Digimon Signi

2 2. Do crepúsculo ao anoitecer


Thomas despertou de seu sonho no instante em que sentia as unhas da criatura cravarem em sua carne uma vez. A visão ainda estava embaçada e a cabeça doía muito, como se tivesse passado a noite bebendo em uma festa, apesar de não saber exatamente como era essa experiência. Foi ao sentir o ardor em seu ombro e no peito que uma vaga lembrança da noite anterior veio a sua cabeça.

Ele coçou os olhos e olhou pela janela, já havia amanhecido. Estava em um quarto de hospital, o mesmo possuía mais três leitos desocupados. No canto inferior esquerdo a sua cama, havia uma poltrona na qual sua mãe, com bolsas negras pesadas sob os olhos indicando uma noite mal dormida, estava a ler um livro.

"Mamãe?" a voz custou a sair de sua boca, mas fora alta o suficiente para que a mulher do outro lado escutasse.

A mãe de Thomas ergueu o rosto, era possível ver em seu olhar toda preocupação maternal que tinha. Rapidamente, levantou-se, indo até o filho e sentando-se próxima de seus pés. O garoto buscou abrir espaço para que a mulher mais velha pudesse se sentar mais confortavelmente, porém, fora bombardeado por uma alfinetada forte nos locais onde haviam curativos. Sua mãe o repreendeu nervosa, prostrando-se rapidamente.

"Não se mova, filho. Seus ferimentos podem abrir novamente." ela dizia penosa, e Thomas acatou o pedido, com um manear de cabeça."Como você está?"

"Minha cabeça dói, meu corpo dói, tudo dói." reclamou."Mas vou tentar ficar bem." tentou mostrar-se otimista para mãe, que não pareceu aprovar sua atitude.

"Você deve descansar, filho." ela suspirou, levando os dedos até a testa do garoto para arrumar uns fios de cabelo castanho que estava soltos. "Filho, o que aconteceu, de verdade?"

Thomas desviou seu olhar de sua mãe; o modo fúnebre que ela o encarava era certamente incisivo, e o incomodava de alguma forma. Mas era sua mãe, e Thomas não costumava esconder as coisas dela, logo ela. Por sua criação, Thomas fechou seus olhos e buscou em sua memória reviver a noite anterior, por mais que não quisesse.

Nada fazia muito sentido, para falar a verdade, Thomas, porém, tinha total ciência de que aquilo que o tinha atacado certamente não era humano, não era deste mundo. Algo dentro de si sabia a resposta para aquilo, contudo, havia uma série de fatores que tornava tudo aquilo tão conflitante.

Digimons, em primeira mão, não eram seres de carne e osso, como eram os animais e os homens; apesar ser possível tocá-los, havia uma razão para aquilo, no qual Thomas já havia averiguado meses antes em uma revista sobre fanáticos de digimon. Aparentemente, digimons eram compostos somente de luz, e mantinham-se na forma física enquanto estivesse próximos de seus materializadores, todavia, essa tal luz emitida por seus corpos era configurada de duas formas pelo cérebro: para a visão, era possível enxergar seus corpos como sendo da forma que eram e era possível senti-los, pois a mesma luz emitia oscilações que forçavam o cérebro a emitir impulsos elétricos as terminações nervosas, que simulavam a sensação de sentir algo físico no toque.

Digimons não eram capazes de tocar humanos, tampouco feri-los, era para ser assim. Outra questão que tornava o episódio da noite anterior mais misterioso era a ausência de um materializador que permitisse aquele digimon estar naquele local. Sim, também havia a questão a distorção na realidade que estava claramente acontecendo durante o ataque.

"Eu estava segurando alguma coisa quando cheguei aqui?" indagou sério, surpreendendo sua mãe.

"As enfermeiras só me entregaram sua mochila, e não havia nada, além de seus livros e suas cartas... Por quê?" a mãe estava curiosa, levemente desconfiada, e Thomas percebeu.

"Will havia me dado uma figura animada de digimon... Mas eu devo ter perdido..." mentiu Thomas.

"Thomas, não mude assunto. O que houve ontem?" ela indagou em tom mais agressivo. Thomas engoliu em seco.

Ele sabia que não havia como contar para sua mãe sobre o ataque de digimon, e sabia que se o fizesse, a mesma iria o proibi-lo de continuar gostando da franquia. Ela provavelmente diria que aquilo estava mexendo com seu cérebro. Thomas odiava mentir, principalmente para ela, mas sentia que havia algo acontecido que era muito maior.

"Havia um homem... Eu estava cortando caminho pelo beco e ele tentou roubar meu celular." ele engoliu em seco novamente, erguendo o rosto para encarar o olhar marejado de sua mãe, desespero. Ela estava rapidamente imaginando uma cena que não havia acontecido, mas era melhor que visse as coisas daquela forma. "Eu não estava com meu celular... E ele me atacou, eu não lembro mais de nada."

A mãe de Thomas suspirou nervosa, o rosto estava embranquecendo.

"Filho, você deve contar isso aos policiais, para que eles peguem esse miserável, tudo bem?" ela disse.

"Sim, mamãe." quase gaguejou.

A mulher segurou a mão do filho, era perceptível seu nervosismo por conta de suas mãos trêmulas. Assim como ele, ela também foi próxima de Elisabeth, e o medo de passar pelo o que a mãe da garota desaparecida estava passando era real e palpável. Ela se levantou, entretanto, sentindo suas bochechas aquecerem e a garganta apertar. Thomas não sabia o que fazer, mas precisava ficar sozinho para pensar.

"Mamãe, eu estou com fome..." reclamou.

"Ah, sim, sim. Já é quase meio dia... Você não jantou nem tomou seu café, eu vou... Eu vou... Eu vou procurar alguma coisa para você comer filho." ela estava tropeçando em seu próprio diálogo, mas precisava fazer alguma coisa por ele então saiu em disparada, esquecendo sua bolsa e precisando voltar para buscá-la.

Do lado de fora do quarto, não muito distante de onde estava Thomas, uma policial familiar andava pelos corredores brancos, cumprimentando todos os enfermeiros e internos que passavam por si, e nisso esbarrou na mãe de Thomas, fazendo a mulher derrubar seu casaco.

"Eu sinto muito, querida, estava um pouco distraída e..." ela havia se abaixado para pegar seu casaco e ao levantar o rosto, acabou por sorrir. "Você é a policial que salvou meu filho!"

"Ah, você é a mãe do Thomas." a policial sorriu.

"Bom que eu encontrei você, gostaria de entregar isso." ela estendeu um cartão com o nome e a foto do adolescente. "É o bilhete eletrônico de seu filho. Precisava de alguma informação dele quando o trouxe para cá, e acabei esquecendo de devolver. Espero que não se importe." ela sorriu.

"Não, não. Jamais. Você salvou meu filho... Se não estivesse lá com ele... Enfim! Eu só posso agradecer. Estava indo comprar alguma coisa para ele comer. Não gostaria de me acompanhar?"

"Ele já acordou?" a moça arqueou o cenho, um pouco surpresa."Ele é realmente cheio de surpresas." sorriu. "Na verdade, eu gostaria de ver como ele se encontra... Temos o vídeo das câmeras de segurança da rua onde ele foi atacado. Infelizmente, o beco onde ele foi atacado é um ponto cego. Já comunicamos ao departamento de segurança isso, estamos agora no aguardo da instalação de câmeras de segurança."

"O vídeo?" o maxilar da mãe de Thomas apertou."Eu posso vê-lo?"

"Na verdade, gostaríamos de mostrá-lo ao Thomas, para talvez ajudar ele a lembrar de alguma coisa na noite anterior. Ele comentou algo sobre alguém estar com ele no beco?" perguntou a policial.

"Ele falou sobre um homem e..." ela parecia conflitante, o relato era doloroso para si.

"Entendo. Bom, aqui o vídeo." a policial mexeu em sua bolsa, pegando seu celular e entregando a mulher. "Dê o play."

O vídeo mostrava o momento no qual Thomas estava atravessando a rua, antes de entrar no beco que usava para cortar caminho para sua casa. No canto superior esquerdo estava a data e a hora. Eram exatamente sete e quarenta e oito da noite. Thomas então adentrou o local de ataque e se fez um clarão, a câmera falhou um segundo quase imperceptível, mostrando Thomas correndo para fora do local, já ferido.

Sua mãe pode enfim desabar em choro; as lagrimas eram fortes e quentes, escorrendo por seu rosto que aos poucos ganhava uma tonalidade mais avermelhada. Ela forçou-se, todavia, a se recompor perante a oficial e por respeito as pessoas que passavam próximas de si, a encarando com fitares confusos e preocupados. Ela entregou de volta o celular com nervosismo aparente, como quem tem nojo de algo.

"Peguem o miserável que fez isso com meu filho, eu imploro." disse a mãe de Thomas.

"Estamos trabalhando nisso, vamos fazer o máximo que pudermos."

"Me chamo Donna." apresentou-se. "O que eu puder fazer para ajudar na investigação, eu ficarei grata"

"Agradeço seu auxílio, senhora Donna." a outra mulher riu. "Me chamo Alice. Você acha que seu filho está bem o suficiente para responder algumas perguntas?"

"Eu creio que seja melhor deixar ele descansar mais um pouco." Dona assentiu."Eu irei comprar alguma coisa para ele comer, já me esquecia. Se você quiser, acho melhor fazer as perguntas enquanto eu estiver por perto."

"Claro, sem problema algum." Alice concordou.

As duas mulheres finalizaram seus assuntos com um aperto de mão amigável por ambas as partes, porém, enquanto Dona, a mãe de Thomas, seguia seu caminho para longe, Alice permaneceu estática, fitando as costas da mulher até que ela saísse de seu campo de visão. Agora sem sua supervisão, ela pode seguir seu caminho até o quarto de Thomas, como já pretendia fazer desde o início.

Ela chegou defronte a porta, verificando os arredores e adentrou. Para sua surpresa, Thomas estava sentado, como se estivesse a sua espera. Quando seus olhares se encontraram, a tensão se instalou no ar de maneira pesada. Assim como ocorrera com Pietro, ele não desviou seu olhar em momento algum, e seu fitar era amedrontador e intenso, sendo forte o suficiente para fazer com que a policial recuasse um pouco, para depois se reerguer com um sorriso amigável. Thomas ainda estava na defensiva.

"Bom dia, não se lembra de mim, mas..." ela fora cortada.

"A policial que me salvou na noite anterior e que também estava no parque." confirmou Thomas. A mulher riu.

"Sim, bem lembrado." Alice assentiu. "Já sei seu nome, então é justo me apresentar. Me chamo Alice."

"Veio me perguntar sobre a noite anterior?" adiantou-se Thomas.

"Você é um garoto muito observador." ela cruzou os braços. "Mas sim, é por essa razão que eu estou aqui."

"Então vou ser direto com você, policial." Thomas apontou. "Foi um homem que me atacou. Eu não lembro do rosto dele, nem de muita coisa. Ele só queria meu celular e aconteceu. Algo mais?"

"Entendo. Mas, Thomas, o que me incomoda nesse caso particular não é quem te atacou, mas como atacou sabe?" Thomas pareceu receoso, mas não deixou transmitir, pelo menos achou que não estava. "Eu tenho a gravação da noite passado, gostaria que desse uma olhada. Posso te mostrar?"

Thomas olhou para a porta, tentando encontrar o vulto de alguma pessoa que estivesse passando no momento, mas sabia que qualquer pessoa que passasse não faria nada e, querendo ou não, aquela mulher ainda era uma policial, não havia muito o que fazer contra. Era incontestável que sua energia não era exatamente a mais confiável, mas se ele jogasse seu jogo, talvez pudesse se livrar dela o mais rápido possível.

Thomas assentiu e estendeu a mão para pegar o celular, revendo as cenas de terror por um ângulo diferente. Havia algo ali que perturbava Alice e rapidamente, nos pouco de gravação, Thomas percebeu o que era. Era exatamente a duração do vídeo. O momento em que ele entrava no beco e saia correndo ferido se tava num intervalo de um minuto muito breve. De forma racional, não havia tempo o suficiente para ele ser machucado daquela forma tão violenta num espaço de tempo tão curto. Ele assistiu o vídeo várias vezes, apenas para ganhar tempo.

Ele não sabia como agir, então engoliu em seco e devolver o celular.

"Foi assustador." comentou Thomas.

"Imagino como deva ter sido para você" Alice aproximou-se ligeiramente. "Não ocorreu nada de estranho naquele beco, Thomas?"

Dizem por aí que ao se referir alguém pelo primeiro nome durante uma série de perguntas séries ajuda a diminuir a tensão num interrogatório; a pessoa interrogada em questão sente-se mais próxima de quem faz as perguntas, logo, mais vulnerável. Thomas estava com todas as barreiras armadas e numa condição defensiva jamais vista antes. Seu nome na boca daquela mulher era tão fora de colocação, quase como deboche.

Ele apertou a mandíbula singelamente. Se movesse seu corpo de qualquer forma, sentiria a dor. Mas bastava ser o mais evasivo possível, e de maneira singela, que poderia safar-se desta situação.

"Fora eu ter sido atacado por um doido psicopata?" proferiu num discurso recheado de sarcasmo. Alice pareceu, pela primeira vez, desgostosa. "Vocês não têm nenhuma ideia do quem era aquele homem, não é?"

"O departamento tem somente suposições. Mas acredita que seu caso possa ter algum tipo de envolvimento com as crianças desaparecidas. Eu não penso assim, aliás." Alice agora estava em frente aos pés de Thomas. "Nada relacionado a... Digimons?"

Thomas arqueou o cenho, o que era a atitude mais descuidada que poderia tomar. Só poderia ser um blefe da parte dela. Ele estava nervoso, iria ceder aquilo se continuasse dessa forma. Ao notar que Alice remexia seu casaco, ele buscou rapidamente formular alguma ideia, mas antes que pudesse por em prática qualquer manobra evasiva, ver o materializador de listra laranja na mão da mulher um arrepio subiu sua espinha.

"Encontramos isso com você quando te levamos pro hospital." Alice olhou para o aparelho."É diferente dos outros materializadores que eu vi com crianças. Não é um modelo exclusivo, eu presumo." Alice sorriu de maneira traiçoeira. "Então, Tho-"

Antes de concluir sua frase, a mãe de Thomas, Donna, irrompeu através da porta, e em suas mãos haviam algumas sacolas com sanduíches naturais e alguns outros alimentos comprados na lanchonete do hospital. Seu olhar foi rapidamente até Alice, e pareceu confusa.

"Policial Alice? Achei que tivéssemos combinado que você iria somente perguntar do Thomas mais tarde." ela colocou as sacolas no chão, olhando um pouco apreensiva para a oficial de justiça, o rosto da outra, todavia, não mostrou preocupação alguma.

"Eu só vim deixar um presente para o Thomas." Alice aproximou-se de Thomas e o entregou o materializador. "Acharam algumas cartas de digimon na bolsa dele, então eu achei que isso pudesse agradá-lo."

"Isso é um..." Donna tentou compreender.

"Um materializador, mãe." completou Thomas seco. "Sabe, o que eu tinha pedido de natal esse ano..."

"Mas, policial, isso é muito caro?" Donna aparentou surpresa.

"É uma cortesia que ganhamos de uma empresa." mentiu a policial, mandando um olhar de confiança para Thomas. "E ele merece."

Thomas compreendeu aquela situação, e poderia acusar Alice, mas preocupava-se pelo fato de não saber o que aquela mulher era capaz. Mas estendeu a mão assim mesmo, pegando o materializador das mãos de Alice.

"Muito obrigado, policial!" agradeceu Donna, animada.

"Obrigado." agradeceu Thomas mais seco que sua mãe.

"Não há de quê. Thomas, vou deixar meu número com sua mãe. Qualquer coisa que precisarem, não hesitem em me ligar." ela aproximou-se de Thomas, sussurrando. "Terminamos nossa conversa outra hora."

Alice se despediu dos dois, deixando para trás um Thomas apreensivo e uma Donna despreocupada.

Os ferimentos de Thomas, ainda que houvessem necessitado de tratamento e costura, estavam surpreendentemente limpos. Fora algo constantemente pelos médicos comentado pelos médicos que cuidaram do caso. Eles afirmaram que era quase como se o vento tivesse o cortado. Foram repassados alguns anabióticos e anti-inflamatórios por precaução. A indicação era que Thomas ficasse em casa por alguns dias, ou até que seus ferimentos estivessem parcialmente fechados, evitando também atividades físicas pesados. Conhecendo sua mãe como conhecia, Thomas passaria uma temporada trancafiado dentro de sua casa pelos próximos dias.

Ele comia seu sanduíche bem lentamente, pensativo. Sua mãe não pareceu notar, todavia. O resto do dia resumiu-se a Thomas analisando o aparelho que havia recebido e fragmentos de memória que explodiam em sua cabeça esporadicamente. Ele também cochilou, na esperança que aquele dia chegasse ao fim, apenas para ser acordado pelos médicos para um exame rápido. Foi surpreendente que recebera alta, mas aceitou sem contestar, ao contrário de sua mãe.

Ele seguira para sua casa em um táxi, juntamente com sua mãe. Ela comentava coisas sobre segurança com seu filho, sobre uma nova rotina e sobre como tentaria conseguir dinheiro para lhe dar um celular, por mais irônico que aquilo pudesse parecer, mas era um tentativa para os dois se comunicarem com mais frequência,. Thomas suspirava durante o percurso.

Ao chegarem em casa, Donna insistiu em levar Thomas para seu quarto, mas o mesmo garantiu que estava perfeitamente bem para andar sozinho. Era estressante tanta superproteção, e acima de tudo sufocante. Ao entrar em seu quarto, ainda ouvindo sua mãe, ele fechou a porta e deitou-se, sentindo um pouco de desconforto. E esperou até a voz de sua mãe se amenizar até tornar-se nula. Para que isso acontecesse, precisou anoitecer novamente.

Seu quarto era pequeno. A cama de solteiro ficava ao lado da porta, e do lado oposto a cama estava uma escrivaninha, com alguns livros, um notebook e uma série de figuras animadas de digimons famosos. Thomas lembrou do materializador que havia ganho de Alice e passou a analisá-lo, ainda deitado. Imaginava se o time de investigação não poderia tê-lo grampeado de alguma forma. Mas com qual intuito? Pensou. Também ponderou sobre a atitude de Alice e como aquele mulher era incômoda.

A luz do crepúsculo atravessava pela janela; pequenos fios iluminados cortavam pelos espaços na persiana, iluminando alguns pontos no quarto e tornando o ambiente levemente visível. Já não era mais possível para Thomas enxergar suas figuras na escrivaninha. Ele levou o materializador até em frente ao rosto. Ele não possuía botões, somente a abertura na lateral por onde entravam os chips e a tela arredondada. Quando, porém, o polega de Thomas deslizou pela tela um fio de luz percorreu pelas bordas da linha cinza e o aparelho acendeu.

Thomas torceu os olhos, era uma iluminação forte demais, então virou o objeto na direção oposta, iluminando o lado oposto de seu quarto. Fios de luz passaram a ser emitidos pelo aparelho, formando uma esfera de luz em seu centro, que transmutava-se. A respiração do rapaz foi se tornando mais rápida, estava nervoso. A bolha de energia foi se aproximando no chão a medida que ganhava forma e foi se apagando junto com o aparelho. Ele só podia distinguir o formato da criatura no chão; um montante de pelos pontiagudos que imergiam de uma forma inerte. Por enquanto.

A forma começou a se mexer, a ronronar. Era estranho, mas era uma sensação diferente. Apesar de estar cauteloso, não sentia aquele medo que o monstro esverdeado o causou. Ele foi se erguendo e revelando no meio da escuridão duas orbes esverdeadas vívidas, seus olhos que fitavam constantemente o rapaz.

"Nyaa..." ele ronronou e se espreguiçou, pelo menos foi isso que Thomas achou. "Você demorou muito tempo pra me liberar de novo." sua voz era afeminada, e puxava constantemente a última sílaba das palavras, como se houvesse um m ou n. "Serei seu parceiro a partir de hoje. Muito prazer, Thomas."

Ele não foi capaz de recuar, apenas ficou fitando aquela criatura por longos minutos. E enquanto de um lado digimons apareciam, do outro o contrário estava prestes a acontecer. Mais precisamente com Will.

Neste exato momento, o amigo de Pietro e Thomas encontrava-se na oficina de seu pai, o auxiliando com algumas atividades. Will, por sua vez, odiava estar ali. Seu pai era um homem muito rígido consigo, apesar de ser o caçula de sua família, e não compreendia que o garoto nunca fora fã de carros. Mas, de qualquer forma, fazia aquilo para agradá-lo.

"Preciso que você pegue para mim uma chave de boca para mim, William." disse o homem verificando um equipamento estranho sobre sua mesa de trabalho.

"Certo, pai. " dizia desanimado revirando a caixa de ferramentas do homem. Suas mãos estavam completamente sujas já.

Ao entregar a ferramenta, ficou observando sem muito interessando o homem remover as porcas que prendiam a placa de proteção daquele equipamento estranho. Ultimamente os clientes de seu pai traziam alguns objetos singulares para a oficina; pagavam bem, contudo. Lembrava-se que aquilo, que não parecia nada com um motor de carro, por mais que seu pai dissesse o contrário, havia sido entregue por uma dupla de homens com sorrisos constante. Haviam falado alguma coisa sobre não estar gerando calor ou algo assim. Era um assunto chato.

O homem mais velho pareceu incomodado ao abrir o equipamento, colocando a mão sobre o queixo e apertando.

"Isso é um negócio muito esquisito." comentou, coçando a nuca. "Já tá ficando tarde. Vou deixar isso para amanhã. O que acha, filho?"

"Tanto faz, pai." reclamou Will. "Posso ir agora?"

"Vai, vai." devolveu o homem estressado. "William, vem cá." Will, já próximo da porta, foi parado novamente, indo de encontro ao seu pai. O homem mexeu numa gavetas, procurando algo, e entregou ao filho uma caixa com tampa transparente, dentro dela um chip. "Um cara me deu isso aí pra pagar uma dívida. Sei que você é fã desses negócios ai de bicho que luta, então toma para você"

"Pai... " Will sabia que um chip era inútil sem um materializador, mas também sabia que seu pai era um homem que se magoava fácil, então sorriu e voltou animado. "Caraca, muito obrigado mesmo! Eu vou já testar para ver qual vai ser meu digimon! Pai, eu queria muito que fosse um digimon lutador ou então..."

"Tá, William! Vai pro seu quarto, vai." o homem sorriu, balançando os cabelos negros do menino que saiu em disparada.

O quarto de Will era maior do que o de Thomas, mas tão simples quanto. A única diferença era Lalamon, escondida no armário, ainda depressiva. Will a encontrou dentro de uma caixa de sapatos. Os digimons comiam uma espécie de comida diferenciada obtida através dos materializadores. Bastava escanear um alimento que o aparelho gerava uma guloseima feita para os monstros. Lalamon, todavia, comia bem pouco, e isso deixava o menino triste. Ele sentou-se ao lado dela, em frente ao armário e acariciou sua cabeça.

"Ei, vamos, se anime! Eu trouxe para você guloseima de chocolate... Você não gosta? Eu pensei em escanear legumes, já que você é uma planta, mas ai pensei que poderia ser canibalismo. Então eu pensei em peixe, mas talvez você não gostasse de peixe, como eu. Eu detesto peixe, sabe? Ele me deixa enjoado..." ele foi interrompido.

Era muito comum interromperem o garoto por seu discurso desenfreado, mas, pela primeira vez, Will se cortou sozinho. Estava espantando com o fato de Lalamon estar cintilando, mas algo dizia que iria se decepcionar. Lalamon ergueu-se pela primeira vez desde que fora abandonada, parecia ter ganho um ânimo novo.

"Pietro... Pietro!" dizia enquanto ria, Will não compreendia. "Eu estou indo até você, mestre!"

O corpo dela inundou o ambiente de luz, forçando Will a fechar os olhos e quando tudo voltou ao normal, não havia mais Lalamon. Will estava boquiaberto, triste, e frustrado. Ele sentou-se abraçando os joelhos.

"Eu só queria um digimon." choramingou lembrando-se do chip e do materializador de Pietro.

Não havia como usar um materializador que já tinha dono, ele sabia disso, mas ainda procurou o aparelho de seu amigo, apenas para constatar algo incomum. O aparelho, antes branco, agora tinha uma listra verde em seu centro que não estava ali antes. Ao passar dedão sobre a tela redonda, recebeu um aviso sobre não haver chip para leitura. Ele estranhou.

"Será?" disse o menino, abrindo a caixa que havia recebido de seu pai e pegando o chip com as mãos.

E se não funcionasse? Era uma variável tão assustadora e dolorosa, mas Will queria um digimon acima de tudo e faria o possível para tê-lo. Ele inseriu o chip na abertura e aguardou; a tela se apagou e se rosto se fechou em mágoa. O menino se jogou na cama, deixando o aparelho sobre uma mesinha e debulhou-se em lágrimas, até ouvir uma voz.

"Iniciando materialização" dissera uma voz feminina.

Will rapidamente se levantou, olhando para o equipamento que passava a emitir o mesmo jogo de luzes visto antes.