Dinastia de Cinza

22 Um garoto forte e teimoso


O broche ainda estava entre os dedos de Edward quando Bella finalmente encontrou forças para falar. O brilho dourado do brasão Volturi parecia refletir algo muito mais sombrio do que metal polido; era como se carregasse dentro de si a prova viva de um passado que ela queria enterrar. O quarto estava silencioso demais, e o peso daquela revelação tornava o ar quase irrespirável. Bella sentou-se devagar na beirada da cama, as mãos pousadas sobre a barriga ainda discreta, como se buscasse ali coragem.

— O que ele disse naquele galpão… não foi só provocação — começou, a voz baixa, mas firme. — Ele disse que eu era filha dele.

Edward permaneceu imóvel por alguns segundos, absorvendo cada sílaba. O maxilar dele enrijeceu.

— Isso é mentira — afirmou de imediato, como se quisesse proteger não apenas ela, mas toda a realidade que construíram. — Ele estava tentando te desestabilizar.

Bella ergueu os olhos para ele, e havia ali uma mistura de dor e lucidez que o fez perceber que não era tão simples.

— Minha mãe confirmou — continuou. — Não naquele momento… mas antes. Anos atrás, quando ainda eram adolescentes. Ela engravidou e… — Bella engoliu em seco. — E ele nunca soube com certeza. Charles assumiu. Me criou. Me amou. E é ele o meu pai.

O silêncio que se seguiu foi pesado. Edward passou a mão pelos cabelos, caminhando pelo quarto, tentando organizar os pensamentos.

— Você tem ideia do que isso significa? — perguntou, a voz baixa, controlada com esforço. — Marcus vai usar isso. Ele vai tentar reivindicar você, usar seu nome, usar nosso filho.

Bella se levantou, aproximando-se dele com determinação.

— É por isso que ninguém pode saber. — Ela segurou as mãos dele. — Para o mundo, eu sou filha de Charles Swan. E sempre serei. Eu não quero que esse monstro tenha qualquer espaço na minha história… nem na história do nosso filho.

Edward segurou o rosto dela com cuidado.

— Eu nunca vou permitir que ele toque em você ou no nosso filho de novo. — A voz dele estava carregada de uma promessa silenciosa. — Mas esconder isso pode ser perigoso.

— Contar seria pior — rebateu ela. — Meu pai já sofreu demais. Ele não merece duvidar da própria vida inteira por causa de um homem como Marcus.

Edward fechou os olhos por um instante e, quando os abriu, havia ali compreensão e lealdade absoluta.

— Então esse segredo morre aqui — declarou. — Entre nós.

Ela assentiu, aliviada, e ele a puxou para um abraço longo, firme, como se estivesse selando um pacto invisível.

Enquanto isso, em outro ponto da cidade, Carlisle não estava disposto a esperar o próximo ataque. Ainda se recuperando fisicamente, mas com a mente afiada como sempre, ele exigiu uma reunião imediata com representantes do FBI. A tentativa de assassinato e o sequestro não seriam tratados como simples conflitos políticos.

— Eu quero agentes na cola de Marcus Volturi vinte e quatro horas por dia — exigiu, a voz fria, calculada. — Ele cruzou uma linha que não tem volta.

— Estamos montando uma força-tarefa — respondeu um dos agentes. — Interceptação de comunicações, rastreamento financeiro e vigilância física.

Carlisle inclinou-se levemente para frente.

— Ele não vai agir de forma óbvia. Marcus é paciente. Ele gosta de observar antes de atacar. Não subestimem isso.

Do outro lado da Casa Branca, Charles enfrentava um tipo diferente de ameaça. As cartas anônimas começaram a chegar dois dias depois. A primeira era vaga, cheia de insultos e ameaças políticas. A segunda, porém, era direta: “Pergunte à sua esposa quem é o verdadeiro pai da sua filha.”

Charles segurava o papel com força quando entrou no quarto de Renee.

— O que significa isso? — perguntou, a voz controlada demais para ser natural.

Renee empalideceu, mas lembrou-se do pedido da filha.

— Significa que estão tentando nos desestabilizar — respondeu, sustentando o olhar dele. — Você sabe como funciona esse jogo.

— Eles insinuam que Bella não é minha filha.

Renee se aproximou, segurando o rosto dele com as duas mãos.

— Bella é sua filha. Você a criou. Você a amou. Não permita que cartas anônimas destruam isso.

Charles a encarou por longos segundos, o orgulho ferido misturado à insegurança, mas por fim rasgou o papel ao meio.

— Eles não vão nos dividir — afirmou.

Dias depois, uma notícia trouxe um raro momento de luz: o exame confirmava que Bella estava grávida de um menino. Edward quase riu de alívio quando o médico anunciou.

— Um garoto forte e teimoso — comentou o médico, sorrindo.

Edward segurou a mão de Bella, os olhos brilhando.

— Eu já amo esse pequeno mais do que tudo.

Alice, empolgada como sempre, decidiu organizar uma pequena celebração íntima. A sala principal foi decorada com tons suaves de azul e branco, flores delicadas espalhadas pelos cantos, luzes discretas criando um ambiente acolhedor. Pela primeira vez em semanas, risos ecoaram pela Casa Branca.

Jasper permaneceu ao lado de Alice durante toda a organização, observando-a com uma expressão que misturava admiração e amor profundo. Em determinado momento da noite, enquanto todos conversavam distraídos, ele segurou a mão dela.

— Alice, você é a única coisa que faz sentido no meio desse caos — disse, a voz baixa, mas firme.

Ela arqueou uma sobrancelha, sorrindo.

— Isso soa perigosamente sério.

Ele ajoelhou-se ali mesmo, no meio da sala decorada.

— Casa comigo?

O silêncio foi imediato, seguido por suspiros emocionados. Alice levou as mãos ao rosto, os olhos brilhando.

— Você demorou demais para perguntar — respondeu, rindo e chorando ao mesmo tempo. — É claro que eu aceito.

A comemoração dobrou de intensidade, abraços se multiplicaram, e por alguns minutos parecia que o mundo lá fora não existia.

Até que as portas principais se abriram.

O som dos passos ecoou pelo salão. Marcus Volturi entrou como se estivesse visitando a própria casa, elegante, expressão arrogante e um sorriso frio nos lábios. Ao lado dele, Rosalie Hale caminhava com postura impecável, o olhar calculista percorrendo cada rosto.

O clima mudou instantaneamente.

— Que reunião familiar tocante — provocou Marcus, batendo palmas lentamente. — Eu não fui convidado?

Edward avançou um passo, o corpo inteiro tenso.

— Você não é bem-vindo aqui.

Marcus inclinou levemente a cabeça.

— Ainda assim, aqui estou.

Rosalie cruzou os braços.

— Sentiram minha falta?

Esme foi a primeira a reagir, chamando discretamente os seguranças.

— Vocês precisam se retirar imediatamente.

Marcus ignorou.

— Soube da gravidez. Um herdeiro homem… interessante. — O olhar dele pousou em Bella com intensidade perturbadora.

Charles se colocou à frente da filha.

— Diga o que quer e vá embora.

Marcus sorriu de lado.

— Eu só vim ver minha obra-prima.

O silêncio que se seguiu foi cortante. Edward avançou mais um passo.

— Cuidado com as palavras.

Marcus riu baixo.

— Vocês acham mesmo que podem me manter afastado? Isso é só o começo.

Carlisle aproximou-se então, postura firme.

— Você está oficialmente proibido de se aproximar desta família. Qualquer nova tentativa será tratada como ameaça direta ao Estado.

Marcus manteve o sorriso, mas seus olhos escureceram.

— Veremos até onde essa proteção alcança.

Os seguranças finalmente o cercaram, conduzindo-o para fora junto com Rosalie, que lançou um último olhar carregado de provocação antes de desaparecer pela porta.

Quando o silêncio retornou, ele não era mais leve como antes. A festa havia terminado. A guerra, claramente, não.