Dinastia de Cinza
8 O coração
Rosalie entrou no escritório de Edward sem bater, segurando uma pasta bege contra o peito como se carregasse algo sagrado. Havia aprendido que dramaticidade controlada funcionava melhor do que lágrimas escancaradas. Ele estava de pé, analisando relatórios do gabinete presidencial, quando percebeu sua presença pelo reflexo no vidro. Não suspirou. Não sorriu. Apenas aguardou. Rosalie caminhou até a mesa e abriu a pasta com mãos levemente trêmulas, espalhando imagens de ultrassom cuidadosamente manipuladas.
— É de risco — disse, a voz baixa, calculadamente fragilizada. — O médico recomendou repouso absoluto. Estresse pode… piorar as coisas.
Edward olhou as imagens sem tocar nelas. Seus olhos eram clínicos, quase frios demais para alguém que supostamente seria pai. Mas havia algo ali — não emoção, mas responsabilidade.
— Você está sendo acompanhada? — perguntou, sem alterar o tom.
— Estou fazendo tudo sozinha — ela respondeu, aproximando-se. — Porque você está… distante.
Ele ergueu os olhos.
— Eu nunca prometi proximidade, Rosalie.
A frase foi um golpe seco. Mesmo assim, ela insistiu.
— Isso é seu também. Quer você queira ou não.
Ele fechou a pasta devagar. Não havia ternura, mas havia peso. Confusão. Porque, enquanto Rosalie falava de risco e exames, sua mente estava em outro lugar — em uma risada específica, em um olhar desafiador que sempre terminava em beijo. Isabella.
Essa confusão o acompanhou até mais tarde, quando encontrou Bella no corredor da ala residencial. Ela estava discutindo detalhes da própria festa com assessores, mas ao vê-lo dispensou todos com um gesto elegante. Ficaram frente a frente, tensão imediata, elétrica.
— Você parece perturbado — ela comentou, cruzando os braços.
— Eu estou tentando decidir se você faz isso de propósito.
— Fazer o quê?
Ele se aproximou, diminuindo a distância até que a respiração dela oscilasse.
— Me deixar incapaz de pensar em outra coisa.
Ela arqueou uma sobrancelha, fingindo indiferença.
— Isso soa como fraqueza, Edward.
— Não. Soa como ameaça.
E como sempre, a provocação terminou da mesma forma. Ele segurou seu rosto com firmeza contida e a beijou, um beijo que começava como confronto e se tornava necessidade. Bella correspondia com intensidade igual, as mãos fechando no paletó dele, como se quisesse provar que ainda estava no controle. Quando se afastaram, ambos estavam levemente ofegantes.
— Nós precisamos parar de fazer isso — ela murmurou.
— Então pare — ele respondeu, sabendo que nenhum dos dois pararia.
Naquela mesma manhã, 13 de setembro, Edward estava reunido com Carlisle, Charles Swan e Jasper em um dos salões privados da Casa Branca. O clima era estratégico, pesado de projeções e planos. Falavam sobre o mandato recém-iniciado, sobre reformas, sobre alianças internacionais. Charles mencionou, com naturalidade ensaiada, que em oito anos Edward deveria estar preparado para assumir a presidência.
— A transição precisa ser impecável — Charles dizia. — O público precisa ver continuidade.
Carlisle assentiu, sereno. Jasper observava Edward, atento às reações dele.
Quando a reunião terminou, Charles levantou-se animado.
— Vamos ao cassino esta noite. Precisamos relaxar.
Edward ajeitou os punhos da camisa.
— Hoje é aniversário da sua filha.
Charles parou por um segundo. O silêncio denunciou o esquecimento.
— Claro. Evidente. — Ele chamou pelo interfone. — Victória, ligue para a Graff. Quero as melhores peças disponíveis. Não, as melhores não. Quero as mais exclusivas.
Edward observou a cena com um aperto estranho no peito. Não era surpresa. Era confirmação. Presentes grandiosos no lugar de memória afetiva. Diamantes no lugar de presença. E ali ele entendeu, com clareza dolorosa, a forma como Bella havia sido ensinada a medir amor: pelo brilho das pedras.
A festa naquela noite transformou a Casa Branca em um palácio moderno. Lustres de cristal, jardins iluminados, convidados de todas as esferas do poder. Alice supervisionava cada detalhe como uma diretora de espetáculo. Bella surgiu no topo da escadaria usando um vestido dourado que refletia luz como se tivesse sido feito de estrelas líquidas.
E então veio a surpresa. As luzes diminuíram. Um palco foi revelado no jardim. E sob aplausos crescentes, Shakira surgiu com um sorriso vibrante, iniciando um show exclusivo que fez a elite política dançar como adolescentes em verão europeu. Bella levou a mão à boca, surpresa genuína, e virou-se para Alice, que piscou.
— Você merece algo que não possa ser comprado por catálogo — Alice sussurrou.
Bella riu, puxando a amiga para o centro do jardim quando a música começou a pulsar mais forte. Dançaram como se não houvesse câmeras, como se o mundo não estivesse observando. Esme até arriscou alguns passos discretos. Emmett gargalhava. E Edward… Edward observava Bella dançando sob as luzes, completamente viva, completamente magnética.
Quando ela o puxou pela mão, ele resistiu por um segundo — apenas por hábito — e então cedeu. Dançou. Riu. E pela primeira vez em semanas, não parecia o herdeiro frio de um império, mas apenas um homem fascinado pela mulher diante dele.
O clima entre os dois esquentou no meio da música, olhares demorados, corpos próximos demais. Quando cantaram parabéns, Bella fechou os olhos ao soprar as velas, mas antes de apagá-las, lançou um olhar direto para Edward. Não era pedido. Era promessa.
Horas depois, quando a maioria dos convidados havia partido e o jardim estava quase silencioso, Edward pediu que ela ficasse. A noite estava fresca, o céu limpo sobre Washington. Ele segurava uma pequena caixa de veludo escuro.
— Seu pai comprou metade de Londres para você hoje — ele começou, o tom provocativo. — Mas eu preferi algo menor.
Bella inclinou a cabeça, curiosa.
Ele abriu a caixa. Um colar delicado, pingente de diamante em formato de coração, brilhando sob a luz suave do jardim.
— Um coração? — ela provocou. — Isso é sentimental demais para você.
Ele deu um passo à frente.
— É frio. É duro. Difícil de quebrar. — Seus olhos fixos nos dela. — Como o meu.
Ela ficou em silêncio.
— E é seu — ele completou, a voz mais baixa do que de costume. — De todas as formas que eu sei admitir… e das que ainda estou aprendendo.
Bella sentiu o peito apertar de um jeito que não tinha relação com joias. Ele colocou o colar em seu pescoço com cuidado inesperado, os dedos roçando sua pele.
— Isso não é uma rendição — ela murmurou.
— Não. É uma declaração de guerra diferente.
Ela sorriu, emocionada apesar de si mesma.
— Eu sempre ganho guerras, Edward.
— Então ganhe essa comigo.
O beijo que veio depois não tinha plateia, nem fogos, nem música. Era lento, profundo, carregado de algo que nenhum dos dois ousava chamar de amor em voz alta. Terminaram a noite nos aposentos privados, não com urgência impulsiva, mas com intensidade consciente, cada toque carregando significado que ia além do físico.
E quando amanheceu sobre Washington, Bella ainda usava o colar. Não como símbolo de riqueza. Mas como prova de que, pela primeira vez, alguém havia lhe dado algo que não era substituto de afeto.
Edward acordou antes dela e observou o coração de diamante repousando sobre sua pele. Frio. Duro. Indestrutível.
Exatamente como ele acreditava ser.
E perigosamente entregue.
Fale com o autor