Dinastia de Cinza
24 O Herdeiro Roubado
O tempo avançou como se tivesse aprendido a caminhar em silêncio dentro da Casa Branca. As semanas seguintes foram marcadas por uma rotina cuidadosamente controlada: exames médicos frequentes, reuniões políticas conduzidas com segurança reforçada, e um acordo tácito de que nada poderia abalar aquela trégua frágil antes do nascimento do bebê. Ainda assim, entre relatórios e agentes posicionados em cada corredor, havia espaço para algo inesperadamente leve. Numa tarde ensolarada, todos estavam reunidos na sala principal, Bella acomodada no sofá com as mãos repousadas sobre a barriga já evidente, Edward sentado ao lado dela como se fosse parte inseparável daquele gesto de proteção constante. O clima era descontraído, raro, quase precioso.
— Precisamos decidir o nome antes que ele nasça — Alice anunciou, animada, sentando-se no braço da poltrona de Jasper. — Não dá para chamar o bebê de “herdeiro” para sempre.
— Eu ainda acho que deveríamos escolher algo forte — Emmett opinou, cruzando os braços. — Tipo o nome de algum jogador lendário. Imagina: ele já nasce com atitude.
Bella revirou os olhos.
— Nosso filho não vai se chamar Brady ou algo assim só porque você gosta de futebol.
— Dimitri seria elegante — Alice insistiu, ignorando Emmett. — Misterioso, sofisticado.
Edward pigarreou, inclinando-se levemente para frente.
— Eu pensei em Edward Junior.
— Nem pensar — Bella respondeu imediatamente, sem sequer olhar para ele. — Eu não quero “Junior” ou “Segundo” ou qualquer coisa que pareça uma continuação automática de alguém. Ele merece o próprio nome.
— Então Charles Swan II — Charles interrompeu, surgindo atrás do sofá com um sorriso orgulhoso. — Soa imponente.
— Pai! — Bella protestou, rindo apesar da irritação. — Justamente isso que eu não quero!
Carlisle, Jasper e Renee riram da cena, a tensão dos últimos meses momentaneamente esquecida. Esme, que observava tudo com ternura, aproximou-se devagar.
— E se fosse Anthony? — sugeriu suavemente. — É o segundo nome do Edward. É forte, mas não carrega a pressão de um “Junior”.
Bella repetiu mentalmente.
— Anthony… — murmurou, experimentando o som. — Anthony Cullen.
Edward sorriu de lado.
— Anthony Swan Cullen.
Bella olhou para ele e, pela primeira vez naquela discussão, não houve resistência.
— Anthony — confirmou, os olhos brilhando. — É perfeito.
E naquele instante, entre risos e provocações, o nome do menino foi escolhido como se selasse um novo capítulo.
Os dias seguintes passaram rápidos demais. Quando as contrações começaram, foi madrugada. Edward mal conseguiu manter a calma enquanto a equipe médica era acionada e a ala reservada do hospital presidencial era preparada. O parto, porém, não foi simples. Bella enfrentou complicações, a pressão oscilando perigosamente, o ritmo cardíaco do bebê sendo monitorado com tensão evidente. Edward permaneceu ao lado dela o tempo todo, segurando sua mão, murmurando palavras de encorajamento.
— Fica comigo — ele repetia, beijando a testa dela. — Você é mais forte do que tudo isso.
Depois de horas que pareceram uma eternidade, o choro ecoou pelo quarto. Forte. Vivo. Determinado.
— É um menino saudável — anunciou o médico, com alívio visível. — Anthony está perfeitamente bem.
Edward chorou sem qualquer pudor ao ver o filho pela primeira vez. Pequeno, enrugado, mas incrivelmente perfeito. Bella, exausta, sorriu ao sentir o peso do bebê sobre o peito.
— Oi, meu amor… — sussurrou, tocando o rosto minúsculo dele. — A mamãe está aqui.
O país inteiro celebrou o nascimento do neto do presidente. Manchetes, discursos, felicitações internacionais. A Casa Branca iluminada em azul suave. Mas, em um prédio distante, Marcus Volturi observava tudo pela televisão, o olhar fixo na imagem da família sorrindo na sacada horas antes do parto.
— Aproveitem — murmurou, quase para si mesmo.
Bella precisou permanecer internada mais tempo do que o previsto por causa das complicações. Anthony, saudável, ficava no berçário especial sob vigilância constante. A segurança era rígida. Pelo menos, era o que todos acreditavam.
Na terceira noite, pouco antes da troca de turno, o plano começou a se mover.
Um homem uniformizado, com credenciais impecáveis, entrou pela ala de manutenção. Outro, já infiltrado na equipe de transporte neonatal, revisava documentos com naturalidade. A movimentação parecia rotineira: um pedido para levar o bebê até a ala de exames complementares, supostamente solicitado pelo médico responsável. A papelada estava correta. As assinaturas, perfeitas.
Anthony foi colocado na pequena incubadora móvel. O agente de segurança que acompanhava o trajeto recebeu uma chamada no rádio — uma distração cuidadosamente programada. Um princípio de confusão em outra ala exigia reforço imediato.
O corredor ficou momentaneamente menos vigiado.
A incubadora foi desviada para um elevador de serviço.
Dentro dele, o homem retirou o crachá e o jogou no bolso.
No estacionamento subterrâneo, uma ambulância aguardava com luzes desligadas. A porta traseira se abriu, e a incubadora foi transferida com precisão quase cirúrgica. Tudo levou menos de quatro minutos.
Quando o turno seguinte chegou ao berçário para a checagem de rotina, o vazio foi percebido primeiro como um erro de registro.
— Onde está o bebê Cullen? — perguntou uma enfermeira, franzindo o cenho.
Silêncio.
Documentos foram conferidos. Chamadas feitas. O médico responsável negou qualquer solicitação de exame extra.
O pânico começou silencioso, depois explodiu.
Alarmes internos foram ativados. Portas bloqueadas. Agentes correndo pelos corredores.
Mas Anthony já estava longe.
A ambulância cruzava a fronteira do estado com placas clonadas. Dentro, o bebê dormia, alheio ao caos que deixara para trás.
Horas depois, em um galpão isolado e silencioso, Marcus aguardava.
Quando a incubadora foi aberta e o bebê colocado em seus braços, ele não demonstrou ternura. Apenas observou o rosto pequeno, traços que misturavam Swan e Cullen.
— Bem-vindo ao seu verdadeiro legado — murmurou.
Rosalie aproximou-se, observando a criança.
— Eles vão incendiar o país atrás dele.
— Que procurem — respondeu Marcus. — Ele já não pertence mais a eles.
No hospital, a direção enfrentava o momento mais aterrador de suas carreiras. Carlisle e Edward foram chamados a uma sala reservada. O diretor tremia ao falar.
— O bebê… não está no berçário.
O silêncio que se seguiu foi devastador.
Edward ficou imóvel por um segundo que pareceu infinito.
— Repita.
— Ele foi retirado sob autorização falsificada. Não sabemos por quem.
Charles fechou os olhos, o rosto ficando lívido.
Carlisle assumiu o controle imediato.
— Ninguém conta nada à Bella — ordenou, a voz firme apesar do desespero evidente. — Ela ainda está se recuperando. Não podemos colocá-la em risco.
A decisão foi tomada com dor, mas unanimidade.
Minutos depois, no quarto, Bella despertou ao ouvir passos sussurrados demais. O instinto materno, recém-desperto, era mais sensível do que qualquer protocolo.
— Está na hora de amamentar — ela disse, tentando se sentar. — Tragam meu filho.
As enfermeiras trocaram olhares.
— Só um momento, senhora — respondeu uma delas, pálida.
Os minutos passaram.
Bella sentiu o coração acelerar.
— Onde está o Anthony?
Silêncio.
Ela tentou se levantar, ignorando a dor da cirurgia.
— O que está acontecendo? — exigiu, a voz tremendo. — Por que ninguém está trazendo o meu filho?
Do lado de fora, Edward encostou a testa na parede por um segundo, respirando fundo antes de entrar.
Porque o pior, finalmente, havia começado.
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