A cobertura onde Marcus Volturi estava hospedado não tinha nada de improvisado; era luxuosa demais para parecer esconderijo e silenciosa demais para ser apenas um apartamento. As paredes de vidro revelavam a cidade iluminada sob a noite, carros minúsculos deslizando como insetos obedientes lá embaixo, enquanto ele permanecia parado diante da vista com um copo de uísque intacto na mão. Não bebia. Não precisava. O que o embriagava era outra coisa: a ideia de controle. A ideia de vingança maturando com paciência. A ideia de que, mesmo depois de ter sido derrubado por uma mulher grávida e humilhado diante dos próprios homens, ele ainda era o único naquela guerra capaz de pensar dez movimentos à frente. O ferimento no ombro, resultado do tiro de Bella, ainda ardia sob o curativo, mas a dor física era irrelevante; o que realmente queimava era o orgulho ferido, e Marcus nunca deixava uma afronta sem resposta.

Rosalie Hale entrou na sala sem anunciar a própria presença, como sempre fazia. Seus passos eram leves, calculados, e o vestido escuro moldava-se ao corpo como uma armadura elegante. Ela não demonstrava arrependimento por ter sido expulsa da Casa Branca dias antes; ao contrário, parecia satisfeita por ter plantado inquietação suficiente para que todos ali dormissem com um olho aberto.

— Eles reforçaram a segurança — informou, aproximando-se da mesa onde vários relatórios estavam espalhados. — O FBI está monitorando suas comunicações. Carlisle é mais inteligente do que aparenta.

Marcus soltou um riso baixo, sem humor.

— Carlisle sempre foi inteligente. O erro dele é acreditar que inteligência é suficiente quando se enfrenta alguém disposto a destruir tudo.

Rosalie passou os dedos por um dos relatórios.

— Você ainda quer ir até o fim?

Ele finalmente se virou para ela, os olhos escuros brilhando com algo que não era apenas ambição, mas uma espécie de prazer frio.

— Eu não quero matá-los, Rosalie. Morte é rápida demais. — Ele caminhou lentamente até ela. — Eu quero que eles sintam o que é perder o que mais amam… e continuarem vivos para lembrar disso todos os dias.

Ela sustentou o olhar dele, curiosa.

— Está falando do bebê.

Marcus sorriu de lado.

— Estou falando do herdeiro deles. Do símbolo de continuidade. Do futuro que acreditam estar protegendo.

Rosalie cruzou os braços.

— Sequestrar uma criança recém-nascida vai colocar o país inteiro contra você.

— Não se for feito da maneira certa — respondeu ele, aproximando-se da janela novamente. — Não se ninguém puder provar nada. Não se o bebê simplesmente… desaparecer.

O silêncio que se seguiu foi pesado, mas carregado de intenção. Rosalie inclinou levemente a cabeça.

— E o que pretende fazer com ele?

Marcus não hesitou.

— Criá-lo.

Ela arqueou as sobrancelhas.

— Como se fosse seu?

— Como se fosse meu — confirmou, a voz quase suave demais para o que dizia. — Charles perderá o neto. Edward perderá o filho. Bella perderá a própria razão de viver. E eu terei nas mãos o futuro das duas famílias.

Rosalie caminhou até o bar, servindo-se de vinho dessa vez.

— Você quer transformar o filho dela na sua maior vingança.

— Não — corrigiu ele, aproximando-se devagar. — Quero transformá-lo na prova de que tudo o que eles constroem pode ser arrancado. Quero que ele cresça ouvindo que os pais o abandonaram. Que não foram fortes o suficiente para protegê-lo.

Ela observou Marcus por alguns segundos, avaliando não apenas o plano, mas o homem. Havia algo quase doentio na maneira como ele falava do bebê, não com afeto, mas com posse estratégica.

— E Bella? — perguntou Rosalie. — Você a deixaria viva?

Marcus ficou em silêncio por um instante, como se ponderasse algo íntimo demais para admitir.

— Bella precisa viver — respondeu por fim. — Precisa acordar todos os dias sabendo que falhou. Que, apesar de toda a coragem, toda a força, toda a arrogância… não conseguiu proteger o próprio filho.

Rosalie tomou um gole lento de vinho.

— Você a odeia.

— Eu odeio o que ela representa — corrigiu ele. — Ela é o resultado da traição. O símbolo da escolha de Renee. O lembrete constante de que Charles ficou com tudo o que era meu.

— Inclusive ela — murmurou Rosalie.

Marcus não respondeu, mas o silêncio confirmou.

Ele caminhou até a mesa e abriu uma pasta específica. Fotografias da Casa Branca, rotas de entrada e saída, turnos de segurança, nomes de agentes recém-contratados. Havia marcações em vermelho em pontos estratégicos.

— Já tenho dois homens infiltrados na equipe de manutenção — revelou. — Um na ala médica. Outro no setor de transporte. Quando o bebê nascer, haverá movimentação. Médicos. Enfermeiros. Trocas de turno. É no caos que as melhores jogadas acontecem.

Rosalie aproximou-se para observar as fotos.

— Você vai agir no hospital?

— Não. — Ele apontou para outra imagem. — Eles vão querer levar o bebê para um ambiente controlado, familiar. Talvez antecipem o parto por segurança. Talvez transfiram Bella para uma ala reservada. Eu não preciso invadir um hospital se posso controlar o trajeto.

Ela ficou em silêncio, absorvendo cada detalhe.

— E se der errado?

Marcus finalmente sorriu de verdade, mas era um sorriso vazio de humanidade.

— Não vai dar.

Rosalie pousou a taça na mesa.

— E qual é o meu papel nisso?

Ele a encarou com intensidade.

— Você conhece os Cullen por dentro. Sabe como pensam. Sabe onde são vulneráveis. Quero que me diga exatamente o que Edward faria para proteger o filho. Quero antecipar cada movimento.

Rosalie respirou fundo, lembrando-se de antigos laços, antigas lealdades já rompidas.

— Edward é impulsivo quando se trata de Bella — disse devagar. — Ele cometeria erros por ela. E por esse bebê… ele seria capaz de qualquer coisa.

— Ótimo — murmurou Marcus. — Homens apaixonados são previsíveis.

Ele se aproximou de Rosalie, diminuindo a distância entre eles.

— Quando essa criança nascer, o mundo deles vai parecer completo. Seguro. Feliz. — A voz dele tornou-se quase um sussurro. — E é exatamente nesse momento que eu vou arrancar tudo.

Rosalie não demonstrou hesitação.

— Então precisamos de tempo — afirmou. — Precisamos que eles baixem a guarda.

Marcus assentiu.

— E eles vão baixar. Porque acreditarão que venceram. Que sobreviveram ao pior.

Ele voltou a olhar a cidade pela janela, as luzes refletindo nos próprios olhos.

— Eles ainda não entenderam — completou, com frieza absoluta. — O pior ainda nem começou.

No silêncio daquela cobertura, longe das celebrações, longe da esperança que começava a florescer na Casa Branca, nascia um plano sustentado por ódio, orgulho ferido e uma perversidade cuidadosamente arquitetada. Marcus não queria apenas destruir reputações ou carreiras políticas. Ele queria quebrar almas. Queria transformar o nascimento de uma criança em um marco de dor irreversível. E enquanto do outro lado da cidade uma família sonhava com berços e nomes, ali, entre mapas e fotografias marcadas em vermelho, um homem planejava transformar um bebê em arma — e fazer da própria paternidade uma sentença de vingança eterna.