Digimon Signi
1 1. Incríveis doze segundos
A cidade seguia-se movimentada, era tarde, fim de sexta feira. Alguns seguiam para suas casas, outros para o emprego no segundo turno ou até mesmo para a vida noturna. A animação estava redobrada, todavia, num trio de garotos, que não deveriam ter mais que catorze anos.
O do meio, de cabelos loiros, gabava-se de alguma motivo, e pelo jeito que seu corpo disparava defronte os outros dois que o acompanhava podia-se destacar que estava extremamente animado. Do seu lado direito, o menino de óculos redondo ria baixinho enquanto ouvia seu falatório. O da esquerda, de cabelos castanhos e expressão séria enquanto fitava o caminho que iriam percorrer, estava sereno. Seu nome era Thomas e ele era o mais excitado do trio, por mais que não deixasse isso transbordar.
"Eu tenho certeza que meu digimon terá status incríveis" o loiro dizia, suspirava satisfeito."Meus pais gastaram uma fortuna comprando este chip de materialização, sabe? Definitivamente vai valer a pena esses gastos." o ele se voltou para Thomas, interrompendo a caminhada do trio."Eu sei que sua mãe nunca vai ter condições de comprar um digimon para você, amigo, mas saiba que eu vou deixar você brincar com meu futuro Agumon sempre que puder, estar certo?"
O da esquerda arqueou o cenho, gostaria de revirar seus olhos o máximo que podia, mas não queria ofender o amigo. Sim, por mais que aparentasse certa tensão entre os dois, ainda assim eram amigos, e de longa data. Logo, Thomas compreendia a razão pela qual seu amigo agia da forma que agia, então preferia ser o mais racional do grupo, como de costume, e simplesmente acenar com sua cabeça. De qualquer forma, era importante denotar o quão tamanha era sua paciência, pois mesmo com o modo ácido com o qual o loiro ditou, ainda assim Thomas foi capaz de expressar um sorriso genuíno.
"Você é o apogeu da generosidade, Pietro" Thomas deu uma risadinha e tombou a cabeça para o lado. Pietro, por sua voz, demonstrou certa desconfiança, mas antes de elaborar uma resposta para o claro sarcasmo que havia na frase de Thomas, o de óculos se pronunciou.
"Você realmente é o cara, mano!" o modo alto e animado que dissera isso pareceu incomodar Pietro.
"Fala mais baixo, Will, eu estou bem do seu lado" Pietro revirou os olhos e voltou a encarar o semblante irônico de Thomas, apontando o dedo e deixando seus lábios se curvarem num sorriso. "Eu sou um cara muito legal mesmo, não se esqueça disso"
"Fica difícil com você me lembrando disso a cada dez minutos" Thomas riu, sendo seguido por Pietro, que se permitiu gozar daquela implicância sadia entre os dois. Will, mesmo não captando a acidez que pairava no ar, resolveu seguir os dois por puro costume. "Vamos logo fazer sua materialização, estou ansioso para ver seu digimon!"
Pietro levantou o queixo, com ar de arrogância e seguiu liderando, ou pelo menos achando que estava, o trio até o parque mais movimentado de seu bairro. Devido o horário, estava bem mais tranquilo que o de costume, com alguns jovens passeando em grupos ou pelo menos em dupla. Haviam também alguns policiais de plantão com seus veículos próximo das calçados. Thomas foi o único do grupo que percebera aquilo, sentindo-se incomodado.
Will, um pouco mais atencioso e ativo no momento, virou-se para seu amigo. Thomas era uns cinco centímetros mais alto que ele, e quase dez centímetros mais alto que Pietro.
"Ei, cara... A polícia realmente está ativa ultimamente." Will cruzou os braços, andando mais lentamente, ficando de lado com Thomas.
"Desde o desaparecimento daqueles três garotos, a cidade inteira, principalmente pra esse lado da cidade, anda bem neurótica."
Pietro notou a movimentação incomum de seus amigos, parando defronte os dois. Agora estavam perto da fonte no centro do parque, que outrora já teve seu momento de glória, mas agora havia sindo engolida por musgo verde e ervas que escalavam até onde um dia foram as asas de um anjo.
Will e Thomas olharam com atenção para seu amigo de expressão frustada. Sua bolsa azul marinho tombou em seus pés, e ele rapidamente se abaixou para remexê-la frustado, na procura de algo que era importante. Para Pietro era sempre importante estar no centro das atenções, por isso, quando ergueu seu olhar para os dois, estava pronto para repreendê-los.
"Vocês dois deveriam parar de ficar se preocupando com quem já morreu..." ele revirou os olhos, mostrando que em suas mãos haviam uma pequena placa quadrada e um aparelho do tamanho de um celular, totalmente branco e com abertura estreita em seu lado.
"Mas ninguém sabe se eles estão mortos ou não..." Will coçou a nuca. Em resposta, Pietro estalou os lábios.
"Não interessa. Ninguém some assim por três dias." ele deu de ombros, como se não entendesse a gravidade de suas palavras. "As chances de encontrar alguém com vida depois de um desaparecimento caem para a metade depois das primeiras vinte e quatro horas. E já se passaram três dias, então..."
"Pietro, chega." Thomas interveio, tentando conter sua insatisfação. Ele respirou profundamente e voltou seu olhar ao amigo."Vamos logo com isso. Está anoitecendo."
Os dois ficaram se encarando por alguns segundos, para Will, todavia, pareceram vários minutos. A tensão no ar era tão palpável, chegando a ser sufocante. Nem um dos dois, todavia, ousava quebrar o olhar. Will desejava intervir, mas sabia que não seria capaz de lidar nem com o gênio forte de Pietro, tampouco com a frieza ardente de Thomas. Quando, todavia, o som de uma bicicleta caindo ao longe cortou o ar, os dois desviaram sua atenção ao mesmo instante para um adolescente ruivo levantando-se no meio fio.
Pietro pigarreou, chamando a atenção dos dois amigos para o aparelho em suas mãos. Ele o sacudia com um olhar travesso.
"Está na hora, senhores!" anunciou. Thomas cruzou os braços e Will sorriu animado.
"Tem uma menina no nono ano que tem um digimon dinossauro de fogo! Espero que seja um digimon legal igual esse... Vocês ouviram falar do Danny? Aquele aluno transferido? Falaram que ele tem um digimon que parece uma cobra... Ou talvez pudesse ser um digimon ave ou..."
"Calado, Will!" vociferou Pietro estressado, assustando o menino de óculos que segurou os cotovelos, envergonhado. Thomas apenas olhou aquela cena de canto de olho e bocejou. "O meu digimon será muito melhor que esses, não quero comparações!" Pietro limpou a garganta e se preparou.
A placa quadrada que tinha em mãos entraria na abertura estreita ao lado do aparelho, sendo inserida totalmente. A primeiro som que ouviram foi uma voz feminina anunciado que o materializador havia sido ligado. Os olhos dos três arregalaram-se quando a tela redonda do aparelho tornou-se completamente branca, numa luz forte. Se fosse noite, aquela luz seria o suficiente para iluminar um círculo pequeno na escuridão. A leitura do chip estava sendo feita e então o aparelho emitiu diversas linhas de luz para o céu. Suas cores variavam, sem padrão algum. Elas dançaram por breves doze segundos, porém foram os doze segundos mais incríveis na vida daqueles três, até o dado momento. Quando os feixes colidiram, tornando-se um só, aquela faixa de luz expandiu-se, até tomar a forma de um cone. No seu centro uma esfera de luz transmutava-se, alterando seu tamanho e forma constantemente, para então reduzir-se a medida que o clarão se dissipava. A entidade então fora aproximando-se do chão.
Pietro engoliu em seco, seu sorriso era trêmulo. A parte superior de seu corpo oval era rosa, com um apêndice semelhante a um galho brotando no centro de sua parte superior. Haviam duas folhas nesse galho, e, devido suas posições, faziam parecer-se com hélices de um helicóptero. A parte inferior de seu corpo era de um tom verde natural. As quatro pequenas protuberâncias em seu corpo oval pareciam querer passar a ideia de serem pernas e braços. A criatura não parecia necessariamente precisar de pernas, uma vez que simplesmente flutuava sem o auxílio de asas.
Thomas se aproximou, soberbo. Juntamente com Will.
"Eu sou Lalamon! Serei sua parceira a partir de hoje, Pietro!" sua voz era estridente, levemente infantilizada. Sua risadinha denotava sua felicidade por estar ali aquele momento.
"Ela é fofa!" Thomas comentou. Lalamon flutuava ao redor da cabeça dele.
"Um digimon planta! Realmente eu não esperava... " Will fora cortado.
"Calados!" os punhos de Pietro estavam fechados em punhos. A mandíbula estava apertada e tensa. Thomas não descruzou os braços, mas ainda assim expressava certa preocupação com o amigo. Pietro ergueu a mão que segurava seu aparelho e arremessou ao chão; ele quicou por duas vezes e girou até os pés de Will. "Tanto dinheiro gasto... Para isso? Vocês têm alguma ideia do quão caro essa porcaria de chip foi? E para quê?!" ele apontou o dedo para Lalamon, que flutuava próxima de Thomas. "Para me enviarem um digimon mulherzinha planta?"
"Cara, para com isso! Ainda assim é um digimon, pouquíssimas pessoas conseguem um desses e você fazendo pouco caso..." Thomas se pronunciou apreensivo.
"Ela é bem legal, Pie-" tentou dizer Will, sendo cortado por Pietro rapidamente.
"Vocês dois não sabem de nada!" Pietro apontou para Thomas, a fúria reinava em seus olhos. "Você só fala essas coisas porque sua mãe é pobre demais para te comprar um digimon. Se você faz tanta questão, pode ficar com essa porcaria. Meu pai vai me dar outro sem pensar duas vezes!"
"P-Pietro... " choramingou Lalamon.
"Não fale comigo, lixo!"
A comoção do rapaz chamou a atenção de algumas pessoas que passavam ali no momento. Algumas crianças, todavia, estavam mais entretidas com o digimon planta. Vendo a cena que havia sido montada, Pietro girou seu corpo e os olhares confusos de todas aquelas pessoas o perfuravam com cada vez mais força. Sentia-se humilhado por alguma razão. E quando encontrou o olhar de reprovação de Thomas, sua raiva apenas aumentou. Ele partiu, empurrando o garoto para o lado e seguindo para direção da qual tinham vindo.
Lalamon começou a choramingar, seu corpo começou a cair lentamente, como se perdesse qualquer força ou ânimo para flutuar. Quando Will se preparava para seguir o amigo, o toque de Thomas em seu ombro o fizera se virar para ele.
"Deixa ele cara. " aconselhou Thomas, abaixando-se logo em seguida para pegar o aparelho que havia sido jogado no chão. Não havia nem um risco.
"Mas o Pietro precisa da gente!" defendeu Will.
"Ele vai ficar bem, vai por mim. Eu conheço ele há bem mais tempo que você. "Thomas suspirou pesadamente. "Quando as coisas não saem como ele quer... Bem, você viu... "
"Mas Thomas... "
"Will" disse seriamente. "Se você quer ir atrás do Pietro, eu não vou te impedir. Mas é melhor você dar um tempo para ele se acalmar. Se não pode acabar escutando algumas coisas que podem te ferir. "
"Thomas... Eu sinto muito pelo o que ele disse."
"Tranquilo. " Thomas sorriu o mais genuinamente que pode. "Outra hora pessoas no Pietro, precisamos primeiro resolver a situação da Lalamon. " ele voltou seu olhar para baixo, onde a digimon planta choramingava.
Antes que pudessem tomar qualquer atitude, uma dupla de policiais se aproximou do novo trio. A mais magra, uma mulher de cabelos presos num coque firme e de nariz angulado, pigarreou, chamando a atenção dos meninos. Mesmo séria, transmitia uma energia positiva.
"Estão bem crianças?" indagou serena, desviando seu olhar para a digimon no chão. "Isso é a uma digimon?"
"Estamos sim, policial. " Will dissera. "Ah sim, é do nosso amigo... Mas ele acabou indo embora."
"Ela é adorável. " a mulher agachou-se e acenou para a digimon, que a ignorou permanecendo em sua depressão. "Quando eu era menor tínhamos monstros de bolso. Os alimentávamos e os colocávamos para lutar. Eu nunca iria adivinhar que a tecnologia chegaria a esse ponto."
"Sim, claro. " Thomas e Will se entreolharam. Will tomou a atitude de pegar Lalamon nos braços, e ela era bem mais leve do que esperava. A digimon não relutou em momento algum.
"Ah sim, desculpe. " a policial se recompôs. "Então, crianças, acho melhor vocês irem logo para a casa de vocês, porque... Enfim, está anoitecendo. Não queremos que fiquem até tarde na rua, pode ser perigoso."
"Por causa das crianças que desapareceram?" indagou Thomas incisivo, pegando a oficial de surpresa, mas a mesma sorriu.
"Não quero assustar vocês... Mas sim."
"Entendo... Vocês não tem ideia do que pode ter acontecido com eles?" novamente, as perguntas de Thomas a pegaram desprevenida.
"Acho que esse não é o tipo de conversa que se deva ter com uma criança... Mas eu prometo que nada vai acontecer com vocês."
Thomas não respondeu a mulher, tampouco demonstrou algum sinal de emoção em seu rosto, moldando uma atmosfera estranha e incômoda. A mulher mais velha e seu parceiro estavam igualmente incomodados com o silêncio dos dois. Thomas se aproximou de Will, sussurrando em seu ouvido.
"Leve a Lalamon com você para sua casa. Amanhã resolvemos a situação do Pietro."
O amigo simplesmente assentiu, desviando o olhar para os dois oficiais.
"Algum problema, crianças?" a mulher tombou a cabeça levemente para o lado, intrigada. "Querem companhia para a casa de vocês?"
"Não precisa. Moramos aqui perto. " respondeu Thomas. "Iremos direto para nossas casas."
"Certo. " a policial aparentou estar desconfiada, mas evitou fazer suposições precoces. "Tomem cuidado vocês dois."
"Iremos. " Thomas respondeu seco. Ele e Will se despediram e seguiram em direções opostas.
Antes de Thomas afastar-se do parque, olhou por cima de seus ombros, vendo que tanto a policial quanto seu parceiro ainda estava no mesmo local, cochichando algo. Não era um menino de muitas desconfianças, mas havia algo estranho naquelas figuras.
A noite já havia caído mais rápido do que imaginava, era um fato. Da materialização de Lalamon ao drama de Pietro, havia-se passado quase que uma hora. O céu era totalmente sombrio, sem estrelas ou lua, tornando o caminho de Thomas a sua residência, que já era deveras mórbido, ainda mais tenebroso. Não era de costume que retornasse para casa depois que a noite caía, e sabia que levaria um ralho de sua mãe, principalmente por conta das notícias.
Isso foi uma deixa para se lembrar dos dizeres de Pietro, o quão ácidos e cruéis foram. Mas por muito tempo Thomas foi moldando seu caráter para compreender tanta raiva e avareza que pairava na mente de Pietro. Contudo, as ofensas a sua mão foram o de menos, mas não deixavam de incomodar. De qualquer forma, o modo que ele havia tratado as crianças desaparecidas era quase que inumano, até mesmo para os padrões de Pietro. O que tornava aquela situação ainda mais delicada era ser próximo de uma das vítimas.
O nome dela era Elisabeth, mas Thomas, desde que se conhecia por gente, sempre se referiu a ela como Lizzie. Eram vizinhos, estudavam em escolas diferentes, mas sempre seguiam o mesmo caminho, separando-se no parque. A última vez que conversou com ela fora numa dessas manhãs comuns, e nunca iria adivinhar que seria a última vez. Lizzie era uma fã assídua de digimon, assim como ele, e a maioria de suas conversas no caminho da escola eram sobre cartas e sobre digimons. Ela também gostava de desenhar, fazer seus próprios digimons, e mostrava a Thomas suas diversas criações. Seu sonho era ganhar um materializador, assim como ele, mas também não tinha poder aquisitivo para adquirir um.
Estava com frio na barriga e se arrepiou. Uma hora a via sorrindo, outrora ela desaparecia. Era estranho, e Thomas sentiu um medo tão sufocante que era real. Ele estacou no meio do beco vazio, as gotas de um encanamento falhado ecoavam distantes. Ele engoliu em seco e seguiu seu caminho.
Sua mente ainda estava em Lizzie, mas ao mesmo tempo estava em vários outros lugares. Da briga com Pietro, sua mãe, Lalamon, Lizze, aquelas luzes... Sim, as luzes convergentes e suas cores vibrantes. Aqueles doze segundos estavam tão vivos em sua mente que poderia dizer que estava revivendo aquilo. Mas era quase como se estivesse.
Foi quando Thomas se pegou encarando vários feixes de luz que corriam pelas laterais de seu corpo, convergindo num ponto bem em frente a sua visão, gerando uma esfera semelhante a qual gerou Lalamon. Ele instintivamente levantou a mão, sentindo aquele calor aproximar-se do tato e o vendo se dissipar, revelando um materializador semelhante ao de Pietro, mas este possuía uma listra alaranjada cortando sua lateral.
As luzes não haviam cessado ainda. Elas boiavam no ar, fixando-se as paredes, criando buracos de luz que revelavam as paredes de masmorras, campos desérticos, florestas, praias, várias molduras fixadas nas paredes do beco. Aquele caleidoscópio surreal era de tirar o fôlego. Quando então, de um desses buracos uma figura tentou atravessar, Thomas recuou alguns passos, mas antes que pudesse correr aquilo já estava defronte si. Era uma figura musculosa, de pele esverdeada e dentes que saltavam de sua boca. Ainda que possuísse o contorno humano, seus traços eram animalescos demais para serem considerado normal.
"Digimon?" foi a conclusão mais plausível que Thomas poderia chegar.
Ainda que estivesse se acalmando, algo naquele materializador e o digimon a sua frente parecia ter algum tipo de ligação. O local a sua volta, todavia, ainda estava em constante mutação, como se tentasse escolher o que seria ainda.
Thomas não se moveu, assim como a criatura, esperando algum movimento. E teve sua resposta. Os olhos do digimon estavam cobertos por um tom completamente negro, indicando que estava totalmente fora si, e quando o mesmo rugiu, foi a deixa para que o rapaz tentasse correr. Sentiu o golpe em seu corpo, das garras do monstro rasgando sua camisa e indo direto a carne. Thomas caiu para trás, seu sangue escorria por todo o tórax, manchando sua blusa branca e pingando no chão. Ele não havia notado ainda seu estado. Empurrou seu corpo jogado para trás, sem tirar os olhos do monstro. Quando o mesmo ergueu a mão pesada para um ataque, Thomas usou de seu braço para se defender daquelas garras pútridas, sentindo então o calor preencher aquela parte de seu corpo.
Ele precisou se movimentar, mas seu corpo não obedecia mais suas ordens. E quando achou que iria receber o golpe final, um feixe de luz laranja cortou por cima de sua cabeça, indo de encontro com o rosto do digimon feroz.
"Corra, Thomas!" a voz vinha da luz laranja, que ia se dissipando e revelando um monte de pelos de cor semelhante.
Thomas não teve tempo de analisar o que era aquilo. Retirou as últimas forças de seu corpo e correu para longe daquela luta. As paredes vibravam, a matéria não sabia mais como se comportar; nada mais fazia sentido naquele beco, até mesmo o chão dava lugar a areia em alguns pontos e até mesmo grama e pedra. Thomas fechou os olhos, sentindo lágrimas de medo correrem por seu rosto e sentia o sangue escorrer de seu braço e peito. O aparelho que havia guardado em seu bolso vibrava e brilhava. As mudanças no ambiente iam se aquietando até tudo se establizar e Thomas se encontrar de volta ao beco, mas ele não cessou sua corrida; corria como nunca na vida, somente parando quando já estava no meio da rua e sendo atingindo pelo carro da polícia.
O impacto não fora tão forte, mas o suficiente para derrubá-lo novamente. Quando os dois policiais saíram do carro, Thomas não soube dizer se estava aliviado ou nervoso por encontrar do novo a mesma mulher do parque. Mas definitivamente estava mais seguro com eles do que com o monstro.
"Chame uma ambulância!" gritou a mulher a seu parceiro enquanto pegava Thomas em seu colo.
As luzes de algumas casas foram acendidas, várias pessoas observavam por suas janelas a cena que ocorria na rua. Thomas suspirava cada vez mais pesadamente, perdera muito sangue e seu corpo se esforçara demais ao correr. Como um beco tão pequeno havia se tornado tão grande? Eram tantas perguntas.
"Quem fez isso com você?" a mulher indagou, tirando seu casaco de policial para estancar o sangramento.
Thomas não tinha mais forças para nem mesmo elaborar uma frase, mas quando seu olhar seguiu para o beco por onde havia saído, a mulher rapidamente entendeu seu sinal.
"Ele está no beco, Martin! No beco!" o companheiro atendeu a ordem. A mulher virou-se para o garoto preocupada. "Você vai ficar bem!"
Thomas revirou os olhos e sentiu que aos poucos ia perdendo a consciência. Sua visão ficou turva e a audição recheada com o som das sirenes, que não se comparavam a memória viva que era o rugido da criatura.
Notas finais
Tentei fazer o capítulo mais enxuto o possível, mas não consigo me livrar de alguns vícios de linguagem nem de descrições enrolativas. Mas estamos na luta para tentar :p
Próximo capítulo será atualizado na semana que vem, mas tentarei ao máximo postar com antecedência, mas é pouco provável por conta da minha rotina.
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