Esme caminhava pela área externa de Brocket Hall, tentando reter, ainda que por poucos instantes, a tranquilidade que aquele lugar oferecia antes que os próximos dias a arrastassem para o inevitável turbilhão.

O tempo parecia ter corrido mais do que o habitual. As notícias já não falavam de outra coisa senão do seu nonagésimo aniversário. William estava prestes a concluir o livro e se preparava para publicá-lo ainda naquele ano. Curiosamente, Esme precisava admitir que havia encontrado naquele processo uma espécie de terapia, quase diária.

Esme diminuiu o passo ao se aproximar dos estábulos. O cheiro de feno e madeira a seduziu a parar um pouco a sua caminhada. O cenário que encontrou não a surpreendeu. Renesme estava lá.

Havia nela uma fascinação antiga por cavalos, algo que resistia até mesmo agora, quando lhe era impossível cavalgar como antes. Ainda assim, permanecia próxima, como se recusasse a abrir mão daquilo que, de alguma forma, ainda a ancorava.

— Você está sentindo? — perguntou ao cavalo, enquanto o animal apoiava a cabeça contra seu ventre inchado. — Esse tremor é o seu novo amiguinho, Don.

O cavalo respondeu com um leve relincho, e Renesme sorriu, passando os dedos pela crina com delicadeza.

— Você vai ver, vocês vão ser muito amigos. Vão sim, querido!

Esme se aproximou devagar, cuidando para não interromper aquele momento, e sentou-se ao lado da neta sobre o feno.

Nos últimos dias, aquilo havia se tornado raro. Renesme passara a maior parte do tempo recolhida, preservando-se mais do que gostaria de admitir. No dia anterior, havia ido a mais uma consulta com a ginecologista. O diagnóstico fora, ao menos, tranquilizador dentro do possível: apesar do deslocamento da placenta, a gestação seguia. Um alívio, ainda que cauteloso.

Foram dias tensos, dentro e fora da família. Mas Esme, em silêncio, nunca chegou a duvidar. Havia na neta uma obstinação diante das dificuldades, algo que sempre a fizera avançar mesmo quando tudo parecia desfavorável. E agora não seria diferente.

Além disso, dentro de três dias, iniciariam as celebrações do seu aniversário. Renesme insistira em participar, ao menos no último dia, em que haveria o desfile cívico. Estariam todos ali, assistindo às apresentações militares e artísticas que percorriam a vida da rainha, até o momento final, na sacada do Palácio do Parlamento, como acontecia em todos os National Day.

Mesmo com o corpo pesado, os pés inchados e o cansaço evidente, Renesme queria estar presente. Não apenas por ela, mas pelo que representava. Era uma forma de afirmar ao público que tudo estava bem. O dever, afinal, sempre vinha antes. E talvez fosse justamente isso que mais a inquietasse.

Esme lembrou-se de quando a neta completou quinze anos, um verdadeiro evento na época para todos. Renesme havia se dado conta, até demais, do quanto aquilo significava. Quando ela nasceu, havia o questionamento de como a notícia de seu futuro como monarca do país lhe seria repassada.

Com Emmett não havia tido muito preparo. Desde cedo, ele já sabia que um dia seria rei, embora aquela premissa não tenha se cumprido. As pessoas que o rodeavam não guardaram segredo. Ninguém pensou em poupá-lo. Não. Quanto mais cedo ele soubesse, melhor. Eram outros tempos e outros pensamentos. Um erro grave que Edward e Bella não quiseram cometer com a sua filha.

Mas, aos quinze anos, Renesme já estava ciente de tudo. Ela passou a se comportar como um robô depois desse marco em sua vida, tornando-se um tanto monótona.

Esme lembrou imediatamente de quando ela teve que discursar pela primeira vez no parlamento. Tadinha, estava toda enrolada com um discurso que Catherine havia criado para ela e que, certamente, nada tinha a ver com a menina. A rainha percebia a tensão da neta sair pelos poros. Tanto que nem se dera ao trabalho de pensar nos detalhes de sua festa.

Renesme, na época, havia se negado a usar uma tiara exclusiva para ela, e agora as duas seguiam para o Banco Central para que pudesse escolher alguma do acervo. Mas Esme sabia que a neta não conseguia prestar atenção. Então, tocou-lhe a mão em sinal de conforto e recebeu um sorriso em troca.

Quando chegou ao cofre, Renesme ficou surpresa ao ver tantas joias brilhantes guardadas lá. Não imaginava que pudesse haver tantas. Eram muitas opções diferentes e nem ao menos ela sabia qual iria escolher.

— Uau! — falou.

— Sua mãe disse a mesma coisa quando eu a trouxe aqui.

— É mesmo? E qual tiara ela escolheu?

— Aquela ali, veja! A tiara de Safira.

Renesme se dirigiu a ela para observá-la de perto. Era bem a cara de sua mãe mesmo. Outro dia, ela lhe dissera que passara a amar a cor azul porque o seu pai lhe tinha dito que adorava vê-la naquela cor. Isso era algo que a princesa achava muito fofo entre os dois.

— É muito bonita, mas é muito parecida com ela. Eu queria algo que tivesse mais a ver comigo.

— Eu entendo completamente. Tem mesmo que procurar alguma que seja marcante, afinal, ela ficará para sempre na memória de todos e na sua também. Quinze anos é uma idade muito importante!

— Absolutamente!

— Tem que usar uma das tiaras raras.

— Tiaras raras?

— Sim, são algumas da coleção que quase não usamos.

— Por que não as usamos?

— Algumas porque são bem antigas e queremos preservá-las. Imagina que a nossa família tem mais de 200 anos e, durante todo esse tempo, guardamos todas as joias que foram adquiridas ao longo dos anos.

— Deve haver centenas, então.

— Não tantas assim.

Esme virou-se para o funcionário que cuidava do cofre.

— Traga as tiaras da coleção rara, por favor.

No minuto em que o funcionário trouxe as caixas com as tiaras, Renesme se surpreendeu novamente. Eram todas tão lindas! Estendeu a mão e pegou a caixa com uma toda de ouro e pequenas pérolas incrustadas. Apaixonou-se por ela no mesmo instante. Parecia mesmo que as tiaras escolhiam as suas donas.

— Essa é muito bonita! Combina com o seu vestido.

— Também acho. Posso experimentá-la?

— Claro!

No mesmo instante, Esme pediu para o funcionário colocar a tiara na cabeça da sua neta. Renesme, ao se ver no espelho, achou que tinha se transformado em outra garota. Sentia-se mais velha, adulta e mais poderosa.

— Essa tiara é a mais antiga da nossa coleção. Pertenceu à rainha Edith, a esposa do nosso primeiro rei. Ela trouxe a tiara da Bélgica quando se casou. Estima-se que ela seja do século XVIII.

— Magnífico! É uma grande honra usá-la. É como se estivéssemos fazendo parte da história também.

— É verdade.

Esme pediu que o funcionário trouxesse outras joias para que a neta pudesse usá-las também.

Naquele momento, ela sentia que estava em um rito de passagem. Quando era mais jovem, estivera ali com a sogra e, depois, trouxera a mãe de sua neta. Agora, mais uma geração fazia parte daquele momento. Era algo realmente mágico saber que, um dia, Renesme também traria sua filha e suas netas para usar aquelas mesmas joias.

— Acho que essas vão ficar lindas em você. Essas foram um presente do rei da Espanha para a sua bisavó, a rainha Elizabeth.

— São perfeitas!

Esme colocou o colar e os brincos na neta e achou que ela estava uma verdadeira princesa.

— Você está deslumbrante!

— Sim. Me sinto diferente.

— A partir de agora, Ness, terá uma responsabilidade enorme com o seu país. Tudo que fizer terá que ser em benefício de todos. Sua vida será deles, assim como tudo que fizer.

— Eu sei... Estou nervosa com isso. Não sei se estou pronta. Há tantas coisas que ainda não sei.

— Você irá aprender. Tem muito tempo para isso.

— Quero muito me dedicar a aprender tudo que preciso, nem que leve muito tempo.

— Eu me sinto orgulhosa de você, sabia? É bom saber que finalmente teremos uma mulher lá no trono.

Renesme sorriu e agradeceu a confiança que a avó tinha nela e a abraçou. Mas podia sentir que sua neta mal podia respirar. Porém, tinha certeza de que ela iria até o fim para cumprir o seu legado. A princesa era muito teimosa quando queria.

Então, não duvidava de que ela faria de tudo para estar presente no evento que marcaria a finalização das celebrações de seus 90 anos.

— Don, já estava achando que eu havia me esquecido dele. — Renesme falou para Esme no presente.

— Você sabe que não será um afastamento definitivo.

— Não, claro que não. E também não quero que pensem que eu não estou compreendendo o porquê de tudo.

— Eu sei que sabe. É só sua mania de ser sempre ativa. — Esme bateu de olho para Renesme, e ela sorriu com aquele riso envergonhado de sempre. — A médica falou alguma coisa sobre o parto?

— Está previsto para até o fim do mês. — Renesme suspirou com certa ansiedade. — Ela me perguntou se eu queria marcar a cesariana para logo depois do seu aniversário.

Esme levantou as sobrancelhas com espanto.

— E o que você decidiu?

— O bebê nascerá normalmente, no tempo dele. — Renesme falou com firmeza. — William não ficou tão satisfeito com a minha decisão... Mas, ao menos, não é como o papai. Ele respeita a minha escolha.

— Eles estão com razão, querida. Não seria melhor deixar o hospital de Genove sob aviso?

— Não vou mudar os meus planos. A doutora Jenny não descartou a possibilidade de ser um parto normal. Ela já até me liberou de estar na cama. Isso é uma vitória, não?

— Claro que sim! Mas no hospital há toda uma estrutura para caso exista algum imprevisto. Você sabe... Eles existem...

Renesme sentou-se no feno ao lado da avó, como se tivesse corrido muito e agora precisasse de um fôlego. Esme sabia que a neta estava cansada de toda aquela discussão e intromissão sobre todos os aspectos de sua vida. O que ela não entendia era que, naquele momento, eram apenas pessoas preocupadas com a saúde dela e nada mais.

— Não quero que seja badalado como foi o de Bebela. A escolha foi minha, certo, mas estar ali tão exposta ao olhar de todo mundo em um momento tão importante como aquele... Eu não esperava que fosse tão desconfortável.

— Desculpa, então. Fui eu que inventei essa moda por aqui.

Renesme sorriu e tocou a barriga, fazendo círculos ritmados, enquanto refletia.

— Esse vai ser o meu último bebê. Eu sei que eu e William não temos mais idade e disposição para outra criança. Quero que seja um momento especial, que não envolva ninguém mais, além das pessoas mais importantes.

Esme olhou para a neta sem imaginar esse lado da questão. Realmente, para a maioria das pessoas, o parto era algo reservado, embora muitos queiram que seja um espetáculo para engajar nas redes.

Mas Renesme teve o espetáculo de forma indesejada durante toda a sua vida e, por um momento, queria algo muito simples, apenas um pouco de paz.

— Compreendo totalmente.

Ali, a rainha percebia o contraste. Renesme estava se permitindo fazer escolhas por ela mesma, e isso mostrava seu amadurecimento dos últimos anos, especificamente.

Apesar de “seu vício” em querer sempre ser útil e programada para acertar, ela acabou se deixando levar pela programação de todos, menos pela dela mesma. Algo que Esme entendia como insegurança e também como o velho hábito de querer agradar.

Agora Renesme se mostrava mais certa de seus próprios desejos e determinada a manter o controle, mais do que ela achava do que era certo e não sobre o que pensavam que ela devia ser. Isso era muito bom. Agora sim, podia-se dizer que a rainha em construção estava sendo moldada da maneira correta.

— Ao menos, garanta que irá ter alguém especializado aqui para te acudir.

— Claro, vovó! Eu não quero morrer. A doutora irá ficar de sobreaviso para quando eu começar a sentir as contrações. Vou ter aquela parteira que você acompanhou comigo também.

Esme fez uma careta, e Renesme gargalhou. A princesa vinha, há um mês, tendo aulas de respiração e exercícios leves com uma mulher que a rainha considerava excêntrica demais. Não confiava muito nos meios “naturebas” dela e muito menos nesses métodos de “TikTok” que essa geração vinha adotando. Ao menos, ficava tranquila em saber que havia alguém com diploma de medicina presente também.

— Deixe disso, vovó! Lola é ótima!

— Espero que sim... Enfim, vou voltar para Belgravia amanhã para as celebrações, porém, estarei aqui novamente quando tudo terminar.

— Isso me deixa feliz. Chamei tia Rosie para estar presente também. Eu quero apenas as pessoas que me fazem bem nesse momento tão importante.

Esme assentiu e acariciou levemente as mãos de sua neta. Não queria demonstrar preocupação. Não queria parecer obsessiva como Edward, que, nessa hora, já deve estar com entradas na cabeça de tanta preocupação. Mas como não evitar o medo? Foi dessa forma com Alice. O temor dominou, mas ela não queria se entregar à negatividade. Tinha que acreditar que, no fim daquele mês, estaria celebrando a chegada de mais um bisneto.

— Vai dar tudo certo, vovó. Você vai ver! Enquanto à sua festa... Não quero a senhora preocupada com nada. Aproveite todas as homenagens. Esse momento não é da rainha somente, e sim da mulher. Não se esqueça disso.

— Eu sei. Você sempre tem certeza sobre tudo, não? O que minha neta brilhante não pode conseguir com sua persistência?

— É isso aí! Agora vamos, porque eu estou morrendo de fome!

— Nós não acabamos de tomar um belíssimo café da manhã?

— Não me julgue! É o seu bisneto que quer me deixar uma baleia.

As duas sorriram e seguiram juntas para o casarão. Esme observou Renesme caminhar um pouco à sua frente. Ela estava leve. Se pudesse, talvez até saltitasse.

Esme estreitou levemente os olhos, reconhecendo naquele gesto algo que, por muito tempo, parecera distante demais para acontecer.

Apressou-se e tomou suas mãos ao alcançá-la. Era tempo de confiar, de permitir que aquilo que foi moldado seguisse por conta própria.

Em breve, deixaria o grande palco da monarquia. E seria Renesme quem seguiria adiante. Não como antes. Mas como alguém que, enfim, começava a caminhar por si.

Esme: Sua Verdadeira História – Capítulo 42: Girl Power

Há um tipo de notícia que não chega como surpresa, mas como sentença. Refiro-me ao dia em que se descobre que será rei ou rainha de um país. Sei que é uma experiência que quase ninguém terá um dia e, ainda assim, sempre me peguei pensando nisso. Eu mesma nunca teria e, talvez por isso, a curiosidade sempre tenha me acompanhado: como é esse momento? O que se sente?

Carlisle me disse que sempre soube que esse dia chegaria. Confesso que, quando ele me contou isso, fiquei em silêncio por alguns segundos, tentando imaginar aquela versão tão pequena dele lidando com algo tão grande. Sua babá lhe contou quando ele começou seus estudos, com cerca de quatro anos de idade. Fiquei pensando em como uma criança conseguiria assimilar algo assim, e ele me disse que foi quase como osmose. Eu não sei se isso me conforta ou me assusta mais.

Eu não queria que Emmett tivesse uma experiência semelhante, e digo isso com o peso de quem realmente tentou evitar. Mas não consegui. E, no fundo, acho que nunca conseguiríamos. Sei que, para ele e para Edward também, era como uma bomba: você não sabia quando, mas ela iria explodir. E viver com essa espera não é viver plenamente.

Renesme só descobriu que seria rainha aos oito anos. E, olhando para trás, acho que foi uma escolha acertada, ou, pelo menos, a mais gentil possível dentro das circunstâncias. Bella e Edward foram firmes com todos ao redor dela. Ninguém poderia falar a respeito até que eles mesmos contassem a novidade. Lembro bem de como minha nora se irritava profundamente com qualquer pessoa que ousasse tratá-la de forma diferente. E, sendo muito honesta, eu a entendia perfeitamente.

Isso permitiu que Renesme e, consequentemente, Antony, vivessem de maneira um pouco mais normal do que se espera de crianças nascidas na realeza. E eu valorizo muito isso. Estudaram em colégios com plebeus, formaram-se, frequentaram locais públicos, especialmente quando estavam nos Estados Unidos visitando a avó materna, algo que, para muitos, parece banal, mas para eles nunca foi. E se permitiram, talvez pela última vez com leveza, aperfeiçoar dons que iam além de seus títulos.

Antony é um exímio músico e adora fotografia. Renesme é um pouco de tudo: dançarina, amazona, desenhista… Mas sei bem que, para ela, isso era um respiro. Suas obrigações sempre vieram em primeiro lugar.

Carlisle foi o mentor das boas novas. E, até hoje, quando penso naquele momento, sinto um aperto no peito. A pandemia da COVID-19 estava no auge e todos estavam enclausurados. Edward estava doente e não era uma doença qualquer. Todos temiam o pior, embora poucos tivessem coragem de admitir. O clima não poderia estar mais tenso.

Carlisle percebeu que a neta tentava nadar contra a maré em meio à crise. Mesmo criança, Renesme estava atenta a tudo, talvez até demais, e, claro, temia pelo pai. E que criança não temeria? Então, ele resolveu levá-la ao seu escritório para distraí-la.

Ele mesmo me contou que tentou, ao máximo, se controlar para não revelar seu futuro como monarca. Mas Renesme sempre foi impossível de subestimar. Ao entrar no escritório, percebeu que os quadros dos antigos reis eram todos de homens e, como era de se esperar, questionou o avô. E eu consigo quase vê-la ali, com aquele olhar curioso que nunca deixava passar nada.

— Por que só há quadros com homens no seu escritório, vovô?

— Esses homens foram reis de Belgonia, querida. São nossos parentes.

— Por que não há rainhas?

— Houve algumas, mas todas eram como a sua avó: chamadas de rainha porque eram casadas com reis.

— Estou entendendo… Uma mulher não pode mandar como um rei?

— Claro que pode. Não há nenhuma diferença nesse quesito.

— Então, por que não houve nenhuma rainha que não fosse esposa de um rei?

— Porque Deus não quis, querida — disse ele, tentando não se complicar ainda mais.

Quando ele me contou essa parte, eu precisei conter um sorriso. Era tão a cara dele tentar simplificar o impossível.

Até aquele momento, Bella e Edward vinham introduzindo a ideia de forma cautelosa, contando histórias como se fossem contos de fadas. Não sabíamos se ela ligaria os pontos ou quando isso aconteceria. Eu imaginava que seria em breve. Renesme era muito rápida em seus pensamentos e, sinceramente, ainda bem que foi Carlisle quem a conduziu.

Ele lhe mostrou um livro sobre a história da monarquia de Belgonia e a árvore genealógica da família, explicando como funcionava a sucessão. Quanto mais Renesme compreendia, mais sua realidade futura se aproximava de ser revelada. Até que:

— Quando uma pessoa pode se tornar rei ou rainha? — perguntou Renesme.

— Apenas quando o rei que está reinando morre.

— Uma criança pode se tornar rainha? Ela pode desistir disso como o tio Emmett fez?

— Uma criança não pode se tornar rainha. Apenas adultos podem. Por que está perguntando isso?

— Porque, se o papai morrer dessa doença, eu serei a próxima rainha e eu não quero que isso aconteça.

— Querida, o seu pai não vai morrer. Ele está sendo forte o suficiente para dar um chute nessa doença nojenta.

— Então… Acho que eu posso ser uma rainha no futuro.

— Você vai ser, querida, e uma muito boa. Mas não se preocupe, não será agora. Você terá muito tempo para se preparar para isso.

— E o que as rainhas fazem?

— É um papel muito importante, Ness. É mais do que brincar com bonecas ou colocar uma coroa na cabeça. Um bom governante é aquele que sabe o que seu povo precisa, porque é ele quem lidera todo o país.

— Isso é muita coisa, vovô! Como vou saber o que o meu povo quer?

— Andando pelas ruas, conversando com as pessoas em eventos, observando ao redor. O primeiro-ministro administra, mas o rei representa todos do país.

— Ainda acho um pouco confuso… Não sei se vou ser uma boa rainha, mas eu queria ser,

mim, sempre fez toda a diferença. Isso foi o que a motivou por um tempo considerável. Na verdade, o fato de que ela seria a primeira monarca do país foi sendo amadurecido em sua mente até os quinze anos. E eu acompanhei isso de perto, às vezes em silêncio, às vezes com preocupação, mas sempre com admiração.

Foi aí que imagino que tudo deu uma volta completa na vida da minha neta. É nessa idade que as meninas da realeza têm seus títulos de nascimento efetivados. E, sinceramente, nunca vou esquecer aquele dia. Ela precisou fazer um discurso no parlamento, assumindo um compromisso com todo o país. Tadinha… Era absurdamente nova para carregar qualquer responsabilidade, ou mesmo compreender plenamente como funcionam a política e a administração de um país. Mas regras são regras, não é?

E, ainda assim, ela cumpriu bem essa etapa. E eu estava lá, vendo não apenas uma herdeira, mas uma menina tentando ser forte antes do tempo.

Aliás, esse é um fator que poucos conseguem entender. Vi, ao longo dos anos, muitas críticas feitas a Renesme, principalmente ligadas ao fato de ela se apresentar pouco ao mundo e manter a discrição de sua vida. Entendo que ela é uma princesa e todos querem um pouco dela. Porém, o que acredito que tenha acontecido é bem diferente do que realmente pensam por aí.

Renesme não se escondeu das pessoas ou tinha medo delas. Acredito que, na cabecinha dela, passavam muitos pensamentos que a paralisavam. Especialmente pelo fato de ela querer agradar a todos e procurar sempre ser o que os outros achavam que deveria ser uma princesa.

Um exemplo disso foi quando, aos dezessete anos, ela resolveu fazer inúmeras dietas e ficou extremamente magra. No início, todos nós pensávamos que era algo normal da idade, que Renesme queria apenas se alimentar de uma forma mais saudável e regrada. Detalhe: ela nunca esteve acima do peso. Sua aparência era de uma adolescente normal.

Foi Rosie quem primeiro percebeu quando aquilo estava saindo do saudável e se tornando algo perigoso. Ela mesma já havia passado por isso durante a sua própria adolescência, quando era modelo. Sabia que aquela dieta tinha nome e sobrenome.

Bella e Edward ficaram arrasados por não perceberem mais cedo que Renesme estava daquela forma porque tinha visto alguns comentários sobre seu corpo na internet e colocado “caraminholas” em sua mente. E eu fiquei pasma com o modo como as redes sociais poderiam mudar alguém de tal forma. Ainda bem que conseguimos fazê-la enxergar que ela não precisava daquilo para ser uma princesa exemplar. Que comentários negativos sempre haveria, independentemente do que ela fizesse ou não.

Mas isso é algo que se assimila aos poucos. Renesme levaria ainda um tempo para compreender qual realmente era seu papel. Ela seguiu ainda tentando se preparar ao máximo para o seu futuro singular. Assim que concluiu a sua trajetória escolar no ensino básico, emendou logo no curso de Administração Pública na Universidade de Belgonia, seguindo os passos de seu pai e avô. Fazendo tudo como mandava a tradição.

Renesme mergulhou nos estudos com uma disciplina que sempre me impressionou. Era dedicada, comprometida e, acima de tudo, correta. Talvez correta demais. Cumpria horários, participava de tudo o que se esperava dela e raramente questionava.

Até que um pouco dessa rocha começou a rachar. Foi nessa época que surgiu um garoto. Filho de empresários, muito rico, mas sem títulos. Popular, expansivo, exatamente o tipo de pessoa que não fazia o menor sentido ao lado da minha tímida e discreta neta. E talvez tenha sido justamente isso que aproximou os dois.

Eles se conheceram em um jogo de polo da universidade. Renesme sempre teve uma ligação especial com cavalos, algo que, de certa forma, sempre foi um dos poucos espaços em que ela se permitia ser mais leve. O pai dele era dono de um haras, e aquele assunto em comum abriu uma porta que, até então, permanecia fechada.

O jovem foi, então, aos poucos, ganhando o coração de Renesme. Mas como não? Ele era o tipo de pessoa irresistível. Simpático, amável e sempre sabia o que dizer. Acho que a vida com poucos comprometimentos e muito mais leve que ele levava deixava Renesme extasiada. Ele era tudo o que ela queria ser e não podia. Daí nasceu um namoro intenso, que durou cinco anos.

Mas não pense que isso significou afastamento de suas responsabilidades. Pelo contrário. Renesme continuava sendo impecável em tudo o que fazia. Estudava, se preparava, cumpria cada etapa como se nada tivesse mudado.

E talvez fosse justamente isso que mais me inquietava. Porque, ao mesmo tempo, o namorado lhe apresentava uma nova versão da vida. Uma que combinava festas, noitadas, viagens caras e excessos. Nada contra, em absoluto. Mas confesso que, naquele momento, temi que ele pudesse ser uma má influência e, de certa forma, que histórias do passado, que eu conhecia bem demais, pudessem querer se repetir.

À medida que o namoro avançava, Renesme foi se permitindo. Ele não a tratava como alguém que carregava um futuro previamente escrito. Não havia formalidades, nem cuidados excessivos. E, para alguém como Renesme, isso era, ao mesmo tempo, estranho e libertador. Eu bem sei o quanto isso pode ser importante.

O que me preocupava era vê-la em uma espécie de dilema silencioso. Ela queria seguir o seu destino predestinado e, ao mesmo tempo, queria pertencer. Ser parte de algo que nunca lhe foi permitido viver de verdade. O seu jovem namorado lhe abria as portas desse mundo, ao qual ela nunca pertencera, mas que agora, eu sentia, ela achava que deveria pertencer para fazer parte de algo maior. Eu não sabia, sinceramente, não sabia se aquilo a fortaleceria ou a dividiria.

Quando Renesme concluiu a universidade, fomos todos surpreendidos com a notícia de que ela desejava aprofundar os seus estudos nos Estados Unidos. Havia se inscrito e sido aprovada para um estágio na ONU, em Nova York. Bom, até aí tudo bem. Era típico da nossa menina perfeccionista. O que não sabíamos era que o seu jovem e muito determinado namorado iria acompanhá-la. Não só isso. Os dois pretendiam morar juntos.

Essa foi uma decisão avassaladora. Como um regime tão conservador como uma monarquia iria aceitar algo assim? Porém, esse fato peculiar não foi uma bomba apenas para a Instituição. Para nós, como família, também foi.

Achávamos, ingenuamente, que depois que Renesme se formasse, o namoro cairia por terra. Mas não. Ela estava apaixonada. E, mais do que isso, estava decidida.

— Não olhe assim pra mim, vovó! — disse Renesme, enquanto arrumava as malas. — Estamos no século XXI.

— Eu sei… É que… Você é tão jovem, querida.

— Você e mamãe se casaram com quantos anos, mesmo?

— Boa resposta. Porém, isso não me impede de lhe dizer que as experiências que tivemos foram as melhores. Queremos que você tenha mais vida do que tivemos.

Renesme deixou algumas roupas na mala de qualquer jeito e veio até mim com aquele olhar semelhante ao de uma mãe que tentava acalmar o filho inseguro. Com uma maturidade que, às vezes, me fazia esquecer que ainda era apenas uma jovem.

— Não estou indo para a prisão, vovó. Não estou me casando, propriamente falando. Só vamos dividir um apartamento.

Levantei as sobrancelhas. Claro que seria mais do que isso.

— Ah, vó! Nem virgem eu sou mais! Pensei que a senhora fosse mais mente aberta.

Touché.

— O que ele tem de tão especial?

Lauranne suspirou antes de responder e olhou para as próprias mãos. Eu sabia que suas bochechas ficariam vermelhas.

— Bom… — sorriu, sem jeito. — Ele me faz descobrir coisas sobre mim mesma que eu nem imaginava que existiam, sabe? Acho que consigo entender o que você e o vovô, ou os meus pais, sentiam um pelo outro. É algo absolutamente bom.

Essa fala acendeu em mim uma luz que eu não queria que tivesse sido acesa. É claro que Lauranne também queria repetir esses padrões. Como não? Filha de um casal considerado perfeito. Neta daqueles que, à sua maneira, revolucionaram a monarquia. Mas eu não queria que o lado romântico da minha neta fosse épico. Queria apenas que fosse o suficiente para fazê-la feliz.

— Você sabe que não precisa procurar alguém que te faça viver exatamente o que vivemos, não é?

— Não é isso, vovó! — disse ela, levantando-se abruptamente e voltando a arrumar suas coisas. — Eu o amo, ok? Posso ter as minhas próprias experiências?

Apenas assenti. No fundo, talvez fosse mesmo melhor que experimentassem a vida antes de qualquer decisão definitiva. Ainda assim, permaneci com uma inquietação difícil de ignorar. E eu sabia que os pais dela também se sentiam da mesma forma.

Entretanto, para Bella e Edward, o mais importante era que a filha tivesse, finalmente, uma dose de liberdade. Confiávamos que ela não faria besteira. Afinal de contas, era Renesme, e ela nunca saía da linha.

Foi duro vê-la tão pouco nos quase dois anos em que esteve no estrangeiro. Mas as notícias que chegavam nos davam um grande orgulho. Falavam de seu desempenho impecável, de como ela sempre parecia saber o que fazer.

Edward, então, era o típico pai bobo. Fazia questão de contar a todos sobre os “louros da vitória” de Renesme na ONU, repetindo, com entusiasmo, que ela seria a monarca mais preparada que este país já viu, esquecendo-se de que ela seria a primeira de todas.

Mas é inegável dizer que trabalhar na Organização das Nações Unidas foi um feito e tanto para a minha neta. Foi corajoso da parte dela não apenas ir além dos estudos básicos, mas buscar voos maiores, em outro país, enfrentando desafios reais.

Ali, Renesme não era apenas mais uma estudante exemplar. Foi colocada em situações que exigiam algo além da perfeição técnica; exigiam posicionamento. Exigiam decisões diante de problemas que não podiam ser resolvidos apenas com protocolo.

Ela trabalhou em equipes diversas, lidando com temas que, até então, pertenciam apenas ao campo teórico. Questões humanitárias, conflitos diplomáticos, negociações delicadas… Isso muda uma pessoa.

O simples fato de estar em Nova York a libertou de maneiras que talvez nem ela mesma percebesse de imediato. Andar pelas ruas sem a pressão constante de olhares, com uma segurança discreta que, aos poucos, deixou de ser apenas proteção e passou a ser companhia, pegar o metrô, ir ao supermercado, escolher o que comer, errar pequenas coisas do dia a dia… Viver como uma pessoa comum. E isso, para Renesme, nunca foi pouco.

Houve um dia em que, durante uma ligação, percebi isso com clareza.

— Estou cansada. — ela disse, com uma naturalidade que me pegou desprevenida.

Renesme nunca admitia cansaço.

— Isso é ruim. Pare de trabalhar demais, mocinha! — respondi, já preocupada.

— Não… — disse ela, após uma breve pausa. — Acho que é a primeira vez que estou cansada por coisas que eu escolhi.

Sorri, surpresa com a resposta.

— E os Estados Unidos? É tudo isso mesmo? Acho que somos a realeza mais americana que existe.

— Vó, é maravilhoso! Só o fato de não sermos julgados já vale a pena. Aqui eu sou apenas uma “zé ninguém”, como todos os outros “zé ninguém” que habitam essa cidade.

— Isso é ótimo! — respirei, aliviada. — E nada de chefes chatos?

— Ah, eles são exigentes, sim. Mas… Tudo bem. Faz parte. Quando você faz o que precisa ser feito, com responsabilidade, eles não precisam pegar no seu pé.

— Entendo. Mas você sabe que, se cansar dos seus chefes daí, pode voltar para o seu chefe Carlisle. Ele anda com muita saudade.

— Eu também. Na verdade, falo sempre com o vovô. Ele me dá bons conselhos… — fez uma pequena pausa antes de completar: — Mas é aquela coisa, vó… Eu vou ter a vida inteira com ele, ou com papai, como chefes. Deixa eu aproveitar um pouquinho esses daqui.

Confesso que ri. Mas aquela frase ficou comigo por mais tempo do que eu gostaria de admitir. Porque, pela primeira vez, eu não via Renesme apenas se preparando para o futuro. Eu via Renesme escolhendo viver o presente.

Porém, nem tudo foram flores nessa experiência. Em um dia, como todos os outros, saiu uma capa de revista com fotos de Renesme e o tal namorado da época se beijando apaixonadamente no Central Park. Ok? Não era nada demais. Porém, o estranho era o tom da matéria. Tratava o jovem como se fosse o próximo a entrar para a família real, com detalhes do relacionamento dos dois que seria muito impossível um paparazzo qualquer saber.

Isso ligou o alerta em todos nós aqui. Pensamos que poderia ter sido a segurança dela que, de repente, poderia estar traindo Renesme. Mas a minha neta pensou além. Pediu a Henry, que, a essa altura, já era jornalista aqui em Belgonia, para tentar descobrir as fontes da matéria. Do jeito dele, descobriu que o tal rapaz não era lá o lorde que Renesme um dia pensou.

Os dois discutiram, e o relacionamento chegou ao fim. Aquilo fora devastador para a minha neta. Não porque era o fim de um namoro longo, mas porque ela descobriu algo que todos os membros da realeza acabam descobrindo em algum momento: não se pode confiar cegamente em todo mundo.

O tal garoto voltou para Belgonia. Admitiu para ela que havia vendido uma entrevista sua para a revista. Não sabemos até hoje quais foram as motivações dele. Afinal, a família e ele continuam ricos; não precisavam do dinheiro. Bom, acho que talvez tenha achado que assim pressionaria Renesme a oficializar o casamento e acabar de vez com essa história de apenas “brincar de casinha”.

Independentemente disso, Renesme saiu arrasada dessa história. Com certeza, essa decepção a marcou tão profundamente que nenhum dos relacionamentos, até a chegada de William, foi a mesma coisa. Ela perdeu totalmente a confiança que tinha. Culpava-se, mesmo sem ter culpa nenhuma, e perdeu a fé de que poderia ter sorte no amor, como contavam as histórias.

Ela realmente teve algumas experiências ruins depois, mas não por ser uma garota azarada e diferente demais das outras pelo peso do seu destino, mas porque ela própria acabou escolhendo mal por causa de suas experiências ruins.

Além disso, o fim do namoro também impactou a vida dela profissional. Renesme resolveu sair dos Estados Unidos e esperou apenas acabar o estágio para tal. Os superiores dela ainda tentaram contratá-la, mas ela não quis. Preferiu passar um ano sabático na Itália para se recompor antes de voltar para casa.

Quando Renesme completou seus trinta anos, ela já estava de volta a Belgonia conosco. Mas sou capaz de dizer que ela não era mais a mesma. É certo que aquele comprometimento cego com os seus compromissos continuava ali, até mais acentuado. Porém, eu sentia o vazio. Aquela menina sonhadora que eu havia conhecido não estava mais ali.

Havia, no lugar, uma mulher firme, porém insegura, que queria apenas seguir em frente no caminho que lhe fora traçado desde o nascimento.

Ingressou na Marinha pouco tempo depois, como parte da tradição que sempre acompanhou os herdeiros do trono. Mas, como em tantas outras coisas, não o fez apenas por cumprir. Fez para provar que era capaz de suportar.

Foi a primeira mulher da realeza a ocupar aquele espaço, a vestir aquele uniforme, a submeter-se à disciplina e ao rigor que, bom, isso ela já estava acostumada. Era algo seguro, que certamente ela saberia tirar “de letra”, enquanto todo o resto dentro de si parecia incerto.

Renesme voltou para nós com o coração partido e quebrada. Mais temerosa com o rumo de sua vida do que poderíamos imaginar. Era como se ela não soubesse como continuar. Ser a princesa perfeita era mais fácil. Bastava apenas seguir o protocolo.

Porém, com o marco da idade vieram também as cobranças externas para o seu futuro. Nessa família, há o costume de se casar cedo. Algo totalmente aceitável em épocas passadas. Mas esperávamos que não fosse o mesmo para a geração de meus netos. Eles seriam muito mais livres e, ao mesmo tempo, politicamente corretos, envolvendo os valores que tínhamos antes. Porém, quando se fala de monarquia, isso não se aplica.

Infelizmente, caiu sobre Renesme a carga de ter que se decidir. Talvez, se ela fosse uma mulher comum, ninguém chegaria para ela e diria que o relógio biológico para ter filhos estava correndo, que ela precisaria se casar logo. Mas, infelizmente, para a herdeira do trono, era um caminho inevitável.

Aconselhávamos muito a esse respeito. Não havia cobrança de nossa parte. Sempre queríamos que Renesme escolhesse de acordo com o seu coração e não somente como uma princesa.

— Já voltaram a falar sobre isso? — perguntei, com cuidado.

Renesme soltou um leve suspiro, desviando o olhar.

— Nunca deixaram de falar.

Houve um breve silêncio antes que continuasse.

— Casamento, herdeiros… Como se fosse apenas mais uma etapa a cumprir.

Observei suas mãos inquietas, entrelaçando-se sem descanso.

— E o que você pensa sobre isso?

Ela demorou a responder.

— Penso que posso errar.

Sua voz saiu mais baixa. Assenti, compreendendo mais do que ela talvez dissesse.

— Nem tudo o que nos pedem precisa ser apressado. — disse, com suavidade. — Algumas escolhas exigem mais do que obediência.

Ela me olhou, dessa vez sem desviar.

— E se eu não souber reconhecer quando for certo?

Sorri de leve.

— Apenas abra mais os olhos e deixe algumas trancas abertas no seu coração.

Lauranne sustentou meu olhar por um instante a mais, como se guardasse aquelas palavras.

— Parece, sabe o quê? Que eu só sirvo para parir como um animal qualquer.

Não consegui segurar o riso com o jeito que ela falou, ao mesmo tempo em que lamentava profundamente que a sociedade não tivesse mudado nada, apesar dos anos e de todas as transformações que ocorreram no mundo.

— Isso me enfurece também, querida, mas não quero que se veja dessa forma.

Mas não era algo fácil. Eu sabia que não seria. Lamentava profundamente que esse conservadorismo disfarçado de dever tivesse caído sobre os ombros de minha neta. Renesme, antes de tudo, precisava descobrir quem ela era, e não somente encontrar o seu par perfeito que todos cobravam.

Foi depois da morte de Bella que tudo pareceu perder o seu eixo. A ausência veio de forma abrupta, deixando espaços que não se preenchiam com facilidade. Foi impactante para todos nós, mas certamente com Renesme foi mil vezes pior. Bella era o seu pilar, sua inspiração, e foi uma perda tão repentina que a tirou do chão em muitos sentidos.

Acredito que o luto a uniu a Alec. Ele também tinha perdido a mãe muito cedo e, entre tantas diferenças, eles se uniram pela única similaridade.

Eu sei que muitos esperam que eu fale sobre o relacionamento dos dois, e não irei fazer isso. Digo nesse livro que lamento muitas coisas e tenho muitas culpas que levarei para o túmulo. Certamente, o fato de ter, por um momento, apoiado essa união é um dos meus maiores arrependimentos. Deixei-me levar pelas condições do momento, e isso foi imperdoável.

Mas é aquela coisa... Há males que vêm para o bem. Ambos aprenderam muito com esse casamento desastroso e conseguiram seguir em frente com as pessoas que realmente amam.

Muitas vezes, o amor vem onde menos se espera e da forma que não planejamos. William é a prova disso. O homem que muitos acusavam de ser o sapo para a princesa, na verdade, era o verdadeiro príncipe que não enxergavam. Com ele, Renesme não se tornou apenas uma mulher mais corajosa, mas também mais segura de si.

Não havia nele a rigidez dos acordos previamente estabelecidos, nem a formalidade que tantas vezes acompanhava as relações ao seu redor. Com ele, Renesme não precisava antecipar cada gesto, nem medir cada palavra como se estivesse sempre sendo observada. William foi quebrando os tabus dela e mostrando que a vida poderia ser bem mais leve.

Hoje respiro aliviada quando vejo os dois casados e construindo a sua família. Os dois estão tendo as suas segundas chances e estão aproveitando bem tudo o que podem usufruir de uma vida a dois sem receios.

Devo dizer que o falecimento de minha nora também trouxe uma sobrevida para Renesme, além de somente o seu lado romântico e pessoal. O legado da mãe não a prendeu apenas na dor, mas lhe deu mais força para seguir em frente, continuando com o trabalho de Bella e dando-lhe mais coragem de aparecer mais ao público e lutar pelo trabalho social que tanto lhe importa.

Nunca vi Renesme tão certa do que quer conquistar e pisando mais firmemente no chão. O projeto que ela criou com o irmão, Antony, e com o primo, Henry, o “Young Together”, é um verdadeiro espelho da rainha que veremos um dia e me dá muito orgulho.

Sei agora que o passarinho está seguro no voo e que poderei descansar em paz ao saber que, um dia, teremos uma mulher tão preparada e com o coração tão grande à frente desse país. É mais do que jamais pude desejar.