Dinossauro 4: A Terra Bola de Neve
5 Ato IV
Notas iniciais
Aladino: Tudo isso por causa dessa ideia maluca de esperança!
Disparou para Riran, a voz quebrada.
Riran: É, fé não impede abismos!
Aladino: Nosso pai nos mandou pra cá com promessas! E olha onde estamos!
Ele ficou zangado, parecia estar desabafando.
Zini avançou um passo, o corpo maior impondo respeito imediato.
Zini: Chega!
A voz dele ecoou firme.
Zini: Vocês estão falando do Aladar como se ele fosse um estranho. Ele é o PAI de vocês. E fez o que achava certo… como qualquer líder de verdade.
Houve um silêncio desconfortável.
Suri se inclinou até o ouvido de Riran.
Suri: A gente já perdeu demais.
Disse baixinho.
Suri: Não é aqui que a gente desiste. Nem começa a duvidar de tudo. Se Aladar acreditou… então alguma coisa ainda vale a pena.
Riran fechou os olhos por um instante. Quando abriu, havia menos gelo e mais decisão neles.
Riran: Legal. Agora parece que há menos gelo aqui e mais decisão na gente.
Alain respirou fundo e puxou um sinalizador da mochila.
Alain: Luz convencional não tá funcionando direito… mas vamos tentar.
Ele atirou.
A flare acendeu por um segundo — e falhou, morrendo no ar como uma estrela cansada.
Alain: Droga.
Segundo disparo.
O vento agarrou a luz e a arremessou para longe, engolida pela escuridão lateral. Alain ficou sério. Olhou para o último cartucho.
Alain: Certo… Não vai ser tão fácil... Aladino, vou precisar de uma ajuda... rápido!
Alain subiu em Aladino, apontou para cima e mirou.
Alain: Flia. Quando eu atirar… grita.
Flia entendeu na hora. Abriu as asas, inflou o peito. O disparo ecoou quando ele atirou pela última vez. O tiro luminoso cortou o céu como uma ferida aberta na tempestade.
Flia lançou-se atrás dele, as asas antigas rangendo sob o peso dos anos e da nevasca que a empurrava para trás. Cada batida era uma luta contra o tempo, contra o frio que mordia as articulações, contra o vento que uivava como se quisesse arrancá-la do ar. Ainda assim, ela avançou.
No ponto exato em que o vento ameaçou virar o tiro contra eles, Flia abriu o bico.
O grito sônico explodiu.
IIIIIIHHHHHHHHHHH
O som não foi apenas ouvido — foi sentido. Ele rasgou o ar, empurrou a flare, dobrou a corrente de vento à força e lançou a luz laranja-avermelhada na direção que Alain havia calculado, como se o próprio céu tivesse obedecido àquele comando final.
Flia então abriu as asas por completo e caiu, planando em círculos largos, exausta, mas firme, até pousar novamente junto ao grupo. O silêncio que se seguiu foi absoluto.
O vento levou o tiro na direção desejada, também.
Alain permaneceu imóvel, os olhos fixos no ponto onde a luz havia desaparecido. Riran, Aladino, Suri, Zini, todos seguravam a respiração, como se qualquer som pudesse quebrar o momento.
Então veio o trovão.
Não um trovão comum, mas vários, simultâneos, reverberando de dentro de uma nuvem negra que subia para o céu como a coluna de um vulcão. A luz da flare refletiu em algo impossível — metal.
Gigantescas placas metálicas emergiram da escuridão, refletindo o brilho com uma frieza antinatural. No mesmo instante, as nuvens começaram a se rasgar, empurradas para os lados por uma força invisível. Raios dourados romperam o céu e o Sol se revelou ali mesmo, iluminando tudo de uma vez e que já era de manhã. Nuvens de tempestade foram empurradas para o lado e o brilho do vulcão iluminou, toda a luz veio, de uma vez só.
Eles viram.
Uma cratera colossal de gelo se estendia diante deles, vasta como um mundo próprio. No centro, erguia-se o Reator Nuclear — imenso, antigo, monumental, uma estrutura que não parecia ter sido construída, mas imposta à Terra. Torres metálicas emergiam como montanhas artificiais, envoltas por vapor quente e luzes pulsantes que brilhavam em tons de âmbar, azul e branco, como o coração de uma estrela aprisionada.
Reações nucleares cintilavam em seu núcleo, ritmadas, vivas.
O calor irradiava de tal forma que o vento e a neve eram expulsos da região, lançados para longe em redemoinhos.
Alain finalmente abaixou a arma. Sua voz saiu rouca, quase inexistente, como se falar alto demais fosse profanar o que viam.
Alain: O… Reator... Nuclear.
Ninguém respondeu.
Riran sentiu as pernas tremerem. Aladino ficou imóvel, pequeno diante daquilo. Suri apertou as garras contra o pescoço de Riran. Zini engoliu em seco. Até o vento parecia ter se curvado.
Ali, diante deles, estava a chave para salvar o mundo dos dinossauros.
Um ecossistema havia nascido ali.
Não era apenas uma construção de metal perdida no gelo, havia dobrado a própria natureza ao seu redor. A grande cratera que o envolvia pulsava como um coração quente no meio do mundo congelado. Das paredes de gelo escorria água líquida, formando corredeiras vivas que serpenteavam em direção ao centro da bacia, cantando contra a rocha.
Esses rios alimentavam poças profundas e piscinas naturais, onde peixes de água salgada nadavam em cardumes densos, refletindo o brilho dourado do Sol recém-liberto e das luzes do Reator. Vapor subia constantemente da superfície da água, criando uma névoa quente que contrastava violentamente com a nevasca que rugia do lado de fora da cratera.
No céu, pássaros e répteis aéreos descreviam círculos largos. Alguns mergulhavam com precisão cirúrgica, emergindo com peixes nas garras; outros pousavam em saliências metálicas, tubos e formações de gelo derretido, onde haviam construído ninhos improvisados. A vida não apenas resistira ali — ela prosperara.
O vento, que no deserto ao redor era mortal, era empurrado para longe pela massa de calor que emanava do artefato. A neve jamais tocava o solo da cratera; era lançada para os lados, varrida como cinzas leves diante de uma fogueira ancestral. Onde antes só deveria haver gelo eterno, brotavam manchas verdes: musgos, folhas largas, raízes se agarrando à rocha úmida, absorvendo calor, luz e esperança.
Era um mundo à parte. Um santuário. Um desafio direto à extinção.
Diante daquela visão, os jovens compreenderam algo que ninguém precisou dizer em voz alta: o Reator não era apenas o fim da jornada — era o ponto de ruptura entre o que o mundo havia sido… e o que ele ainda poderia se tornar.
O Reator atingiu o solo matriz e não afundou muito, assim seria fácil amarrar algum tipo de corda ou corrente aos iguanodontes e fazer eles puxarem o reator nuclear até o Eden, bastaria seguir pelo litoral em direção ao Norte, de volta para casa. Flia aproveitou para buscar um pouco de alimento, os irmãos para buscar algum mato para comer, para descansar no geral. Alain entrou no reator depois de dizer que ia demorar e foi mexer em seu comando. Alain ligou o comunicador com a estação orbital, demorou um pouco para ele obter sinal de Tenente Steel, mas ele conseguiu finalmente.
O comunicador estalou, chiou, perdeu o sinal duas vezes… e então uma voz cansada, metálica, atravessou o ruído.
Steel:…Alain? Se estiver me ouvindo, confirme.
Alain soltou o ar que nem percebeu que estava prendendo.
Alain:Aqui é o Alain. Eu consegui, Steel. O Reator está em superfície. Estou com os jovens… estamos vivos.
Houve um silêncio longo demais do outro lado. Quando Steel respondeu, sua voz estava diferente — mais baixa, menos militar.
Steel:Então você chegou mesmo lá… Bom trabalho, garoto. Não achei que veria isso acontecer.
Alain apoiou a mão no painel interno do Reator, sentindo o calor constante vibrar sob seus dedos.
Alain: Ele não afundou. Atingiu o solo matriz. Dá pra mover. Se conseguirmos amarrar correntes nos iguanodontes, dá pra puxar pelo litoral norte. Até o Éden.
Do outro lado, Steel respirou fundo.
Steel:A logística fica contiigo. Eu e os poucos que sobraram. Ajuda humana direta é impossível agora — a tempestade magnética está piorando, e… Há outra coisa que você precisa saber.
Alain franziu a testa.
Alain: Fala.
O tenente parecia guardar um segredo. Ele respirou fundo do outro lado.
Steel: Com o Reator em superfície, vocês ficam expostos. Sem energia plena, não temos como sustentar campos defensivos… nem abrir muitos portais. Se humanos do século XXXIII resolverem interferir… não tem como lutar.
Alain fechou os olhos por um instante.
Steel: Esse Reator era mais do que um estabilizador climático. Era uma arma. Um escudo. Um ponto de controle temporal. A versão final dele pode demorar muito tempo para ficar pronta... tivemos que usar esse protótipo.
Alain abriu os olhos de novo, firmes.
Alain: Isso não importa, Steel.
O silêncio voltou, pesado.
Alain: O que importa é impedir a Era do Gelo. O que importa é garantir que exista um mundo amanhã. Mesmo que fique tudo difícil depois...
Do outro lado, Steel não respondeu de imediato. Quando falou, sua voz estava rouca.
Steel: Você tem certeza do que está fazendo?
Alain olhou através da abertura do Reator. Viu Riran ao longe, imóvel, observando o vale vivo. Viu Aladino conversando baixo. Viu Flia pousar, cansada, mas viva. E não viu medo — viu pertencimento.
Alain:Pela primeira vez… absoluta.
Steel soltou um meio-riso sem humor.
Steel: Então faça valer. Porque, Alain… depois disso, não há retorno.
Alain: Eu sei.
O sinal começou a falhar.
Steel: Cuide deles. Esse mundo… já escolheu você.
O comunicador morreu em um chiado seco.
Alain permaneceu parado por alguns segundos, encarando o reflexo do próprio rosto no metal quente do painel. Foi então que percebeu — não estava sozinho.
Suri estava ali, parado perto da entrada, olhos arregalados, cauda imóvel. Ele tinha ouvido tudo. Alain fechou os olhos uma última vez… e então desligou os sistemas internos do Reator.
Alain saiu do interior do Reator alguns minutos depois.
A porta metálica se fechou atrás dele com um eco grave, como se o próprio artefato respirasse. O calor que emanava da estrutura fazia o ar ondular e a neve ao redor continuava recuando lentamente, rangendo, derretendo, cedendo à presença daquela coisa impossível.
Ele caminhou até um painel externo, puxou um módulo lateral e começou a mexer em teclas, alavancas e símbolos luminosos que nenhum dos dinossauros entendia. O edifício inteiro pareceu responder: Travas internas se ajustaram, anéis estruturais se rearranjaram e enormes ganchos de ancoragem começaram a surgir das laterais do Reator, cravando-se no gelo e na rocha abaixo.
Alain: Pronto…
Alain murmurou.
Alain: Agora dá pra puxar.
Foi então que Aladino, Riran e os outros se aproximaram mais. Aladino inclinou a cabeça, encarando aquela construção colossal, ainda desconfiado.
Aladino: Foi… foi o seu povo que fez isso?
Alain não hesitou.
Alain: Foi.
O silêncio que se seguiu não foi de choque imediato, mas de tentativa de compreensão. Flia fechou levemente as asas. Zini coçou o chão com a pata, pensativo. Riran permaneceu imóvel, olhos fixos no Reator.
Riran: Isso é… vivo?
Alain soltou um meio-sorriso cansado.
Alain: Não como vocês. Mas ele carrega o que restou de nós.
Ele voltou a mexer no painel, falando agora não como cientista ou emissário — mas como alguém que finalmente estava cansado de guardar tudo, pois talvez o tempo estivesse em cima deles.
Alain: Vocês chamam isso aqui de bacia, não chamam?
Zini inclinou a cabeça.
Zini: Sim... sempre. Nenhuma mudança na língua ainda, amigo.
Ele sorriu e cruzou os braços.
Alain negou com a cabeça.
Alain: Não é. Isso aqui é uma cratera.
Ele parou de digitar e bateu levemente a mão no metal quente, aí então ele continuou.
Alain: Esse lugar não nasceu assim. Assim como o Reator… ele caiu do céu.
Riran sentiu um arrepio percorrer-lhe o dorso.
Riran: Como... assim?
Alain: De muito, muito longe.
Ele levantou os olhos para eles, mas foi só por um segundo, ele voltou logo a trabalhar.
Alain: Assim como o asteroide que destruiu a ilha dos lêmures. A mesma ilha onde Aladar nasceu...
Suri se encolheu instintivamente. Flia respirou fundo.
Alain: Nada disso é coincidência. O Reator não nasceu aqui. E eu também não, como muito bem sabem.
Ele respirou fundo, como se finalmente aceitasse dizer aquilo em voz alta. Ele deu uma parada e continuou.
Alain: Minha espécie… não é desse mundo.
Não em gritos ou medo — mas em silêncio absoluto.
Alain: O nosso mundo morreu. E o que restou de nós insiste em fingir que ainda pode ser salvo.
Ele fechou os olhos por um instante.
Alain: Tentamos proteger a comida. Tentamos proteger a água. Tentamos proteger abrigo, território… mas você não protege o que já foi perdido.
Ele abriu os olhos e encarou o horizonte vivo ao redor do Reator — água correndo, plantas crescendo, aves pousando.
Alain: Eu, Livia e nosso amigo Steel sabemos disso.
Ele virou-se para eles, terminando o que estava fazendo.
Alain: A última esperança da minha espécie é o mundo dos dinossauros.
Riran sentiu o peito apertar, pois eles estavam na mesma situação.
Alain: Um mundo que ainda tem a capacidade de saber cuidar uns dos outros.
Aladino deu um passo à frente, curioso apesar de tudo.
Aladino: E… como vocês conseguiram fazer isso?
Alain parou. Olhou para ele. Depois para Riran. E então sorriu — um sorriso verdadeiro, quase juvenil.
Alain: Vocês acham mesmo que só dinossauros conseguem fazer coisas extraordinárias?
Ele se animou, gesticulando com as mãos enquanto falava.
Alain: Até conseguir falar com vocês foi um trabalho da minha espécie. Mudamos a nós mesmos... a nossa natureza...
Zini arregalou os olhos, isso pareceu simples, mas bem misterioso para ele.
Alain: Reprogramamos linguagem, percepção, empatia. Aprendemos a ouvir vocês... na verdade, é mais como ouvir a natureza de vários anos no passado.
Ele deu uma risada curta, fazendo mais alguns serviços extras.
Alain: E, sinceramente… foi uma surpresa descobrir o quão conscientes vocês são.
Ele olhou para Riran, depois para Aladino.
Alain: Tão inteligentes, tão complexos. Em muitos aspectos, os herbívoros são até mais do que os predadores. Acho que vocês são mais empáticos e é isso que tornam vocês tão mais inteligentes.
Flia abaixou a cabeça, emocionada.
Alain: Eu e meus amigos aprendemos muito com Aladar nesses últimos quase vinte anos.
Ele desligou o painel externo e deu um passo para trás, observando o Reator, agora pronto para ser movido.
Alain: E agora… chega de papo, jovens. Vamos salvar o nosso mundo!
O vento quente soprou do vale. A neve se afastou mais um pouco.
O vento cortava o vale quando a decisão foi tomada.
Riran respirou fundo, olhando para o horizonte branco onde a nevasca ainda se movia como um organismo vivo.
Riran: A manada não chegou.
Ela disse, a voz firme apesar do cansaço.
Riran: Eles devem estar perdidos. Eu vou atrás deles!
Aladino ficou imediatamente com medo de sua irmã ir sozinha e se virou para ela, mostrando sua cara de medo. Riran viu o medo em seu irmão.
Aladino: Mas, Riran... ela te derrotou em combate. Não pode ir sozinha! Se você falhar, todos os dinossauros restantes desse mundo irão morrer.
Antes que respondesse, sombras se moveram ao redor.
Zini aproximou-se primeiro. Depois Suri subiu em seu ombro. Flia abriu levemente as asas, bloqueando o caminho. Aladino ficou ao lado da irmã, sem dizer nada, mas com o corpo inteiro dizendo não.
Alain observou a cena em silêncio.
Alain: Eu fico aqui. O Reator precisa de alguém que saiba operar se algo der errado. Mas vocês dois…
Ele olhou para Aladino e Flia
Alain: São imprescindíveis lá fora.
Zini assentiu.
Zini: Se eles estão perdidos, não vão sobreviver sozinhos.
Suri apertou o pescoço de Riran.
Suri: A gente vai junto dessa vez, hein? Priminha.
Riran: Sim, sim. Pode deixar...
E assim, sem cerimônia, o quarteto se formou: Riran, Aladino, Zini e Suri, escoltados por Flia até onde o vento permitia. Depois disso, apenas neve, silêncio e instinto.
Eles encontraram os jovens remanescentes mais rápido do que o esperado. E foi chocante.
Morah caminhava à frente do grupo… mas não liderava. Andava em círculos, repetindo trajetos, rugindo ordens vagas que não levavam a lugar nenhum. Os adolescentes estavam exaustos, confusos, alguns feridos, outros simplesmente parados, esperando que alguém dissesse o que fazer.
Foi quando um rugido ecoou pelo vale.
Riran e Aladino surgiram no alto de uma duna de neve, silhuetas firmes contra o branco infinito. Os jovens responderam quase por reflexo — um misto de alívio e incredulidade.
Riran: Nós sabemos o caminho!
Riran disse, quando se aproximaram.
Riran: O Reator está seguro. Não há mais obstáculos até lá.
O murmúrio se espalhou pelo grupo. Os irmãos correram até eles e checaram se estavam bem.
Então Guara avançou.
Não disse nada. Apenas parou diante de Riran. Os dois se olharam por um instante que pareceu suspender o mundo. Os irmãos deram licença para isso, para a coorte. Depois, tocaram os focinhos, as testas, os flancos — um gesto simples, íntimo, carregado de tudo o que não precisavam dizer. Amor, culpa, sobrevivência.
Foi quando Morah viu. Ela se aproximou lentamente, um sorriso torto no rosto.
Morah: Que bonito…
Disse, com falsa leveza.
Morah: Realmente impressionante o trabalho de vocês.
Ela caminhou entre os irmãos, medindo-os com o olhar.
Morah: Então é isso? Vocês acham o Reator… e agora querem que todos sigam vocês?
Ela parou diante de Riran.
Riran: Vamos voltar ao Éden sob minha liderança. Sem desafios. Sem questionamentos. E eu quero sua promessa.
O ar ficou pesado. Morah inclinou a cabeça, os olhos frios.
Morah: Afinal… nós estávamos no meio de um combate.
Antes que alguém reagisse, ela avançou. A cabeçada atingiu Riran em cheio. O impacto foi brutal. Riran abaixou a cabeça e a cauda, como se perdesse a consciência por um segundo, e capotou. Com Zini e Suri ainda sobre ela! O corpo pesado bateu contra o gelo. Houve um estalo seco — a perna de Zini quebrou. Suri gritou quando ficou prensada sob o peso da queda.
Zini e Suri: AaaaaaaAAAAAAAAAAAAAARGH!
Zini arregalou os olhos, de tanta dor.
Zini: AAAAAAAAAAAAAARRRRRRRRRRGHHHHH!
Morah ergueu as patas dianteiras, preparando-se para esmagar Riran — o gesto ritual que a própria Riran evocara dias antes.
Morah: Isso termina agora!
Morah semicerrou os olhos, olhou para Riran e rosnou.
Aladino: NÃO!
Aladino gritou. Ele se lançou como um projétil. A cabeçada foi tão violenta que Morah perdeu o chão. Seu corpo rolou, descontrolado, descendo a encosta íngreme. Os fiéis tentaram alcançá-la, mas o gelo cedeu sob seus pés.
Morah caiu logo depois que bateu em uma plataforma de gelo, no abismo.
O precipício engoliu sua silhueta, deixando apenas um urro longo, desesperado, que se perdeu no vento.
Depois, apenas o som da neve assentando. Os irmãos correram até Riran. Guara ajudou-a a se levantar.
Suri: Ora, Aladino- eeergh! Finalmente usou sua ansiedade para alguma coisa... aaargh!
Disse sorrindo, entre dores. Zini estava no chão, respirando com dificuldade, a perna num ângulo impossível, Suri ajudou o irmão a se levantar em Riran.
Concrete avançou, a voz grave e cansada.
Concrete: Chega. Chega de rixas. Chega de liderança cega!
Ele olhou para todos.
Concrete: O Reator é maior do que qualquer um de nós.
Guara assentiu.
Guara: Concordo.
Os que haviam seguido Morah baixaram a cabeça. Um a um, concordaram. Sem discursos. Sem coroações. Apenas necessidade.
No vale, eles descansaram. Cuidaram de Zini. Prepararam correntes, cordas, suportes improvisados. Um por um, todos os iguanodontes sobreviventes foram presos ao Reator, formando uma única força.
Riran e Aladino ficaram à frente.
Riran e Aladino: JUNTOS!
Eles rugiram. O coro respondeu. O Reator começou a se mover.
Os dinossauros puxavam o grande reator nuclear havia quilômetros. As correntes rangiam, as patas afundavam na neve endurecida e ainda assim o edifício metálico avançava, centímetro por centímetro, como se o próprio mundo tivesse decidido se mover.
Do alto do reator, Alain observava, em pé na borda, o que jamais fora registrado na história da humanidade: Dinossauros arrastando uma máquina criada para salvar o planeta. O vento gelado cortava seu rosto, mas ele não se mexia. Aquilo era maior do que qualquer vitória humana.
Lá embaixo, Riran fazia força, os músculos tensionados, a respiração pesada. Em um momento de exaustão, ela ergueu a cabeça — e então viu. As auroras austrais rasgavam o céu do planeta Terra, dançando em verdes e violetas sobre as nuvens que antes encobriam tudo. O frio parecia suspenso, como se o próprio céu estivesse assistindo àquela marcha impossível.
Guara também olhou para cima. A luz refletiu diretamente em seus olhos, fria e hipnótica, como se algo antigo e profundo tocasse sua mente. Por um instante, ele esqueceu o peso, o medo, a guerra. Havia apenas aquele brilho — e Riran.
Quando a noite se impôs de vez, o grupo fez uma pausa. Precisavam dormir. O silêncio voltou a dominar o litoral.
Em algum ponto da madrugada, Riran despertou, inquieta. Levantou-se e foi até um ponto mais afastado para beber água. O reflexo das auroras tremulava na superfície escura.
Ela não percebeu Guara se aproximando de imediato.
Riran: Está mesmo acabando…
Disse ela, com um sorriso cansado, mas sincero.
Guara parou ao seu lado.
Guara: Ou está prestes a começar o pânico final.
Respondeu em voz baixa.
Guara: E talvez… depois disso… venha a paz.
Ele se aproximou mais, o tom íntimo, quase um sussurro. Encostou a cabeça na dela, num gesto lento, cuidadoso. Riran murmurou um “para”, sem firmeza, mais surpresa do que recusa. Ele não se afastou. Houve apenas o contato, a troca de calor em meio ao frio absoluto. As escamas de dinossauro se roçaram, os movimentos foram instintivos, como se buscassem conforto um no outro antes do inevitável. Riran ergueu o olhar e viu, refletida nos olhos de Guara, a dança das auroras — e sentiu o corpo relaxar, entregando-se ao momento. Pequenos sons escaparam de sua garganta, misto de alívio, prazer e medo contido.
Por alguns segundos, o mundo pareceu distante.
E então, ao longe, o mar se moveu. O rugido do mar engoliu a noite.
A água explodiu contra o litoral como uma muralha viva, negra, pesada e o chão tremeu sob as patas dos iguanodontes. O instante de quietude se despedaçou. Suri e Zini foram lançados para trás enquanto dormiam pela correnteza.
Zini: ZZZZZZZZ- Gló-gló-gló-gló!
Ele ergueu a cabeça para fora da água. Sons de sirene começaram a tocar, vindo diretos do reator nuclear.
Tubarões Ginsu menores saltavam em arcos violentos, bocas serrilhadas rasgando carne e couro. Um iguanodonte caiu, urrando, outro conseguiu se soltar por pouco. O pânico se espalhou como fogo seco. No alto do reator, Alain não hesitou.
Alain: Emergência máxima!
Gritou, acionando os controles. Os holofotes se abriram, varrendo o litoral com fachos brancos e azuis. A água ferveu sob a luz. Sombras se contorciam. Dentes. Caudas. Olhos refletindo o brilho artificial.
Foi então que omar se abriu. Uma silhueta colossal deslizou sob a superfície, lenta demais para ser um Ginsu, grande demais para ser qualquer coisa conhecida. A água parecia se curvar à sua passagem.
Riran parou, o peito subindo e descendo com força. Guara ficou imóvel. Na beirada do litoral, parcialmente fora d’água, o megalodonte surgiu.
Flia já cortava o céu em círculos, rasgando o vento, gritando alertas. Zini e Suri, feridos mas firmes, observavam de um ponto elevado, presas ao reator, entendendo o que aquilo significava. Concrete se colocou à frente da manada, mancando, mas sólido.
Concrete: Se ele passar daqui… o reator não chega ao Éden!
Riran avançou um passo, lado a lado com Guara. Eles não trocaram palavras. Não precisavam. Atrás deles, dinossauros feridos, exaustos — mas vivos. Acima deles, um reator nuclear puxado pela última esperança da Terra congelada. À frente, o senhor absoluto dos mares nadava e cercava eles. Os irmãos corriam de um lado para o outro, pulando e nadando, tirando os peixes com cabeçadas e caudadas, mas sem muito rumo, sem saber muito o que fazer. Riran olhou para os lados. Aladino subiu em uma pedra e Riran também.
Zini ergueu a voz acima do caos, rasgando o ar salgado e gelado da noite.
Zini: FLIA!
Gritou, apontando para o alto.
Zini: É como foi com o Carnotaur e com Kinet! Precisamos de uma armadilha!
Flia descreveu um arco no céu tempestuoso, as asas lutando contra rajadas violentas. A resposta veio em eco, misturada ao uivo do vento:
Flia: Que armadilha?!
A pergunta mal terminou quando a água explodiu abaixo dela. Um dos tubarões Ginsu menores saltou para fora do mar como uma lâmina viva, a boca aberta, dentes serrilhados refletindo os holofotes do reator. Flia subiu bruscamente, escapando por um triz, o coração disparado.
Do alto da estrutura metálica, Alain gritou, a voz dura, sem ilusão alguma.
Alain: Não tem armadilhas prontas aqui!
Ele gesticulou para o litoral devastado.
Alain: Vamos ter que improvisar… ou morrer tentando!
Foi então que Aladino avançou. Sem pedir permissão, sem olhar para trás.
Ele mergulhou, nadando para além da arrebentação, indo direto ao território do maior deles — ogigante deformado pelo gigantismo, o megalodonte da época dos dinossauros. A água ao redor parecia mais escura, mais densa, como se o próprio oceano recuasse diante daquela massa viva. Aladino subiu numa rocha semi-submersa, escorregadia de algas e gelo. A criatura começou a circular, lenta, precisa, como um planeta negro em órbita.
Ele ergueu a cauda. E deu uma caudada leve na cara do tubarão. O mar explodiu. Megalodon saltou parcialmente para fora da água num movimento brutal, abrindo a boca num reflexo predatório — e deu uma rabada direto no focinho de Aladino. O impacto ecoou como um trovão oco.
Aladino: OOOOH!
Explodiu uma trovoada ao mesmo tempo. Aladino foi lançado para trás, rolando com a onda, cuspindo água e neve, até cair na praia entre os outros, completamente encharcado.
Ele se levantou cambaleante e sorriu, meio torta, meio lesada.
Aladino: Essa…
Arfou.
Aladino: Era a “minha armadilha”.
Por um instante, funcionou. E ele sorriu torto para sua irmã, rindo torto.
Os tubarões menores recuaram, sumindo nas sombras. Alain girou os holofotes do reator, varrendo a superfície do mar como espadas de luz, tentando forçar distância entre eles e aquelas formas famintas.
Alain: RIRAN!Reúna o bando! Voltem pras correntes! Se a gente parar, acabou!
Riran nadava e rugia ordens, empurrando corpos cansados, tentando reorganizar os iguanodontes em meio à água gelada. As correntes rangiam, o gelo quebrava sob o peso. Foi quando Alain percebeu.
Flia: Ele está fazendo círculos…
A água começou a se levantar.
Alain: Ele está brincando!Como uma baleia-orca… antes do ataque final!
Uma onda negra de cinco metros nasceu do nada e avançou como um muro vivo depois do desenho que Megalodon fez na água, o corte que ele realizou e utilizou para gerar uma onda “artificial”, um recurso que ele estava utilizando para poder caçar os iguanodontes. Ela atingiu os iguanodontes com força total, jogando corpos, quebrando formações, arrancando rugidos de dor e desespero. No caos, os Ginsu voltaram. Rápidos. Silenciosos. Mortais. Um deles agarrou um dos jovens iguanodontes pela perna. Outro se juntou. Em segundos, o corpo foi puxado para trás, para a escuridão profunda do mar.
O rugido de terror foi curto. E sumiu.
Suri, tremendo, virou-se para Alain.
Suri: O que… o que é uma baleia-orca?
Alain fechou os olhos por um segundo, exausto, e apenas balançou a cabeça: Eles não sabiam o que era uma baleia, nem o que era orca, pensou ele. Zini forçava o pensamento, falando alto para não se perder no medo:
Zini: Temos o reator… as correntes… o gelo quebrando… podemos usar isso como apoio… mas não temos nada que prenda ele! Nada que segure aquele monstro!
Ele gritou, frustrado em não ter encontrado uma solução. Foi então que uma correnteza traiçoeira atingiu um grande bloco de gelo. Aladino, Ariel e Irani estavam sobre ele. O gelo se desprendeu e foi lançado para longe, para uma região sem luz, sem holofotes, sem horizonte — apenas escuridão e mar aberto.
Riran: ALADINO!
Riran gritou, já mergulhando naquela direção. Guara foi atrás, sem hesitar.
Alain: FLIA!
Alain gritou, apontando para o vazio negro.
Alain: Fique de olho naquela direção! Mas não vá! Precisamos de você aqui!
Ele respirou fundo, encarando o mar que parecia vivo, consciente, cruel.
Flia: Se não pensarmos em algo agora…isso não é uma batalha. É um massacre.
Suri: Isso se chama SURRA, ta ligado!?
Gritou ele, desesperado, para Alain. E sob as auroras que dançavam indiferentes no céu, o oceano respondeu apenas com mais ondas.
Os iguanodontes, feridos e exaustos, conseguiram resistir desta vez. Caudas se chocaram contra corpos cartilaginosos, patas bateram na água com fúria ancestral, rugidos ecoaram como trovões quebrados. Os tubarões Ginsu recuaram novamente, não derrotados — apenas contidos, como lâminas recolhidas à força.
Do alto do reator, Alain avaliou a cena com rapidez fria.
Alain: Suri. Zini. Em Flia. Agora.
Disse, já ativando sensores e ajustando holofotes.
Alain: Sigam os que se perderam. Eu fico aqui. Esses gigantes ainda vão precisar de mim.
Não houve discussão.
Zini ajudou Suri a subir, Flia abriu as asas e, com um único mergulho decidido, o trio desapareceu na escuridão, engolido pela noite e pelo mar.
Os três irmãos — Aladino, Ariel e Irani — estavam sozinhos. Sozinhos demais. Então, o som veio. Tambor. Grave. Profundo. Não vinha do ar, nem da água — parecia vir do mundo.
BOOM.
O mar ao lado deles brilhou.
Por apenas um segundo: amarelo, intenso, impossível de definir. Sumiu.
BOOM.
Agora vermelho, pulsante como sangue vivo. Sumiu.
BOOM.
Azul-escuro, profundo como abismo. Sumiu.
BOOM.
Azul-claro, quase etéreo. Sumiu.
O silêncio voltou — e então, o impossível começou a emergir. Sons de tambor começaram a bater em sincronia ritmada, sons de rugido oculto vindo das profundezas eram ouvidos como ritmos de fundo.
Raias cortaram a água como asas vivas. Tubarões de formas estranhas surgiram das sombras. Dinossauros marinhos, serpentes gigantes lembrando dragões primordiais, todos bioluminescentes, cada um marcado por padrões únicos de luz: verdes, violetas, dourados, cores que os olhos mal conseguiam acompanhar.
O som de tambores continuava. A Lua e as estrelas finalmente romperam as nuvens, revelando o todo. Não era apenas mar.
Era um arquipélago. Icebergs e blocos de gelo flutuavam organizados como ruas, praças, muralhas — uma cidade aquática primitiva praticamente, desenhada pela própria natureza. Uma planta urbana viva, silenciosa e antiga.
Então ele veio. Megalodon. Com um simples movimento do corpo colossal, ele empurrou o bloco de gelo dos três irmãos como se fosse nada, conduzindo-os para dentro daquele labirinto luminoso. Não era ataque. Era convite. Ou pior: encenação. Os tubarões Ginsu reapareceram, nadando ao redor, não atacando — cercando. Guiando os irmãos até o centro daquele conjunto de blocos. Eles não entendiam. Mas o medo entendia por eles. As luzes bioluminescentes dançavam ao redor, belas e hipnóticas, enquanto a água abaixo permanecia negra, pesada, pertencente a uma única entidade.
Aquela apresentação era um teaser. E Megalodon rugia através dela.
Não com voz — mas com o próprio mar:
“PREPAREM-SE PARA LUTAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAR!”
Era o que o tubarão encenava com tudo aquilo. Nesse instante, Riran chegou. Ela nadou com fúria, subiu em um bloco de gelo e rugiu o nome do irmão, a voz rasgando a noite. Aladino a viu — e não se moveu. A água entre eles era morte. Suicídio atravessá-la. E então veio a revelação.
Visto de cima… eles não estavam no centro, no centro dos blocos flutuantes. Havia um espaço aberto no meio da cidade de gelo. Bolhas gigantes começaram a subir. A água borbulhou. Fumaça quente rasgou a superfície, silvando ao encontrar o ar gelado. Lá embaixo, invisível e colossal, um vulcão submarino despertava.
O palco estava montado. Aquilo era uma arena.
Guara surgiu primeiro, rompendo a água com força, nadando até Riran. Logo atrás, como sombras aladas contra o brilho bioluminescente, Flia, Suri e Zinichegaram e começaram a voar em círculos largos ao redor dos blocos de gelo, observando, marcando padrões, tentando entender aquele tabuleiro. Riran quis avançar de imediato — o instinto gritava mais alto que qualquer estratégia. Mas Guara pousou ao lado dela e falou firme, baixo.
Guara: Se você entrar sem pensar, vira parte do jogo deles.
Ele precisava de segundos. Talvez menos. Mas precisava ler o inimigo. Guara tocou a pata na água. Um tubarão quase lhe arrancou o membro num bote seco. Ele recuou — não assustado, mas confirmado.
Guara: É um jogo… fica aqui, eu vou ajudar eles.
Então começou a se mover. Pulou de bloco em bloco, ágil, preciso, provocando, enquanto deixava Riran para trás, imóvel, segurando o impulso. Aladino e os outros irmãos tentaram imitá-lo — mas os tubarões reagiram imediatamente: saltavam para fora da água, empurravam o gelo, quebravam conexões, isolavam os blocos. Era um cerco móvel. Zini arregalou os olhos do alto.
Flia batendo asas com força contra o vento gelado.
Flia: Não é ataque aleatório!
Guara, entretanto, já estava perto do trio. Ele avaliou uma pilha instável de gelo, recuou um passo e deu uma cabeçada brutal, derrubando um grande bloco na água para criar uma ponte improvisada. Por um segundo, funcionou. Então Megalodonse moveu. Um simples impacto de seu dorso desviou o bloco, lançando-o para longe como se fosse nada.
Aladino: Vai ter que repetir!
Gritou Aladino, a voz tensa. Guara não respondeu. Ele correuem círculos, derrubando blocos, criando caminhos falsos, confundindo os tubarões, mas gritando para os irmãos.
Guara: Não pulem! Ainda não!
A espera virou tortura. Irani e Ariel tremiam, cansados, o bloco girando sob seus pés a cada provocação. Tubarões batiam no gelo, rodopiavam a plataforma, faziam o trio quase cair.
Irani, nervoso, provocou Aladino.
Irani: Cadê a calma agora, hein?
Aladino rosnou, sem tirar os olhos da água negra:
Aladino: Calma não existe quando se morre afogado.
Então veio o sinal. Guara parou, cravou as patas no gelo e rugiu.
Guara: Agora.
O trio disparou. Saltaram de bloco em bloco. O mar explodiu em movimento. Todos os tubarões da região convergiram ao mesmo tempo. Megalodon foi mais rápido e com um golpe preciso com sua cabeça, arrancou o bloco de gelo de Aladino, isolando-o de novo, enquanto Ariel e Irani conseguiam alcançar uma faixa de gelo mais sólida, terra firme o suficiente para correr, mas não para respirar aliviados. Eles dispararam, perseguidos na água por sombras cortantes.
Flia mergulhou. Desceu em vôo rasante, quase tocando a superfície, e então gritou. Um grito sônico à queima-roupa. O tubarão atingido travou no meio do nado, corpo rígido, olhos vazios, para aquela espécie, parar era morrer.
Outro percebeu. Virou de repente, saltou da água e tentou abocanhar Flia no ar. Ela abaixou no último segundo, deslizando rente à água. Suri não pensou. Se jogou para cima da criatura e aterrissou sobre o Cretoxyrhina, cravando-se nele como um peso vivo. Zini gritou seu nome, mas Suri não soltou. O tubarão mergulhou, tentando se livrar dele. Suri se agarrava, rangendo os dentes, enquanto a criatura subia e descia, tossindo toda vez que saia para fora da água e prendendo quando voltava, quebrando a superfície da água repetidas vezes.
Flia girava no ar como uma lâmina viva, rasgando o vento. Dois tubarões a perseguiam, cuspindo jatos de água para desequilibrá-la, tentando forçá-la a cair. Ela deixou que se aproximassem. Esperou o instante exato. Quando ambos saltaram ao mesmo tempo, bocas abertas, Flia virou o corpo no ar e gritou. O som atravessou carne e osso. Os dois tubarões caíram pesados sobre o gelo, debatendo-se por poucos segundos antes de ficarem imóveis. Fora da água, não havia salvação, o gelo se tornaria seu túmulo silencioso com a falta de ar.
Aladino, isolado em seu bloco, acompanhava tudo com atenção febril. Seus olhos então captaram algo diferente: As algas bioluminescentes surgindo em manchas crescentes, reagindo ao calor, à pressão, ao caos. Ele ergueu a cabeça. Riran olhou para ele. Não precisaram falar alto.
Aladino: Se cobrirmos o Megalodon com isso…
Riran: Vamos enxergá-lo.
Completou Riran.
Riran: Mesmo na água negra...
Enquanto isso, Irani e Ariel ainda corriam. Tarde demais. A água explodiu. Megalodon emergiu de baixo para cima como uma montanha viva, lançando ambos contra um bloco de gelo. O impacto foi seco, brutal. Os corpos rolaram, gemidos de dor ecoaram no ar gelado. Antes que pudessem reagir, a criatura abocanhou a perna de Irani. Uma mordida, um grito, mas foi apenas para degustar da carne, ele mordeu uma segunda vez que foi mais fundo, ao nível dos ossos, um pouco mais profundo. Ariel reagiu no desespero, girando o corpo eatingindo o olho do monstro com a cauda. Megalodon rugiu, soltou Irani e mergulhou de volta na escuridão, a água se fechando sobre ele como se nunca tivesse existido.
Suri surgiu logo depois, ainda arfando, saltando do tubarão que havia usado como escudo. Ele empurrou a criatura contra outra e a fez mordê-la, criou confusão suficiente para que os menores recuassem por instantes. Caiu no gelo, rolou, levantou-se e mancando vivo. Guara chegou até Irani e Ariel.
Ariel levantou a cabeça, desesperada.
Ariel: Ele precisa de ajuda!
Mas então ela viu. A aurora refletida nos olhos de Guara. Não havia pânico ali. Nem pressa. Nem compaixão Apenas decisão.
Guara: Irani não precisa da minha ajuda agora.
Antes que Ariel entendesse, Guara atingiu Irani com uma caudada brutal, apagando-o no mesmo instante.
Ariel: O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO!?
Outra caudada. Ariel caiu desacordada ao lado do irmão. Guara então se ergueu, firmou as patas e golpeou o gelo com toda a força com seu peso. O bloco rachou, estalou, cedeu. Com a cabeça, ele empurrou o pedaço de gelo quebrado com a ponta do focinho, levando Irani e Ariel inconscientes direto em direção ao centro fervente — o vulcão submarino acordando, bolhas gigantes subindo, fumaça escapando da água. A corrente puxou. Flia não viu — estava longe, protegendo Zini, lutando contra sombras na água. Mas Aladino Riran viram. Os dois líderes ficaram imóveis. Guara virou-se para Riran. Era a de alguém que cumpriu uma função, com um pouquinho de raiva, como se tivesse passado por alguma dificuldade, mas ele retornou a sua expressão normal.
Suri tinha visto tudo.
Guara manteve o olhar fixo em Riran, mas ele ia falar com todos, mais com ela que estava mais próxima dele.
Guara: Talvez…
Fisse ele, baixo, quase apreciando o momento, talvez você nunca tenha estado errada sobre mim, Riran.
Ela engoliu em seco.
Riran: O que… o que você fez?
Perguntou, a voz quebrada, não de medo, mas de incredulidade. Guara a cortou com um leve movimento de cabeça.
Guara: Não agora. Agora é hora da verdade!
Ele deu alguns passos lentos sobre o gelo, a aurora se refletindo em seu corpo, pintando-o de verde e violeta, como se o próprio céu o coroasse.
Guara: Você é tudo o que dizem, é tudo verdade. Uma deusa entre osiguanodontes. Uma joia. Uma… tentação da natureza. Uma delícia, Riran.
Riran sentiu o estômago revirar.
Guara: Mas nunca houve momento melhor do que este, para o sangue retomar o que sempre foi seu.
Aladino cerrou os dentes.Guara ergueu a cabeça, orgulhoso.
Guara: Meu pai seguia Kron. Não como um simples membro da manada… mas como parte do círculo interno. Um dos superiores. Um major. Quando Kron morresse, quando Bruton não estivesse, era meu pai quem deveria assumir.
O mundo tremeu com uma viagem de volta no tempo...
____________________FLASHBACK_____________________________
Kron, imenso, imponente, sorrindo.
À sua frente, um iguanodonte comum, forte, firme, jovem, de escamas azuladas e parecido com Aladar.
O sorriso devolvido com orgulho.
Lealdade absoluta.
Kron se virou e assentiu para ele, retornando para a liderança da manada, seu trono.
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Guara: Isso não aconteceu porque Aladardesafiou Kron… e venceu.
O nome caiu como uma lâmina.
Guara: Todos se lembram de Noah, o pai de Kron, como o fundador da manada da Área dos Ninhos. Mas antes dele… havia outro. Um Altirrhinus. Meu avô.
Riran sentiu o chão desaparecer sob si. Ela sabia que aquele era um discurso que somente alguém com coroa caída, com poder na pata ou sobre muito desejo, diria assim, em alto e bom som. O pior é que ele tinha tudo nas patas, depois de revelar que era de uma família de líderes.
Guara: A liderança corre no meu sangue desde o começo dos tempos.
Ele virou o rosto, finalmente encarando Aladino.
Guara: E foi Aladar quem selou o destino do meu pai… quando o enviou para lutar contra Zayon e os quetzalcoatlus, quatro anos atrás.
O silêncio se partiu.
Riran: O que você quer com isso tudo?
Perguntou Riran, agora sem raiva, apenas dor, seu coração estava PARRTIDO. Ela perguntou entre choros que estava guardando.
Guara sorriu.
Guara: Que o SANGUE de meu PAI e AVÔ continue. Que ele lidere!
Ele apontou com a cabeça para o mar.
Guara: De um jeito…
Ele apontou com a cabeça para os irmãos dela, desmaiados. Então seus olhos desceram e pararam no ventre de Riran.
Guara: ... ou de outro.
Aladino rugiucomo nunca Não foi um som de advertência. Foi um grito primal, ancestral, carregado de tudo que ele era.
Guara: O destino de meu pai, de ter se tornado igual meu avô, será realizado... por seus futuros parentes.
Ele semicerrou os olhos em Riran. Aladino não estava mais onde deveria estar. Ele havia contornado todo o arquipélago de gelo, usando o caos, o brilho bioluminescente, o barulho do mar e do vulcão. Surgiu como um projétil vivo e acertou Guara com uma cabeçada devastadora, quebrando o gelo sob eles.
O impacto ecoou como um trovão.
Guara: Arrggh!
Guara foi lançado para trás, rolou, bateu contra um bloco de gelo — e se ergueu rindo.
Guara: Finalmente.
Disse ele, cuspindo sangue.
Guara: Agora SIM!
Ele parou de falar.
O mundo pareceu silenciarpor um instante quando Riran disse.
Riran: Não…
Ela falou em voz baixa, quebrada por dentro em um milhão de partes. Ela se dobrou, as patas tremendo, o peito apertado como se o ar tivesse sido arrancado de dentro dela. O gelo sob seus joelhos estava frio demais, mas não era nada comparado ao que queimava por dentro. Lágrimas escorreram sem controle.
Flia: Riran!
Flia pousou atrás dela. Zini deslizou de suas costas e mancou até a sobrinha, o olhar cheio de pavor.
Zini: Ei… ei… olha pra mim.
Disse ele, tentando alcançá-la.
Zini: Você ainda está aqui. Você ainda—
O rugido cortou o céu como um trovão partido ao meio. Aladino e Guara se chocaram de frente, cabeça contra cabeça, um empurrando o outro, o impacto ecoando pelos blocos de gelo como um sino de guerra. Guara girou o corpo com precisão cruel e mudou de modalidade no meio do movimento — o esporão rasgou a lateral de Aladino.
O grito de dor veio junto com o sangue espirrado para a neve.
Aladino: AHHH!
Aladino tentou responder, mas Guara foi mais rápido: Cinco cortes secos, sucessivos, abrindo a pele, expondo músculo. O sangue quente espirrou sobre o gelo branco e como se o mar tivesse estado esperando por isso, os tubarões começaram a girar mais rápido.
Os blocos se moveram. Rodaram e inclinaram.
Aladino e Guara saltaram de um para outro, quase no mesmo ritmo, desviando das mandíbulas que surgiam da água negra. Mas o cheiro do sangue denunciava cada passo de Aladino. Ele pulou de um para o outro e tomou logo na cara uma caudada.
Aladino: OHHH!
Os Cretoxyrhina voltavam sempre. Guara avançou com a cauda, golpe após golpe, batendo em Aladino como se o castigasse, sem pressa, sem piedade. Aladino mudou de modalidade, respondeu, mas estava exausto. Tinha enfrentado o mar, os monstros, o gelo e agora enfrentava alguém da própria espécie. Esporões riscaram o ar como facas.
As bolhas do vulcão submarino começaram a girar. Não subiam mais em linha reta. Formavam um vórtice, puxando água, gelo quebrado e detritos para um centro invisível.
Irani despertou, tossindo, à deriva sobre um fragmento de gelo. Tentou se mover e falhou. Ariel ainda estava desacordada. Ele só conseguiu observar, impotente.
Riran… não via nada disso. A cabeça dela era um caos. O amor que ela acreditava conhecer era mentira. O toque que a confortara era traição.
O futuro que ela imaginara, manchado. E o pior pensamento dela queimava como ácido:
E se ele tivesse conseguido?
Zini falava. Flia gritava. Mas era como se Riran estivesse muito longe, presa dentro de si mesma.
Guara: UUUUUUUUUHLLLLLL!
Aladino recebeu um golpe direto no rosto. Foi lançado para trás. Guara mudou de ângulo e rasgou a outra lateral do corpo dele, abrindo feridas simétricas.
Guara: Tá parecendo um porcossauro, hein? OU um leitãossauro... literalmente!
Ele esfregou um esporão de uma pata no outro, soltando um som de faca amolando faca. Desferiu outro golpe. O sangue escorreu livre, tingindo o gelo. Guara girou o corpo e desceu uma rabada violenta bem sobre as feridas abertas.
Aladino: AAAHHH!
Ele desceu de lado e desceu uma caudada bem dada nele e o tirou de seu centro de gravidade, o lançando ao chão. Suri não pensou. Ele pulou e atingiu Guara no pescoço, tentando alcançar os olhos, tentando cegar, tentando ganhar tempo. Guara reagiu com uma cabeçada brutal, arremessando Suri contra o gelo. Antes que ele pudesse se levantar, Guara pisou na cauda dele, prendendo-o. Ele gritou. O esporão se ergueu.
Zini: Não…
Sussurrou Zini, horrorizado. Guara inclinou a cabeça, a sombra da aurora cobrindo metade de seu rosto.
Foi nesse instante. Foi o instinto mais antigo, mais cruel e mais necessário: Sobreviver. Foi o que gritou na cabeça de Riran.
Riran se ergueu num movimento só. A dor ainda estava ali, mas agora era combustível. Ela avançou, agarrou Zini com cuidado pela boca e o ergueu até Flia.
Riran: Sobe. Agora.
Zini entendeu sem perguntas. Flia se abaixou, firme apesar do caos, e Riran os encaixou com precisão.
Riran: Alcem vôo. Sigam atrás de mim. Mas façam parecer que estão atrás dos tubarões.
Flia abriu as asas e subiu, descrevendo um arco amplo, gritando para despistar as criaturas do mar. Zini se manteve baixo, atento. Riran disparou pelo gelo.
Riran: FLIA! COM TUDO!
Flia mergulhou. O grito veio rasgando o ar, estridente, primitivo, ecoando entre os blocos de gelo e as paredes invisíveis do céu. Flia passou rente a Guara e berrou ao lado de sua cabeça.
Guara cambaleou. O som o atingiu como uma marreta. Ele sacudiu a cabeça, atordoado, os sentidos desorganizados por um segundo precioso. Flia e Zini pousaram numa pilha instável de blocos de gelo. Flia cravou as patas e começou a empurrar, usando as pernas e o peso do corpo, fazendo o bloco ranger e deslizar em direção à borda. Nesse mesmo instante, Riran chegou. Ela se colocou entre Guara e Suri.
Riran: Acabou.
Disse, a voz firme, sem gritar. Suri correu e se colocou ao lado dela. Guara piscou, recuperando o foco. Olhou para Riran… e riu.
Guara: Você está louca? Daqui a pouco, não vai poder lutar assim!
Antes que ele pudesse continuar a conversa.
WHAM.
Aladino deslizou a cauda num golpe rasteiro, varrendo as pernas de Guara. O impacto o jogou no chão com um estrondo seco.
Ela correu até Aladino e, mesmo ferido, mesmo sangrando, o ajudou com seu próprio corpo a se levantar. Aladino gemeu, mas ficou de pé. Atrás deles, Flia deu o último empurrão. O bloco de gelo despencou na água, abrindo uma onda violenta.
Guara se levantou num salto furioso e pisou com força no gelo, quebrando-o e separou os irmãos.
Zini apontava com o focinho, os olhos arregalados.
Atrás de Guara, o bloco recém-solto flutuava… direto na rota do vórtice. Guara virou-se para Aladino, o esporão se erguendo para o golpe final. Riran não pensou. Ela investiu. A cabeçada foi bruta, cheia de peso e raiva contida. Guara girou, perdeu o equilíbrio e rolou sobre o gelo — direto para o bloco à deriva. Aladino deu um último empurrão com a cabeça, no bloco de gelo em que Guara caiu.
Só o suficiente. Guara ficou à deriva. O vórtice o puxava lentamente, como uma promessa inevitável.
Guara: VOCÊ ESTÁ GRÁVIDA!
Gritou ele, com grito de poder, a voz cortada pelo vento e pelo rugido do maelstrom.
Guara: Seus filhos SERÃO meus filhos!
Ninguém respondeu. Flia e Zini pousaram no bloco onde Ariel e Irani estavam. Flia bateu as asas com força, empurrando o gelo de volta para perto dos outros. Guara, já distante, encarou Riran e Aladino com frieza absoluta.
Guara: Ei, Riran! Já ouviu falar em Metaconsciência?
Ele sorriu para ela, vendo que foi derrotado.
Guara: Pergunta isso ao Velho Gotama.
Megalodon pulou para fora da água e o mordeu.
CREC
Guara: AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA
A criatura o soltou, mas tubarões menores vieram. O vórtice o engoliu, enquanto era atacado simultaneamente.
Flia pousou ao lado de Riran com um bater pesado de asas.
Irani e Ariel chegaram mancando, ainda trêmulos, e sem dizer nada os quatro, que se fecharam num abraço de família, apertado, desalinhado, real. Riran puxou Flia e Zini para junto de si, envolvendo-os com a cauda, como se precisasse confirmar que eles ainda estavam ali – seus tios, seus padrinhos, seus protetores.
Por um segundo… só por um segundo… pareceu que tudo tinha acabado.
Então a água se moveu. Sombras começaram a girar ao redor do bloco de gelo. Uma. Duas. Muitas.
Os Cretoxyrhina. Eles nadavam em círculos lentos, pacientes, como lâminas esperando o momento certo. O gelo rangia sob o peso da tensão. Todos se viraram de costas uns para os outros, formando um último anel de defesa — feridos, exaustos, alguns quase sem forças, mas ninguém recuou. Um de costas para o outro.
Megalodonvinha. A massa colossal avançava sob a água, deslocando correntes inteiras. O coração de Riran afundou no peito.
BLUM
Uma explosão luminescente rasgou o mar ao lado do bloco. Algas bioluminescentes se espalharam como uma supernova líquida, forçando os tubarões a se dispersarem, confusos, cegos pela luz.
Alain: AFASTEM-SE DESSES DINOSSAUROS, SEUS DENTES DE SEGUNDA CATEGORIA!
Gritou em voz amplificada. Todos olharam.
Ali, flutuando em pleno mar, sobre o protótipo do reator nuclear, à deriva no mar, estava Alain, empunhando um megafone, iluminado pelas luzes verdes e azuis das algas grudadas no casco.
O Megalodon emergiu parcialmente — e agora brilhava, marcado, denunciado.
Alain: TODO MUNDO PRA DENTRO!
Abriram-se portas elevadiças, para o hangar do reator. Sem discutir, sem pensar, eles entraram. Alain jogou querosene na água.
O fogo se espalhou como uma língua viva sobre o mar. Então ele fez a última coisa. Abriu os compartimentos de lixo nuclear.
Alain: Vamos terminar em um estouro de ano novo.
O resíduo caiu na água em cima dos tubarões Ginsu. Megalodon rugiu. A radiação o atingiu em cheio. A mistura de água inflamada, lixo nuclear e pressão acumulada causou uma mini-explosão nuclear, seca, violenta, que sacudiu o reator inteiro como se o mundo tivesse dado um soco em si mesmo. Megalodon bateu sua nadadeira caudal, procurando se afastar, mas foi engolido por uma chama amarela subaquática, depois de perder todos os seus irmãos.
Quando a água se acalmou, não havia mais círculos. Não havia mais dentes. O gigantesco Cretoxyrhina, o predador de topo que um dia dominara os mares do Sul da China após a queda do cometa Alvarez… agora era apenas história.
Fumaça subia do mar, negra e lenta, revelando o impossível: Eles tinham vencido. Aladino caiu de joelhos. O sangue pingava no chão metálico. Riran correu até ele, o segurou antes que caísse de vez. Alain desceu a rampa e parou diante deles.
Alain: Próxima parada...
Disse, sério, mas com um brilho satisfeito nos olhos
Alain: Litoral da Ásia de Monções.
Riran encostou a testa na de Aladino. Ele respirava. No meio da fumaça, do fogo distante e do mar ferido, eles se abraçaram, como dois sobreviventes que, contra tudo, chegaram até o fim, superando suas diferenças como irmãos adolescentes e tendo amadurecido para trabalhar finalmente em conjunto.
Aladar e Neera caminhavam lado a lado do lado de fora do Eden, discutindo calmamente como reorganizar os territórios agora que o gelo recuava, quando algo no horizonte fez ambos pararem.
Silhuetas de iguanodontes.
Os jovens surgiam no nascer do Sol. O silêncio durou menos de um segundo.
Os pais correram, rugindo alto, rasgando com alegria e dor misturadas. Aladar e Neera alcançaram seus filhotes restantes, envolvendo-os num abraço coletivo que tremia mais do que qualquer terremoto. Não precisaram de palavras. Estavam vivos. Isso bastava.
Zini saiu pulando, quase tropeçando nas próprias patas, até Nattasha, Zini Jr. e sua mãe, Plio. Riu, chorou, falou tudo ao mesmo tempo. Flia abriu as asas e voou direto para o jovem Maverick, pousando com força demais, como quem precisava sentir que o chão ainda existia.
Mais atrás, Alain e Suri ficaram parados, braços cruzados, respirando fundo. O mundo parecia grande demais depois de tudo. Alain ergueu o olhar e viu Lívia à distância. Eles trocaram um sorriso pequeno, verdadeiro.
Ao fundo, o Reator começou a soltar fumaça. A combustão havia começado de fato. O carbono subia lentamente à atmosfera, revertendo o avanço do gelo, devolvendo calor ao Éden. O mundo não estava salvo, estava realmente mudando dessa vez. Era a primeira vez que ele estava mudando de verdade, em 65 milhões de anos.
Zini muitos anos mais velho:
“Naquele dia, achamos que tínhamos vencido. E de certa forma… vencemos.”
Pedras sendo esculpidas com cuidado. Lêmures auxiliando, empilhando, limpando. Aladar e Neera, junto de Concrete, Aladino, Riran, Ariel, Irani e Noé, erguem memoriais de pedra para os filhos que não voltaram daquela última missão. Um espaço separado honra Baylene e Eema, não como vítimas, mas como pilares da história da Manada.
“Mas vitórias podem ser enganosas. Porque algumas batalhas não anunciam a guerra que carregam dentro.”
Aladino, ainda marcado pelas cicatrizes, questiona o pai sobre a decisão que tomou naquele dia. Aladar responde como sempre respondeu: Que se arrependia… mas que tinha absoluta certeza do que fez.
Um ano depois, a resposta muda. Aladar admite a Aladino, em voz baixa, que algo entrou em sua mente naquela época.
Uma ideia. Um plano. Um rosto que ele se lembrara vagamente… que não era de um iguanodonte.
Neera sentira o mesmo.
“Não foi controle. Foi sugestão. E isso nos assustou mais do que qualquer predador já enfrentado antes.”
Antes de dar esse um ano, Riran permanece em silêncio. Todos falam de sua gravidez, mas ninguém sabe quando começará realmente. Nem ela. O peso disso a acompanha. Guara deixou marcas invisíveis, manipulações que ainda ecoam em sua mente. Ela segue em frente, mas nunca ilesa.
“Algumas guerras não deixam feridas no corpo. Deixam perguntas.”
Então, o céu muda. Estrelas cadentes cruzam a noite. Não são estrelas.
Naves humanas descem.
O Tenente Steel pisa em solo firme e aperta a mão de Alain. Diz que finalmente a humanidade poderá voltar a habitar a Terra. O Éden. O mundo antigo. Aladar sabe que os humanos viriam. Mas não sabia que humanos do futuro, mal-intencionados, podiam chegar a qualquer momento.
Alain olha para Aladar. Não sorri. Chama-o, junto de Neera, para conversar a sós — enquanto, ao longe, as naves humanas se alinham nas entradas do Éden. Eles planejavam casas, cidades...
“Acreditávamos que o pior já tinha passado. Estávamos errados.”
O Reator fumaça ao fundo. O vale renasce. Os céus brilham com tecnologia desconhecida.
“Porque nenhuma batalha que travamos até ali nos preparou para a guerra que estava por vir.”
EPÍLOGO
Riran tinha ido meditar com o Velho Gotama, no mesmo esquema que fazia quando queria se aproximar de algum amigo para saber de alguma coisa, para conversar com ele. Era um hábito antigo entre os dois — silêncio, respiração, o mundo desacelerando ao redor. Naquele dia, porém, a inquietação não a deixava encontrar paz.
Depois de um longo momento, ela falou.
Riran: Gotama… o que é Metaconsciência?
Ele abriu os olhos imediatamente. Não foi curiosidade. Foi irritação.
Gotama: Onde você ouviu essa palavra?
Riran hesitou, mas respondeu:
Riran: De Guara. Antes de morrer. Ele disse que a batalha daqueles que portavam Metaconsciência ainda estava por vir... algo assim. Disse que vinha de uma linhagem antiga. A família dele já foi de uma família de líderes, mas eles nasceram na Área dos Ninhos.
Gotama se levantou com dificuldade.
Gotama: Isso não é assunto para se discutir aqui. Venha comigo. E chame seus pais. E Aladino.
Minutos depois, Aladar, Neera, Aladino e Riran estavam reunidos. Nenhum outro foi convidado. Nenhuma explicação foi dada. Gotama caminhou até a borda de uma fenda vulcânica. Com chifres firmes, acendeu uma tocha no magma fervente, como se aquele gesto fosse antigo, ritualístico. Em seguida, conduziu-os por um caminho estreito, escondido entre rochas do Éden — uma passagem que nenhum deles lembrava de existir.
A trilha terminou numa câmara secreta. As paredes eram cobertas por desenhos rupestres: dinossauros terrestres, criaturas marinhas, seres alados. Ondas gigantes. A Lua sobre o mar. O Sol e as estrelas alinhados como testemunhas. Havia também onduladinhos riscados com cuidado, como algo sagrado, do lado da Lua, acima dos dinossauros.
Gotama se virou para eles.
Gotama: Há muito tempo, antes mesmo do asteroide cair… existiam histórias que não passaram para a Manada comum. Falavam de um grande triceratops. Sensível. Diferente. Capaz de ouvir o mundo e de sentir o oculto.
Ele caminhou até um desenho específico: um triceratops isolado, abaixo de uma aurora e da Lua.
Gotama: Esse triceratops reuniu todos os ceratopsídeos do continente, pela força ou pela palavra, de vários jeitos possíveis. A verdade é que eu nunca conheci ele, mas já ouvi muita coisa... pela consciência do todo. O nome dele… era Gotama.
Aladar e Neera se entreolharam, tensos.
Neera: Então esse é o seu nome verdadeiro?
Gotama: Não. Meu nome verdadeiro é Gael. “Gotama” era um título. Um apelido filosófico. Eu adotei apenas pela filosofia.
A reação foi imediata.
Aladar: E você nunca achou importante mencionar isso nesses últimos quatro anos?!
Ele rosnou, olhando ingrato para Gael. Gael apenas abaixou a cabeça.
Gael: Não era necessário… até agora.
Ele voltou-se novamente para as paredes.
Gael: Se os antigos registros estiverem certos… então todos os grandes répteis deste mundo — terrestres, marinhos e alados — enfrentarão algo novo.
Ele passou a pata sobre os desenhos de ondas, Lua e estrelas.
Gael: Não será escassez de recursos ou frio.
Gael apontou novamente para o triceratops sob a aurora, o verdadeiro Gotama.
Gael: Nós estamos no apogeu da sombra de um novo desespero.
O fogo da tocha tremulou. Riran sentiu um arrepio percorrer o corpo. Ela finalmente entendeu. Guara não falava de poder. Falava de despertar.
Mas que despertar seria esse?
CONTINUA EM DINOSSAURO 5
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