deixar.
Riran sentia o ódio queimar sob as escanas enquanto avançava com seus guias pelo litoral congelado, forçada a contornar paredões de gelo e mares instáveis, mas a tendência era ela começar a andar por cima do gelo sólido, também. Cada passo atrasado era uma lembrança clara: Morah fizera aquilo de propósito, apesar de alguns pensamentos em Guara intervir sempre e ela acalmar o coração. Ela estava decidida, determinada a enfrentar Morah, mas também ansiosa em rever Guara.
Ela os fizera correr.
Agora, ao finalmente alcançar o deserto nevado — a última barreira antes do Reator — Riran via ao longe as sombras do grupo sendo engolidas pela nevasca.
Morah continuou liderando sem se importar, mesmo com o vento cortando sua garganta, ela ergueu-se e rugiu para que o ultimo dos dinossauros pudesse ouvir. Ela andava, como se estivesse disputando contra Riran em seu próprio passo.
Os guias trocaram olhares rápidos. Sabiam o que vinha. Sabiam que Riran não atravessaria aquele lugar sem tentar retomar o que acreditava ser seu.
A nevasca havia apertado. Um dos mais jovens tropeçou e caiu, rolando alguns metros antes de conseguir se firmar. O rugido de Morah veio logo em seguida, mais próximo desta vez, mais impaciente.
Ela não voltou para ajudar. Apenas esperou.
Morah: Não me façam ter que parar, hein!
Quando o grupo se recompôs, Morah retomou a marcha como se nada tivesse acontecido. Aquilo não passou despercebido. Alguns trocaram olhares inquietos. Outros abaixaram a cabeça, obedientes.
Morah percebeu.
Ela sempre percebia.
E foi então que sentiu — não ouviu, sentiu — o movimento atrás.
Um rugido diferente.
Não constante.
Não orientador.
Desafiador.
Riran surgiu da cortina de neve. Aladino e os irmãos se surpreenderam. Alain, Zini, Suri e Flia surgiram logo atrás. Riran estava com o corpo marcado pela travessia forçada, os olhos fixos em Morah.
O grupo dos irmãos hesitou em continuar. O vento uivava entre elas como se o próprio deserto quisesse ouvir.
Riran: Morah!
Ela gritou pelo nome dela. Morah se virou aos poucos.
Riran: Você nos deixou para trás!
A nevasca desenhava sua silhueta como uma estátua viva, os olhos frios, avaliando não só Riran, mas todos que observavam.
Morah: Eu segui...
Ela falou em voz baixa, olhando para alguns de seus fieis. Riran ficou alguns metros atrás da manada dos iguanodontes, segurando os amigos de seu pai e não indo de encontro aos irmãos.
Aladino: Riran?
Ele a viu, mas ficou na dúvida do porque ela não se aproximava. Era uma questão de política. Um jogo de poder. Riran ergueu o peito e a cabeça.
Guara viu Riran. Ela olhou para ele e seu coração acalmou, ela soltou um sorriso meigo para ele, mas voltou seu olhar para Morah.
Riran: Não tem como eu garantir que vocês não vão seguir ela, meus irmãos e amigos...
Riran riu, curta e amarga, ela não queria ouvir, nem que alguém confirmasse lealdade a ela. Ela queria vencer Morah, ela queria revanche.
Riran: Você não lidera, Morah. Você não vai ter a ajuda que tanto quer, se continuar agindo feito um lixo... corrigindo, o lixo de líder que você é. Eu quero uma revanche.
Ela falou em alto e bom som, para que ela a pudesse ouvir há 20 metros de distância. Sua voz ecoou. Morah deu um passo à frente.
Morah: Liderar é saber quem aguenta caminhar sem segurar a pata de ninguém.
O silêncio que se seguiu foi pesado, ainda mais depois do comentário de Morah. O grupo sentia o conflito se cristalizar ali, no meio do nada, onde não havia abrigo nem retorno.
Suri olhou para o lado e acha ter visto algo triangular subir e desaparecer na neve.
Suri: ?
Aladino prendeu a respiração. Ele sabia. Aquele deserto não era apenas a última barreira geográfica. Era a última prova de quem realmente conduziria o grupo até o Reator — e de quantos ainda estariam vivos quando chegassem lá.
Alain olhou para o chão e o vento parou de soprar em uma direção, revelando que abaixo dele e de todos que estavam atrás de Riran, era gelo finíssimo. Ele conseguiu ver correntes oceânicas e o brilho azulado de algas logo abaixo.
Alain: Gente...
Ele apontou com cuidado para Zini e Flia, deixando que os dois percebessem por si mesmos o que era aquilo.
Morah: Muito bem. Vamos acabar logo com isso!
Ela gritou de longe. O vento mudou com tudo em outra direção e a neve abaixo de Alain acabou soterrando o gelo fino. Morah começou a andar e a correr na direção de Riran, estando disposta a se jogar para cima dela com tudo, para continuar a liderar. Riran se preparou.
Todos do lado de Riran ouviram um som de gelo estalando. Um som bem forte.
Guara: RIRAN, CUIDADO!
Do frio azul nevasco escuro e acinzentado da neve, dentes serrilhados e uma boca enorme se jogou na direção de Riran. Aladino se jogou para cima de sua irmã e desviou ela para trás de ser abocanhada pelo assassino de alguns iguanodontes, o cretoxyrhina gigante. Os irmãos caíram rolando como búfalos no chão gelado, quase esmagando Suri, Zini e Alain no processo.
Morah: Para trás, todo mundo!
Ela parou. A criatura quebrou o gelo e o cedeu, ficando presa com os dentes em uma geleira e se debatendo para se soltar. O seu ataque fragmentou o gelo abaixo da manada.
Ariel: CORRAM, CORRAM, CORRAM!
Ela gritou para todos. Riran, Aladino e os outros foram afastados enquanto em cima de um bloco de gelo enorme flutuando sobre a água bioluminescente, o bloco tomou uma caudada do tubarão gigante.
Todos: Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaahhhh!
Eles foram lançados em um pequeno tsunami para longe dali. A manada debandou para tentar fugir do gelo se fragmentando, mas outros cretoxyrhina, os menores, foram pulando para fora da água. Igual espadartes, eles se lançaram para cima dos iguanodontes e abocanharam mais 5 deles e os levaram para as profundezas geladas, frias e escuras. Concrete foi abocanhado na perna.
Concrete: UUUUUUUUUUUHLLL!
Ele abriu os olhos e rugiu de dor. Ariel e Noé retornaram para ajudar ele, ambos desceram uma caudada na cara do tubarão, o soltando de volta para a água e liberando Concrete, que correu pulando atrás dos irmãos, com sua perna machucada.
Morah: Não parem!!
Aladino, Riran, Alain, Suri, Zini e Flia se perderam no meio da escuridão.
O Éden não era mais verde.
Colunas de fumaça subiam entre as árvores carbonizadas, carregando cinzas que se depositavam sobre folhas, ovos e corpos como uma neve escura. O brilho laranja da lava refletia nos rostos da manada, iluminando olhos cansados, assustados e furiosos.
O cheiro de queimado era constante. A comida começava a faltar.
Territórios inteiros haviam sido engolidos. Áreas antes férteis agora eram apenas rocha quente e rios incandescentes avançando lentamente, sem pressa, como se soubessem que venceriam no fim.
A morte de Eema ainda pairava no ar quando a multidão começou a se formar. Não era um ajuntamento comum, era pressão.
Maverick chegou até Aladar, Neera, o Velho Gotama e Gargantuan com o corpo inclinado, a voz baixa, mas urgente.
Maverick: Eles estão se juntando. Estão exigindo uma resposta. Querem saber o que vai ser feito… agora.
Ele disse com medo e olhou para fora das aberturas da caverna. Outros mensageiros confirmavam o mesmo. A notícia corria rápido, inflamada pela fumaça e pelo medo. Alguns já gritavam nomes. Outros culpavam decisões antigas. Alguns apontavam diretamente para os líderes.
Enquanto isso, Baylene jazia no chão. Deitada de lado, respirando com dificuldade, a pata em ferida exposta. A queimadura havia escurecido de forma irregular; a carne ao redor estava negra, rígida — necrose. E, entre a pele morta e o tecido vivo, algo crescia. Um fungo esbranquiçado com veios acinzentados, brotando da carne aberta como se o próprio ferimento tivesse criado um novo ecossistema.
Baylene: Aaaaaagh!
Ela rugiu de dor e tossiu logo em seguida.
Plio estava ajoelhado ao lado dela, as mãos manchadas da seiva da antiga planta-ilhoa. Restavam apenas algumas folhas murchas.
Plio: É tudo que eu tenho…
Murmurou, mais para si mesmo do que para os outros. Livia observava em silêncio, o olhar experiente, mas pesado.
Livia: Mesmo que o tratamento estivesse correto…
Ela disse por fim, com cuidado.
Livia: A idade dela joga contra. O corpo não responde mais como antes.
Url estava imóvel, tentando fazer Baylene levantar com algumas empurradas de cabeça apenas, mas ela já nem respondia a isso mais.
Zini Jr. mantinha a cabeça baixa. Nattasha respirava fundo, tentando não chorar. Mira segurava a própria cauda com força, a esposa de Gargantuan permanecia próxima, sem palavras.
Alguns líderes secundários murmuravam entre si, inquietos.
Neera avançou quando os gritos da multidão aumentaram. Subiu em uma elevação de rocha ainda segura e falou.
Falou sobre união.
Sobre paciência.
Sobre o Éden já ter sobrevivido antes. Mas as palavras não seguraram a raiva. A multidão respondeu com vozes elevadas, acusações, desconfiança. Não avançaram — ainda —, mas a mensagem era clara: A fé estava rachando.
Aos poucos, porém, o cansaço venceu o ímpeto. As famílias começaram a se dispersar, levando consigo mais medo do que respostas.
Quando o espaço ficou mais silencioso, Baylene chamou Aladar com um gesto fraco.
Ele se aproximou imediatamente, abaixando-se ao lado dela.
Ela sorriu — um sorriso cansado, quase infantil.
Aladar: Baylene! Estou aqui!
Baylene: Diga… diga à sua filha...
A voz falhou, mas ela insistiu.
Baylene: ... que sinto muito.
Isso percorreu a espinha de Aladar como um medo bem forte.
Baylene: Aos seus filhos…
Baylene piscou forte e continuou.
Baylene: E a todos os jovens… enviados nessa missão…
Plio tentou interromper, mas Livia fez um gesto sutil para que deixasse. Neera e os outros estavam chorando em silêncio.
Baylene: Espero…
Respirou fundo.
Baylene: Que eles tenham êxito. Que… não estejam em perigo agora...
Seus olhos vagaram pelo grupo, como se tentassem enxergar além da fumaça, além do Éden.
Baylene: Que se cuidem…
Murmurou.
Baylene: Porque… as coisas… não serão mais tão fá-
A frase se partiu. As pupilas dilataram de repente. O peito desceu e paralisou. Plio encostou a mão no pescoço dela. Não precisou dizer nada. Seus olhos permaneceram abertos. Url fechou os olhos. Zini Jr. virou o rosto. Nattasha soluçou, sem conseguir conter.
Mira abaixou a cabeça. Aladar permaneceu imóvel por alguns segundos, como se o corpo tivesse esquecido como reagir.
Aladar: Baylene... não...
Ele chorou e se aproximou dela, descendo o corpo para dar um abraço nela. Plio fechou seus olhos e abaixou a cabeça, lamentando os mortos de causas naturais nos últimos tempos e segurando firme em seu ventre.
O Éden havia perdido mais uma anciã. E os líderes entenderam, naquele instante, que não era apenas a lava que avançava.
A praia surgiu abaixo deles como uma língua escura de pedra e gelo, lambida por uma água negra e imóvel demais para ser confortável. O rochedo gelado terminava ali, quebrado em degraus naturais por onde os outros já haviam descido com cautela.
Aladino foi um dos primeiros a tocar o solo, cravando as patas para garantir firmeza. Riran veio logo depois, o corpo rígido, a mente ainda distante. Quando os irmãos finalmente ficaram lado a lado outra vez, a tensão não demorou a aparecer.
Aladino: Se você não tivesse se separado…
Aladino começou, baixo, controlado.
Riran: Se você tivesse me escutado.
Riran devolveu, sem olhar para ele. As palavras ficaram ali, suspensas, frias demais para avançar. Nenhum dos dois tinha forças para continuar aquela discussão. Não agora. Não ali.
Alain tomou a dianteira, orientando o caminho pelo deserto gelado que se estendia além da praia. A areia era dura como rocha. À frente, apenas escuridão.
O céu estava estranho. Algumas estrelas ainda conseguiam furar a cobertura de nuvens, mas eram poucas, fracas. Grandes massas negras se arrastavam lentamente, pesadas, como se estivessem sendo puxadas por algo invisível. Ao longe, uma luz amarela intensa pulsava, forte demais para ser natural.
Alain: Estamos… perto. Nunca estivemos tão perto assim. Talvez a correnteza tenha ajudado. Literalmente.
Zini soltou um meio-riso nervoso, enquanto pulava junto deles.
Zini: Se isso for o tal “show de luzes” do Reator, eu esperava algo mais… constante.
Suri subiu nas costas de Riran, tentando ganhar altura.
Suri: Eu não tô vendo nada…
Murmurou.
Suri: Sumiu.
E realmente havia sumido o brilho amarelo. A luz amarela foi engolida. Não apagada — cessada. Como se algo enorme, denso e pesado tivesse passado à frente dela e decidido ficar ali.
Alain franziu o cenho.
Alain: Não faz sentido…
Murmurou.
Alain: Deveria haver mais luz. Alguma coisa… ali na frente...
Ele deu mais um passo. O chão simplesmente não estava lá. Alain sentiu o corpo pender ao vazio, o estômago subir, o ar desaparecer. Um abismo se abria logo à frente, profundo demais para ver o fundo.
Antes que pudesse gritar, Aladino cravou os dentes na mochila de Alain e puxou com força, arrastando-o de volta para terreno sólido.
Aladino: Você quase morreu!
Rosnou Aladino, depois de quase ver Alain se deixar levar pela cabeça avoada dele. Alain demorou alguns segundos para responder.
Alain: Aquilo…
Ele disse por fim O silêncio voltou a pesar.
Foi então que a discussão estourou de vez.
Fale com o autor