Digimon - O Mundo Dos Sonhos

10 Cap. 10 - Sem brilhinhos, sem lágrimas, apenas dor


Notas iniciais
" [...]Não deveria ser certo, eu tinha isso na cabeça desde o princípio. Não parecia certo fazer o que fizemos sem ao menos ter certeza dos nossos atos." -Caíque-

CAPÍTULO X

SEM BRILHINHOS, SEM LÁGRIMAS, APENAS DOR

Estávamos a caminho do local marcado, mas pelas feições de Jonas e Kylin parecia que estávamos indo para o inferno. Talvez estivéssemos, não tínhamos como ter certeza.

Como sempre, passavam milhares de coisas na minha cabeça. Não bastava estar numa situação onde não fazíamos o mínimo de ideia sobre onde estávamos nos metendo, ter que me preocupar com os gêmeos, ter recebido no colo a bomba a notícia do envolvimento de Jonas naquilo tudo, ainda tinha que ficar me concentrando em como me reconciliar com ele. Não, não tinha... Mas mesmo assim ficava.

Já ele tinha seu olhar focado, só tirava os olhos do caminho quando olhava para o D-VICE a fim de saber se continuávamos no caminho certo ou se já tínhamos chegado. Kylin em seus braços acompanhando os seus movimentos. Pareciam ter ensaiado. Os dois pareciam exatamente iguais, como se estivessem determinados e profundamente irritados com alguma coisa. Peguei-me encarando Jonas por tempo de mais. Desviei o olhar para os gêmeos.

– Hey, vocês vão ficar bem, tá? – Falei para os gêmeos, mas olhando para Jonas. – Não precisam se preocupar. A gente vai chegar devagar, ver o que está acontecendo e discutir o que seria o melhor a se fazer. Depois de tudo ajeitado, agimos se for realmente necessário. Concorda Jonas?

– Hm. – Ganiu ele como resposta, ainda sem me encarar. –

Kylin nem piscou quando olhei para eles então decidi que ele havia entendido e concordado com o plano. Já estávamos andando há uns 15 minutos e ainda não tínhamos chegado. Quando ia abrir a boca para tentar quebrar o silêncio novamente, comentando sobre como poderiam nos ter mandado no Girassol, o mercadinho a alguns passos de casa, escutamos uma voz que já não ouvia a um tempo considerável.

– Localização final alcançada. Objetivo completo. — Disseram os dois D-VICEs ao mesmo tempo. –

– Chegamos. Carinha, fica sempre atrás de mim, certo? –Falei olhando para o verdinho. -

– ‘Céto’! – Respondeu incisivo. –

– Jonas, sei que você tá chateado comigo e tem suas razões. Te entendo. Beleza. Mas a gente não pode deixar isso atrapalhar aqui e agora. Certo?

– Tá, Ike. Tanto faz. Kylin, fica atento. Vamos entrar.

Estávamos de frente a um galpão enorme na feira livre da cidade em plena madrugada. Era como aqueles celeiros de filmes norte-americanos. Tinha uma porta bem comprida e bem larga. O telhado de Brasilit envelhecida era ornamentado pelas palhas secas e gastas de ninhos deixados para trás e sua pintura por fora era um vermelho gasto pelo sol. “O lugar perfeito para uma primeira missão”, pensei. Uma corrente grossa e enferrujada passava por dois buracos feitos na porta, um de cada lado e por conta da extensão exagerada dela, havia a possibilidade de separar os lados da porta o suficiente para entrarmos.

O lugar estava completamente vazio, uma brisa tímida, porém bastante fria nos perpassava e trazia consigo um cheiro desagradável de frutas e vegetais podres que estavam empilhados há alguns metros dali. As únicas fontes de luz ali presentes eram dois dos seis postes espalhados pela rua e o brilho forte e excepcionalmente amarelado da lua naquela noite. Entramos.

– Jonas, com calma. – Falei hesitante. –

– Eu sei me cuidar, Caíque. Se preocupe com você. – Respondeu frígido. –

– A gente vai mesmo fazer isso agora?

– A gente não vai fazer nada. –Disse grosso. -

Kylin desceu dos braços de Jonas e começou a farejar o lugar, em busca de alguma pista do que faríamos a partir dali. Conomon estava em minhas mãos e Gummymon estava atrás da minha perna esquerda, como havia pedido que fizesse.

Começamos a procurar ao redor. Fui até um canto tateando objetos de madeira que haviam por toda a parte e enxergando apenas o que a luz que entrava pelos buracos no telhado me deixavam ver. Encontrei um interruptor e virei o lado da chave. As luzes se acenderam e pensei ter visto um vulto de relance, do outro lado do galpão, que era extremamente comprido.

– Vocês viram isso?

– Isso o quê? – Jonas perguntou olhando ao redor. –

– Deve ter sido doidice minha, relaxe.

Ativemo-nos aos detalhes do lugar. Chão de cimento batido, sacos de farinha empilhados em vários cantos e barracas de madeira até o fim do galpão dispostas uniformemente para que houvesse espaço entre elas para andar. Formavam quase um labirinto ali dentro. Fora isso, algumas estacas de madeira em alguns lugares e batentes de cimento formando níveis no lugar.

– Nenhum sinal de qualquer Digimon ou nada do tipo. – Falei quase desanimado. – Depois de andar isso tudo, chegar aqui e encontrar um galpão vazio e um monte de barracas e sacos de farinha é foda!

– Não seja impaciente, garoto. Quando eu e Jonas atendemos ao primeiro chamado também tivemos que esperar um pouco. – Retrucou Kylin um pouco à frente dos outros. -

– Ali! – Jonas gritou há alguns passos de distância do parceiro. – Lá em cima!

Um rasgo inexplicável no ar começava a aparecer e alguns pequenos raios fortes e de curta duração brotavam de dentro e ao redor da brecha que estava se criando. A massa de ar que circundava a brecha começou a se movimentar com força e um objeto começou a brotar lá de dentro. Assim que Jonas pôs os olhos nele, gelou. Era um cilindro. Como o que havia recebido na mensagem e idêntico ao que vira em seu sonho. Vidro transparente mostrando um conteúdo etéreo, brilhante e azulado, tampas de aspecto metálico nas duas extremidades e símbolos em verde reluzente talhados nas tampas, piscando freneticamente.

– E-e-eu já vi isso antes! – Disse Jonas um pouco abalado. –

– Eu já vi algo parecido. Quando fui levado até o ovo dos gêmeos. – Falei alterando a voz já que o vento ficava cada vez mais forte e era mais difícil de escutar. –

Jonas sentiu uma pequena pontada na cabeça que veio acompanhada de um lampejo da noite em que apagou. Seu corpo a alguns centímetros do chão, aquela energia transpassando em si e no momento seguinte voltou a si e à situação atual, sacudindo a cabeça um pouco.

– Tá tudo bem? – Perguntei um pouco preocupado. –

– Tá ótimo. Vamos nos concentrar nisso que parece mais importante.

Se fosse transformar o próximo momento em uma imagem, seria de um lugar completamente vazio e escuro. O cilindro como única fonte de energia, indo lentamente se encontrar com o chão. O som surdo de vidro quebrando toma conta do lugar e um clarão imenso cega, mesmo que por um curto período de tempo, qualquer um que estiver por perto.

– O cilindro! Ele quebrou! – Gritou Jonas. – Kylin, procura pra lá que eu vejo do lado de cá!

– Já ia fazer isso, mas tudo bem.

– E eu? Vou ter que olhar daqui mesmo pra vocês não acabarem machucados. – Falei voltado para os gêmeos. – Jonas, achou alguma coisa?

– Ainda nada! – Respondeu de longe.

Eu estava de costas para a porta do galpão esticando o pescoço ao longe e procurando por onde podia dali mesmo para caso alguma coisa acontecesse, poder proteger aqueles pequenos seres que estavam confiando nos meus cuidados.

– Nada aqui também. Esse lugar é gigante! E parece um labirinto! – Reclamou Kylin voltando para onde estávamos.

Mais reboliço no ar e uma torrente de vento maior que a anterior se fez vindo agora do chão. Sem qualquer clarão ou ponto luminoso, apareceu de alguma forma que ninguém conseguiu ver por conta das barracas no lugar, um ser completamente estranho aos nossos olhos.

– Kylin, atrás de você! – Gritei ao ver alguma coisa levantando em meio às barracas e indo na direção dele.

Aquele bicho era a brincadeira de mau gosto mais feia que já tinha visto em carne e osso. Era uma ave bípede que tinha o formato do corpo semelhante ao de uma galinha, mas com alguns “poréns”. Aquele ser devia ter mais ou menos um metro de altura dividido entre seu tronco, que tinha pelos curtos e amarronzados cobrindo-o até o limite das pernas, longas e dobradas para trás. Pernas essas que eram grossas e acinzentadas. Seus pés eram como de uma galinha também, mas grossos como as pernas e com unhas grandes, afiadas e de uma tonalidade beirando o púrpura. Como se já não fosse estranho o bastante, e para terminar o número de horror, usava na cabeça algo como a parte superior de um crânio bem polido de um pássaro com o bico muito longo, deixando à mostra apenas seus olhos verde-fortes, selvagens e algo como um maço de folhas igualmente verdes e eriçadas saindo por detrás da cabeça, como se representasse seu cabelo ou algo do tipo.

Kylin se virou e sem pensar duas vezes correu de encontro àquela criatura bizarra. Eu não sabia o que fazer, se corria para ajudar e deixava os gêmeos ali, se ia de encontro a Jonas, se ficava parado. Me senti realmente aflito e perdido. E se Kylin morresse? Jonas ficaria extremamente abalado. Falando em Jonas, ele estava parado. Com os olhos vidrados na criatura que aparecera diante dos nossos olhos e sem qualquer reação.

Aquele bicho era completamente selvagem. Ele grunhia e balançava a cabeça loucamente enquanto corria com aquelas pernas enormes e envergadas diretamente para Kylin. Jonas paralisado, eu sem poder me mexer, os gêmeos se protegendo e ele lá, como se estivesse sozinho, correndo em direção de seu possível fim.

Ao chegar bem próximo da criatura, Kylin utilizou-se de uma agilidade que não sabia que ele tinha, desviou-se como um toureiro faz com um touro bravo e desgovernado, deu meia volta e saltou com suas garras afiadas apontadas na direção no peitoral peludo da ave gigante.

– GRRRRRRRRINCH!

Foi o grunhido que ela soltou ao ter duas garras de Kylin enfiadas na lateral esquerda de seu corpo. Ele ficou ainda mais bravo, agora sangrando pelos dois pequenos buracos que o ataque lhe causou. Virou-se para Kylin e apontou seu bico afiado na direção dele. Correu bradando em fúria na direção do pequeno peludo que conseguiu desviar novamente do ataque direto e descontrolado da besta. Sua agilidade tinha vantagem contra a brutalidade animalesca e impensada na qual o outro ser baseava seus ataques.

O animal parou seus ataques contínuos e ciscou o chão, com força. Olhou diretamente para Kylin e pulou em sua direção, deixando à mostra suas garras afiadas e sua intenção sanguinária. Kylin se dispersou por um breve momento olhando para Jonas, mas recobrou sua atenção à batalha e correu em direção ao ataque do oponente.

Kylin voltou-se para trás e fitou a criatura há alguns metros de distância de si. Percebeu que ainda tinha a vantagem da agilidade e que ainda poderia usá-la a seu favor. Correu na direção dele novamente, mas quando estava no meio do caminho Jonas grita por ele, ao sair do transe que havia se colocado.

– KYLIIIIIN!!!!! – Gritou Jonas desesperado, de longe. –

– Jonas? – Respondeu Kylin virando para ele e dando as costas à batalha. –

Quando Kylin se voltou para frente de novo, o ser abriu seu bico-crânio o máximo que pôde e inexplicavelmente lançou um grito fortíssimo e exageradamente agudo, seguido de algo que, de longe, pareciam dardos muito afiados. Eram muitos. Inúmeros. Incontáveis. Kylin tentou desviar-se e por um momento imaginou que conseguiria se livrar deles, mas ao chegar ao fim daquela rajada de dardos que vinham sabe-se lá de onde, três deles atingem-no em pleno ar. Kylin caiu no chão e a criatura correu em furor em sua direção.

– Kylin, não. Kylin, não. Não, não, não morre Kylin! – Dizia Jonas olhando para ele, sem conseguir despregar o pé do chão. Caiu novamente em seu transe. -

Durante todo esse tempo eu estava vidrado na batalha que acontecia diante dos meus olhos. Confesso que de certa forma estava deslumbrado, mas principalmente aflito e preocupado com o resultado daquilo tudo. Ao ver Kylin caindo, me desesperei e comecei a sentir certo medo. Aconcheguei Conomon mais perto de mim e me virei para falar com Gummymon que deveria estar ao meu lado, no chão.

– Gummy, talvez a gente tenha que fugi... Gummy? Gummy?

Olhei desesperadamente para todos os cantos. Ele não estava perto de mim. Ele não estava onde havia pedido e quando olhei para a frente ele já estava quase de cara com aquela fera monstruosa, perigosa e muito maior que ele.

– GUMMYMON, VOLTA AQUI AGORA! VOCÊ VAI MORRER! – Gritei implorando para que ele voltasse. –

– Eu vou lá ‘plá’ salvar o Kylin! E é Aules!

Enlouqueci. Kylin caiu depois de ter ido de encontro ao oponente sozinho, sem pensar, e agora um de meus parceiros estava de cara com aquele perigo que parecia ter saído de um pesadelo. Ele chegava cada vez mais perto e aquela criatura ia vê-lo a qualquer instante.

Em minha cabeça passava toda a preocupação, todo o peso da situação, mas por ser minha cabeça também passavam pensamentos aleatórios como sua primeira palavra, ou como ele falava errado. Pensava: “Aules? O que isso significa?”, revivi sua determinação recente “Eu vou lá ´plá’ salvar o Kylin!”. Matutei tudo isso em dois segundos ou menos. “Aules; ‘plá’...”.

Depois de meu curto devaneio, voltei para o momento presente onde poderiam sair mais machucados ou até mortos e por puro impulso, preocupação e inspirado pelo meu pensamento anterior, gritei com toda a força que tinha:

– AUREEEEEEEEEEEEEEEES!

*TUM-T-TUM*

Por uma fração de segundos tudo emudeceu. O único som que ouvia era de duas batidas fortes. Uma seguida da outra. Uma vinha de dentro de mim, mas a outra ecoava de fora, como se me alcançando aos poucos.

*TUMTUM*

Escutei novamente os sons agora mais próximos um do outro, quase em sincronia. Meus olhos estavam arregalados, estava estatelado. A batida era do meu coração. Ele estava pulsando uma única vez. Forte e avassalador como um tambor de guerra.

O outro era dele.

Era de Aures.

Agora eu tinha certeza.

*TUM*

Dessa vez em uníssono. Senti uma dor forte no peito, uma dor que tomou o meu corpo como um todo e juntamente com a última batida, como uma forte onda de energia, me derrubou ao chão.

Aures lançou um grito fino e seco ao ar e contorceu-se para trás o que chamou a atenção da criatura. Seu pequeno e maleável tronco começou a crescer bem diante dos meus olhos. Ia tomando uma forma mais definida. Estava se desequilibrando, caiu no chão ainda gritando, como se pedisse por ajuda imediata. Virando-se de barriga para cima, começaram a brotar de forma aparentemente incontrolável, patas traseiras em si como as de um coelho ou um cão pequeno. No lugar do que seriam as patas dianteiras nasciam braços na medida das patas, com mãos gordinhas e dedos facilmente comparados com os das patas traseiras por serem pequenos como bolotinhas e terem garrinhas pretas saindo deles.

Nesse meio tempo recobrei as forças e notei que a criatura já ia em direção a Aures. Levantei e assoviei alto gesticulando loucamente com os braços para tentar chamar sua atenção.

– EEEEEI! SEU AVESTRUZ DEFORMADO! AQUI Ó!! – Gritei correndo para a minha esquerda. – ISSO! AQUI Ó, CORRE PRA CÁ!

A ave olhou para mim como se soubesse que estava sendo debochada e mudou seu curso para a minha direção. Me senti aliviado por ter dado algum tempo para Aures passar por seja o que estivesse acontecendo, mas agora o problema estava comigo. Kylin estava caído e Jonas estava ainda sem reação. Estava perdido.

Aures ainda gritava como se chorasse, mas já estava de pé. Seu corpo agora estava coberto de pelos. Pequenos pelos quase rentes ao corpo. Eram em sua maioria brancos, mas tinham alguns lugares com uma tonalidade esverdeada, clara e suave como nas pontas das patas e abaixo do pescoço, descendo para o peito. Tinham também dois “riscos” do mesmo verde no meio da única orelha que havia terminado de crescer e em sua ponta. Ponta essa de pelos mais soltos e um pouco mais cheios, dando a impressão de que havia três pontas ao invés de uma ao fim de sua orelha grande e caída.

Jonas enfim levantou e eu pensei que conseguiria alguma ajuda naquele momento. Se ele chamasse o bicho, não iria para Aures e pararia de me perseguir, dando tempo para terminar a transformação pela qual ele estava passando. Errado eu estava. Jonas andou de cabeça baixa até onde seu parceiro estava e pegou-o no colo, sangrando. Eu tinha então que continuar correndo. Já estava cansado e aquele bicho estranho estava quase me alcançando. Olhando para trás de relance, vi a criatura ser tombada e cair para o lado.

– AURES! – Arfei satisfeito. –

– Corre, Caíque! Agora é comigo! – Falou determinado e peludo. –

– Certo!

Corri desesperado para me esconder atrás de alguma barraca. Estava esgotado. Aures ainda tinha uma de suas orelhas crescendo e tendo visto de perto, notei que seus olhos estavam maiores e eram agora de uma tonalidade de verde bem escuro, quase preto e que havia despontado em seu rosto um pequeno focinho quase igual o de um coelho, com o nariz e aquelas bochechinhas em alto relevo, apenas um pouco mais largo. Soltei um pequeno sorriso.

Por mais que estivesse tudo uma grande complicação, era meu sonho evoluindo bem na minha frente. Sem brilhinhos, sem lágrimas, apenas dor. Um sonho real que se mostrava mais palpável, mais terreno, acreditável.

Ele virou para trás por um segundo e me lançou um pequeno sorriso cansado de canto de boca com seus dentes à mostra. Não tinha dentes de coelho. Lembravam-me mais a arcada dentária de um cão filhote, completa e afiada. Sua feição mudou para a de alguém que estava suportando uma dor forte, mas que precisava se mostrar mais forte que ela. Sua orelha direita ainda crescendo. Lentamente.

Enquanto no topo da cabeça de Aures terminava de despontar, por debaixo da pele, um chifre que ele usava para defender-se dos ataques diretos do bico afiado daquela ave marrom e desgovernada, atinei-me para Jonas do outro lado do cenário. Por entre as barracas eu o via sentado sobre as pernas com seu parceiro no colo, sangue em suas mãos, roupas, tentando tirar aqueles dardos que agora os notava redondos, com bicos pontudos. Como sendo miniaturas do ser. Senti raiva de tudo aquilo e uma vontade extrema de ter um machado e decapitar aquele troço para acabar com tudo de uma vez.

As orelhas de Aures já haviam terminado de crescer à essa altura. Suas pontas arrastavam-se no chão, mas ele as usava a seu favor. Pegava impulso com uma delas e lançava na cara escondida daquela criatura fazendo o mesmo com a outra orelha, gerando assim uma sequência de tapas bem fortes e perceptivelmente atordoantes, o que fazia a criatura se chocar com as barracas, dando mais tempo para Aures se recompor.

O bicho caía, levantava, tomava distância e atacava diretamente com o bico. Aures desviava e enterrava seus dentes afiados em qualquer lugar do corpo dele que conseguisse alcançar.

Em meio a tudo aquilo me lembrei que tinha deixado o ser mais indefeso de todos naquela situação, sozinho, quando corri para distrair a besta.

– Conomon! Cadê você? -Gritei com força para transpassar os grunhidos e sons de barracas se espatifando-. Conomon, responde!



–Ueeeeen!



–Conomon?! Onde cê tá? -Perguntei preocupado-. 



–UEEEEN!!!



Levantei e saí de trás da barraca que estava escondido. Subi nela e procurei ao redor. Avistei a bolinha marrom que era o foco da minha preocupação. Ela estava escondida atrás de alguns sacos de farinha próximos à porta da entrada. 


Aures estava ficando cansado e, eventualmente, machucado. Ele feria o oponente, mas parecia que os ataques não eram tão efetivos quanto deveriam ser. Olhei pra ele e gritei: 


–Aures! O bebê tá sozinho na porta!

–Corre pra lá e pega ela! Eu tiro esse bicho do caminho! -Respondeu com sua voz fina, levemente rouca-.

–Certo!



Enquanto Aures usava as suas orelhas pra puxar as pernas da ave e leva-la pra outro lado, eu corria para pegar Conomon e protegê-la de toda aquela confusão. Cheguei até ela, peguei-a do chão e me virei para ter uma visão do quadro completo.
 


– Você agora tá a salvo comigo. Mas Aures tá cansando, tá machucado. E Jonas... Droga Jonas porque você tá travado? JONAS!! ACORDAAA!! – Alertei-o -. 


Ele olhou para mim, uma feição pálida e um olhar vago. Gelei. Ele olhou para baixo, tirou o último dardo arredondado do corpo de Kylin que respirava baixo, com dificuldade. 



– Porque você foi pra lá sozinho seu idiota? PORQUE!? Você não podia ter o mínimo de paciência? Não dava pra esperar um plano? -Disse Jonas inconsolável-.

– Acorda Kylin! Acordaaaaa!



Kylin abriu os olhos lentamente, com dificuldade. Olhou fundo nos olhos de Jonas como se juntando muita força pra tal.

– E-eu v-vou acab-bar com ele! -Soltou com raiva-. 



–Kylin! Não fala, não se mexe que cê tá muito machucado! Vai perder sangue!



– Jonas... -Sussurou-. Eu qu-quero acabar com ele!



– Você acha que eu também não quero? Olha o que ele te fez! Mas você não tá em condições nem de ficar de pé! Como você quer lutar?!



– Com o que t-tiver me sobrado! 



Kylin se soltou de Jonas e ficou de pé. Bambeando. Deu dois, talvez três passos e caiu no chão. Aures procurava se esconder entre as barracas para ganhar tempo. Era muita coisa acontecendo. Jonas levantou enfim e foi pegar Kylin de volta. Ele não deixou.

–Não se atreva, Jonas! ...Ugh... Eu não vou desist-tir até dar o troco!



–Kylin, não seja imprudente, você não tá em condições! -Disse Jonas preocupado-.

–E QUEM É VOCÊ PRA DECIDIR ISSO?! -Ecoou sua voz infantil com seu ar maduro-.

–Eu sou seu parceiro e por mais que tenha te conhecido há pouco tempo, eu me importo com você!



Os olhos de Kylin se arregalaram. O corpo de Jonas enrijeceu. Os dois permaneceram totalmente paralisados por alguns segundos. Bem como eu, assistindo tudo aquilo. Kylin começou a tremer e se entregou completamente ao chão. O silêncio deles foi quebrado por uma súplica vinda de Jonas.

– PARAAAAAAAA!

Nesse momento Jonas caiu de joelhos, suas mãos apoiadas no chão. Seu corpo inteiro começou a tremer. Lembrava a exteriorização geral de um calafrio, mas era algo contínuo. Vinha da ponta do seu pé e parava na cabeça, como uma onda. Arrepiava e voltava continuamente enquanto ele tremia incontrolavelmente.

Os pelos de Kylin começaram a cair, mostrando que em sua pele também acontecia o mesmo processo que Jonas passava. Tremendo e se contorcendo ele virou para mim com os olhos arregalados, vi claramente sua cor passar do azul claro e vivo para um amarelo mel, melancólico. Seu corpo se retorcia, como se tomasse uma forma à força, como se seus ossos estivessem sendo modelados de qualquer jeito enquanto Jonas engolia alguma dor invisível e sentia arrepios fortes, congelantes.

Eu escutava do corpo de Kylin o som de ossos se quebrando. Uma aflição sem tamanho corria meu corpo a cada estalo. Seu corpo arredondado agora tomava uma forma mais definida enquanto ele se retorcia e grunhia de dor. Começava a me lembrar um furão ou um suricato. Todos os seu pelos haviam caído e nasciam aos poucos pelos brancos, bem rentes ao corpo, mais rentes que os de Aures. Suas orelhas encolhiam e as pontas delas iam escurecendo aos poucos até ficar pretas. Apenas suas patas dianteiras haviam crescido com três unhas de uma tonalidade próxima ao vinho despontando do final delas.

– AAAAAAAAAAAAAARR! – Gritava Kylin, como numa súplica. –

– Mas o que tá acontecendo? – Perguntei a mim mesmo, assustado. – É uma evolução também?

Minha pergunta ficou no ar enquanto os olhos de Kylin se arredondavam como se à força e os pelos ao redor deles se escureciam como os das orelhas e desenhavam duas linhas diagonais, uma para a direção das orelhas e outra em direção ao seu focinho pontudo. Nesse momento ele parou de gritar, fechou os olhos e abriu-os com força, como se tivesse sido reabastecido de vida. Havia muita vida em seus olhos e muita vontade.

Ao levantar as duas patas dianteiras e começar a andar para a frente, símbolos lilases começaram a aparecer em seu pelo branco e notei que seu corpo ia transparecendo aos poucos do meio para o fim, até sua ponta completamente translúcida como sua antiga cauda.

Ele foi andando na direção da besta que procurava loucamente por Aures enquanto Jonas se recuperava, com as mãos nas frontes. Ele começava a andar mais rápido, tomar mais velocidade e ao passo que começava a correr, a parte de seu corpo que ainda se arrastava no chão, a parte etérea de seu corpo inexplicável se tornou inacreditável quando começou a flutuar ao ponto dele ter duas patas no chão e o restante de seu corpo no ar.

Eu estava perplexo com aquela cena que acontecia bem diante dos meus olhos e como se já não fosse estranho o suficiente, notei algo que imageticamente parecia com um punhado de poeira ou grãos de areia se acumulando ao redor de seu pescoço, em sua orelha esquerda, e ao redor da espiral que seu corpo etéreo e maleável formava no ar, juntando-se bem lentamente, como se estivesse se organizando para formar alguma coisa. Aos poucos iam dando forma ao que se tornou um brinco dourado em sua orelha, um tipo de coleira prateada no pescoço e nada menos que uma bala de canhão dourada com símbolos estranhos em volta de sua circunferência bem no espaço espiral que seu corpo havia formado. 


– Mas que p... – Nem terminei a frase. – Jonas! Jonas, cê tá bem, cara? – Perguntei correndo em sua direção-.

– Ai, meu corpo... Eu me... Me arrepiei todo e... Senti. Nem sei. Mas senti. E Kylin?

– Ele tá correndo em direção do bicho. Ele...

– Evoluiu. Eu senti. Cuida do pequeno, vou tentar chegar mais perto! – Disse Jonas decidido. –

– Tá.

Jonas correu na direção do seu parceiro que estava prestes a atacar a besta fera. Em sua feição dura, carregava a vontade de acabar com o oponente, levando uma pitada de preocupação com os outros, que deixava escapar pelo seu olhar firme e direto.

A criatura estava prestes a emboscar Aures debaixo da barraca onde ele se escondia, mas Kylin tomou sua atenção.

– Aqui seu pedaço de energúmeno! Venha me atacar!

– GROAAAAAAAAAAAAAAAAR!!! – Respondia a fera incontrolada. –

O ser correu de encontro a Kylin com toda a sua fúria e no meio do caminho lançou de novo suas miniaturas em dardo pela boca. Kylin, muito mais ágil e recuperado, desviou-se com facilidade pelo ar, adaptando seu corpo maleável às brechas que existiam entre cada dardo. Continuou se aproximando de seu oponente até desviar em sua frente e ataca-lo pela sua esquerda com uma forte cabeçada.

– Isso Kylin! Pega ele! – Disse Jonas, animado!

– Jonas, se esconda! Você está se arriscando à toa, não tem nada que possa fazer! – Ordenou Kylin. –

– Vou ficar aqui com você até o final!

– Jonas, saia! – Respondeu Kylin atacando novamente a criatura, agora com seus dentes afiados. –

– Vou distrair ele e você ataca por trás, Kylin!

Jonas pegou um toco de madeira do chão e lançou nas costas do bicho, correndo logo em seguida.

– Jonas, seu idiota! Ele é mais rápido que você!

– Acabei de notar! –Falou Jonas arrependido de sua última ação. — Kylin, ele vai me alcançar! Faz alguma coisa pelo am...

Jonas tropeçou nos escombros e ficou à mercê da vontade da fera desmiolada. Levantou do chão e quando virou de costas, o ser estava bem em sua frente.

– Kylin, por favor, faz alguma coisa... – Falou Jonas, quase sussurrando para o parceiro que corria em sua direção. –

– Idiota... Te pedi pra ficar fora disso!

O ser grunhiu mais alto que todas as outras vezes e estava prestes a espetar Jonas com seu bico longo e pontiagudo. Kylin, ao perceber que Jonas estava sem qualquer saída, correu com tudo o que tinha para cima do oponente lançando-se no que deveria ser mais uma simples cabeçada. Mas, ao invés disso, uma onda contínua e crescente como aquelas que nascem do encontro de uma pedra com um lago, brotou de si lançando seu oponente uns três ou quatro lances de barracas à frente e derrubando Jonas novamente no chão.

– Jonas! Agora vê se aprende e corre daqui. Preciso dar um jeito nele, vai pra perto de Caíque.

– T-tá. – Respondeu ele recuperando-se da onda que o atingiu.

Kylin planou até seu oponente que estava se recuperando da queda, tonto, e lhe socou a bala de canhão com toda a força em uma de suas têmporas, derrubando-o quase que definitivamente. Arranhou-o, mordeu-o e bateu nele o quanto pôde, deixando o ser bastante debilitado. Confiante de que havia o abatido, deu as costas e foi andando na direção oposta.

Diferente do que ele pensava, o ser ainda guardava algum pouco de energia e levantou-se cambaleando. Começou a andar, vacilante, em direção a Kylin que se virou para trás ao ouvir um grito vindo de um lugar esquecido em toda aquela cena.

– Cuidado! – Vociferou Aures, ofegante, pulando no teto das barracas, orelhas ao vento e correndo para derrubar a ave. –

Kylin virou-se para trás e correu na direção do ser, girando sua bala de canhão o mais forte que podia enquanto Aures juntava forças para um ataque definitivo. Aures puxou o ar ao seu redor, como se fosse encher o peito antes de da um mergulho e algo como a poeira que havia formado os adereços de Kylin começou a se reunir à frente de sua boca. Alguns pontos se tornaram mais consistentes e um verde muito brilhante começou a emanar deles. Em cânone, Kylin lançou a ponta de sua bala com toda a sua força na cabeça da ave gigante enquanto Aures lançava aquelas pedras verdes e brilhantes que haviam se formado em sua frente com um sopro muito forte.

Foi o último grunhido que a criatura lançou ao ar. Aquele antes de ser perfurada por alguns -poucos- cristais verdes e reluzentes vindos de Aures e o balaço com a força de um martelo que levou na cabeça. Suas íris, alteradas, arredondaram-se. Passaram por sua feição algo como alívio e medo e seus olhos se fecharam.

– C-conseguiram? – Perguntei perplexo. – Conseguiram! Conseguiram! Eles conseguiram, Jonas!

– Tenham certeza de que ele não vai levantar!

– Ele não vai levantar... Não mais. – Respondeu Aures, a caminho. -

Cansados, confusos, absolutamente exauridos daquela batalha, toda aquela loucura, todas as dores e arrepios não explicados e todo o peso de ter acabado de matar um ser, por mais que fosse a única alternativa, nos vimos com um lugar completamente destruído, sangue em vários pontos do galpão e um corpo morto e pesado que não tínhamos a mínima ideia do que fazer.

– E agora? – Perguntei, ao vento. –

– Cara, eu não tenho a mínima ideia do que vamos fazer... – Respondeu Aures, chegando. –

– Kylin, sabe de alguma coisa que possamos fazer agora?

– Eu tenho cara de guru, garoto? – Respondeu, seco. –

– Caramba. Você é chato mesmo, cara.

– Cala a boca, Caíque. Eu só quero sair daqui e tirar toda essa sujeira do corpo. – Lançou Jonas. –

– Então é o que vamos fazer! Conomon está assustada e cansada também. Preciso cuidar dela.

– E se alguém encontrar tudo isso aqui? – Perguntou Jonas. –

– Ninguém pode provar o nosso envolvimento, isso é fato. Sugiro que saiamos logo se é o que faremos. – Disse Kylin se aproximando. –

– Então vamos! – Aures falou com certo tom de alegria na voz. -

Peguei a pequena no colo novamente, Aures subiu no meu ombro. O mínimo que eu poderia oferecer a ele depois de tudo o que fez, era uma carona para casa. Kylin ao lado de Jonas, suas duas patas ao chão e o resto de seu corpo pairando no ar. Olhei para Jonas, precisava saber se estava tudo bem, ao menos melhorando. Falei.

– E aí, como vai o namoro?

Notas finais
Então...Esse capítulo saiu mais rápido que o de costume porque já o tinha quase pronto. Pretendo pegar um ritmo mais contínuo e tentar postar ao menos um capítulo a cada 15 dias. Espero sinceramente que tenham gostado do capítulo!