Digimon - O Mundo Dos Sonhos
9 Cap. 9 - Dicotomia. Verdades à tona.
CAPÍTULO IX
DICOTOMIA. VERDADES À TONA.
Depois de treze dias tentando convencer a minha mãe de que a casa não precisava de um dedetizador, ter arrumado o forro da casa mais que o meu quarto, dado comida, banho, limpado as sujeiras que não parecem nem um pouco com aqueles cocozinhos rosa e fofinhos do anime e ter perdido a conta de quantas vezes tive que fingir choro de criança pra não suspeitarem de nada, eu estava acabado.
Ainda não sabia muito sobre a minha situação nem como as coisas aconteceriam a partir dali. Sentia-me estacionado e sem ter o poder de continuar andando. Minha única luz no fim do túnel eram as últimas mensagens que recebi no D-VICE e que havia ignorado no dia. Uma com um tipo de cilindro desenhado em ASCII e a outra com mais números.
Eu já sabia o que cada um daqueles números significava, mas naquele momento já não era mais apenas ir de peito aberto pra o que quer que fosse. Não poderia arriscar a vida dos gêmeos e sabia pelo que já havia visto no anime que eles não conseguiriam lutar naquela forma, caso alguém ou alguma coisa aparecesse. Decidi não responder àquele aviso e dar mais tempo para ver se eles evoluíam antes de qualquer coisa.
Eu só entendia os mecanismos de evolução que já tinha assistido, mas nada na minha situação se parecia com o que tinha em memória. Eu não tinha um risco pra correr e eles não tinham como gastar energias nem ao menos se exercitar para instigar o crescimento. Aquilo estava se tornando desgastante e eu comecei a achar que me encontrava num beco sem nenhuma saída. Era tudo o que eu tinha na cabeça todo dia ao acordar.
Eram oito e quinze da manhã e, como de costume, meu corpo me expulsava da cama como se estivesse repelindo um imã de mesma polaridade. Estava pronto para mais uma batalha contra as pessoas desconfiadas do meu comportamento nas últimas semanas e com a minha própria cabeça tentando entender a loucura que minha vida estava se tornando.
– Hm...Bom dia, Lu. – Falei enquanto me espreguiçava e ele entrava no quarto. — Bom dia, Ike. Quer dizer, não tão bom.
– Por que, cara? – Perguntei enquanto coçava os olhos e descia do beliche num pulo, como de costume.
– Por causa da sua mania maluca de chorar que nem criança! Você tá fazendo isso tanto que fez de novo enquanto tava dormindo! Eu acordei e demorei um tempão pra dormir!
– Caramba, sério? – Perguntei preocupado com o que teria acontecido aos gêmeos. –
– É. E dessa vez foi mais forte e você levou mais tempo ainda! – Disse ele me encarando.–
Desculpei-me e corri do quarto deixando Lucas com uma grande interrogação na cabeça.
Fui em direção ao beco com o cabelo ainda desgrenhado e o bafo fedendo mais que os “trabalhos” dos pequeninos. Se aquele choro levou tanto tempo quanto Lucas havia dito, algo ruim poderia ter acontecido. Peguei a escada e subi o mais rápido que pude para me certificar que eles estavam bem.
Ao chegar lá em cima, a primeira coisa que escutei não foi um grito, um grunhido ou nada parecido com os sons que os bichinhos reproduziam. Poderia jurar que era uma palavra.
–Aules. – Foi o que disse o pequeno ser que ainda era verde, mas tinha agora um formato diferente.-
Ele tinha uma formação primária de corpo abaixo da cabeça que estava crescida. Esse corpo primitivo tinha uma aparência muito próxima a de um saco verde de gordura humana. Como quando as pessoas engordam demais e forma-se aquela “língua” na barriga e ela fica caída. A pele era ainda de um branco esverdeado e suas veias transpareciam pela fina pele que distinguia os limites de seu corpo. A cabeça agora já não era mais tão mole, poderia comparar a um osso em formação ou uma cúpula cartilaginosa. Seus olhos pretos e grandes ainda brilhavam para mim e me reconheciam como no dia anterior e brotavam pequenas orelhas que caíam sobre sua nova cabeça.
O Gummymon -em teoria- sorriu para mim. Um sorriso lindo, puro e com muito mais dentes que antes, mas ainda com apenas um para fora de um dos lados da boca. Seu irmão ainda dormia na caixa do mesmo jeito que sempre foi enquanto estava comigo e eu notei que o chão estava sujo com uma gosma muito parecida com aquela que havia dentro do ovo.
Estava surpreso com aquela nova forma que ele havia tomado e que era realmente muito parecida com a que conhecia, tirando toda a carga real em sua aparência.
– A-U-LES!!!!!! – Falou entusiasmado como aquela criança que está aprendendo sua primeira palavra. –
– Então agora você fala? É assim que acontece? Será que eu vou ter que passar a te dar Nan ou Mucilon? Caramba, eu não tenho idade pra ser pai!
– AULEEEEEES!!! – Gritou ele com firmeza, como se tivesse tentando me dizer aquilo, me fazer entender o que dizia. –
– Aules? O que isso quer dizer? É uma palavra? Eu não sei falar Digimonês! Você deveria falar na minha língua, ou pelo menos ser dublado! Preciso de um tradutor universal! HAHAHA! Gummymon me olhou novamente como se estivesse decidido. Veio em direção a mim e mordeu um dos meus dedos.
– AAAAAAAI! Porque você fez isso? Tá entrando na adolescência e ficando rebelde é?
– AULEEEEEEEEES! – Disse ele riscando o cenho. –
– Eu já ouvi isso! Mas não consigo entender o que você quer dizer! Cara, se vocês falarem outra língua isso vai ser muito mais complicado do que já está!
– MENINO, O QUE TU TÁ FAZENDO NO TELHADO DE CASA SÓ DE CUECA??? – Foi o que ouvi de onde não sabia e de quem muito menos. –
– CUECA? Ô droga! Esqueci que tinha acabado de acordar! JÁ VOU DESCER, er... PESSOA QUE ME AVISOU! Olha, eu vou aqui embaixo colocar alguma roupa decente e volto pra ver como vocês estão! Não sai dai nem solta algum poder ou sei lá o quê!
Desci correndo para colocar uma roupa e comer alguma coisa para depois me preocupar em limpar aquela gosma proveniente de onde eu não sabia e para ter algum tempo para pensar em como Zerimon havia evoluído. Nada mais me surpreendia com tanta facilidade depois de passar um tempo com eles, mas aquilo ia martelar em minha cabeça até conseguir alguma teoria que ao menos tirasse essa situação de foco.
Voltei correndo para o quarto e pus uma roupa. Quando cheguei à cozinha, minha mãe estava lá tomando café com Lucas e me chamou para comer. Quando sentei, ela me fez uma pergunta:
– O que você tanto faz lá em cima? Ah, e outra! Seu irmão veio reclamar dessa sua nova mania de ficar imitando choro de criança. Isso já está passando dos limites e a gente precisa conversar.
****
Jonas estava sentado de frente ao computador. Tinha um arranhão nas costas que o incomodava há quase duas semanas e demorava de sarar. Uma feição preocupada no rosto, porém decidida. De alguém que sabia o que devia fazer. No seu colo estava uma criatura. Uma criatura diferente da que ele carregava há um tempo. A feição era mais dura, talvez a mesma de Jonas, com o bônus de ser mais fácil de classificar graças aos enormes olhos azuis.
Seu corpo ainda parecia uma simples cabeça, mas agora era mais fácil de notar suas formas, pois os pelos eram rentes ao corpo. Aquela cabeça agora mais visível era toda coberta de pelos marrom-claros em sua totalidade. Despontavam do fundo da cabeça quatro patas com uma única unha acinzentada ao final de cada uma delas, um rabo que começava da mesma cor do corpo, mas ia ficando inexplicavelmente transparente e passando, de forma alternada, para um lilás que também ia se eterizando e se tornando mais destoante ao resto do corpo. Era desconexo e fora de qualquer padrão. Duas orelhas em pé, enormes, peludas e pontudas brotavam bem de cima dos seus olhos e fora a beirada de pelos brancos e eriçados delas, era de mesma cor de seu estranho corpo.
O formato de seus olhos lembrava um escudo -daqueles medievais, clássicos- de cabeça para baixo, o que refletia a dureza de seu olhar e os pelos mais escuros ao redor deles ratificava essa sensação. Acima dos olhos o pelo se avermelhava e triangulava até chegar às orelhas. Por fim, vinha a sua boca que parecia um “W” aberto e sem lábios. Ou pelo menos não eram visíveis graças ao pelos.
O pequeno ser apontou seu olhar para cima, buscando o de Jonas que o retribuiu com um olhar preocupado, porém rente. Ele tinha algumas abas da internet abertas pesquisando como fazer bombas caseiras e assistindo alguns vídeos de documentários onde pessoas domavam animais grandes e ferozes como elefantes ou leopardos. Em outra aba, seu Facebook estava aberto e em uma de suas janelas do chat e ele conversava com um rapaz de uns 19 ou 20 anos, uma pele moreno-clara e cabelo bem curto, segundo sua foto de perfil. Seu nome era Ícaro Barros.
Jonas Moura diz:
Sério! Eu devo muito a você! Muito é pouco, você simplesmente salvou a minha vida sem nem me conhecer!
Ícaro Barros diz:
Você não tem que me agradecer nada. Precisa agradecer a sua sorte e lembrar do que eu te falei lá... Um chamado não é brinquedo e você não pode ir se não estiver preparado!
Jonas Moura diz:
Eu sei. Já entendi o que você falou, mas eu já expliquei que não sabia! Da última vez que tinha recebido uma dessas era o Kylin chegando! Poderia ser qualquer coisa...
Ícaro Barros diz:
Falando nele, está tudo bem? Certo que ele não chegou a agir muito, mas o baque pode ter machucado ele. Lembro muito bem da primeira batalha do Niki e ele levou um tempo pra se recuperar.
Jonas Moura diz:
Ele está bem. Melhor que eu, inclusive. Ainda não entendo tudo o que ele fala, mas como você mesmo disse com o tempo o ouvido vai acostumando né?
Ícaro Barros diz:
Isso aí. Você pode usar o fone também, se quiser, mas não vai demorar muito até seu ouvido acostumar com o ruído e você ouvir ele falando normalmente. Vê as aulas que eu te mandei e procura o máximo de armas que você mesmo possa usar nesse início. Como já te falei, eles são completamente selvagens, só querem saber de destruir e matar! Pelo menos se proteja até descobrir quem foi o sacana que te deixou na mão. Esses chamados nunca são individuais, muito menos pra um bichão daqueles!
Jonas Moura diz:
Certo! Agradeço muito de novo. De verdade. Vou providenciar esses detalhes e ficar atento a esses chamados. Até mais, cara!
Quando Jonas se despediu, Ícaro já havia saído e deixou no ar muitas dúvidas após ter sanado outras. Jonas sabia agora qual era a sua meta inicial e o quão séria a situação estava se tornando. Ele sabia que o formato animalesco que viu em seus sonhos era o mesmo lobo gigante e de presas afiadíssimas que havia no ponto demarcado pela última mensagem recebida semanas atrás, sabia que agora viriam problemas cada vez maiores e que precisava se preparar para combatê-los, sabia que agora precisava se preocupar tanto com ele quanto com aquele pequeno ser, sério e felpudo em seu colo e sabia agora que seu nome era Kylin.
– A gente deu sorte da última vez, Kylin. Mas não dá pra contar com a sorte toda hora. Temos que nos preparar e descobrir logo o que tá acontecendo pra arrumar essa bagunça! – Jonas falou decidido e compenetrado em suas palavras. -
– Eu sei. Peçchuashahduafjsanfskljdjngculpas por não conseghosudfhodghdpofir ajuajsduasfusdafhweaaar.
– Calma, deixa eu colocar logo isso pra te entender direito.
Jonas abriu a caixa onde seu D-VICE havia chegado e tirou de lá um fone sem fio, como aqueles pontos que a polícia põe nos ouvidos para alguma missão. Nesse fone havia acoplado um pequeno microfone que ia em direção à boca, parando um pouco antes da bochecha, bem singelo. Era pequeno e todo preto como o aparelho e tinha escrito de forma circular, acompanhando o seu formato o nome Babylon em prateado. Jonas o colocou em sua orelha esquerda, pegou o D-VICE e configurou uma conexão como quem conecta um celular a outro via bluethooth, bem como Ícaro o havia ensinado. Escutou então pelo fone uma voz que já não ouvia a um tempo dizendo:
– Conexão direta estabelecida. Compatível conectado à espécime.
– Essa voz é muito conveniente. Quando precisamos dela, só sabia mandar fazer a pergunta certa! Vamos testar logo isso, Kylin?
– Sim. – Respondeu olhando para Jonas. –
– Fala alguma frase grande pra ver se eu escuto alguma interferência.
– Acho que você precisa cuidar melhor do seu machucado. Não vai conseguir se concentrar se não estiver bem.
– Nossa, funciona mesmo! Nem um chiadinho! Mas eu não entendo porque às vezes eu te escuto e outras não.
– Isso eu também não sei.
Sua vozinha fina e esganiçada era muito estranha de se ouvir separada de um contexto, mas o vendo e ouvindo falar, sua voz e seu corpo reafirmavam um ao outro. O único destoante naquele ser era a sua forma madura de se colocar que quebrava toda sua feição infantil.
– Preciso me armar com tudo o que eu puder pra não te deixar sozinho nessa. Seria falta de responsabilidade e companheirismo da minha parte ficar apenas te olhando no campo de batalha.
– Gosto de saber que você vai me ajudar no que precisar Jonas. Mas não entendo porque você está fazendo isso. Você não tem nenhuma ligação comigo ou com esses problemas e não me deve nada!– Kylin lançou a frase com a feição que estava. Como uma máxima indiscutível. –
– Não é questão de conhecer você ou te dever nada, Kylin. Isso é tudo uma grande loucura! Criaturas enormes, mons... Seres diferentes como vocês aparecendo sem ninguém saber... Eu só tinha visto coisas assim na tv, ficção! E não pareciam tão urgentes e desesperadoras. Não é algo que envolva só eu ou você. É muito maior do que a nossa relação que ainda está sendo criada.
– Entendo. – Disse seco, fechando os olhos. – Não quero criar nenhum problema pra você. Na verdade, queria poder ajudar mais, só que é como eu disse. A única coisa que sei com certeza é o meu nome e não sei como eu lembro.
– Você não é um problema, já disse! É uma das partes da solução, se formos seguir a série.
– O “desenho” que você me contou?
– Isso aí. Eu não sei muito, Caíque sabe mais que eu, mas não posso contar a ninguém sobre você então pedir ajuda a ele não é uma opção.
– Você não acha um material feito pra crianças uma fonte pouco confiável pra uma situação dessas? – Perguntou Kylin com sua mesma expressão fechada. -
– Você não acha que uma situação desesperadora pede soluções imediatas? Você não se lembra de nada e eu não sei de nada! A única luz que a gente teve foi no momento em que eu quase morri pra aquele bicho gigante tentando te tirar da frente dele e Ícaro e Nikki apareceram pra nos ajudar! Por mais que eu não te deva nada, você me deve por aquela noite então eu te peço uma chance pra tentarmos descobrir o que fazer juntos! Pode ser?
– Nunca disse que estava fora desse plano. Só lancei fatos importantes para que a gente trace um bom caminho pra descobrir o que fazer. Por exemplo, nem eles sabiam sobre aquele cilindro que você sonhou ou o que ele significa.
– E isso me preocupa. Parecia algo importante no meu sonho. E...
– JONAAAAAAAS!
– Caramba, quem deve ser? Kylin, você entra na mochila? Se a pessoa for entrar, não pode te ver!
– Entro, mas não se acostume com isso.
– Disse ele modificando sua expressão para algo mais descontraído pela primeira vez. -
– JONAAAAAAAAAS!
Jonas tirou o fone do ouvido, colocou-o no bolso e foi atender a porta.
– Já vai! Quem é?
– O carteiro!
– O carteiro?
– Não, seu retardado! Sou eu, Ivan! Abre aqui.
– E ai, cara! Tá fazendo o que aqui assim, do nada?
– E agora eu preciso de um motivo pra vir te ver, é? Tá parecendo Caíque! Cheguei lá um dia desses e ele tava de toalha quase me expulsando de casa. Passei pela frente da casa dele nesse instante e ele tava de cueca subindo o telhado! Ele tá é surtando! Vamos lá?
– Lá onde?
–Perguntou Jonas, aflito. –
– Na casa dele, ô bocó! Tá viajando, é?
– Caramba, velho... É que eu tenho que... Ensinar Karen a desenhar maçãs!
– Oi? Sério que foi essa tua desculpa?
– Não, cara! É sério! E também eu teria que comer alguma coisa, que ainda não tomei café e arrumar a mochila. Ia demorar.
– Tem problema não, vai comer algo que eu arrumo tua mochila. Já sei o que tu leva mesmo.
– NÃO! Err... Certo. Calma. Pode esperar aqui na sala que eu vou arrumar as minhas coisas e como lá na casa de Caíque, beleza? – Disse Jonas em total desespero. –
– Tá bem então... Estranho... Vai lá que eu fico brincando aqui com tua irmã. Cadê tua mãe?
– Tá na vizinha conversando um pouco. Daqui a pouco ela volta aí. Vou cá dentro e volto pra gente ir.
– Certo.
Jonas correu para o seu quarto, aliviado e apreensivo. Se negasse o pedido de Ivan, poderia criar uma situação chata e complicada com ele e tendo aceitado, havia o problema do que fazer com Kylin.
– Kylin! – Sussurrou Jonas para a mochila. –
– Ssjdsschhaskadvgasssaa.
– Oi? Droga, o fone. Aí, fala de novo.
– Você precisa lavar a sua mochila. – Falou Kylin como se fosse a frase mais importante do milênio. -
– Como?
– Isso aqui fede por dentro, sério!
– Não é hora disso. Ivan chegou aqui e eu acabei de aceitar ir pra casa de Caíque com ele! Que a gente faz?– Perguntou Jonas completamente perdido. –
– Rejeite o pedido! Não vou ficar mais um segundo nessa mochila horrível e você não pode me tirar da sua casa!
Passados alguns minutos, Jonas já havia comido e tinha colocado em sua mochila umas roupas, alguns utensílios de casa que poderiam ajuda-lo em alguma emergência e terminava de espremer Kylin naquele emaranhado de coisas.
– Sério Jonas! Eu não serei desse tamanho pra sempre e você sabe disso! Prepare-se para a minha vingança! – Sussurrou Kylin querendo gritar e arranhar Jonas mais ainda. -
– Deixa de drama e entra logo, Kylin! Quando a gente chegar lá eu deixo a mochila no quarto e abro o zíper direito. Agora entra aí porque a gente não tem outra escolha!
– Ainda acho que a gente não devia ioasdhqpwiurahsdlkjçakdjawawpad.
– Já foi. Já tirei o fone, tá vendo? Tá no bolso. Então não adianta chiar!
– Já tá pronto, madame? – Perguntou Ivan da sala de estar. -
– Ivan.
– Senhora?
– Vai à merda.
– Vamos pra casa de Caíque, isso sim. E vamos logo!
– Então vamos. – Disse Jonas entregando a chave e a irmã à mãe, na vizinha e tomando seu caminho. -
****
– Entendeu agora, mãe? – Perguntei desejando muito que minha desculpa tivesse colado. –
– Então você está me dizendo que tem um ninho de urubu no telhado da minha casa e que os barulhos de choro eram pra camuflar os sons que eles soltam? – Perguntou minha mãe, bufante. –
– É... Isso aí! Eu descobri esse ninho há um tempo, mas depois que eu subi lá, a mãe não voltou mais e eu fiquei com pena dos bichinhos!– Disse desacreditando eu mesmo da desculpa horrível que criei. –
– Mas porque você não me contou ao invés de fazer todo esse teatro pra encobrir esse ninho?
– Porque são urubus, mãe! Vai que você achava nojento e mandava tirar eles de lá?
– Vai que, não! É o que você vai fazer já! Minha casa não é zoológico e muito menos lixão pra virar moradia de urubu! Dê eles pra alguém, veja o que você vai fazer porque já está todo mundo cheio desse seu choro agudo à toda hora!
– Mas mãe... — Nem “mas” nem menos! Termine de comer e vá agilizar isso logo!
– Certo.
****
– Cara, não sei se você tá notando, mas a gente vem se afastando muito de uns tempos pra cá.- Disse Ivan quebrando o silêncio que até então tomava conta da caminhada.-
– Cê acha? – Perguntou Jonas com tom de estar em outro mundo. -
– Acho não, tenho certeza! Direto a gente ficava na casa de Caíque resenhando e de um tempo pra cá não encontro vocês nem pelo Face! O que tá acontecendo? É mulher, é? Porque eu sei muito bem dividir o meu tempo entre vocês e Lara. -Disse Ivan chateado. -
– Nem é, cara. Eu tô me encontrando pouquíssimo com Véu porque ela tá fazendo faculdade em outra cidade. Então a gente troca muita mensagem, mas se vê pouco. Da minha parte é porque tô mais em casa mesmo. Caíque eu já não sei. Ele tava meio tenso da última vez que a gente conversou, mas nada grave.
– Hm... Sei. A gente podia conversar com ele quando chegar lá. Não gosto de ver as coisas assim.
– Realmente. Não podemos nos afastar logo agora. — Falou Jonas mais pesaroso do que devia. –
– Oi? O que tem agora? -Perguntou Ivan esperando uma justificativa. –
– Nada de mais, só que a gente tá de férias, você já tá na faculdade, eu ainda tenho que terminar o ensino médio e ele tá parado. Pode ser isso, apenas.
Jonas sempre teve um controle maior com as palavras na hora sair de uma situação problema. E por não ser tão intenso e espalhafatoso quanto eu, consegue pensar melhor antes de falar e soar menos forçado. Ivan o conhecia antes mesmo de me conhecer, duma época remota nos primeiros momentos de escola e sabia que Jonas não estava tão bem quanto dizia.
*****
Naquele momento eu estava perdido. Não poderia tirar os gêmeos lá de cima e contar a verdade pra o pessoal de casa. Era arriscado de mais expô-los a isso tudo e também não poderia simplesmente desobedecer a ordem da minha mãe. Fui ao beco, subi as escadas e vi os dois, inocentes e deitados, dormindo na caminha improvisada com papelão recheado de panos.
– Mais que trabalhão vocês estão me dando, hm? -Falei admirando-os dormir. –
Precisava de algum empurrão para frente. Estava parado numa mesma situação há semanas sem qualquer novidade, qualquer luz. Nem as benditas mensagens me vinham mais. Os gêmeos já não podiam mais ficar ali e eu não sabia o que fazer até me surgir a ideia. Em alguns minutos eu estava com a caixa fechada em mãos quase de frente a porta do quarto de hóspedes que fica ao lado da cozinha e minha mãe vinha do quarto dela enxugando os cabelos com a toalha.
– Vai fazer o que com eles, já decidiu? -Perguntou ela com pena, mas decidida a tirar os bichos de casa. -
–Já sim. Tem um baldio com várias árvores aqui perto. Vou deixar eles em uma dessas árvores que ai eles vão ter as frutas delas pra comer e vão ficar protegidos.
–Certo. Deixa só eu ver como eles são.
– O que? – Perguntei assustado. -
–Abre a caixa pra eu conhecer ao menos meus inquilinos clandestinos antes de irem embora. – Disse ela, curiosa. -
Gelei. Não podia abrir a caixa e não sabia o que fazer então gritei:
–OLHA A BARATAAAAAA!
– AAAAAAAA! Aonde menino? — Gritou minha mãe subindo em uma das cadeiras da cozinha. –
– Aí! Embaixo da cadeira que você subiu!
– Gritei com o máximo de desespero que podia fingir.
– Gritava escrachadamente desesperado sobre como aquela barata poderia ser facilmente a mãe de todas as baratas do mundo de tão grande que era. Corria com a caixa para fora de casa quando passei pela sala do computador e Lucas estava sentado olhando para onde eu apontava. Talvez procurando também a tal barata inexistente que me livrou de um grande problema.
Fui até um monte de lixo perto de casa e joguei a caixa fora. Voltei para casa e corri para o quarto de hóspedes, trancando a porta ao entrar. Assim que fechei, “Chocomon” pulou em cima de mim e ficou brincando no meu colo.
– Hahaha! Deu certo! Agora eu só preciso que vocês fiquem quietinhos aqui enquanto eu procuro uma solução pra vocês, certo? — Disse para os agora não tão gêmeos que estavam sonolentos e famintos. -
– Fome. – Disse o “Gummymon”. -
–Oi? – Perguntei surpreso, olhando para trás. -
– Aules fome!
– Caramba! Cê tá falando mesmo! E português! Que maravilha! –Falei um pouco mais aliviado. -
– Aules fome! -Disse o pequeno choramingando. –
– Okay. Essa primeira palavra eu ainda não entendi, mas vou trazer alguma coisa pra vocês. Fique de olho na bolinha marrom.
Coloquei Chocomon que estava pulando no meu colo na cama ao lado de Gummymon para levar comida a eles. Tranquei a porta e pus a chave no bolso. Enquanto estava preparando um pão com leite para eles, escuto a campainha seguida de um grito duplo.
– IKEEEEEEE!
– Deixa que eu atendo.
–Lucas falou pulando da cadeira do computador. -
– Você saindo do pc por livre e espontânea vontade? Tá bem... – Comentei espantado. -
Precisava mesmo que Lucas abrisse a porta para me dar tempo de colocar os pequenos em algum cantinho com a comida deles antes que os meninos -que havia reconhecido pelas vozes- entrassem.
– Você fique quietinha, sem gritar e pular e obedeça a seu irmão mais velho, tá? — Falei para Chocomon recebendo um sorrisão de um só dente e muita gengiva como resposta. -
– E você não deixa ela fazer besteira e se comporta também, certo? -Falei sem esperar respostas. –
Logo antes de fechar a porta do quarto o escuto falando.
–Céto!
–Vou demorar pra me habituar com isso. – Disse saindo do quarto. -
– Caíque!
– E aí, gente? O que fazem por aqui?
– O que a gente costumava a fazer. Nada de específico. E você, o que tava fazendo só de cueca no teto mais cedo?
– Ah, então foi você que gritou? -
Pois sim. Vem cá pra sala. Jonas tá aqui também.
Jonas. A última vez que tínhamos conversado foi quando passávamos por situações muito parecidas. Depois disso mais nenhum contato direto. Só algumas mensagens rápidas pela internet e coisas assim. Vieram-me em mente várias dúvidas sobre ele e se algo a mais tinha acontecido. Se tinha tudo sido uma grande coincidência ou se ele também estava metido nesse mato sem cachorro. Se eu estava assim tão perdido, como ele deveria estar? No meio de tantas perguntas eu esqueci a chave na porta do quarto e fui pra sala com Ivan e Lucas. Jonas estava sentado acabando de guardar o celular no bolso e fechando sua mochila.
– E ai, Caíque. – Disse Jonas mais avoado que de costume. -
– E ai, Jhou. Porque desapareceu assim?
– Desapareci nada, cara. Só preguiça mesmo.
– Que tá acontecendo com vocês, em? -Lucas perguntou do computador. -
–Oi? Nada não. E porque você não vem pra cá ao invés de ficar nessa coisa creepy de ver e sentir tudo de longe? – Falei olhando pra ele de cara feia. -
– Na verdade eu tava conversando algo do tipo com Jonas antes de chegar. Acho que a gente precisa conversar mesmo. – Ivan falou com certo pesar na voz. -
– Vão começando aí a conversa. Vou beber água aqui, rapidinho.
– Pô, Jonas! Vai rápido então que a gente te espera.
–Não, é sério. Podem começar. Já volto.
– Certo. Enquanto conversávamos sobre o distanciamento entre todos e o clima estranho que estava acontecendo, Jonas foi para a cozinha com a mochila nas costas e se dirigiu para o quarto de hóspedes. Abriu a porta e entrou sem que ninguém o visse.
–Pronto Kylin. — Ufa! Já não aguentava mais ficar espremido com suas cuecas! – Disse o pequeno enfezado saindo da mochila. –
– Tem uma cueca presa na sua orelha esquerda. – Jonas falou tentando segurar o riso. –
– Ai, que nojo, Jonas! Toma logo isso e volta pra sala pra ninguém desconfiar que de mim!
– Certo, patrão. Mais alguma ordem a cumprir?
– Engraçadinho você, hm? Não me pareceu tão feliz lá fora. – Lançou Kylin curioso com a reação de Jonas. -
– ATCHIM!
– O QUE FOI ISSO? – Perguntaram os dois em uníssono. –
– Não, sei. Olha embaixo da cama que eu vou procurar aqui do lado, Kylin.
– Ô JONAAAAS! VEM LOGO, VELHO! – Gritou Ivan da sala. –
– Droga! Vou trancar aqui e você continua procurando tá, Kylin? Volto aqui daqui uma hora pra ver se tá tudo bem.
– Não se faça de babá, faça o que tem de fazer e vamos embora daqui. – Disse ele quase que ordenando. –
– Pelo menos você vai estar acompanhado com seu mau humor. Fui!
Jonas voltou para a sala e passamos grande parte da tarde discutindo sobre pequenos problemas que nos afligiam e até desenterrando pequenas picuinhas que um ou outro achavam que poderia ser o motivo do afastamento. Eu pensava que ninguém ali além de mim poderia compreender o verdadeiro motivo da situação estar se fechando enquanto Jonas pensava basicamente a mesma coisa. O círculo de omissões e mentiras estava para acabar e não seria de forma amigável.
Depois de termos “resolvido” as coisas e passarmos muito bem um pedaço da noite, Ivan precisou ir embora e ficamos apenas Jonas, eu e Lucas em casa conversando e jogando um pouco. Minha cabeça estava até então desligada dos gêmeos e dos problemas que circundavam a simples aparição deles em minha vida até que me voltaram todas as tensões, dúvidas sobre minha situação e possível envolvimento de Jonas em toda essa história. Meu pensamento foi cortado pelo mesmo.
– Velho, como estão as coisas? A gente nunca mais conversou sobre aquelas loucuras, né?
– Que loucuras, cara? Teorias de criação do universo e coisas assim?
– Não, falo daqueles negócios que a gente parou um fim de semana inteiro pra pesquisar. Essa conversa por glória foi interrompida pelo toque do meu D-VICE recebendo uma mensagem.
– Opa, foi o meu ou o seu? – Perguntou Jonas. –
– Acho que foi o meu. Porque, o toque é parecido?
Jonas fez que sim com a cabeça e foi revirar a mochila que estava do seu lado. Corri para o quarto e peguei o D-VICE em cima da cômoda, esperançoso, doido para ter alguma novidade, alguma luz, qualquer coisa que me tirasse daquele completo escuro onde me encontrava. Peguei o celular correndo e olhei no quarto mesmo a nova mensagem sem destinatário que havia chegado.
– Imaginava que seria isso.
Falei anotando os novos números que me apareceram na tela para separar as coordenadas do horário certo para chegar ao local designado na mensagem. A quantidade de números e a ordem deles se mantinham a mesma das anteriores, então não foi difícil deduzir que o horário de chegada ao local deveria ser às 4 da manhã. Bastava agora acessar algum mapa online para descobrir a coordenada correta.
– Abrir navegador.
Já conhecia alguns dos comandos de voz que o D-VICE aceitava de tanto mexer nele procurando alguma pista do que fazer. A internet abriu e digitei os números correspondentes no Google Maps.
– É um pouco longe, mas da pra ir andando.
– Ah, não, mas que droga! – Gritou Jonas da sala. –
– Oi? Que foi, cara? – Perguntei curioso. –
Ao me ver, Jonas enfiou a cabeça na mochila juntamente com uma das mãos e saiu de lá logo em seguida.
– N-nada não, Ike! É que eu esqueci minha cueca em casa.
– Ah ta. Tem cueca sua aqui, pode ficar tranquilo.
– Oh, que ótimo então.
Conversamos ainda muito antes do sono chegar. Nos revezamos para o banho e fomos deitar. Lucas já havia dormido há algumas horas, mas eu e Jonas acabamos conversando por mais tempo. Deitei e programei o despertador para as 3:30 da manhã. Ainda não tinha certeza se iria ou não, decorrente a situação dos bebês, mas não podia me dar ao luxo de simplesmente ignorar outra vez um chamado. Jonas saiu do banheiro e veio deitar também.
– Boa noite, Caíque! Até amanhã.
– Opa, boa noite velho. Dorme bem ai.
– Cê também, cara.
Dormimos. Às três da manhã, o D-VICE de Jonas vibra ao seu lado. Precavido como ele, não colocaria com um intervalo de meia hora como eu. Jonas levantou e se dirigiu diretamente para o quarto dos fundos.
– Kylin. Kylin! – Sussurrou Jonas sem ligar uma luz sequer. –
– Aqui, no seu pé. – Disse ele seco, como sempre.
– Vamos sair logo daqui e fecha a porta rápido!
– Oi? Porque isso assim de repente?
– Faz logo isso, Jonas. Vem pra sala que eu te explico. Não quero que nos ouçam. – Falou desconfiado olhando para o breu atrás de si. –
– Quem vai ouvir a gente? – Perguntou Jonas tenso. –
– Vem logo, Jonas! – Irritou-se o pequeno felpudo. –
Kylin foi andando tranquilamente pela casa até a sala seguido por Jonas que ainda olhava para trás, buscando uma explicação. De um pulo subiu no sofá e se acomodou como um felino faria para deitar bem confortavelmente. Jonas ligou a luz e sentou ao lado dele. Perguntou.
– O que tá acontecendo?
– Lá dentro. Tem um de nós lá dentro.
– O quê? – Perguntou Jonas aflito.
– Vamos logo lá! Antes que ele acabe com a casa, a gente tem que fazer alguma coisa!
– Calma. É só um bebê. É muito pequeno e só tem um dente. Isso não me parece muito ameaçador. Ele subiu na cama vindo de não sei onde, mordeu o meu rabo e eu fiquei sacudindo até ele soltar. Ele caiu em algum lugar no quarto, mas não quis ficar rondando de mais para não fazer barulho. – Contou Kylin fechando os olhos e se aprumando num dos lados do sofá. –
– Mas, mas se ele não é uma ameaça, então...
Os olhos de Jonas quase saltam para fora. A estranheza de Caíque, seu sumiço, sua mudança na forma de agir, falar e de tratar as pessoas, tudo isso se justificaria se estivesse passando por uma situação minimamente próxima com a que o próprio Jonas passava, pensou. Com essa possibilidade, veio à tona os questionamentos na cabeça dele. “Porque Caíque não havia contado nada? Porque ele não procurou saber como eu estava depois daquele fim de semana? Porque isso estava acontecendo com eles?” Até a erva daninha ser plantada.
– Será que foi ELE que não respondeu ao chamado na outra semana?
Nesse momento o meu celular despertava acusando 3:30 da manhã. Ainda sem lembrar do acontecido, desliguei o despertador, desci da cama e fui direto ao banheiro. Jonas havia me escutado levantar e juntamente com a quase certeza que rondava seus pensamentos, uma fúria que nem ele sabia de onde vinha começava a nascer de seu âmago e querer gritar para fora acertando em cheio a primeira coisa que aparecesse em sua frente.
Jonas desligou a luz da sala e se segurou ao me ver passar para a cozinha. Eu corri para o quarto dos fundos, liguei a luz e procurei pelos gêmeos. Chocomon estava um pouco choroso enquanto Gummymon parecia atento e um pouco eriçado. Perguntei esperançoso por uma resposta.
– O que houve aqui?
– Ele! Peludo! “Olelha!” Bateu!
– Como? Não entendo!
– Igual a aufhsoduhSaoifjrua caiu!
– O que foi isso? Foi um chiado? Olha, vocês estão assustados. Saíram da casinha de vocês e eu entendo isso. A gente tem que sair agora. Recebi uma mensagem e dessa vez não posso ignorar. Mas eu prometo que vou proteger vocês a todo custo!
– Tá! – Disse o pequeno e verde ser que agora arriscava algumas palavras. –
Peguei a menor na mão e o outro deixei livre pela casa para andar um pouco e conhecer de verdade o lugar. Estava a caminho da sala. Iria deixa-los no sofá e trocar de roupa para sairmos, mas assim que cheguei à sala escutei um grito surdo, senti algum movimento na penumbra e levei um soco na cara.
– Filho da puta! Eu só não te bato de novo pra não acordar seu irmão e sua mãe.
– MAS QUE PORRA FOI ESSA? – Gritei sem pensar, do chão, segurando a mandíbula. –
Chocomon havia caído no meu peito e Gummymon se escondeu atrás de mim assim que caí, de susto. Escutava um ofegar muito forte e ouvi passos que iam até a luz. Jonas a ligou.
– J-Jonas? Porque você fez isso?
Perguntei antes de fitar o sofá e ver a criatura aninhada inicialmente de olhos fechados, depois me fitando com um azul intenso. Não mais intenso que o soco que havia levado, nem mais vivo que a feição de Jonas que há tempos não via mudar.
– Foi você que me deixou na mão há quinze dias! Eu podia ter morrido! Você me deixou na mão muito antes disso por não ter me contado nada! Você é algum tipo de idiota?
Jonas gritou apenas com a intenção no corpo e no olhar que estava vidrado em mim. Ele estava furioso, não conseguia segurar o mínimo de suas emoções. Nunca o tinha visto assim.
Já eu, estava ainda em choque, deitado no chão na mesma posição que caí, olhando fixamente para Jonas e fitando vez ou outra aquilo que me parecia um guaxinim no meu sofá. Minha feição era de medo, pavor da situação de Jonas, preocupação por ele ter visto os gêmeos e insatisfação por ter levado um soco tão bem dado sem poder revidar.
– Você faz o MÍNIMO de ideia de tu-tudo o que eu passei? Eu lutei contra um lobo gigante e totalmente insano que-que deixou uma cicatriz de um lado a outro das costas! Eu quase que –quase que morri por sua causa!
Levantei indo em direção a ele.
– Por minha causa? Não sei o que você passou lá fora, não sei como está o seu corpo, mas a minha batalha psicológica sozinho não está sendo fraca também! Eu estava sozinho nessa situação, sem qualquer amparo e sem o mínimo de perspectiva! Você também me escondeu sobre tudo!
– Tudo? Eu te contei do que eu passei na rua com aquele Leomon ou seja lá o que for e você não me disse nada! Falou que poderia ser coisa da minha cabeça, me fez acreditar que eu tava ficando doido! Você acha que eu também não passei por problemas em casa tentando descobrir que merda tá acontecendo?
– Parem os dois. – Disse o pequeno do sofá sem mover um músculo que não fossem os de sua boca.–
Realmente paramos. Estávamos os dois à flor da pele já há tempos e estávamos segurando pelas bordas a situação mais inusitada e impossível de nossas e muitas outras vidas e já estávamos cheios de tudo aquilo. Jonas além do estresse mental também já havia passado por uma batalha em campo então explodiu em cima de mim.
Depois da fala do pequeno, Jonas sentou novamente do lado dele e eu fui ao chão buscar os pequenos agora apavorados com aquela situação. Os coloquei no meu colo e sentei no outro sofá, de frente para Jonas. Ele tremia. Não mais que eu, mas tremia. Nenhum de nós dois conseguia falar então escutamos a voz fina e esganiçada daquele “guaxinim” por alguns instantes nos dando sermão.
– A nossa situação não permite brigas internas. Tem coisas muito maiores que a relação ou falta de relação de vocês. Jonas, peço que segure as emoções e o desabafo pra depois e você...
– Caíque. – Disse olhando para o chão. –
– Pois sim, Caíque. A nossa prioridade agora é esse chamado. A propósito, meu nome é Kylin e não guaxinim. Quem te acompanha dos dois e quem acompanha o outro? – Perguntou assertivo.-
– Só eu. – Falei sem olhar para a frente. Ainda com vergonha da situação.
– Mas porque eu tô ouvindo um bicho que eu não conheço e não faço ideia da procedência?
– Porque ele transborda sensatez. Ele tem mais cabeça que nós dois juntos. Só ouve. – Disse Jonas também de cabeça baixa. –
– O que quer dizer com só você? – Perguntou Kylin.
– Vieram os dois no mesmo ovo e só tem um D-VICE na casa. O meu.
– Então se prepare e vamos para o local marcado pela mensagem.
– Certo. Olhem os gêmeos, por favor. – Disse com a voz para dentro, o orgulho ferido por um guaxinim falante e a culpa caindo sob minhas costas. –
Entrei no quarto e ao menos conseguia pensar. Era muita informação de vez para computar. Jonas estava realmente envolvido naquilo tudo e por ter sido negligente, quase deixei o meu primo morrer. Não poderia questionar nada agora, muito menos as ordens de alguém que parecia mais sensato e centrado que eu, naquele momento. Por mais que me parecesse estranho. Me vesti, saí do quarto com uma mochila nas costas onde coloquei os gêmeos.
– Vamos deixar as roupas sujas pra se lavar em casa. Não quero que nada ruim aconteça de novo por minha causa. Trégua?
Falei de frente a Jonas que já estava no portão com Kylin em sua mochila. Jonas olhou para mim, fez que sim com a cabeça e saímos de casa.
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