Esme seguiu devagar para os seus aposentos e sentou-se em sua poltrona preferida com grande alívio. Abaixou-se na velocidade que podia, que seu corpo permitia, e retirou seus sapatos, fazendo uma massagem nos pés.

Os dias que se seguiram haviam sido tão agitados como previra. No início da organização da programação em homenagem ao seu aniversário, o que não faltou foram instituições e pessoas querendo prestar-lhe homenagens e que estas fossem incluídas dentro do roteiro oficial de comemorações.

A rainha deu um sorriso irônico. Sabia que boa parte dessas congratulações eram apenas formalidades de gente querendo aparecer. Então, decidiu aceitar apenas as mais essenciais, e de pessoas que realmente poderiam estar sendo sinceras, como as crianças do orfanato que ela ajudava, ONGs e instituições de caridade. Queria sentir a energia dos belgãos. Isso era o que realmente lhe interessava.

A sua equipe ficou com os cabelos em pé diante de tantas recusas dela, porém Esme deu seu melhor semblante de inocência e pediu gentilmente que dissessem a eles que uma senhora cansada não aguentaria tantos compromissos.

Esme sorriu mais uma vez ao lembrar-se do episódio. O bom de envelhecer é que ela podia ter desculpas para tudo, até para sua pouca paciência para a hipocrisia, inclusive a dela mesma. Para uma senhora de noventa anos, até que compareceu a boa parte, para não dizer quase todos, os compromissos da agenda de seu aniversário.

Foram almoços, visitas, desfiles e muitos parabéns. Agora ela podia dizer que realmente estava cansada e feliz por estar só, pelo menos alguma vez durante aquela intensa semana.

Estirou as pernas no encosto e olhou para o lado. O porta-retrato na mesinha tinha uma foto que ela achava linda dela e de Carlisle. Mais uma vez, o seu coração se apertou. A ausência dele nunca era esquecida, principalmente em momentos especiais como aquele. Certo que, em alguns momentos, ela até se distraía do fato de que seu companheiro constante não estava ali. Mas tinha a sensação de que Carlisle sempre voltava ou nunca a deixava de verdade.

Esme passou os dedos carinhosamente pelo rosto do marido na foto e lembrou-se daquele momento em que o registro fora feito. Quarenta e dois anos haviam se passado desde então. Os dois estavam felizes, aliviados, após a recuperação de Carlisle de sua hérnia de disco. Completavam vinte e cinco anos de casados e tinham feito mil planos para aquele momento.

Carlisle sorria com um sorriso leve, quase cansado, como quem aceita o desfecho com serenidade, mesmo sabendo que a vida seguiu por caminhos muito diferentes dos que um dia desenhou.

Em 2006, ele completaria também cinquenta anos. Então, tinham pensado em uma viagem de alguns dias para o Egito. Quase como se fosse uma nova lua de mel.

Começaram a planejar com muito entusiasmo e antecedência. Carlisle sairia em turnê com Edward e depois, já no início do ano, fariam a viagem a dois como sonhavam. Carlisle, especialmente, amava a cultura egípcia e, por algum motivo, nenhum dos dois havia estado no país antes. Portanto, dá para imaginar a ansiedade em que ele estava.

No primeiro dia, Carlisle já estava um tanto estranho. Na verdade, ele já vinha sentindo uma dormência no braço bem antes de embarcarem. Diziam que era apenas uma tendinite e que passaria, estava sendo medicado e não havia, portanto, o que dar errado.

Nem Esme nem Carlisle achavam que era algo realmente sério, e a vontade de fugirem da rotina era mais forte do que qualquer coisa. Ainda chegaram a visitar algumas pirâmides no primeiro dia, sem imaginar que o dia seguinte seria um verdadeiro desastre.

Logo de manhã, Carlisle levantou-se para escovar os dentes e sentiu o corpo estranho. Um formigamento que começava no pescoço e se enredava pelo braço.

— Está tudo bem, Carlisle? — Esme perguntou, já desconfiando de que algo estava realmente muito errado.

— Claro! — respondeu, sem muitas explicações.

Porém, ao chegar ao banheiro e levantar o braço para escovar os dentes, a dor veio forte. Esme não se lembrava dele reclamar de dor antes, mas parecia que agora era realmente intensa. Os braços tremiam e ele gemia. Aos poucos e devagar, foi se deitando no chão do banheiro, como se aquilo fosse ajudar de alguma forma.

Esme nem pensou em mais nada: ligou para a recepção e pediu atendimento médico. Carlisle não falava nada, apenas gemia baixinho. Esme se aproximou dele, mas não sabia o que fazer. Entre a solicitação dela e a chegada do socorro demorou apenas alguns minutos. Porém, para ela, parecia que mil anos haviam se passado. Tudo, absolutamente tudo, passou por sua mente, principalmente que ela não podia perdê-lo.

O calor infernal que sentia, a mistura de vozes em outro idioma… Tudo a deixava agoniada demais. Porém, em nenhum momento conseguiu sair do lado dele. Era como se a presença dela ali, ao lado de seu marido, pudesse protegê-lo.

Quando decidiram levá-lo ao hospital, tudo se moveu com uma precisão que não deixava espaço para hesitação. Esme seguiu ao lado dele até onde foi possível. Não a deixaram entrar. Tentaram explicá-la, mas ela não entendia a língua local, e nem o inglês dos egípcios ao redor era muito claro, então muita coisa a confundiu.

Ela ficou lá, sentada diante da porta por onde o levaram, chorando copiosamente. Parecia que algo dentro dela havia sido arrancado. Nunca, naqueles vinte e cinco anos, tinha passado por aquela sensação de ausência. Já havia perdido seus parentes, um a um haviam lhe deixado e agora a ideia de que algo muito ruim estava acontecendo a Carlisle a apavorava.

O tempo passava e ela simplesmente não recebia nenhuma informação. Restava-lhe apenas o silêncio e a solidão de algumas portas fechadas que a separavam de Carlisle. Mas Esme resolveu não ficar mais ali. Precisava de notícias. Implorou para todos que encontrou ao redor. A comunicação era difícil. Ela ia tentando entender o que lhe diziam. Então se lembrou do celular em seu bolso e resolveu ligar para casa. Como tinham viajado apenas para um momento a dois, o palácio não tinha enviado uma equipe para acompanhá-los.

— Carlisle passou mal e prenderam ele aqui no hospital. — Foi o que Esme conseguiu dizer, com a voz acelerada.

Claro que foi um grande susto também no palácio. Esme tentou dizer o que havia entendido e depois deixou que cuidassem de tudo.

Já estava de tarde quando finalmente obteve respostas adequadas. Carlisle estava com a hérnia de disco inflamada e precisava de uma cirurgia urgente.

Esme não queria que ele passasse por aquilo em um país estrangeiro. Não. Ela queria que o médico de confiança deles o visse. E daí começou mais uma luta para tentar trazê-lo de volta para Belgonia. Primeiro, porque os médicos egípcios queriam mantê-lo lá para realizar a cirurgia, e depois para conseguir a liberação dele para embarcar em um avião apropriado.

A rainha não conseguia lembrar com clareza quanto tempo levou para tudo ser resolvido. Pois, em sua mente, ela só queria Carlisle à sua frente para saber que ele ainda estava ali com ela. Tanto que a lembrança mais nítida que tinha desse episódio foi quando finalmente a permitiram ir até ele.

Ela correu até a cama e paralisou ao vê-lo deitado. Bom, Carlisle estava ali. Respirava, mas não era o mesmo homem que ela lembrava. Aproximou-se devagar e o encontrou acordado.

Esme abaixou-se devagarzinho até encostar a cabeça no peito dele. Tentou se aproximar com tanta cautela, como se aquele gesto pudesse quebrá-lo. Então, ouviu-o dizer a frase que jamais esqueceria:

— Eu te amo tanto que jamais te deixarei de verdade.

Anos depois, já não era a dor dele que permanecia mais nítida em sua memória. Era aquele instante. A compreensão silenciosa de que amar alguém também era, inevitavelmente, aprender a temer a sua ausência, mesmo quando ela ainda não existia.

Hoje, mais do que em outros momentos, sentiu a ausência dele. Acordou e estendeu os braços automaticamente pela cama, como se fosse encontrar o peito dele para abraçá-lo. Mas ele não estava ali. Porém, não chorou, como costumava fazer antes, quando a morte de Carlisle ainda era recente. Permaneceu ali, imóvel, sentindo apenas o eco da ausência ao seu redor.

Por um breve instante, tudo pareceu suspenso, como se o tempo tivesse deixado de existir. Não havia passado, nem presente, apenas aquele vazio estranho que insistia em permanecer.

Mas então veio. Sentiu algo diferente. Não era algo ruim. Era um acalento, quase como um abraço. Esme entendeu que era a presença dele que continuava nela. Carlisle permaneceu durante todo o dia.

No final do desfile militar, quando todos já estavam na sacada do Palácio do Parlamento para assistir à apresentação dos aviões de caça, lembrou-se de como seu marido amava estar com toda a família reunida no National Day. Era como se a presença de todos fosse uma extensão da dele.

Ela olhou ao redor e viu Edward no lugar que antes era de seu pai. Ele acenava alegremente e parecia mais seguro. Renesme estava estonteante, com seu barrigão de nove meses, firme. Todos sorriam. Emmett, Alice, seus netos, bisnetos. Mas Carlisle continuava não estando ali.

De repente, Esme percebeu que algo se perdia pelo caminho. Não era uma perda brusca, nem dolorosa o bastante para ser nomeada de imediato. Era morna, quase ingênua, como certas felicidades que existem sem que se precise pensar nelas, até que já não estão mais ali. Ficava para trás, aos poucos, diluída no tempo. As pessoas seguiam em frente. A vida não parava porque algumas haviam partido.

E o caminho que seguia agora, embora por vezes escuro e frio, não era desprovido de beleza. Havia nele uma luz suave, persistente, não vinda do presente, mas daquilo que tinham sido juntos. Porque, mesmo na ausência, ainda restava o brilho de uma vida inteira, estampado no rosto e nos gestos de todos que estavam naquela bancada. Então, o coração dela se acalentou mais uma vez. Carlisle estava ali, em seus descendentes.

Mais tarde, quando estava diante de um bolo enorme, cheio de velas, e com vários rostos sorridentes diante dela, sentiu algo que não havia se dado conta até então. Estava celebrando noventa anos. Aquele poderia ser seu último aniversário. Sua vida estava se esvaindo. Era duro pensar aquilo naquela hora, quando todos estavam sorrindo, e tentou disfarçar.

Mas agora, sozinha em seu quarto, voltou a pensar nisso. Tinha chegado ao ponto em que não havia mais o que poderia acontecer em sua vida. Não havia mais o que esperar. Já tinha riscado muitos pontos da lista da vida. E, pior, a maioria das pessoas que compuseram as cenas e os cenários de sua trajetória já não estavam mais ali. Quase tudo estava se renovando, como deveria ser.

Respirou fundo e olhou mais uma vez para a foto com Carlisle. Não queria estar com esses pensamentos no dia de seu aniversário. Era como Alice havia lhe dito mais cedo:

— Mamãe, você é uma privilegiada! Queira Deus que eu possa viver tanto quanto a senhora e ver tudo o que você viu.

Ela sabia do seu privilégio, não só pela sua longevidade, mas por todas as oportunidades que teve, por tudo que passou. Era grata e continuaria sendo.

Abraçou o porta-retrato e olhou para o vazio:

— É, Carlisle… Acho que isso é envelhecer. Quando achar que a minha hora chegou… Venha me buscar.

Esme: Sua Verdadeira História – Capítulo 43: Vazio

“Bom, acho que estamos chegando ao fim...”.

Essas foram as minhas exatas palavras para William quando percebi que não havia mais muito o que falar. Ele sorriu, ainda com um leve ar de surpresa diante da minha franqueza. Entendi que ele jamais se acostumaria. Temo que vocês também não.

“— Confesso que irei sentir saudade dos nossos papos, senhora. Conversar com vocês todos me faz ter reflexões sobre a minha própria vida.”

Então, é sobre ter reflexões? Aqui vai uma: chega uma fase da vida em que você percebe o poder da finitude. Eu não quero pesar o clima, de maneira nenhuma, mas é isso.

Você passa muito tempo, dia após dia, construindo algo, esperando, sonhando, projetando para o futuro, sem pensar, em absoluto, que estamos neste plano terreno apenas de forma provisória. Isso é normal. Não devemos viver presos a pensamentos mórbidos.

Mas chega um momento em que você se dá conta de que alcançou uma idade em que essa linha que projetamos para frente já começa a se encurtar.

Nunca parei para ficar imaginando até qual idade eu viveria. Sinto-me muito bem de saúde para dizer que vou morrer agora. Talvez Deus seja ainda mais generoso e me permita passar dos cem. Não estou pedindo a Ele tanto assim. Quando eu partir, quero estar tão plena quanto estou agora. Quero que seja como um relógio que, de repente, para de marcar as horas.

Também não sou ingrata a ponto de dizer que não sou uma privilegiada. Claro que sou! Reconheço. Tive tudo o que alguém pode querer ter na vida. Mais ainda: estou podendo ver a extensão de quem sou crescer e se tornar pessoas melhores do que fomos no passado. Convivo com meus netos e bisnetos e me sinto ainda mais grata por poder ter esses momentos ao lado deles.

Aí voltamos ao motivo deste livro. Um dia, eles vão estar lendo isso e pensarão: “Essa velha viveu um bocado de coisa”. Espero que seja interessante para vocês, queridos. Essa sou eu, cem por cento, e isso é tudo o que ajudei a construir para chegarmos até aqui.

Mas se chega a uma idade que é inevitável não observar certas coisas. O seu rosto definitivamente não é mais o mesmo. Não tem skin care no mundo que disfarce um rosto idoso. E nem precisa dizer que não pareço ter a idade que tenho, porque eu sei que pareço, sim, e está tudo bem. Cada marquinha que trago é um pouco da minha trajetória.

Meus movimentos são lentos, canso muito mais para fazer coisas que antes pareciam simples e carrego muitas memórias que talvez já nem caibam bem na minha cachola aqui. Algumas até queria esquecer. Porque, se tem uma coisa dolorida de envelhecer, é perder as pessoas ao redor.

Quando éramos apenas recém-casados, certa vez Carlisle e eu tocamos no assunto que acho que qualquer casal uma vez já falou sobre isso. Quem vai morrer primeiro? Na época, eu disse brincando que ele morreria primeiro. Ele era mais velho, então era o mais lógico. Mas aquilo, claro, não era o que eu queria realmente.

Naquele momento, tinha vinte e três anos e não levava a sério nada disso. Até que comecei a perder um membro atrás do outro de minha família e compreender o luto mais do que gostaria.

Daquele momento em diante, me agarrei a Carlisle como se fosse minha tábua de salvação. Eu olhava ao redor e via que eu só tinha ele e meus filhos e mais ninguém. Morria de medo do inesperado. Daquilo que a gente não tem controle.

Quando o telefone tocou nos dizendo que Bella havia sofrido um grave acidente e estava a caminho do hospital, aquilo me paralisou. Certo, estávamos vivendo um momento turbulento. Mas jamais pensei que alguém que ainda não tinha feito cinquenta e quatro anos estivesse por um fio. Não, aquilo não era possível.

A morte cerebral dela foi declarada, e vi o desespero do meu filho e dos meus netos tendo que tomar a decisão mais difícil de suas vidas: interromper uma trajetória. Mas, naquele momento, Charlie me chamou mais atenção.

Estava ali um senhor idoso, menos de dez anos mais novo do que eu, tendo que se despedir de alguém muito mais jovem. Sua única filha. Isso é o inesperado que falei. Era isso que sempre temi. Mesmo sabendo que, quando falamos de finitude, bom, não é algo que podemos controlar em definitivo.

Acho que o falecimento de Bella, antes de Carlisle, preparou o terreno para o que eu viria a sentir a seguir. Trouxe-me de volta a uma realidade que eu havia esquecido. Aquele sentimento de que, a qualquer momento, alguém pode nos deixar, algo que só se compreende quando a gente perde alguém de forma inesperada.

Comecei a me preocupar com a minha saúde e a de Carlisle. Sim, porque ele era relaxado quanto a isso. Mas ainda bem que fui teimosa e insisti com ele. Na verdade, não foi assim tão à toa. Mesmo antes daquele tiro no National Day, eu já sentia Carlisle com uma respiração pesada, mais cansado. O pai dele havia falecido por problemas no coração, então não era tão improvável que fosse algo genético.

E foi como os jovens costumam dizer: “na mosca”. Quando os exames comprovaram, fui me desfalecendo aos poucos. Veio-me à cabeça quando o meu pai morreu, a teimosia dele. Quando Pierino se foi pelo mesmo motivo. Era como uma sentença. Mas Carlisle continuava resistindo e não querendo demonstrar que estava doente. Eu é que chorava sempre quando estava sozinha. Lembrava-me de que o pior poderia acontecer a qualquer minuto e não conseguia segurar a dor de perdê-lo, mesmo que antecipadamente.

Com o passar dos dias, fui percebendo que Carlisle estava partindo aos poucos. Não de uma vez, como eu sempre temi. Era diferente. Era lento, quase silencioso. Ele ainda estava ali, falava, sorria, implicava comigo como sempre fez. Mas havia algo que já não era mais o mesmo.

Os passos ficaram mais curtos. O fôlego, mais raro. O brilho no olhar, às vezes, parecia distante, como se ele já estivesse olhando para algum lugar que eu ainda não podia ver. Eu tentava manter as esperanças, mesmo com o medo terrível do que estava para acontecer.

Até o dia em que ele passou mal. Foi tudo muito rápido. Aquela sensação de urgência que eu conhecia bem demais voltou com uma força cruel. O hospital, os rostos tensos, as palavras difíceis sendo ditas como se fossem comuns. E, mais uma vez, Pierino veio à minha mente. Como se a vida estivesse insistindo em repetir uma história que eu já conhecia de cor e que nunca quis reviver. Parecia que tudo em nossas vidas tinha que ser um grande círculo vicioso.

Segurei a mão de Carlisle antes de o levarem. Ele tentou sorrir, como sempre fazia quando percebia que eu estava prestes a desmoronar.

— Não faça essa cara, Esme, ainda tenho muito o que te aguentar.

Eu quis acreditar. Deus sabe como eu quis!

Foi então que Antony teve a ideia. Disse que precisávamos celebrar Carlisle. Celebrar enquanto ele ainda estava ali. Achei maravilhoso! Dessa forma, afastava aquela sensação de tensão e de perda.

A casa se encheu de gente, de vozes, de risos que tentavam disfarçar o que todos sabiam, mas ninguém dizia. Nossos filhos, netos, todos ali. Era barulho, era vida, era tudo o que Carlisle sempre amou.

Ele parecia feliz. Cansado, é verdade. Mas alegre. Observava tudo com aquele olhar tranquilo, como se estivesse guardando cada detalhe.

Em algum momento da noite, ele pediu para se deitar um pouco. Disse que o cansaço tinha chegado mais cedo naquele dia. Eu o acompanhei, como sempre fiz. Deitei-me ao lado dele e segurei sua mão. Ficamos em silêncio por um tempo. Não havia mais necessidade de palavras.

— Você fez tudo valer a pena, Esme… — ele disse, com a voz baixa, quase como um sopro.

Meu coração se apertou de uma forma que não sei explicar.

— Nós fizemos… — respondi.

Senti sua respiração ali, próxima da minha. Lenta. Tranquila. E, pela primeira vez em muito tempo, sem dor.

Fechamos os olhos. Não sei em que momento exato aconteceu. Só sei que ele adormeceu. E não acordou mais. Ali, nos meus braços. Como se tivesse apenas escolhido descansar. E, talvez, tenha sido exatamente isso.

Estou aqui em lágrimas relatando isso. William está segurando a minha mão e me dizendo que eu não preciso falar mais sobre esse assunto... Mas eu preciso, sim.

Ver Carlisle frio e inerte ali ao meu lado foi uma das piores coisas que me aconteceu. E, sim, é uma das lembranças que eu apagaria para sempre. Porque a dor que eu senti foi indescritível. Porém, foi a última vez que saiu uma lágrima do meu rosto. Depois, me mantive incrivelmente forte. Bem, não sei se foi assim, talvez eu tivesse apenas ficado anestesiada. Ou o processo de perdê-lo dia após dia tenha me preparado.

Hoje, durante essa entrevista para o livro, foi que vi, pela primeira vez, as matérias sobre o dia do enterro de Carlisle. Todos demonstram pena de mim. Tadinha da pobre senhora, tão frágil, enterrando o seu companheiro de sessenta e três anos. Eu me vejo realmente como um ser pequeno demais nas fotos, quase como algo quebrável. Bom, talvez fosse mesmo.

Eu nem sei bem o que pensei naqueles primeiros dias de luto. Tudo parecia acontecer ao meu redor sem que, de fato, me atravessasse. Café sem açúcar, dança sem par... As pessoas vinham, me abraçavam, diziam palavras bonitas, falavam sobre a força que eu estava demonstrando, mas eu não sentia força alguma.

Dentro de mim, um troço qualquer morreu. Meu mundo parecia ter sido desligado junto com ele. Mas eu fazia o que precisava ser feito. Cumpria os protocolos, recebia as pessoas, ouvia histórias sobre Carlisle como se estivesse ouvindo sobre alguém distante. Porém, por dentro, havia um silêncio estranho. Não era paz. Também não era desespero. Era ausência.

A mesma ausência que senti naquela manhã, ao estender o braço na cama e não encontrá-lo mais. A diferença é que, dessa vez, eu sabia que ele realmente não voltaria.

No entanto, os meses foram passando e, inexplicavelmente, eu continuava seguindo. De vez em quando, eu me pegava pensando em contar alguma novidade para ele, como se Carlisle fosse realmente escutar. Mas acho que ele escutava, porque eu continuei o encontrando em cada parte do meu dia a dia.

No jeito como nossos filhos falavam. No riso dos meus netos. Nas fotos, nas cartas que ele me deixou, nas roupas dele que foram preservadas, nas lembranças... Carlisle nunca foi embora de uma vez só. Ele ficou espalhado.

E foi assim que, aos poucos, fui entendendo o que, talvez, seja o verdadeiro significado de amar alguém.

Durante muito tempo, achei que amar era querer o outro sempre ali. Presente, ao alcance das mãos. Como se o amor dependesse da permanência física, do toque, da rotina compartilhada. Mas não é.

Amar também é aceitar que o outro não nos pertence. Que nunca pertenceu. Que esteve conosco por escolha, por tempo, por destino e que, em algum momento, pode partir. E amar, de verdade, é permitir essa partida sem transformar o amor em prisão. É deixar ir, mesmo quando tudo em você implora para segurar.

Carlisle foi a minha vida em tantos sentidos que, às vezes, me custa separar onde eu terminava e onde ele começava. Foi ele quem me deu uma outra vida. Foi a minha história mais improvável, mais bonita, o meu salto no precipício. A escolha que me tirou de um caminho comum e me lançou em um mundo que eu jamais teria imaginado atravessar. Foi ele quem me trouxe até aqui.

Carlisle não foi apenas o meu marido. Foi o meu companheiro constante. Pai dos meus filhos, a família que eu escolhi ter. E, talvez por isso, perdê-lo tenha sido como perder uma parte inteira da minha própria história.

Mas não do jeito que eu temia. Porque agora eu entendo… Ele não levou a minha vida com ele. Ele ajudou a construí-la. E ela continua aqui. Com tudo o que fomos. Com tudo o que deixamos. E com tudo o que ainda ecoa e vai continuar ecoando.

Penso que ele ainda está me esperando para continuarmos seguindo em outro plano, para continuarmos escrevendo um capítulo intenso, inesperado e profundamente vivido.

Talvez a partida dele seja apenas um fechamento de um capítulo escrito aqui na Terra. Porque existe um momento em que a gente precisa encerrar. Mesmo sem querer, mesmo com saudade.

Mesmo sabendo que aquela história foi a mais bonita que já tivemos a chance de ler.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.