Dinastia de Cinza
9 O filé
O café da manhã na Casa Branca parecia, à primeira vista, uma pintura perfeita de família tradicional: porcelanas impecáveis, frutas organizadas com precisão quase artística, jornais internacionais dobrados ao lado das xícaras de café. Mas sob aquela superfície de elegância diplomática, havia tensão suficiente para rachar mármore. Renée Swan estava particularmente radiante naquela manhã, usando um vestido claro demais para o horário e um sorriso afiado demais para ser inocente. Bella sentava-se ereta, postura impecável, o novo colar de diamante repousando delicado sobre a pele como um segredo que brilhava mais do que deveria. Esme servia chá com gestos suaves, atenta a cada microexpressão, enquanto Edward mantinha a compostura estudada de sempre, embora seus olhos buscassem Bella com frequência quase involuntária.
Rosalie foi a primeira a romper o silêncio confortável. Observou o colar por tempo suficiente para que todos percebessem.
— Pensei que você só usasse diamantes maiores — disse, inclinando a cabeça com falsa curiosidade. — Esse é… discreto.
Bella levou os dedos ao pingente como quem toca algo precioso demais para ser exposto.
— Eu coleciono pedras preciosas desde que estava no útero da minha mãe — respondeu, o sorriso leve e venenoso ao mesmo tempo. — Mas esse é diferente. Pequeno, sim. E ainda assim, o mais especial de todos. E sabe por quê?
Rosalie manteve o olhar firme.
— Ilumine-me.
Bella inclinou-se levemente sobre a mesa.
— Porque esse eu tenho absoluta certeza de que você nunca terá.
O silêncio foi imediato. Edward não desviou o olhar. Rosalie entendeu o recado com a precisão de quem já estava à beira do desespero. Ainda assim, reagiu.
— É triste uma mulher que recebe diamantes no lugar de amor.
A frase pairou como lâmina.
Bella gargalhou, alto o suficiente para quebrar a tensão.
— Querida, diamantes são os melhores amigos de uma garota.
Levantou-se com elegância ensaiada, deixando a mesa sob um rastro de risos contidos. Até Emmett não conseguiu segurar um sorriso. Esme lançou um olhar discreto de repreensão, mas não disse nada.
Alice levantou-se quase imediatamente e seguiu Bella pelos corredores iluminados da ala residencial. Encontrou a amiga encostada na parede, o sorriso finalmente desmoronando.
— Você está bem? — perguntou, mais séria do que de costume.
Bella respirou fundo.
— Eu liguei os pontos. Ela é amante do Edward. E aquele bebê… provavelmente é dele.
Alice ficou imóvel por um segundo.
— Você tem certeza?
— Não. Mas eu sinto. E eu nunca erro quando se trata de guerra.
Meses passaram como se estivessem sendo empurrados por uma tempestade silenciosa. Rosalie tornou-se cada vez mais insistente. Levava exames falsificados, relatórios médicos inventados, falava de riscos, de consultas, de nomes possíveis para o bebê. Edward escutava, mas havia um distanciamento inegável. A frieza dele não era cruel — era ausente. O que mais feria Rosalie era perceber que, mesmo quando ele estava ao seu lado, sua mente parecia em outro lugar.
Em uma tarde abafada, longe dos olhares públicos, Rosalie entrou em uma loja discreta de fantasias acompanhada de Victória, secretária de Charles Swan e cúmplice silenciosa de muitos segredos. Escolheu uma nova barriga falsa, mais pesada, mais convincente. No espelho do provador, ajustava o volume sob o vestido com mãos trêmulas.
— E depois? — Victória perguntou, cruzando os braços. — A “gestação” está quase no fim.
Rosalie sorriu, um sorriso frio.
— Eu conheci alguém. Uma mulher grávida. Está disposta a vender o bebê. É um menino.
Victória a observou em silêncio.
— Você está entrando em território perigoso.
— Eu já estou em território perdido — Rosalie respondeu. — E não vou sair de mãos vazias.
Faltavam dois dias para o casamento do ano quando as duas famílias reuniram-se para jantar. O ambiente era sofisticado demais para ser confortável. Carlisle e Charles discutiam planos com naturalidade estratégica.
— Filhos cedo são importantes — Charles comentou, servindo vinho. — Uma família consolidada fortalece a imagem presidencial futura.
Edward mantinha a expressão neutra, mas Bella sentiu o incômodo dele sob a mesa.
Esme interveio com delicadeza firme.
— Eles são jovens. Precisam viver o casamento antes de transformá-lo em projeto político.
Bella lançou um olhar agradecido à futura sogra.
— Eu aprecio ser consultada antes de virar incubadora diplomática — disse, doce demais para não ser provocação.
Edward segurou o riso.
— Nós dois sabemos que não existe nada convencional sobre nós.
O jantar terminou com sorrisos forçados e promessas veladas. Naquela madrugada, Bella acordou com uma sensação estranha. Estendeu a mão e encontrou apenas o lençol frio ao lado. Levantou-se, vestindo o robe de seda pura, e caminhou pelos corredores silenciosos da Casa Branca. A porta do escritório de Edward estava entreaberta, a luz acesa.
Ela parou antes de entrar.
Rosalie estava ali.
Beijando Edward.
Não era um beijo apaixonado. Era um beijo desesperado.
Bella entrou gargalhando, batendo palmas lentamente.
— Bravo. Que espetáculo.
Os dois se afastaram abruptamente.
— É ridículo — Bella continuou, a voz carregada de ironia feroz — um homem que se alimenta de filé se sujeitar a comer miolo. Especialmente um homem do seu padrão, Edward.
O silêncio era quase doloroso.
— É triste ver alguém tão inteligente cair no golpe mais velho do mundo.
Ela riu de novo. Alto. Como se aquilo fosse apenas entretenimento.
E saiu.
Por dentro, algo quebrava com violência. Por fora, ela era impecável.
Na manhã seguinte, Bella estava sentada no quarto de Alice, os olhos vermelhos apesar da maquiagem perfeita.
— Eu sabia — murmurou. — Mas ver é diferente.
Alice ficou de pé, furiosa.
— Eu vou falar com ele.
Saiu determinada, mas no corredor encontrou Jasper. Ele segurou seu braço antes que ela avançasse.
— Não agora.
— Solta, Jasper.
Ele a puxou para perto e a beijou, não como provocação, mas como distração urgente. Alice ficou imóvel por um segundo, surpresa demais para reagir.
Quando ele se afastou, murmurou:
— Às vezes a guerra precisa esperar o momento certo.
Alice piscou, confusa, mas não correu atrás do irmão.
E enquanto o casamento se aproximava, alianças eram polidas e vestidos ajustados, a verdade caminhava silenciosa pelos corredores da Casa Branca, pronta para explodir no momento mais inconveniente possível.
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